Cinema: Trapaceiros, Woody Allen

por Marcelo Costa

De uns anos para cá tem virado rotina descer a lenha em Woody Allen. Claro, o “descer a lenha em Woody Allen” não é a mesma coisa que descer a lenha em qualquer outro diretor, mas quase todo novo filme de Allen vem embalado por uma corrente de descontentes. O novo, “Trapaceiros” (“Small Time Crooks”, 2000), não foge a regra. Tudo que uma parte da imprensa internacional tem comentado, e a brasileira tem levado como verdade, diz que “Trapaceiros” só não é o pior filme do cineasta porque ele já lançou outro (“The Curse of the Jade Scorpion”), ainda pior.

A frase definitiva diz que toda expectativa positiva a respeito de um novo filme de Woody Allen se transforma em frustração. Quem está errado, Woody Allen ou o mundo?

“Trapaceiros” é tudo aquilo que Woody Allen sempre fez. Na análise certeira que Eduardo Fernandes fez para o S&Y da trilogia anterior a este “Trapaceiros” (a saber, “Desconstruindo Harry”, “Celebridades” e “Poucas e Boas)”, ele dizia que uma critica a um filme de Allen seguia um manual prático, que, entre outras questões, precisava explicitar:

1. Todo filme que ele faz é autobiográfico (aqui você escolhe as passagens do filme e as da vida pessoal de Woody que quer comparar em seu texto).
2. O cineasta está se repetindo.

Bem, você com certeza irá ler tudo isso acima sobre “Trapaceiros”. E o quanto isso é real?

Uhmmm, há um consenso que os cinco últimos filmes do diretor norte-americano não são obras-primas do cinema, principalmente comparadas a sua produção dos anos 80. Muito embora, esses últimos filmes sejam melhores que 95% do que Hollywood tenta nos fazer engolir ano a ano.

Mas “Trapaceiros” não é autobiográfico e Woody Allen não está se repetindo. Na verdade, ele está criando a sua arte do único jeito que sabe, a lá Woody Allen. Inevitavelmente, é um estilo e qualquer outro diretor poderia ser malhado por querer ser Woody Allen, nunca ele mesmo.

Mas, mais do que um mero filme, “Trapaceiros” é a resposta para todas as questões abordadas em sua trilogia anterior. Se em “Desconstruindo Harry”, “Celebridades” e “Poucas e Boas” Allen discutia a equação sucesso+poder e amor romântico, aqui ele traduz de forma brilhante que o dinheiro não traz felicidade e não fará você alcançar a equação supracitada, caro amigo.

“Trapaceiros” conta a história do casal Ray e Frenchy. Ray (Woody Allen), assaltante de meia tigela que passou uns bons anos na cadeia, arquiteta um plano para assaltar um banco. Para isso precisa de um dinheiro que sua esposa Frenchy (Tracey Ullman) economizou durante anos como manicure.

O plano é cool. Alugar uma loja ao lado de um banco e fazer um túnel que saísse direto dentro do cofre. Para que ninguém percebesse os “homens trabalhando” no porão montam, de fachada, uma loja de cookies. A loja torna-se um sucesso tão grande que Ray acaba abandonando a ideia do roubo para se dedicar aos biscoitos. Os cookies enriquecem o casal, mas de que adianta ter dinheiro se não se sabe como usufrui-lo com elegância. Ray queria mesmo era ficar tranquilo e ir para Miami, mas sua esposa quer entrar para alta sociedade. Nisso surge em cena David (um Hugh Grant apenas correto) para tentar auxiliar com aulas de classe o pobre casal.

Os diálogos deliciosos são, disparados, os melhores do ano. Seu roteiro, novamente, é um dos grandes destaques da obra. Woody já foi indicado 13 vezes ao Oscar por roteiro original e “Trapaceiros”, mesmo não tendo sido indicado em 2000, segue o molde de roteiros geniais do diretor. Tracey Ullman foi indicada ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Atriz em Comédia/Musical, por sua Frenchy Winkler.

No fim, “Trapaceiros” é um grande filme que se junta a outros grandes filmes que Allen já fez. Se entre ele o mundo, Allen estiver errado, eu estou com ele.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Todos os filmes de Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)

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