Entrevista - Bill Callahan

Por Carlos Messias
Blog
Fotos: Joanna Newsom / Divulgação
21/01/08

Ele é uma das figuras mais cultuadas do indie norte-americano. Seu estilo transita livre e bruscamente entre o folk - onde sua voz soturna e melancólica cai como uma luva - e o rock, às vezes recorrendo a elementos um tanto inusitados como: corais de crianças, orquestrações, aparelhos elétricos, reverberações dissonantes, timbres estridentes...

Quando saiu de seu quarto em Chicago, onde gravou os dois primeiros discos no começo dos anos 90, se deparou com um rótulo tão confuso quanto algumas de suas próprias canções, o chamado lo-fi. Mas, livre de arestas criativas, ele foi longe, produzindo discos sensíveis e experimentais em que transbordou intensidade. Trabalhou com outros artistas brilhantes como Jim O'Rourke (Wilco, Sonic Youth), John McEntire (Tortoise), Cat Power e Johana Newson, mas sempre teve sua identidade bastante arraigada.

Identidade esta que pode gerar confusão, tanto musicalmente quanto no caso do pseudônimo com que ele costumava se apresentar. Em 2001, passou a usá-lo entre parênteses, o que aumentou ainda mais a impressão de que Bill Callahan, o homem por trás do Smog, vive fechado em um casulo. Tempo passou, outro disco foi lançado e o sinal de pontuação desapareceu. Só para no ano passado, com "Woke on a Whaleheart" ("Acordei no coração de uma baleia"), Bill passar a usar seu próprio nome. "Woke on a Whaleheart" foi lançado na Argentina pelo selo indie Ultrapop, e permanece inédito no Brasil.

E, mesmo preferindo não comentar o álbum, ele abriu as portas de seu quarto (no sentido figurado) para o Scream & Yell, jogando certa luz sobre algumas dessas pirações. Pode entrar, mas não esqueça de bater.

Scream & Yell: Qual é a idéia por trás do pseudônimo Smog?
Bill Callahan - Agora acabou. Era só uma capa, como algo que um mágico ou um vampiro usa para esconder os seus truques. Quando um vampiro chega a você escondendo a própria cabeça sob uma capa, ele está trazendo a noite consigo, pois é na noite que ele se sente mais forte e seguro. Era isso que o nome Smog representava.

Por que em "Rain on Lens" e "Supper" você usou o Smog entre parênteses?
Eu achei que os parênteses ficavam bonitos ao redor da palavra.

Agora, em "Woke on a Whaleheart", você abre mão dele. É permanente?
Não sei o que é permanente, mas não pretendo nunca voltar a usar a palavra que começa com S [ao que ele se referiu como "the S word"]. Provavelmente ficarei com o meu nome mesmo.

À noite é quando você normalmente compõe?
Posso compor a qualquer hora do dia, basta eu estar acordado.

Você passa uma impressão de que compõe em quartos vazios.
Não acho que um quarto vazio seja particularmente inspirador. Mas me sinto mais à vontade em espaços que não sejam opressores. Então, tudo precisa estar em ordem, sem nada muito chamativo como peças de figurino do "Star Wars" ou algo do tipo ao meu redor.

Como você descreveria "Macrame Gunplay", o seu primeiro lançamento (1988),
que saiu apenas em cassete?

Eu estava tentando misturar puro white noise com outras formas de música como blues, garage e punk. A idéia era pegar os elementos sonoros mais abrasivos e levá-los ao seu oposto completo. Então seria um disco de ruídos que soariam como música ambiente. Uma bagunça total…

Seu processo de gravação mudou muito do final dos anos 80 pra cá?
De uns quinze anos pra cá eu parei de gravar em casa. Eu gostava do desafio de ter quatro canais para fazer tudo, simplesmente gravava, gravava e gravava até atingir a combinação certa desses 4. Mas como eu disse, não faço isso há 15 anos, então era obviamente algo que se adequava melhor ao meu temperamento na juventude.

"Julius Caesar" foi o seu primeiro gravado em um estúdio.
Isso representou um passo adiante no seu espectro musical?

Yeah. Foi um álbum firmemente enraizado, confiante o suficiente para utilizar o ESPAÇO.

Você ainda ouve fitas cassete?
Todos meus toca-fitas pifaram, então me livrei de todas as minhas cassetes. Exceto por uma, fantástica, do John Lee Hooker. Não posso jogar ela fora. Estou pensando em comê-la, só para a ter dentro de mim.

Quais foram os últimos bons filmes que você assistiu?
Recentemente assisti ao filme dos Simpsons em um avião que me trazia de volta da Austrália. Foi como se tivesse sido enviado por Deus durante aquele vôo interminável. Também gostei do último James Bond, tinha uma atmosfera que ficou comigo. "A Lenda de Beowulf" foi um barato. Me apaixonei por Crispin Glover como Grendel.

Por que você abandonou Chicago?
Eu tinha muitos amigos lá - existe alguma coisa em relação ao clima frio que faz as pessoas valorizarem suas amizades. O inverno em Chicago é como uma guerra.

De todos os 12 álbuns que você lançou, qual é o seu favorito?
Gosto muito de "A River Ain't too Much to Love". E de "Rain on Lens"

Em "Knock Knock", um dos seus álbuns mais curiosos, você estipulou algum conceito geral?
Eu queria que fosse um verdadeiro álbum de rock, só que de uma forma meio alienígena. Um disco de rock feito por alguém que nunca tenha escutado rock, mas apenas ouviu as pessoas falarem a respeito, tentando compreender o gênero, sem nenhum conhecimento em primeira mão.

Como você reuniu um coral de crianças para cantar com você?
Tentamos o Chicago Children's Choir, mas o preço estava fora do nosso alcance. Então fizemos tocaia na porta dos fundos do CCC, pegamos UMA garota do coral e perguntamos se ela tinha amigas.

"Kicking a Couple Around" (de 1996) é um disco (EP) mais intimista.
Foi por isso que você reuniu apenas algumas poucas canções?

Meu som estava ficando mais encorpado. Entre "Wild Love" e "The Doctor Came at Dawn" [1995 e 96, respectivamente] havia muita orquestração. Depois meu teclado foi roubado na Espanha. Então, em protesto, compus o álbum mais cru de que era capaz, só para mostrar aos bandidos que eu não precisava daquela porra de teclado para fazer um bom disco. É um disco muito sensível, não é?

Com toda certeza.
Hoje em dia, quando o escuto, fico surpreso com tamanha sensibilidade.

Como você se sente, ficando tão emocionalmente exposto como nesse disco?
É como ser um médico. Há certa intimidade que envolve a relação com um paciente, mas não é pessoal. Estou te vendo pelado e olhando os seus buracos, mas não é pessoal. Está mais em um nível de humanidade compartilhada. Se ficar pessoal, é quando ocorre uma violação - tanto para médicos quanto para compositores [risos].

A música "I Break Horses" (cultuadíssima, por sinal) foi inspirada por alguma mulher em especial?
Nastasha Filippovna. "Red Apple Falls", seu sexto álbum, ficou muito bem acabado. Como um livro ou um filme, dá uma noção de todo. Como você chegou a esse resultado?
Eu queria fazer um conjunto de músicas que funcionasse como uma pilha daqueles brinquedos em bloco que as crianças usam, aqueles que têm uma letra em cada lado. Mas ao invés de uma letra, seria uma imagem ou uma cor ou uma palavra em cada lado e estes blocos poderiam ser arranjados de diferentes maneiras, com uma relação universal entre eles. É meio que um disco repleto de sonhos, estados variáveis de consciência, realidade e ficção.

Em "Rain On Lens", você volta a uma estrutura de canção nada tradicional e totalmente experimental, seguindo um caminho mais "obscuro".
Ao contrário de "Red Apple Falls", esse é um disco mais sobre ficar acordado à noite, na verdade sobre ficar acordado por vários dias em seguida. Eu estava pensando muito sobre a eletricidade do cérebro, me perguntando que som isso teria. Tentei criar esse som. Também tentei emendar um folk blues convencional com uma abordagem clássica minimalista. Nos vocais, trabalhei em uma escala gregoriana. Acho que é um álbum bom pra cacete e foi muito bem gravado. Infelizmente, saiu alguns dias após o 11 de setembro. Em 12/9 eu estava na Austrália, dando entrevistas por telefone para o Japão - o que foi ma péssima época para promover um disco.

O que você acha do "lo-fi", um termo cunhado para descrever o seu som?
Não me descrevo assim. Não me identifico com o termo, nem com ninguém o utilize. Eu simplesmente não entendo essa expressão.

Como você apresentaria o recente "Woke on a Whaleheart" aos fãs brasileiros?
Prefiro que eles escutem o disco desprovidos de qualquer expectativa.

Muitos críticos apontam os seus discos como sendo muito auto-centrados.
Como você responde a isso?

Nah, sou apenas dedicado. Não há crime nenhum nisso.

Nesse ponto da sua carreira, dá pra viver de música?
Dá. Vivo modestamente, mas vivo bem.

Planos para o futuro próximo?
Estou trabalhando feito um louco de pedra em algumas canções. Talvez eu consiga terminá-las neste verão texano. Em fevereiro e março saio em turnê pelos Estados Unidos e também estou pensando em comprar um cachorro. De preferência um que possa lavar a louça.

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My Space - Bill Callahan