"Waterloo to Anywhere", do Dirty Pretty Things
por Marcelo Costa
11/09/2006

O Libertines bateu tão forte, mas tão forte na música britânica que só poderemos ter idéia do impacto daqui alguns anos. Com dois discos lançados (o segundo sem um dos cabeças pensantes da banda, o garoto problema número 1 das ilhas, Pete Doherty), a banda deixou um rastro de hits, canções matadoras, drogas pesadas e confusão que merece ser estudado com calma e respeito. E após o fim da banda, quem apostava todas as fichas em Pete e seu Babyshambles deu com a cara na porta do traficante gritando "Fuck Forever" (uma das poucas canções relevantes do primeiro álbum do grupo, "Down in Albion", fracasso de crítica e público).

Quem se saiu bem foi Carl Barat, a 'outra metade pensante' do grupo, que pegou um Libertines em frangalhos, trocou o nome da banda e lançou este excelente e encorpado "Waterloo To Anywhere", que bateu no terceiro posto da parada britânica em maio, quando foi lançado (o disco só chegou nos Estados Unidos em agosto), e está vendo seu terceiro single abrir caminho nas paradas ("Wondering", que foi precedido pelas ótimas "Deadwood" e "Bang Bang You're Dead"). O Dirty Pretty Things é um terço da banda que o Brasil viu ao vivo no Tim Festival dois anos atrás, incluindo o ótimo baterista Gary Powell e o guitarrista Anthony Rossomando – que substituiu o demissionado Pete nos compromissos do Libertines – além do "novato" Didz Hammond, que largou o Cooper Temple Cause.

A rigor, não há diferença estética do Libertines para o Dirty Pretty Things. A fonte ainda é o som do bom e velho Clash, que soa preguiçosamente tosco (apesar do disco ter sido produzido nos EUA e masterizado na Inglaterra) seja em punk songs aceleradas, skas entupidos de guitarrinhas deliciosamente safadas e um ou outro rock matador. "Deadwood" abre o disco de forma inspirada lavando roupa suja ao falar dos "anos em que estivemos perto – sim, alguns foram bons – mas agora sei que você era um covarde". Uma linha de trumpete abre uma das grandes canções do disco, a excelente "Bang Bagn You're Dead", cujo entrelace de guitarras cria um clima ótimo. "Blood Thirsty Bastards" parece que vai engatar em formato balada, mas explode em um bom rock.

"The Gentry Cove" e "Last Of The Small Town Playboys" são skas com diferentes andamentos no refrão (a primeira mais acelerada, a segunda mais pop). "Eu coloquei Gin no meu leite para matar todos os germes", grita Carl na letra de "Gin & Milk". Já "Enemy" tem algo de cabaré enquanto "If You Love A Woman" manda um recado para os Kadu Moliterno da vida: "Se você ama uma mulher, você não deve bater nela". Ainda vale citar a esporrenta "You Fucking Love It" e a grande canção do CD, "Wondering", que garante: "Não há mais necessidade de questionar a vida".