Cinema: “O Filho”, d’Os Irmãos Dardenne

por Marcelo Costa

Fazer um filme é, invariavelmente, contar uma história. Desse modo, cada diretor tem a seu dispor uma série de recursos para fazer dessa história que tem na cabeça, algo visual. O modo como usa o roteiro, a câmera, o modo como dirige os atores, quase tudo em um filme bem dirigido busca tornar real aquilo que o diretor traz como imaginação em sua cabeça.

Comecei a pensar nisto após assistir um sessão do filme “O Filho” (“Le Fils” – 2002 co-produção Bélgica/França), em uma sala aparentemente cheia, mas que, com o decorrer da película, começou a ter lugares abandonados, pessoas que iam embora sem ao menos ter a curiosidade de como a dupla belga de irmãos diretores, Jean Pierre e Luc Dardenne, iria terminar de contar a história de Olivier.

Olivier é um professor de marcenaria em um centro de educação profissional para jovens desajustados que, acaso dos acasos, reencontra um jovem rapaz cujo ato, anos antes, resultou em uma tragédia. E a tragédia tem a ver com a antiga família de Olivier.

Partindo desse ponto, temos pouco mais de hora e meia frente a frente com imagens projetadas em uma tela cujo som de fundo é apenas o som do dia a dia. Não há trilha sonora em “O Filho”, músicas mesmo. É o som do martelo, da madeira sendo cortada, do motor de um carro, de portas se abrindo que dá brilho a obra.

Os irmãos belgas testam a paciência do espectador em longas passagens cujo objeto de foco é, quase sempre, Olivier. Não à toa, o ator que o interpreta, Olivier Gourmet, levou o Grande Prêmio por Atuação masculina em Cannes, 2002. A interpretação de Gourmet é densa, tensa, um tanto atabalhoada e, por antagonismo, quase muda. É uma papel defensivo, que pouco cobra do espectador além da visão, e isso, sim, deve incomodar a aqueles que vão ao cinema em busca de emoção.

“O Filho” não é emocionante. É daqueles filmes que se prendem em seu próprio universo, refém de uma realidade que julgamos muito familiar e, por isso, nos faz atentar para nossos próprios atos. Por sua vez, se é difícil adentrar o mundo de Olivier, a história, principalmente do meio para o final, fisga o espectador mais turrão, aquele que se recusou a levantar e sair da sala. E esse interesse resulta do fato de “O Filho” tratar de uma velha questão milenar na história da humanidade: o perdão.

Se o leitor não tiver esbarrado em nenhuma resenha que tenha entregado o sublime e metafórico final, a sensação de se estar prostrado frente a este filme será de divagações acerca dos pensamentos próprios de cada ser, de como cada um lida com o perdão e com a vingança, do quanto conseguimos aceitar e, mais, enfrentar os traumas passados. Se conseguirmos…

É claro que este desenrolar acontece na meia hora final e, desculpe lhe desapontar, não adianta você assistir somente esse trecho do filme. Para se entender a opção que Olivier irá tomar, é preciso conhecer sua rotina. E para se conhecer a rotina deste chefe de marcenaria, um homem separado da mulher, sem filhos e dedicado ao seu trabalho, será preciso bastante paciência. O exercício vale a pena.

Porém, se ao final de ler esta resenha, você desejar ver o filme e após vê-lo odiar, você me perdoa, caro leitor? É um bom teste para todo nós.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

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