Wander Wildner e o Paraquedas de Coração

Entrevista Wander Wildner
por Marcelo Costa

Do momento em que começou a ser idealizado até seu lançamento, “Paraquedas do Coração” custou seis anos da vida de Wander Wildner, vocalista da banda Replicantes que saiu do grupo em 1991, encarou carreira solo e, agora, se divide nas duas funções. Tanto apreço pelo projeto é plenamente justificado após uma audição do disco. A dita continuação de “Baladas Sangrentas”, primeiro disco solo de Wander lançado em 1997, tem tudo para seguir o mesmo destino do primogênito, tornando-se um álbum clássico no tão sofrido rock brasileiro.

Entre um e outro, Wander colocou no mercado dois álbuns de estúdio (“Buenos Dias”, de 1999 e “Eu Sou Feio, Mas Sou Bonito”, de 2001), além de uma coletânea (“Ritmo da Vida”, de 2004) em parceria com a revista Outra Coisa. Com isso, o que seria o segundo álbum da carreira de Wander Wildner acabou se tornando o quinto disco. A demora, no entanto, só fez melhorar o material. Em entrevista ao Scream & Yell, Wander contou que o ponto final da produção aconteceu em 2003.

Atrasos de gravadora, planos econômicos, novos projetos, nada tirou da cabeça do gaúcho o disco “Paraquedas do Coração”. O resultado é uma compilação de grandes canções que, no combalido cenário brasileiro, surge como um dos grandes discos dos últimos anos. Para conseguir seu intento, Wander incrementou as canções com quarteto de cordas, centrando foco em baladas que não dispensam os riffs de guitarra. Outras boas sacadas foram pescar a bela balada “Candy” do repertório de Iggy Pop, escrever uma letra que cita Roberto e Erasmo sobre uma melodia dos Ramones e regravar uma das melhores canções do Replicantes, “Hippie-Punk-Rajneesh”, destacando a letra extremamente passional.

De punho próprio, Wander assina “Rodando El Mundo”, canção cantada em portunhol e que traz o irresistível refrão que dá título ao disco: “Y tiengo um paraquedas para te salvar porque trago um paraquedas em meu coração”. Outra pepita é “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”, que já havia saído em um CD de uma revista (a extinta Frente), além de fazer parte da compilação “Ritmo da Vida”. Em “Paraquedas”, a canção surge em sua versão definitiva, com arranjo de cordas e final modificado.

Para Wander, “Paraquedas” é apenas um disco romântico, de baladas. O lado punk do músico deverá ser mostrado no novo disco do Replicantes, que começa a ser gravado em junho. Enquanto isso, o gaúcho divulga seu disco solo, gravado e lançado de forma independente. O disco pode ser comprado diretamente com o músico, através de seu site. Confira entrevista.

Quanto tempo foi usado na produção de “Paraquedas do Coração”? O disco está pronto desde quando?
Iniciamos as gravações nos feriados de Natal e Ano Novo de 1998, quando gravamos as baterias, no AR Studios do Rio de Janeiro. Depois, o Tom (Capone – produtor) começou a montar seu próprio estúdio, que veio a se chamar ‘Toca do Bandido’. Lá gravamos gaita, teclados e as cordas, nos primeiros meses de 1999. Depois rolou a crise de abril de 99 e a (gravadora) Trama resolveu que não ia lançar nada naquele ano e parou a gravação. Fiquei puto da cara e fui para Porto Alegre. Lá resolvi gravar outro disco, que foi o “Buenos Dias”, que acabou saindo pela Trama no fim do de 99. Depois eu fiquei indo para o Rio quando o Tom tinha algum tempo sobrando e ia gravando as guitarras, voz, violão, mixagem. Esse processo durou anos. O disco deve ter ficado pronto no início de 2003, quando masterizamos. Tentei umas gravadoras durante o ano, mas não rolou nada. Elas davam para trás na hora H. Mas tudo isso foi sorte, porque não quero este tipo de gravadora. Espero que meu próximo disco saia pelo selo Antídoto, da ACIT. Os Replicantes estão lá e está sendo muito bom trabalhar com eles.

A temática e a sonoridade aproximam “Paraquedas” do “Baladas Sangrentas”. Seria uma continuação?
Sim, é uma continuação. Uma produção de Tom Capone.

Como rolou de gravar “Candy” do Iggy Pop?
Eu gosto muito desta música, tocava nos shows, foi para o disco e ficou maravilhosa.

E “Eu Não Acredito em Milagres”, versão para um original dos Ramones? O verso “Estrelas Mudam de Lugar” é uma citação do Rei Roberto Carlos?
Toda a letra, fora o refrão, é minha. Não tem nada a ver com o original, mas escrevi pensando no Joey Ramone caminhando em um deserto, indo em direção a uma luz. É uma letra de 1990. E, sim, o verso “Estrelas Mudam de Lugar” é uma citação de Roberto e Erasmo.

Quando você lançou o “Baladas” assumiu a persona ‘punk brega’. Dá para qualificar como ‘punk brega’ o “Paraquedas do Coração”?
Não. O “Paraquedas do Coração” é um disco de baladas, nada punk.

Em um show recente seu, vi que muita gente pedia canções de Odair José, Reginaldo Rossi… Como você reage a isso?
Acho engraçado, dou uma boa risada e toco “Dormi na Praça”, do Bruno e Marrone.

Alias, neste show que vi, tinha “muita gente legal, tinha cerveja gelada”, mas o som não ajudou muito. Ou melhor, o som não ajudou nada. Como é lidar com isso? Acontece sempre?
Isso acontece muito pouco. Daí nunca mais toco naquele lugar.

O “Paraquedas” está saindo independente, certo? Como será a distribuição? Como as pessoas fazem para achar o disco?
Pelo meu site por R$ 20,00 a pessoa recebe em casa, via correio, com carta registrada. É fácil. Algumas lojas vão ter e as que quiserem comprar em quantidade é só mandar um e-mail para wander@wanderwildner.com que faremos um preço especial para lojista.

Havia uma história de que o CD viria com uma revista de quadrinhos. Essa revista vai sair?
Infelizmente ficou muito caro e iria atrasar o lançamento. Por isso decidi colocar os desenhos no site. Quem quiser pode ver lá.

A nova versão de “Hippie-Punk-Rajneesh” conseguiu soar pesada e, principalmente destacar a letra. Como rolou a ideia de grava-la? Há alguma outra canção do Replicantes que pode pintar em um arranjo assim?
Algumas músicas são escolhidas nos dias de gravações, como essa. Acho que no próximo não terá nenhuma do Replicantes. Vou dar um tempo. Ainda mais que em junho os Replicantes estarão gravando disco novo com músicas inéditas. Aguardem, está muito bom!!!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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