Must I Paint You A Picture?, Billy Bragg

por Marcelo Costa

O ano de 2004 irá entrar para história como o ano mais político de todos os tempos. Acredite. O ano da sucessão presidencial norte-americana saiu das páginas políticas, adentrou resenhas de cinema (através do bombástico “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore), chegou as colunas de fofoca (com famosos de Hollywood e astros da música abrindo voto) e encontrou seu porto seguro no rock’ n’ roll, com Patti Smith se inspirando em Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Blake para desfechar um soco na boca do estômago da América com o disco “Trampin’“.

É neste cenário conturbado que chega ao Brasil, um país tão alheio a ideologias políticas, o primeiro CD – em mais de vinte anos de carreira – do rebelde e poético cantor e compositor inglês Billy Bragg, herdeiro legitimo do Bob Dylan da primeira fase (antes das recaídas religiosas) e de Woodie Guthrie, folk singer dos anos 50 que trazia em seu violão uma etiqueta que dizia “esta arma mata fascistas”. É este jeito inconformado de ser que Bragg mostra em “Must I Paint You A Picture?”, coletânea dupla que compila 40 músicas e chega ao Brasil via Sum Records.

Quem anda acostumado com a delicadeza de bandas como Coldplay, Travis e Keane, irá estranhar a rispidez de Billy Bragg. Da forma mais tradicional possível, Bragg se apoia apenas em sua guitarra (limpa, sem efeitos) para destacar suas letras. “Back To Basics”, nome de uma coletânea da primeira fase do bardo, explica muita coisa. Textualmente, Bragg traz todo o inconformismo de quem foi criado em um ambiente pobre, cercado por injustiças sociais. Na adolescência, ingressou no partido trabalhista e hoje, aos 50 anos, defende o socialismo participando de lutas por causas operárias na Inglaterra.

“Must I Paint You A Picture?” reúne material dos nove álbuns de estúdio de Billy Bragg, além de contar com canções raras, destacadas em EPs e singles. Começa com “A New England”, de 1983, declamando “I don’t want to change the world / I’m not looking for a new England / I’m just looking for another girl”. A canção “A Lover Sing”, com um teclado fazendo clima, e que pode ter inspirado Sofia Coppola a escrever o filme “Encontros e Desencontros”, é de uma beleza rara quando diz “You and I are victims of a love / That lost a lot in the translation”.

As pérolas musicais se alternam, honrando a tradição de guitarra e voz. Em “Greetings To The New Brunette”, Bragg canta “I’m celebrating my love for you / With a pint of beer and a new tattoo”. No final da canção, um belo solo de guitarra de Johnny Marr, o ex-guitarrista dos Smiths, que na época (1986) ainda dividia composições com Morrissey. Peter Buck e Michael Stipe, do R.E.M., Natalie Merchant (10.000 Maniacs), Kirsty MacColl e Michelle Shocked engrossam a lista de artistas que já participaram de discos de Billy Bragg.

Já o grupo norte-americano Wilco merece um parágrafo especial. Em 1997, Nora, filha de Woody Guthrie, decidiu abriu o acervo intocado de letras e textos não publicados do pai para que Billy Bragg conhecesse e, possivelmente, desenvolvesse um projeto. Para o projeto, Bragg chamou o pessoal do Wilco e assim nasceu os obrigatórios “Mermaid Avenue” (1998) e “Mermaid Avenue vol. 2” (2000) em que Bragg e Jeff Tweddy (líder do Wilco) revezavam em musicar os textos deixados por Guthrie. Quatro canções deste projeto estão presentes na coletânea, uma delas ao vivo (“All You Fascists Bound To Loose”) com a banda que acompanha Bragg hoje em dia, The Blokes.

Em “Somedays I See The Point”, do belo álbum “English, Half, English” (2002), Bragg diz que queria fazer do mundo um lugar melhor, mas não consegue fazer isso sozinho. O arranjo é delicado e a canção emociona. É a 39ª música da coletânea, um dos poucos discos neste tão surrado mundo pop atual que merece o adjetivo de obrigatório. Ou, como diria aquele velho clichê de críticas de música: “Se você tiver que comprar apenas dois discos em 2004, compre “Must I Paint You A Picture?”, duas vezes”.


– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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