Entrevista: Wado (2001)

por Vladimir Cunha

Quem primeiro me chamou a atenção foi o Matias Maxx – que a essa altura já deve estar em Miami detonando o seu estoque de camisas floridas, algumas das quais, acreditem vocês, são feitas do mesmo tecido que as calças do cara. Desde o começo desse ano, todo email que eu recebia dele vinha com um verso à guisa de assinatura. Os mais frequentes eram “Não diga que as estrelas estão mortas / Só porque o céu está nublado” e “Na linha que cerca o mar / É lá onde eu quero estar”.

“De quem é isso, Maxx, é teu?”
“Não, é do Wado, cara”
“Que Wado?”

É, que Wado? Porque um artista que ninguém conhecia de repente está dando tanto o que falar? Em menos de seis meses ele balançou o coração das indie-girls na festa da London Burning, foi apontado como a salvação do pop brasileiro, virou o assunto do momento nos cinco dias de Abril Pro Rock (sim, para mim, que estava no apê do roque, foram cinco dias de peripécias no Recife) e ganhou reportagens elogiosas em praticamente todos os jornais “que importam” (leia-se O Globo, Estadão e Folha). Não é nem preciso dizer que, agora, um bando de gente bacana anda espalhando por aí que gosta do Wado desde a época em que as calças Gledson estavam na moda. Apesar disso, ele fala na maior tranquilidade que não espera vender mais do que 500 cópias de seu CD de estreia. Children, don’t believe the hype…

Mas afinal, quem é esse cara? O que acabei descobrindo nesta entrevista é que o Wado é um homem com uma missão: mostrar ao Brasil que existe vida inteligente além das fronteiras de São Paulo. Com apenas 23 anos, este alagoano lançou aquele que talvez seja um dos melhores discos de 2001: O Manifesto da Arte Periférica. É um som de fusão, que consegue apontar uma saída para a música brasileira sem cair no regionalismo de ocasião ou na desgastada fórmula do mangue bit. Em alguns momentos soa como se fosse um Jorge Benjor experimental e maconheiro (não que o Babulina jamais tenha fumado, mas quem sou eu para ficar falando dele?).

Em outros, consegue a proeza de ser pop e inteligente ao mesmo tempo. Como na música “A Linha que Cerca o Mar”. Fosse o Brasil um lugar decente, ela já teria estourado em todo o país. Dá até para imaginar o Wado cantando para a Feiticeira no Super Positivo e participando do Jogo do Banquinho no Raul Gil. Ou então, fazendo playback no Planeta Xuxa rodeado de paquitas e meninas se esgoelando no tradicional corinho de “lindo, tesão, bonito e gostosão!”. Só que as coisas aqui não são como a gente queria que fossem. No momento em que termino este texto, Sandy & Júnior pontificam entre os vídeos mais pedidos da MTV e O Surto é apresentado pelo Fábio Júnior como “a nova cara do rock brasileiro”. Pelo menos nos resta o underground. Ainda bem, pois é nele que se desenrolam as mais estranhas e inventivas maquinações sonoras.

O nome do seu disco é “Manifesto da Arte Periférica”. Porque um título tão provocador
Porque ele trata das coisas que estão longe dos grandes centros e da dificuldade em se fazer arte fora do eixo Rio/São Paulo. O ideal seria que o Brasil tivesse mercados regionais que se sustentassem sem precisar do aval do sudeste do país. Tem gente aqui no nordeste que está batalhando há anos e ainda não conseguiu obter reconhecimento. Eu mostrei meu disco para o Hermano Vianna e ele falou uma coisa interessante: o que não é centro é periferia. Então, a gente acaba tendo dois “países”, Rio e São Paulo, que dominam um país inteiro. Isso gera um empobrecimento muito grande na cultura nacional, pois cria uma situação em que esses estados passam ser os únicos propagadores de informação.

De certa fora, não é um tanto triste ter que ir em direção a esses estados para se fazer notar? Não seria mais interessante que o “centro” tivesse mais curiosidade com relação ao que acontece na “periferia”?
É foda, cara. É foda ter que sair daqui atrás de São Paulo e Rio de Janeiro. Por outro lado, se eu ficar aqui em Maceió não vai rolar nada. É triste mas é necessário bater na porta do sudeste. Eu tenho muita vontade de lutar pelo reconhecimento das outras regiões brasileiras, de criar mercados locais que sejam integrados a outros mercados locais e que permitam um intercâmbio maior entre os independentes. Hoje em dia está mais fácil fazer isso. Até mesmo por causa da tecnologia. Muitas bandas já conseguem gravar em casa com uma qualidade legal.

Tanto que, de uns tempos para cá, o underground brasileiro cresceu de forma considerável. Neste cenário promissor, que bandas você destacaria?
Eu posso falar do nordeste. O Cidadão Instigado, que está gravando em Fortaleza, é uma ótima banda. O Eddie é muito legal. Aqui em Maceió tem o Dread, que faz um metal moderno bem interessante, e o Santo Samba, minha ex-banda. O Sonic Júnior e o Mopho também são grupos que se sobressaem na cena.

Fiquei bastante impressionado com as suas letras, que são simples mas eficientes. Principalmente no caso de “A Tragédia da Cor”, que fala de desigualdades sociais, mas não é panfletária. Foi difícil obter esse resultado?
Eu considero as letras um dos pontos fortes do meu trabalho. Logo que comecei a compor eu quase não tratava de temas sociais. E sempre que tentava fazer algo nessa linha, o resultado saía forçado. Só que nesse disco eu consegui um equilíbrio entre o lado poético e o lado contestador. Demorou mas acabei chegando onde queria.

E o que te levou a querer abordar temas sociais?
É que certas coisas ficam me remoendo por dentro, sabe? “A Tragédia da Cor” foi assim. Eu fiz depois de ter visto na televisão a cobertura do sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro. Cara, eu estava no Rio na época e fiquei três horas na frente da TV acompanhando tudo, com a cabeça a mil. No dia seguinte sentei para compor e praticamente vomitei a música. Não foi nada planejado, de querer fazer críticas sociais, e sim a necessidade de me expressar sobre algo que estava me incomodando naquele momento.

Você é um dos poucos artistas a promover a fusão do rock com a música brasileira que não soa oportunista e nem derivativo da turma de Recife. Como você chegou às misturas presentes em “Manifesto da Arte Periférica”?
Já toco há cinco anos. Comecei no rock. No entanto, sempre me liguei em música brasileira. A fusão foi gradual, mas longe do regionalismo. Tudo aconteceu sem forçar a barra. E nisso posso dizer que sou bastante criterioso. Tanto que descartei algumas ideias que surgiram no decorrer dos ensaios apenas por achar que elas soavam artificiais demais. Foi essa preocupação com a espontaneidade e com a qualidade do trabalho que acabou fazendo com que o disco saísse variado e,o, com uma unidade conceitual.

Falando nisso, o disco tem uma sonoridade bastante peculiar. Certos instrumentos estão bem crus e é possível notar até mesmo que houve vazamento de som na hora da gravação. Essa estética despojada foi uma opção sua?
O estúdio do Juninho (do grupo alagoano Sonic Júnior) é modesto. A bateria, por exemplo, foi gravada só com dois microfones, que captaram o som ambiente. No começo as pessoas estranharam a gravação. Ela não é nem anos 70, nem anos 80 e nem anos 90. Na verdade, ela soma tudo isso e resulta nessa estética que criei. Para me orientar, me apoiei nas mais variadas influências: discos antigos de MPB – Novos Baianos, Naná Vasconcelos e Banda Black Rio -, Medeski Martin Wood, o primeiro CD do Cidadão Instigado e o próprio Sonic Júnior. Tem também muita coisa de eletrônica através de sons criados em samplers. Gosto dos anos 70 mas não quero soar anos 70.

O pessoal da gravadora não estranhou a sonoridade do disco?

Um pouco. Eles ficaram meio desconfiados porque ela não tem o padrão das gravações feitas no sudeste. Mas era isso mesmo que eu queria. Como falo do que está fora do eixo, não fazia sentido seguir o mesmo padrão de São Paulo e do Rio de Janeiro. Era mais interessante criar meu próprio padrão.

E os shows fora de Alagoas? Soube que a apresentação na festa da London Burning foi bem legal.
Foi sim. Muita gente curtiu, prestou atenção no meu trabalho e veio me cumprimentar depois do show. Eu conheci o Luciano Vianna no Abril Pro Rock e entreguei uns CDRs para ele, já que o disco oficial ainda não havia sido lançado. Ele gostou do som e me chamou para tocar na festa dele. O interessante é que eu não tive dinheiro para trazer minha banda para São Paulo e já estava quase pensando em me apresentar só com voz e violão. Quem me deu uma força foi o pessoal do Oito, que ia tocar no mesmo dia e acabou virando minha banda de apoio. Pegamos dez músicas em três ensaios e metemos a cara. Felizmente deu tudo certo e as pessoas gostaram. É muito difícil tocar fora do nordeste mas acho que estou conseguindo me firmar aos poucos. Principalmente por causa da repercussão na mídia. Tanto que, no mês que vem, estou querendo descer para tocar novamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ando pensando também em fazer shows acústicos em praças e estações de metrô. Mas isso ainda é projeto…

Mas já dá para viver de música? Atualmente você faz o que?
Sou formado em jornalismo, mas estou sem emprego. Tento viver de música. Ainda moro com minha mãe. Na verdade, estou sem renda fixa. Faço música porque tenho que fazer. Não consigo parar de compor.

Infelizmente, você é mais comentado do que propriamente ouvido…
É foda. Mas eu quero mais é que as pessoas me escutem, embora saiba de todas as dificuldades de mercado que envolvem os independentes. Se você for ver, esse meu disco é bem humilde. A tiragem é pequena e nem sempre conseguimos chegar a todos os lugares. Mas vou passar a ser distribuído pela Universal, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque o disco vai ter mais visibilidade. E ruim porque ele chega nas cidades mas chega com preço de disco da Universal.

E se o Wado virar hype? Você sabe como isso é fácil de acontecer. Ainda mais no underground. Aí periga de você virar um artista cultuado mas que não vende nada…
Olha, eu prefiro que não role essa história. Mas se eu virar hype e não vender nada, pelo menos alguma coisa aconteceu. É melhor que nada, não é? (risos). O que eu quero é continuar com o meu trabalho, não importa como. Se fizer sucesso, ótimo. Não tenho medo do pop. Ele que me aceite do jeito que eu sou.

Leia mais:
– Wado (2015): “Quero voltar a ter a coragem do Wado dos primeiros discos” (aqui)
– Vídeos: Wado lança “Vazio Tropical” em SP com Camelo, Cícero, Momo e Fafá (aqui)
– “Vazio Tropical”: um disco bonito que, quanto mais se cala, mais fala, por Mac (aqui)
– Confira a galeria completa de fotos do show “Vazio Tropical”, por Liliane Callegari (aqui)

2 thoughts on “Entrevista: Wado (2001)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.