Cinema: Diário de Uma Paixão, de Nick Cassevetes

por Marcelo Costa

A simplicidade é algo cada vez mais distante das artes nos dias de hoje. Em tempos de pós-modernismo, a experimentação e a mistura de referências são as palavras de ordem em um mundo que dorme de olhos abertos. Sonhar já faz parte do passado. Ironia é a palavra que define os novos tempos.

Em “Diário de Uma Paixão” (“The Notebook”, 2004), porém, o diretor Nick Cassavetes abre mão do futurismo para contar uma história de amor dos tempos da idade média do romance no cinema. É tudo quase piegas. É tudo quase constrangedor. E é tudo tão despido de maldade que chega a tocar a alma tão preocupada com os deslizes da mente humana. Na sessão para convidados, as mulheres ganharam úteis caixas de lenços de papel. O pessoal deve ter tido trabalho para juntar a sujeira ao termino do filme.

Há muito de beleza, poesia e tristeza em “Diário de Uma Paixão”. Dois jovens, de classes distintas (ele pobre, ela rica), se apaixonam nas férias. A família da garota não aprova o romance e constrói uma redoma de vidro para proteger a moça, que não recebe nenhuma das 365 cartas que o amado enviou.

Muito tempo depois, eles se reencontram, e é nesse fragmento de eternidade que o filme invade cicatrizes não fechadas e faz o espectador ficar pensando em quanta coisa poderia ter sido diferente se aquele romance de adolescência tivesse uma nova chance. Roteirozinho batido, melosa e xumbrega, e não é que funciona.

Nick Cassavetes chega a constranger em algumas tomadas, looooongas demais. Mesmo assim, o diretor consegue imprimir ritmo ao filme, alternando presente e passado. E futuro. É uma história simples, contada de forma simples. Remete a filmes antigos, de quando pessoas acreditavam na eternidade de uma paixão e até morriam por amor (algumas ainda morrem, mas o número é bem menor, acreditem).

Na loucura dos tempos modernos, falar sobre o amor – despido de qualquer senso de ironia – é algo raro, corajoso e poético. “Diário de Uma Paixão” é mais ou menos isso. Quem tem medo do passado que tome cuidado. Garanta seus lenços.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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