Faixa a faixa: The Madcap Laughs, Syd Barrett

por Douglas Dickel e Bondia

Texto publicado no Scream & Yell originalmente em dezembro de 2001

Se “The Piper At The Gates Of Dawn”, disco que Syd Barrett compôs com o Pink Floyd em 1967, é o principal registro do psicodelismo eletrificado, “The Madcap Laughs”, seu álbum de estreia solo, é o marco do psicodelismo de violão e voz, gravado em 1969.

Quando Barrett passou a ser afetado pelo uso abusivo de ácido lisérgico, não deu mais para ficar na banda. Em entrevistas, ficava olhando fixo para o nada; andava sujo e, nos shows, ficava tocando sempre a mesma nota. Mas ele não havia perdido o gênio criativo.

Foi então que os amigos Roger Waters e David Gilmour, o baixista e o novo guitarrista do Pink Floyd (respectivamente), ajudaram-no a gravar um disco solo que era para ser seu consolo, mas tornou uma obra-prima. Syd tocou os violões e cantou, e os outros tocaram guitarra, baixo, teclado e bateria. O jeito de cantar é lisérgico por ser desafinado: “Dark Globe” e “If It’s In You” são lindos desafinos.

Syd está estranho, e ““The Madcap Laughs” assusta no começo. Não tem nada a ver com as viagens psicodélicas do Pink Floyd em “The Piper At The Gates Of Dawn” ou mesmo “A Saucerful Of Secrets”, lançado quando ele já estava fora da banda. Pelo contrário, são canções na maioria das vezes simples, desajeitadas e despretensiosas.

Também o toque do violão é lisérgico, pelos ritmos quebrados. A batida acelera e desacelera e é complexa. Dá para ouvir o som da palheta nas cordas. As melodias são bastante elaboradas, construídas com muitas notas. Alguma influência de Beach Boys e Beatles.

As conversas durante as músicas, a gravação meio caseira e muitos outros atos meio inocentes de Syd fazem de “The Madcap Laughs” uma obra natural, sem aquela coisa artificial e megalomaníaca do Pink Floyd pós-“Piper”.

A lista de fãs de Syd Barrett é grande: Mutantes, Júpiter Maçã, Rodrigo César (Grenade), Beck, Carlo Pianta (Graforréia Xilarmônica); David Bowie gravou “See Emily Play”, os Smashing Pumpkins gravaram “Terrapin”, Placebo e R.E.M. gravaram “Dark Globe”, The Jesus And Mary Chain gravou “Upside Down” e “Vegetable Man”, e Voivod e Soft Boys gravaram “Astronomy Dominé”.

“The Madcap Laughs” é, em resumo, um álbum sentimental, frágil e sem pretensão de uma figura que muito significou no cenário do rock. Além da versão simples relançada em 1993 (com as 13 faixas originais e mais seis bônus tracks), o fã pode também encontrar o box set triplo “Crazy Diamonds”, que compila os dois álbuns oficiais (“Madcap” e “Barret”), mais a compilação de raridades “Opel”, lançada apenas em 1989, com mais seis bonús tracks, num total de 58 faixas e um livro de 24 páginas. Imperdível.

“The Madcap Laughs”
Syd Barret — guitarra, violão
David Gilmour — guitara e violão
Roger Waters — baixo
Richard Wright — orgão
Mike Ratledge — orgão
Hugh Hooper — baixo
Robert Wyatt — percussão
Jerry Shirley — percussão
Produção: Malcolm Jones, David Gilmour, Roger Waters, Syd Barret; maio 1968

1) Terrapin
Meio blues, só o violão de Barrett com som forte de palheta e um dedilhado de Gilmour no fundo. Termina com a palheta tocando em cordas presas. Uma música que anda em ritmo cansado, com uma guitarrinha de fundo fazendo uns sonzinhos meio psicodélicos, mas ainda assim uma música simples. Nota 7

2) No Good Trying
Baixo, bateria, solinho de teclado e slide guitar. O que “Terrapin” tinha de cansada, “No Good Trying” vem com energia. Syd puxa um pouco mais os vocais, as guitarras correndo em um solinho agudo e cheio de detalhes. A bateria dá um ritmo batido e forte. Nota 6

3) Love You
Alegrinha, com ritmo e cravo estilo Emerson, Lake & Palmer; tipo música de parque de diversões. A letra é brincadeira com a sonoridade das palavras: “Honey love you, honey little, honey funny sunny morning love you more funny love in the skyline baby”. Essa música lembra muito aquele estilo meio infantil de Syd junto ao Floyd em “The Piper At The Gates Of Dawn”. Os barulhinhos de fundo correndo em um ritmo alternativo, e só às vezes acompanhando o ritmo original da música, dão um charme. Nota 8

4) No Man’s Land
Duas guitarras: uma com distorção bem anos 90 (!) tipo My Bloody Valentine, saturada, porém não muito suja. Passa energia. A voz de Syd fica um pouco acima dos outros instrumentos cantando em um tom meio sério. Durante os solos essa música lembra um pouco, mas bem pouco, as músicas mais “espaciais” do Pink Floyd. Nota 7

5) Dark Globe
Vocal desafinado e batida do violão variando o ritmo simples, sem efeitos ou solos. Syd canta com muita vontade, sem nem mesmo se importar com o limite em que sua voz aguenta se manter afinada. Uma das músicas mais bonitas do álbum. Nota 9

6) Here I Go
Letra ingênua. Melodia alegre. Essa música também é bonita. Não sei por que, mas escutar essa música me lembra um garoto camponês sentado em sua casa com sua mãe viúva : ). É uma música simples, sem muitos efeitos, o ritmo é meio dançante e Syd engrossa a voz para cantá-la. Nota 9

7) Octopus
Lembra “Sgt. Pepper”. A letra fala de dragões, cangurus e octopus na melhor música do álbum! Um ritmo puxado com uma batida forte. O refrão inesquecível “Please leave us here, close our eyes, to the octopus ride!”. Tinha tudo para ter sucesso. Nota 10

8 ) Golden Hair
A mais soturna. Adaptação de poema de James Joyce. Lindos riffs de violão. Música quieta. Os instrumentos acompanhando exatamente o que está sendo cantado… é um poema cantado. Nota 8

9) Long Gone
Valsa que alterna vocais graves agudos. Muito psicodélica! Outra música que inicia com os instrumentos acompanhando o que está sendo cantado. Durante o refrão, o volume vai aumentando e são adicionadas vozes cantando em outros tons… interessante, mas não emociona. Nota 6

10) She Took A Long Cold Look
Voz e violão num ritmo tranquilo. Barrett “erra” no meio. Lembra uma cadeira de balanço e um cara sem ter o que fazer tocando violão. Apesar de bonita, é uma música fria. Nota 7

11) Feel
Voz, violão e ritmo errado sem frescuras. Outra das mais bonitas do álbum. Como “Dark Globe”, “Feel” é cantada com muita sinceridade e sentimento. Linda. Nota 9,5

12) If It’s In You
Erro, desafino e bela melodia. A música que Syd mais se complica para cantar. Ela exige muito do vocal, e Syd desafina em diversas partes da música. Os erros acabam dando charme à música e demonstram uma total apatia de Syd com a estética e os padrões. Digam o que quiserem, mas é nota 10!

13) Late Night
Voz, duas slide guitars, bateria suave e sem baixo. Essa música fecha o álbum original com chave de ouro. Uma música que, como “Terrapin”, é meio cansada, com as guitarrinhas psicodélicas no fundo e Syd cantando meio com sono. Nota 8,5

14) Octopus (Take 1 e 2)
Syd tenta começar a cantar, erra e começa de novo. Uma versão um pouquinho mais lenta que a original. Prefiro esta versão, principalmente quando Syd se empolga com os refrões. Nota 10

15) No Good Trying (Take 5)
Muito parecida com a original. Nota 6

16) Love You (Take 1)
Versão mais rápida e sem os barulhinhos de fundo. A original é melhor. Nota 7

17) Love You (Take 3)
Versão mais lenta e sem os barulhinhos de fundo. Ainda a original é melhor. Nota 7

18) She Took A Long Cold Look (Take 4)
Syd zoa tudo no começo, e os vocais ficam meio trêmulos no refrão. Legal. Nota 7,5

19) Golden Hair (Take 5)
Versão mais viajada com uns back-vocais e uns “ventos” de fundo. Nota 8

RÁPIDA LINHA DO TEMPO
1946 Nasceu Roger Keith Barrett
1961 Ganhou a primeira guitarra
1965 Formou o Pink Floyd
1967 Primeiro disco da banda
1968 Ficou doido pelo LSD e foi substituído por Gilmour
1969 “The Madcap Laughs”
1970 Gravou “Barrett”
2000 Vive com a mãe em Cambridge, distraindo-se com televisão e jardinagem
2006 Morre em Cambridge aos 60 anos

Leia também:
– Mike Watkinson e Pete Anderson conta história de Syd Barrett em biografia (aqui)
– EMI inglesa se debruça sobre o catálogo do Pink Floyd “Why Pink Floyd…?” (aqui)
– Roger Waters quer te fazer chorar. Saiba como foi o show “The Wall” em L.A. (aqui)

2 thoughts on “Faixa a faixa: The Madcap Laughs, Syd Barrett

  1. Eu piro muito nessa capa.
    Quando eu era adolescente eu imaginava que minha vida adulta seria assim, tocando guitarra num apartamento praticamente sem móveis.
    Quem precisa de móveis quando se tem musica?

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