“Feedback”, o álbum de covers do Rush

Texto por Leonardo Vinhas

O Rush é uma das bandas mais cercadas de pré-conceitos (bons e ruins) que existe. Adoradores idolatram a banda quase sem juízo (como toda idolatria) e detratores detonam sem nunca ter ouvido um disco inteiro da banda. Não cabe dizer qual está certo ou fazer um retrospecto histórico da banda, mas “Feedback”, seu novo disco, é muito dos bons.

Tá, é um disco de covers. O baterista Neil Peart pode dizer que é um disco que foi feito para comemorar os 30 anos da banda, que eles se sentiram como garotos novamente e etc.

De qualquer forma, vai ficar aquela pulga atrás da orelha de que o pique não é o mesmo, afinal até a regularidade de um disco ao vivo para cada quatro de estúdio foi quebrada com o lançamento prematuro do populista (e bom) “Rush In Rio” (2003). Mas a idade chega e Peart e seus amigos lançaram um disco decente.

Não tão bom quanto os três excelentes últimos discos, “Counterparts” (1993, indispensável), “Test For Echo” (1996) e “Vapor Trails” (2002), mas muito bom. Dinossauros como Led, Who e Floyd lançaram discos medíocres antes de se desmebrarem ou de seus integrantes baterem as botas. O Rush, fora a fase pop sintetizada de “Signals” (1982), “Grace Under Pressure” (1984) e “Power Windows” (1985) na primeira metade dos anos 80, não deram nenhum furo n’água. E “Feedback” honra a tradição.

Honra as raízes canadenses também: há dois covers do Buffalo Springfield. “Mr. Soul” é a única que não caiu bem no disco porque é meio complicado transformar um country rock fossento num rockão estilizado e sombrio. Mas “For What It’s Worth” virou rockão de primeira, com um crescendo que torna indelével os versos “hey, hey, what’s that sound? Everybody knows what’s going down”. E aí são só acertos!

No geral, o pau come solto. “For What It’s Worth” pode ser até mais cadenciada (mas não menos empolgante), mas “The Seeker” e “Seven And Seven Is” estão aí para lavar os ouvidos de quem está com saudades de uma guitarrona alta e cristalina, mas sem “polimentos”.

O hit do Who virou uma bordoada saltitante, coisa de quem não tem saco para ficar com riff de folk rock sincopado, enquanto que a faixa mais manjada do Love dá espaço para Peart mostrar porque que é uma lenda nas baquetas e pedais. A abertura, a carga de “Summertime Blues”, também é uma britadeira só, rebimbando vitalidade e soando muito divertida na voz aguda de Geddy Lee.

Porém, a cereja está no final: “Crossroads”, de Robert Johnson, emulada da versão do Cream, circula e serpenteia de forma direta e aguda na guitarra de Alex Lifeson, enquanto a cozinha espalha o pavimento com uma jam acachapante. É curioso ver Lifeson, habitualmente o mais “cerebral” e contido instrumentista do Rush, soar tão barulhento e instintivo aqui. Um lance chamado feeling, sabe?

Há ainda duas rendições ao pop, ambas surrupiadas dos Yardbirds: “Shapes of Things” e “Heart Full Of Soul”, sendo a última a canção com a sonoridade mais evidentemente retro. É um disco preso ao passado? É. Nostálgico? Não. Ele recupera canções mais bacanas e lhes confere, mesmo à datada e “Heart Full Of Soul”, uma roupagem atemporal (e não “moderna”). O Rush não é moderno, nunca foi. Bem produzido, tecnófilo, aí talvez sim. Mas é uma banda desvencilhada de convenções de tempo. Uma banda que consegue fazer um discão de rock em meros 27 minutos, lavado, direto e na cara. E divertidíssimo.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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