Blog do Editor do Scream & Yell
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Notas sobre Fahrenheit 451, de Truffaut

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A Tatiana Lima me cobrou uma posição melhor de “Fahrenheit 451” na minha lista de filmes de Truffaut (ele está lá nas últimas posições à frente apenas do fraco filme de época “A História de Adèle H.”), mas não acho a produção tão bem resolvida. A mensagem totalmente derivada do livro de Ray Bradbury é forte, mas a ficção cientifica (Truffaut em outro filme de gênero) do cineasta não seduz.

“Fahrenheit 451” é lento, pesado (as cenas de ação são tediosas) e sofre de hipervalorização da mensagem, o que de certa forma explica sua trajetória cult (e todos os ensaios científicos). Bom para se discutir em sala de aula. Tedioso numa sala de cinema. No entanto, gostei desse ensaio da professora Terezinha Elisabeth da Silva sobre o filme embora tenha dúvidas se o filme é mais conhecido do que o livro (como ela diz no segundo parágrafo).

 “Montag e a memória perdida: notas sobre Fahrenheit 451 de François Truffaut”

“François Truffaut registrou em seu diário que, em Fahrenheit 451, havia tantas referências literárias quanto nos filmes que Godard havia dirigido até aquele momento (Escobar,1995). Na fala de Truffaut há uma leve provocação a Godard, também grande amante dos livros, seu parceiro em várias realizações e com quem, ao lado de outros cineastas, como Chabrol e Rohmer, participou da Nouvelle Vague francesa.

Fahrenheit 451, dirigido por Truffaut em 1966, é, de longe, muito mais conhecido que o livro de Ray Bradbury, publicado em 1953, em que o filme se baseou. Na maioria das vezes, quando se fala de Fahrenheit, o livro de Bradbury sequer é mencionado, o que evidencia a potência que a imagem cinematográfica tem de se imprimir na memória coletiva das massas.

Embora seja conhecido e citado, o filme não chegou a ser lançado em vídeo no Brasil. Considerado pela crítica especializada um dos piores, senão o pior, entre os filmes de Truffaut, Fahrenheit não é, certamente, uma obra-prima do cinema. É um trabalho crítico e marcante, onde o que fala mais alto é o amor declarado e dedicado por Truffaut aos livros e à leitura (continua aqui)”.

Julho 5, 2011   2 Brindes

Três filmes: Truffaut 1960, 1964 e 1976

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“Atirem no Pianista” (“Tirez sur le Pianiste”, 1960)
Segundo longa-metragem da carreira de François Truffaut (após a elogiada estreia com “Os Incompreendidos”, em 1959), “Atirem no Pianista” conquista a admiração de muitos – Paul Thomas Anderson incluso - inspirado na Nouvelle Vague. Truffaut homenageia (com boa dose de humor) os filmes policiais B americanos, mas sua versão é descontraída e centrada no drama dos personagens (sem abdicar do suspense). Charles Aznavour interpreta (muito bem) o papel de Eduard Saroyan, um pianista que recusa a fama após ser “abandonado” pela esposa e passa seus dias tocando piano em uma espelunca de quinta categoria enquanto divide suas noites com a vizinha, a bela prostituta Clarisse (Michèle Mercier), e o irmão menor. A vidinha segue esse ritmo até o pianista se apaixonar pela garçonete Lena (Marie Dubois), se envolver em uma briga com o dono da espelunca e ter de fugir de mafiosos que querem a pele de seu irmão. Como tragédia pouca é bobagem e o amor é sempre uma vítima poética, o trecho final de “Atirem no Pianista” – filmado na neve e em preto e branco – soa extremamente lírico (e triste).

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“Um Só Pecado”, (“La Peau Douce”, 1964)
Pierre Lachenay é um escritor de sucesso e diretor de uma revista literária que, em uma viagem para uma palestra em Lisboa, se vê seduzido por uma aeromoça (tipo “Belinda”, de Nick Hornby e Ben Folds, sabe?) e inicia um romance extraconjugal. Pierre começa então o ciclo tortuoso de ter uma amante: quer, mas não pode estar com ela em público; a esposa começa a desconfiar; e a própria amante acredita que ele tem vergonha dela. Jean Desailly está ótimo no papel principal e a irmã de Catherine Deneuve, a tão bela quanto Françoise Dorléac (a aeromoça Nicole), brilha no papel de femme fatale inocente. Truffaut parece mais maduro no modo de filmar neste que é seu quinto longa, mas o roteiro óbvio e moralista não ajuda: o homem trai e precisa lidar com a culpa. Como prêmio pela traição é abandonado pela amante e vingado pela esposa – em um tradicional final trágico como o de centenas de filmes franceses. Dois anos após o imenso sucesso de “Jules e Jim”, Truffaut fracassou nas bilheterias com um filme dramático que tropeça na obviedade.

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“Na Idade da Inocência” (”L’argent de Poche”, 1976)
A pequena cidade de Thiers, no interior da França, abriga um filme delicado centrado em pequenas histórias infantis que Truffaut retirava de jornais. Entram em cena também memórias do cineasta compondo um tocante painel infantil recheado de passagens líricas que encontram paralelo em filmes de Fellini (“Amarcord”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”) – e do próprio Truffaut (“Os Incompreendidos”). Aqui estão presentes os garotos que olham a bela professora tomar banho (“Eles se masturbam no fundo da sala”, ela reclama para outro professor. “Isso é tradição”, responde ele, despistando: “Também fazem isso na minha aula”), o drama do primeiro beijo, o garoto que apanha em casa, a paixão pela mãe do amigo e, claro, pelo cinema (a história de Oscar Doinel – veja só – filho de uma francesa com um inglês, é divertidíssima). “As crianças são mais fortes que os adultos”, diz um personagem em certo momento, mas para Truffaut elas ainda estavam sozinhas sem ter leis que as amparassem. O trecho final do filme merecia ser exibido em escolas. Ou melhor: em casamentos… afinal, tudo começa em casa.

Leia também:
- 1967: “A Noiva Estava de Preto”, Tarantino copiou sim (aqui)
- 1971: “As Duas Inglesas e o Amor”, a essência (aqui)
- 1972: “Uma Jovem Tão Bela Como Eu”, ironia e farsa (aqui)
- 1975 - “A História de Adèle H.”, obra menor (aqui)
- 1977: “O Homem Que Amava as Mulheres”, didático, sombrio (aqui)
- 1978: “O Quarto Verde”, uma ode à morbidez (aqui)
- 1968, 1970 e 1979: As aventuras de Antoine Doinel (aqui)
- 1980: “O Último Metrô”, brilhante, brilhante (aqui)

Top Truffaut até o momento
01) A Noite Americana (1973)
02) O Homem que Amava as Mulheres (1977)
03) O Último Metrô (1980)
04) Jules e Jim (1962)
05) Na Idade da Inocência, (1976)
06) Beijos Proibidos (1968)
07) Domicílio Conjugal (1970)
08) Amor em Fuga (1978)
09) Atirem no Pianista (1960)
10) Os Incompreendidos (1959)
11) Duas Inglesas e o Amor (1971)
12) Uma Jovem Tão Bela Como Eu (1972)
13) O Quarto Verde (1978)
14) A Noiva Estava de Preto (1967)
15) Um Só Pecado (1964)
16) Fahrenheit 451 (1966)
17) A História de Adèle H. (1975)

Julho 4, 2011   1 Brinde

Três filmes: Truffaut 1967, 1975 e 1977

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“A Noiva Estava de Preto” (“La Mariée Était en Noir”, 1967)
Você já assistiu essa história antes: noiva vê seu futuro marido ser morto na porta da igreja, e com sede de vingança parte atrás dos culpados com um caderninho à mão para fazer justiça. Sim, é a história de “Kill Bill” filmada por François Truffaut 35 anos antes (Tarantino insiste em dizer que não conhecia o filme de Truffaut). O diretor francês concentra seu foco no charme de Jeanne Moreau e na trilha sonora (muitas vezes invasiva) de Bernard Hermann (de “Um Corpo de Cai”, de Hitchcock), e o resultado belisca a comédia muito mais do o suspense. Hitchcock é influência direta, mas “A Noiva Estava de Preto” não é uma homenagem a altura do cineasta. Falta ritmo e suspense ao roteiro, que é reverente em excesso e entrega ao espectador mais do que deveria impossibilitando o jogo apaixonado da decodificação. Interessante, porém, é perceber aqui passagens de “O Homem Que Amava as Mulheres” dez anos antes.

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“A História de Adèle H.” (“L’Histoire d’Adèle H.”, 1975)
Logo após ter arrebatado um Oscar (na categoria filme estrangeiro) com o maravilhoso “A Noite Americana”, Truffaut decidiu filmar a história verídica de uma das filhas do lendário escritor e ativista francês Victor Hugo. O roteiro, escrito a oito mãos, transformou o personagem de Adèle em uma insuportável garota mimada, entregue a um amor doentio e não correspondido. Adèle abandona a família e viaja aos Estados Unidos atrás daquele que julga ser o homem de sua vida entrando numa espiral de paixão não correspondida e neurose. Isabelle Adjani, então com 20 anos, foi indicada ao Oscar por sua atuação, perfeita, mas o resultado está longe do brilho do Truffaut anterior. O filme (e a loucura do personagem) cansa(m). Funciona como retrato de época (o amor por dote, a virgindade como honra), mas é uma obra menor do cineasta.

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“O Homem Que Amava as Mulheres” (“L’homme qui Aimait les Femmes”, 1977)
Bertrand não tem nenhum amigo homem. Às 18h, quando deixa o trabalho, dedica sua vida somente à admiração das mulheres. Nos primeiros 30 minutos, “O Homem Que Amava as Mulheres” carrega um q de comédia leve, poética, sobre a paixão do masculino pelo feminino. Porém, Truffaut aprofunda seu personagem conquistador (que chega a dormir com seis mulheres em doze dias) com tanta intensidade que consegue tocar várias faces do amor. Eis um filme mais didático e sombrio sobre relacionamentos que todas as comédias românticas americanas juntas (Woody Allen incluso). Personagem interessantíssimo, Bertrand ama todas as mulheres (e como não amar?), mas não consegue se apaixonar deixando um rastro de corações partidos pelo caminho – adaptando Exupéry: você se torna responsável por quem você fez sofrer – até o final inesperado. E brilhante.

Mais Truffaut: http://screamyell.com.br/blog/tag/truffaut

Março 13, 2011   2 Brindes

“O Quarto Verde”, “Zodiaco” e “Superbad”

“O Quarto Verde”, François Truffaut

“O Quarto Verde”, François Truffaut (1978)
Adaptação da obra “O Altar dos Mortos”, de Henry James, “O Quarto Verde” (“La Chambre Verte”) é um dos filmes mais densos da carreira de Truffaut. Ele mesmo vive o personagem principal, Julien Davenne, um redator de obituários de um jornaleco interiorano que, assim que sua esposa morre, cria um altar em casa para continuar a adorando. O altar pega fogo, e ele consegue uma capela em um cemitério, onde passa a louvar não só a esposa, mas também amigos e ídolos mortos. A aparição de uma nova mulher, Nathalie Baye em início de carreira, chega a dar uma chacoalhada no coração de Julien, mas nada que os fantasmas – tão queridos por Julien – não consigam domar. “O Quarto Verde” é uma ode à morbidez, uma crítica exagerada àqueles que se esquecem dos seus. Não é surpresa que um tema tão nebuloso tenha fracassado nas bilheterias e feito com que o diretor revivesse Antoine Doinel no ano seguinte, fazendo as pazes com o público em “O Amor em Fuga”. Fique com Doinel (ou “Noite Americana”)

“Zodíaco“, David Fincher

“Zodíaco“, David Fincher (2007)
Eis um caso exemplar de uma carreira que começa bem (“Seven”, 1995), bate no topo da genialidade cinematográfica (“Clube da Luta”, 1999) e começa a cair (“O Quarto do Pânico”, 2001), cair mais (“Zodíaco”, 2007) até se espatifar no lodo da cópia barata (“O Curioso Caso de Benjamin Button”, 2008). David Fincher foi do chão ao céu, e do céu ao inferno em treze anos, e no meio do caminho fez “Zodíaco” (“Zodiac”), mas parece que as boas idéias foram todas usadas em “Seven” e “Clube da Luta”. “Zodíaco” não inspira, não instiga, não causa empatia nem medo. Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo e Robert Downey Jr. (em uma atuação terrível) estão longe, muito longe de seus melhores papéis. Roteiro e edição tropeçam, cenas bestas surgem sem dizer a que vieram, e David Fincher enrola o espectador por 2h38 minutos para, ao final, não lhe entregar nada deixando no ar a sensação de tempo perdido. Mais um item para o tópico sobre como jogar uma bela carreira pela janela em Hollywood.

“Superbad”, Greg Mottola

“Superbad”, Greg Mottola (2007)
Judd Apatow e Seth Rogen fizeram um barulho danado nos anos 00 com as comédias “O Virgem de 40 Anos” (2005), “Ligeiramente Grávidos” (2007)  , “Superbad” (2007) e “Segurando as Pontas” (2008). Eles arrebataram um séquito fervoroso de fãs e fazem um estardalhaço nos Estados Unidos com seus filmes recheados de palavrões, drogas e momentos VA. Destes, só não assisti a “Ligeiramente Grávidos” ainda, mas os outros três não me convenceram. Sério. Seus roteiros apresentam a história de forma impagável, o miolo funciona, mas o trecho final acomoda. E ai o virgem que foi sarreado a vida toda vira exemplo (a Igreja deve amar), os maconheiros do começo fazem campanha anti-drogas no final e, em “Superbad”, o cara que falava pra menina que vivia com a mão no pinto fica bundão, e vai passear no shopping de mãos dadas com ela. Apatow e Rogen posam de radicais, mas é só pose. Um filme pra rir até os 39 do segundo tempo.

Ps 1: Ahhh, a Nathalie Baye. Preciso ver mais algumas coisas com ela. E encontrar “Uma Relação Pornográfica” (esse aqui)
Ps 2: Sempre penso em rever “Seven”, mas quem diz que tenho coragem. Aquilo ali gela a espinha…
Ps 3. Ok, há muito de inocência em “Superbad” (afinal, eles tinham 13 anos quando escreveram o roteiro). E McLovin é o cara. Mesmo assim…

Leia também:
- “Clube da Luta”, um comentário (aqui) e um texto perdido (aqui)
- As aventuras de Antoine Doinel, por Marcelo Costa (aqui)

Janeiro 14, 2010   23 Brindes

Um François Truffaut e três Woody Allen

“O Que Há, Tigreza?”

“O Que Há, Tigresa?” (”What’s Up, Tiger Lily?”), Woody Allen (1966)
Primeiro filme com a assinatura de Woody Allen na direção (”O Que Há, Gatinha?”, do ano anterior, foi dirigido por Clive Donner e Richard Talmadge com roteiro de Allen) , “O Que Há, Tigresa?” é o avô de “Hermes e Renato Apresenta: Tela Class”. Woody Allen comprou os direitos de um filme japonês de espionagem, mudou a ordem do roteiro, inseriu novas cenas, e dublou tudo (com piadas) em inglês. A história gira em torno de um grande segredo milenar: a receita da melhor salada de ovo do mundo. Apesar de algumas tiradas indecentes e muito divertidas, “O Que Há, Tigresa?” funciona mais como análise de carreira. Imaginar que dez anos depois Woody Allen estaria escrevendo “Annie Hall” é das coisas que nos faz ter esperança no mundo.

“Neblinas e Sombras”

“Neblinas e Sombras” (”Shadows and Fog”), Woody Allen (1992)
Eis uma ótima comparação cinematográfica para aquele clichê da pessoa linda e burra. “Neblinas e Sombras” é um pastiche filmado em branco e preto que valoriza a fotografia belíssima de Carlo di Palma (fotografo de “Blow-Up”, de Antonioni, e  todos os Woody Allen entre “Hannah e Suas Irmãs” e “Desconstruindo Harry”) em detrimento do roteiro. Woody Allen encavala dezenas de citações literárias sem nenhum foco e desperdiça um elenco estelar que tem Mia Farrow, Jodie Foster, John Malkovich, Madonna, John Cusack, Kathy Bates e muitos outros. Tudo em “Neblinas e Sombras” parece ser secundário, mero pretexto para a construção de cenas que não servem ao cérebro, mas sim ao olhar. Belo por fora, “Neblinas e Sombras” é oco por dentro. Porém, tem uma piada matadora… hehe

“Um Misterioso Assassinato em Manhattan”

“Um Misterioso Assassinato em Manhattan” (”Manhattan Murder Mystery”), Woody Allen (1993)
Woody Allen vai ao encontro de Alfred Hitchcock neste filme que mistura suspense com comédia partindo de um começo realista (um casal que suspeita que o vizinho tenha matado sua esposa) até virar um pastiche de citações (com direito a sósias, sala de espelhos e humor negro). A história flui bem na primeira metade, quando as peças do tabuleiro são colocadas na mesa. O miolo é exemplar, abrindo lacunas sem deixar pistas para o espectador, porém o exagero do trecho final ameaça por o filme a perder, mas Allen consegue fechar a história a contento. Porém, fica a idéia de que o filme podia render mais. A química de Allen e Diane Keaton volta a render excelentes momentos. Além, Anjelica Huston faz uma participação deliciosa vivendo uma escritora “femme fatale”.  É – disparado – o melhor destes três, mas é segundo escalão na filmografia do diretor.

“Duas Inglesas e o Amor”

“As Duas Inglesas e o Amor” (”Les Deux Anglaises et le Continent”), François Truffaut (1971)
Um filme que exprime a essência de Truffaut: da mística do francês que precisa amar todas as mulheres (em uma passagem impagável, a mãe do jovem Claude fica enfurecida ao pensar que ele pode estar apaixonado apenas por uma das duas inglesas do título, quando ele deveria estar apaixonado pelas duas), nos desencontros românticos (são tantos em “Duas Inglesas e o Amor” que corações fracos podem não resistir), na paixão pela literatura (o filme é uma adaptação do livro “Les Deux Anglaises Et le Continent”., de Henri-Pierre Roche, também autor do romance “Julie at Jim”) e pela confusão que as mulheres podem fazer na vida de um homem. Em “Julie at Jim”, é uma mulher dividida entre dois homens. Aqui temos um homem dividido entre duas belas mulheres… inglesas. E irmãs. Sem enrolar: eu esqueceria a ruiva e me dedicaria à morena, mas Claude não vê as coisas de forma tão simples. Um Truffaut clássico em todos os seus ângulos.

Leia também:
- Dois Woody Allen e três Jason Bourne (aqui)
- As aventuras de Antoine Doinel, de Truffaut (aqui)
- François Truffaut, Kevin Smith e Michael Lehmann (aqui)
- “O Último Metrô”, “Zelig” e “Descontruindo Harry” (aqui)

Dezembro 2, 2009   3 Brindes

As aventuras de Antoine Doinel

Antoine Doinel e Christine em “Beijos Roubados”

Antoine Doinel é o dito alter-ego de François Truffaut que povoa cinco obras do diretor francês: “Os Incompreendidos” (1959), “Antoine et Colette” (1962), “Beijos Roubados” (1968), “Domicilio Conjugal” (1970) e “Amor em Fuga” (1979). O primeiro é uma teia lírica de memórias da infância e adolescência do personagem. O segundo é um curta que faz parte do filme “Amor aos 20 Anos”. E os três seguintes você lê abaixo:

A bela esposa do patrão que derrete o coração de Antoine em “Beijos Roubados”

“Beijos Roubados” (Baisers Volés)
Doinel (Jean-Pierre Léaud) acaba de ser dispensado do quartel por indisciplina, e decide aproveitar a vida nos primeiros minutos em que deixa o exército: vai direto para um puteiro. Dali ele parte para os braços de sua amada Christine (Claude Jade), enquanto pula de emprego em emprego tentando se acertar na vida. Tropeça na ex-paixão Colette, agora mãe, e apaixona-se pela esposa do dono da loja que o contratou para descobrir o que seus funcionários falam dele. “Beijos Roubados” é uma obra delicada encharcada do lirismo único que preenche a passagem da adolescência para a vida adulta.

A japonesa que confunde as idéias de Antoine em “Domicilio Conjugal”

“Domicilio Conjugal” (Domicile Conjugal)
Dois anos se passaram, e Doinel se casou com Christine. O casal vive em uma vilinha bastante particular, daquelas que todos sabem um da vida do outro. Ele “pinta” flores para a floricultura da esquina enquanto ela leciona violino. Tudo corre bem, com a vida monótona da burguesia se desdobrando em passagens hilárias em quatro paredes que se estendem pelo cotidiano da vizinhança, mas Doinel parece ainda não ter encontrado seu verdadeiro amor, e embora Christine tenho dado á luz o primeiro filho do casal, nosso herói se apaixona por uma japonesa, tropeça no adultério e põe toda sua vida futura a perder – de forma romântica, claro.

A esperta Sabine que conquista Antoine em “Amor em Fuga”

“Amor em Fuga” (L’amour en Fuite)
Truffaut já havia encerrado a história de Doinel com o filme anterior, mas frente ao fracasso de seu filme de 1978, “O Quarto Verde”, ressuscitou o alter-ego para este belíssimo fechamento, com dezenas de cenas em flashback que pescam momentos dos quatro filmes anteriores para atualizar o espectador e contextualizar a história. Aqui ele está separado de Christine, prestes a assinar o divórcio. Ele está novamente apaixonado (embora não desista das prostitutas), agora por Sabine (Dorothée), mas Colette (Marie-France Pisier) novamente cruza o seu caminho, e bagunça tudo. Doinel parece condenado a viver os primeiros dias de romance, e abandonar o futuro, mas Truffaut ainda lhe dá uma última chance de felicidade neste belíssimo fechamento.

Ps. Provocação: Alphonse, filho de Doinel com Chrstine, pergunta ao pai:
- “Por que preciso estudar tanto o violino? “
- Para virar um bom músico. Pois senão você acaba virando crítico musical…

Ps2 – Destes três, acho que prefiro a conclusão com “Amor em Fuga”, embora todos eles estejam no mesmo nível.

Ps3 - Sobre outros Truffaut aqui no blog: “Uma Jovem Tão Bela Como Eu” (aqui), “O Último Metrô”(aqui), “O Quarto Verde” (aqui) e “As Duas Inglesas e o Amor” (aqui)

Ps4 - Mais três filmes de Truffaut em um post só: “A Noiva Estava de Preto”, “A História de Adèle H.” e “O Homem Que Amava as Mulheres” (aqui)

Outubro 13, 2009   5 Brindes

Truffaut, Kevin Smith e Michael Lehmann

“Uma Jovem Tão Bela Como Eu”, de François Truffaut

“Uma Jovem Tão Bela Como Eu”, François Truffaut (1972)
Apontado por muitos como o filme mais descompromissado de Truffaut, “Uma Jovem Tão Bela Como Eu” (”Une Belle Fille Comme Moi”) é uma comédia leve repleta de ironia e farsa que narra a história de um sociólogo inocente (André Dussollier) que pretende escrever uma tese sobre mulheres criminosas e, para isso, entrevista uma presidiária (Bernadette Lafont) esperta e maliciosa. O encontro de duas personalidades tão distintas permite a Truffaut brincar com a imaginação do espectador. Camille, a presidiária, conta uma história em off para Stanilas Previne, o sociólogo, mas as imagens em flashback mostram outra situação – com muito humor.  Inspirado no livro “Such a Gorgeous Kid Like Me”, de Henry Farrell, “Uma Jovem Tão Bela Como Eu” pode ser o filme mais fraco de Truffaut, mas é cinema de alta qualidade.

“Barrados no Shopping”, Kevin Smith

“Barrados no Shopping”, Kevin Smith (1995)
Segundo longa da autodenonimada “Trilogia de New Jersey” (precedido pelo ótimo “O Balconista” e com seqüência no esperto “Procura-se Amy”) “Barrados no Shopping” (”Mallrats”) é o mais fraco dos três primeiros filmes do diretor Kevin Smith (capa do Scream & Yell On Paper #5), com alguns vácuos entre piadas e certa falta de acabamento na cinematografia, o que não tira o brilho de algumas ótimas passagens. O título nacional pega embalo na boa participação de Shannen Doherty (a Brenda da série “Barrados no Baile”) no elenco, que ainda conta com atuações quebra-galho de Ben Affleck e um perfeito Jason Lee. Sem contar Stan Lee, a lenda viva, que dá o ar de sua graça em um dos grandes momentos de uma comédia romântica que tem os pés atolados na cultura pop e no besteirol, e entretém enquanto faz rir.

“Feito Cães e Gatos”, Michael Lehmann

“Feito Cães e Gatos”, Michael Lehmann (1996)
Possivelmente, uma das minhas comédias românticas prediletas, “Feito Cães e Gatos” (”The Truth About Cats and Dogs”) é um embate interessante entre beleza e inteligência inspirado em Cyrano de Bergerac, mas às avessas: aqui é a mulher que teme não ser aquilo que o homem deseja, e por isso “adapta-se” no corpo de sua vizinha, uma loura alta, de olhos claros e que é impossível não ser percebida. A tal loura é Uma Thurman, divertidíssima na visão rasa da mulher bela e burra, mas que convence conforme se aprofunda o personagem. A “outra” é a fofa Janeane Garofalo, brilhante em uma ótima atuação. Ela é uma veterinária que dá conselhos em uma rádio, e que acaba por chamar a atenção de um ouvinte, que a convida para jantar. Ela não vai, e manda a vizinha no lugar, e dá início a uma excelente comédia de erros.

O diálogo: “Combinadas, somos a mulher perfeita”, diz Noelle (Uma). “Não, somos o prisioneiro político perfeito. O que fazemos bem é ter convicção e passar fome”, responde Abby (Janeane).

Setembro 6, 2009   5 Brindes

Algumas palavras sobre alguns filmes

“Clube da Luta”, David Fincher

Dia desses eu estava lendo a versão 1.0 deste blog (não vou negar o narcisismo, embora tenha dias que tenho vergonha de algumas coisas que escrevi) e revi algo que eu fiz algumas vezes lá, e que me deu saudade: textos curtos a lá 500 Toques sobre os filmes que eu estava assistindo naquele momento. Não sei quantas vezes fiz, mas gostei do expediente.

Nesta versão mais nova do blog venho empilhando os últimos filmes vistos na lateral da capa, e sempre tento achar algum texto que o explore mais, afinal o empilhamento existe não só para mostrar o que tenho visto (bobagem), mas sim para criar curiosidade sobre o cinema fazendo com que você que está lendo (e olhando) sinta vontade de ver alguns destes filmes.

O problema é que, invariavelmente, muitos textos que leio para linkar sobre determinados filmes não são exatamente a minha opinião sobre os mesmos (“Sombras de Goya” é um caso assim). E como não vou ter tempo para escrever um texto longo sobre o que acabei de ver, decidi retornar com aqueles comentários leves e descompromissados. Vamos ver se vai funcionar…

Para começar, vou relembrar os cinco últimos da lista, ok.

“Desconstruindo Harry”, Woody Allen (1997)
Como estou lendo o “Conversas com Woody Allen” (presente do Jonas e do Trigo), naturalmente estou ficando com vontade de rever diversos filmes discutidos no livro. Lili leu um trecho e ficou querendo ver “aquele filme em que o ator fica fora de foco”. Como “Desconstruindo Harry”, o tal filme, está fora de catálogo no Brasil tive que baixar, e foi delicioso revê-lo. Vi no cinema, em 1999, e depois aluguei um ou dois anos depois, e fiz aquilo que todo mundo já fez uma vez na vida: não assisti, e para não devolver a locadora sem assistir, passei a última noite tentando ver, pescando no sofá enquanto a morte visitava um personagem e outro devorava a esposa, a amante e dois filhos. Um filme repleto de ótimas passagens e de alto teor sexual, talvez comparado somente a “Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo”. É o 11º filme do cineasta na minha pessoal (o restante aqui).

“Clube da Luta”, David Fincher (1999)
Vi no cinema e mais umas duas vezes em DVD, mas já fazia uns cinco ou seis anos que não revia. E é um filme absurdo de tão sensacional. Roteiro inteligente e instigante, trilha esperta, atuações brilhantes de Edward Norton (com um q de “Duas Faces de Um Crime”), Brad Pitt e Helena Borham Carter e a música do Pixies certa no momento certo. Um dos filmes mais fodas que eu vi em toda a minha vida. O mais próximo que consigo de imaginar o que foi para o público ver “Laranja Mecânica” em 1971, no cinema, é ter visto “Clube da Luta”.

“Zelig”, de Woody Allen

“Zelig”, Woody Allen (1983)
Não sei quantas vezes revi, ma foram muitas. E nem faz tanto tempo que o descobri. Um belo dia, já apaixonado pelo cinema de Woody Allen, comprei os três boxes que reúnem 12 filmes do diretor (vários clássicos) e lá estava eu frente a frente com este documentário sobre um personagem surreal que ficava igual às pessoas ao seu redor para ser aceito – como um camaleão. Não dá para falar muito do filme sem estragar detalhes que vão realçar sua beleza, mas basta dizer que “Zelig” está entre os meus dez filmes preferidos do diretor. São tantas sacadas geniais…

“Sombras de Goya”, Milos Forman (2007)
Parte da frustração do filme é culpa da expectativa que tínhamos com ele. Como vimos dezenas de obras de Goya na Espanha (inclusive as míticas Pinturas Negras), e Lili já havia assistindo a uma cinebiografia do pintor (provavelmente “Goya”, de Carlos Saura), acabamos esbarrando neste que eu não sei definir muito bem o que é. Milos Forman inspira-se em várias pinturas de Goya para contar uma passagem crítica do povo espanhol, mas o roteiro se perde, e nem mesmo Javier Bardem e Natalie Portman consegue salvar a falta de foco do filme.

“O Último Metrô”, François Truffaut (1980)
Esse é um dos filmes do Box de 12 longas que comprei em Madri, e vou ter que assistir com legendas em espanhol. Sem problema. O começo é de um lirismo único e Truffaut mostra sua mão na direção e no roteiro revelando cuidadosamente o conteúdo do filme aos poucos. Assim como “Noite Americana” é uma ode ao cinema, “O Último Metrô” é uma declaração de amor ao teatro que impressiona nos mínimos detalhes. A história se passa em 1942, e Paris está ocupada pelos alemães, que instauram em metade da cidade o toque de recolher, o que faz com que os parisienses valorizem o último metrô. Marion Steiner (Catherine Deneuve) é a esposa de um diretor/dono de teatro, que mantém um espaço em Montmartre e que precisou fugir por ser judeu. Seu auxiliar dirige a peça que ele deixou enquanto a revolução ecoa em cada esquina da cidade. Gérard Depardieu está perfeito no papel e o roteiro, com destaque para o lindo fechamento, é brilhante.

“O Último Metrô”, de François Truffaut

Agosto 16, 2009   15 Brindes