Cinema: “O Homem do Ano”, adaptação de “O Matador”, de Patrícia Melo

por Marcelo Costa

“Conheça Máiquel. Conheça a filosofia de vida de Máiquel. Observe Máiquel transformar-se em herói. Perceba como uma dor de dentes pode mudar uma vida. Acompanhe a trajetória de Máiquel, seus amores, seus sofrimentos, suas indecisões, suas boas intenções e as atitudes violentas que acaba de tomar. Impressione-se com a brilhante carreira de Máiquel, seus amigos, sua ascensão, seu poder. Sobretudo, trate de entender Máiquel (se conseguir): ele pode estar ao seu lado neste momento”. Patrícia Melo, “O Matador”, 1995

Nada melhor do que usar a chamada da contracapa do livro para apresentar “O Homem do Ano”, adaptação cinematográfica de José Henrique Fonseca para o texto violento de Patrícia Melo chamado “O Matador”. Primeiro, porque tudo que está neste parágrafo explica (e muito) o que está por vir. Segundo, porque é a própria autora falando. Terceiro, porque dor de dentes é muito foda.

Como livro, “O Matador” é urgente. É daqueles que você pega a noite antes de dormir e só desiste com o sol raiando. Para contar toda epopeia de seu personagem principal, Patrícia usa de influências pop e de citações (diretas e indiretas) de seu mestre particular, Rubem Fonseca. Personagens do livro deste participam da história de Patrícia. Nada mais oportuno, então, que o próprio Rubem Fonseca (pai do diretor, alias) assuma o roteiro do filme. A cobra dá uma volta e morde o próprio rabo.

Se como livro “O Matador” honra o estilo, como filme, “O Homem do Ano” surge como uma das grandes produções nacionais de 2003. A facilidade de transpor o texto das páginas para tela conta a favor, muito pelo fato de Patrícia ter trabalhado com TV e cinema antes de se aventurar nas letras. O texto contado em primeira pessoa também é uma vantagem, principalmente se um grande ator agarrar o papel. Bingo: Murilo Benício está excelente.

Do discurso inicial em off você terá, ao menos, noventa minutos de brilhantismo. Irá perceber em poucos minutos como um Zé Ninguém pode se transformar em ídolo da comunidade, um cara respeitado até por policiais, o homem do ano. A rapidez das passagens coloca “O Homem do Ano” lado a lado com “Cidade de Deus”, como filmes coirmãos.

Sim, porque “Cidade de Deus” traz aos olhos do público o que todo mundo sabe, mas pouca gente vê. Seus personagens são gente real (até demais) que poucos de nós tem acesso. Já o Máiquel pode ser qualquer um. Olhe ao lado, ele pode estar te olhando. Sim. Máiquel é o que se pode chamar de ‘loser’, perdedor, aquele cara que não sabe nem porque está vivo. A trajetória de Máiquel, porém, mostra o quão as coisas são desordenadas nesse país tropical chamado Brasil. Sacode, levanta a poeira e dá a volta por cima, lembra a música. Como fazer isso é a grande questão e Máiquel teve a resposta atirada em seu colo como uma bala de 9mm.

A sensação de acompanhar a trajetória do personagem é a mesma de assistir a “Cidade de Deus”. Você acha engraçado algumas cenas, mas, conforme o tempo passa, aquilo assusta e apavora. O riso nervoso reina. Não à toa, o filme poderia se chamar “Tempo de Violência”, se os produtores nacionais já não tivessem dado a obra máxima de Quentin Tarantino, “Pulp Fiction”, este nome. Aliás, “Tempo de Violência” é elogiado em “O Homem do Ano”. Numa passagem x, você perceberá a reverência.

Muito da virtude cinematográfica da obra vem do fato da escritora Patrícia Melo ter se aprofundado nos personagens a ponto de entrevistar assassinos e traficantes antes de escrever o livro. A verossimilhança é inatacável.

Porém, nem tudo é perfeito (ao contrário de “Cidade de Deus”, excelente em sua totalidade). Do momento em que se vê no espelho, de cabelos loiros, pintados para pagar uma aposta com o primo, até a hora em que recebe um prêmio por seus feitos, “O Homem do Ano” é sensacional. Repleto de ironias, o filme transborda passagens bacanas. Mas daí em diante, a tensão parece diminuir e o filme se perde por uns minutos, no exato momento em que o personagem começa a enfrentar seus maiores dramas. Chega a parecer que na ânsia por encurtar o filme (que tem, no cinema, 111 minutos), a direção tenha podado cenas vitais para a sequência final da obra.

Esse defeito não diminui a genialidade dos primeiros noventa minutos, mas impede de classificar o filme como perfeito, afinal, o gostinho de “ficou faltando alguma coisa” é inevitável.

Mesmo assim, “O Homem do Ano” vale por muita coisa. Ao menos para você perceber o quanto um porquinho pode ser legal, que Coca-Cola sem gelo é cool e que um detalhe, um acaso ou uma aposta podem mudar uma vida. Ao menos para que você conheça Patrícia Melo.

Ps. Mais um pouco de “Cidade de Deus”: num certo trecho, o narrador fotógrafo Buscapé diz, sobre a imagem da ‘linha de montagem’ do tráfico, que se o mesmo fosse legalizado, Zé Pequeno seria o homem do ano. Não precisava tanto… 🙂

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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