Noruega: o viking e o louco

Fotos e texto por Renato Moikano (@renato_moikano)
Minha viagem para de Bruxelas para Oslo aconteceu na manhã de terça, 29/05. Ou seja, horas depois do Werchter Boutique com Metallica, Soundgarden, etc. Quando venci a falta de bilhetes de trem e consegui burlar a segurança ferroviária e me esconder no último vagão de Leuven para Bruxelas acreditava piamente que dali pra frente seria só alegria. Ledo engano…
Ao chegar no hotel fui checar e-mails e me deparei com um especialmente assustador: Mads, o norueguês dono do barco que me receberia como hospede em sua nave durante meus dois dias em Bergen (litoral oeste da Noruega) dizia que o barco havia sofrido um acidente. Estava afundando. Mads tentou realocar os hospedes em albergues e hospedarias da cidade. Mas não coube todo mundo. Passou então a descolar quartos em hotéis da região.

Minha agenda em Bergen era apertada. Chegaria na cidade por volta das 15h, poucas horas depois tinha o Bergen Calling Festival com shows do Black Label Society e de Ozzy Osbourne com Zakk Wylde e Slash. Na quarta, logo cedo, faria uma daytrip pelos fiordes da região, e à noite tinha um show de Suzanne Vega (sim, eu sei que esse é o S&Y Metal Edition… peço desculpas pelo deslize), e na quinta cedinho voo pra Barcelona para encarar o primeiro dia do Primavera Sound.
Quase desesperado, respondi o e-mail pedindo uma ajuda para descolar algum canto para ficar em Bergen. Ficar em outra cidade era inviável para minha agenda. Fui dormir não mais do que umas três horas de sono antes de encarar o voo para Oslo (e depois Bergen). Quando acordei, Mads me respondera: “Me procure no barco, vamos dar um jeito…”

Ultra organizado que sou (odeio dar muito espaço para o acaso), estava estranhamente tranquilo. Na pior das hipóteses dormiria no aeroporto. Mas algo dizia que tudo daria certo. E deu. Chegando a Bergen fui procurar Mads. O norueguês me disse que tinha descolado um canto pra mim no barco de um amigo, e me passou o endereço.
Bergen é a segunda maior cidade da Noruega (atrás da capital Oslo). Sua economia gira principalmente em torno do turismo. No verão é porta de entrada para os fiordes; no inverno é sede das principais estações de esqui da região. Por isso, achar o barco de Sven, o amigo de Mads foi fácil. A única diferença é que o barco de Mads ficava na zona turística, o de Sven ficava na zona portuária.

Pode até ser que noruegueses sejam frios e tudo o mais que a gente pensa de povos europeus. Os que conheci, nesse caso, eram os equivalentes aos cariocas da Noruega: animados, receptivos, curiosos e beberrões. Sven tem um pequeno barco de transporte de carga e pessoas. Na tripulação apenas ele e seu imediato: um italiano baixinho e falastrão (pleonasmo?) chamado Daniele. Os dois me receberam com festa e me acomodaram numa pequena cabine: uma cama justa e uma janelinha. Para mim, que cogitava dormir no aeroporto, parecia o Hilton. Apresentações feitas, pedi desculpas pela pressa, e zarpei para o show.
O Bergen Calling é mais uma grife que um festival. Só neste ano, por exemplo, vão acontecer pelo menos umas três edições. Numa delas toca Lenny Kravitz, na outra, Slayer, Sting… e por aí vai. Na que fui tocaria Black Sabbath. A doença de Tony Iommi e o posterior cancelamento da maioria das datas fez com que o show fosse alterado para Ozzy & Friends. Assim, o madman do metal receberia no palco Slash e Zakk Wylde. Além disso, a banda deste último, Black Label Society, faria abertura.

O Bergen Calling acontece sempre às margens do Mar do Norte, em plena zona turística. A caminha da zona residencial para os arredores do show durou uns15 minutos e me fez chegar a pensar que estava indo na direção errada. Nas ruas nenhum sinal de movimentação de cabeludos, camisetas pretas e tudo o mais que indica a presença de um show de metal. Apenas a menos de 1 km do local (e com ajuda do Google Maps) percebi que estava indo na direção certa: um grupo de velhões com coletes de clubes motociclistas aparentava ir na mesma direção que eu.
Perguntei para um deles onde seria a entrada para o show, e o Hell Angel wannabe me indicou uma calçada para seguir. Nela percebi certa movimentação e me aproximei. Agora sim parecia um show. A procissão metaleira seguia em ordem e silêncio para a entrada. E a calçada era respeitada: nada de policiais, fitas de contenção, chiqueirinhos de metal. O público simplesmente respeitava o limite da calçada e ninguém andava pela rua.

Outro exemplo? O ingresso diz “proibido fotografar os show”. Resultado? Ninguém saca sequer o celular para um registro do palco. Na Noruega é assim: se a regra está lá, deve haver um bom motivo para ela e ninguém vai tentar burlar (até por isso todas as fotos deste post são da cidade - a do Ozzy é de um jornal local). Mesma coisa com bebidas. Cerveja e vinho são vendidos no show (no caso uma chamada Hansa: um mijo de alce horrível com graduação alcóolica de 2,4%), mas a segurança fica em cima, e se perceberem que você está alto, parceiro, é rua.
Não estou dizendo bêbado a ponto de vomitar no decote da mulher do delegado. Um sujeito na minha frente estava calmo, sem incomodar ninguém, apenas aparentava uma suave dificuldade no equilíbrio. Não teve nem apelo. Dois seguranças apareceram e escoltaram o rapaz para fora da arena.

Meu ingresso dava direito ao chamado Golden Circle, a área vip deles (desculpem os puristas, mas eu não iria até a Noruega pra tentar ver um show atrás de um paredão de 15 mil descendentes de vikings com 2 metros de altura cada). Na entrada apenas uma breve revista e a indicação de onde deveria pegar a pulseira para o tal circulo de ouro. Esse não ocupava toda frente do palco, apenas a metade esquerda.
Eram quase 20h e o sol estava forte. Sem atrasar um minuto sequer, às 20h, o Black Label Society apareceu no palco com seu mentor e vocalista Zakk Wylde de cocar de índio. Apresentação curta e eficiente, o Black Label Society mostra a cada dia que é realmente um projeto de Wylde. Ele é o foco do show, e seu estilo vocal mostra que o cara aprendeu tudo o que precisava saber com Ozzy. Podem até dizer que ele emula e imita seu mentor. Mas, para alguém que não sabia sequer falar sem desafinar, é uma evolução e tanto…

Sem muita demora, Ozzy Osbourne ganhou o palco com Gus G. (guitara), Rob “Blasko” Nicholson (baixo) e o batera Tommy Clufetos. A primeira parte do show correu com “Bark at the Moon”, “Mr. Crowley”, “Suicide Solution”, ”I Don’t Know”, “Killer of Giants”, “Shot in the Dark” e “Rat Salad” (do Black Sabbath). Foi a deixa para Ozzy convidar Slash e Geezer Butler para a sequência de “Iron Man”, “War Pigs” e “N.I.B”.
Em seguida, sai Slash e entra Wylde, para mais dois sons do Sabbath: “Fairies Wear Boots” e “Into the Void”. O barbudão, e aprendiz ficou no palco para matar a saudade do repertório de Ozzy (que cada vez mais parece o Cauby Peixoto do metal). Mandaram “I Don’t Want to Change the World”, “Crazy Train” e “Mama, I’m Coming Home”.
Na última música, a óbvia ausência até então do repertório, “Paranoid”, ganhou versão com todos os convidados no palco. No retorno ao barco do Sven, ainda com sol brilhando em Bergen, um pouquinho de desordem: doze “rebeldes” desafiavam o status quo e andavam pelo meio fio. Graças a Deus: já começava a me perguntar se metaleiros noruegueses eram de fato humanos.

Junho 3, 2012 Encha o copo
Werchter Boutique: a preguiça e o épico

Texto e fotos: Renato Moikano (@renato_moikano)
A edição 2012 do festival belga Werchter Boutique começou como apenas um show: Metallica em sua turnê de celebração dos 20 anos do lançamento do “Black Album”, o disco que tirou o quarteto americano do hall de principais nomes do metal e transformou o grupo em uma das maiores bandas do mundo. Em meados de fevereiro novas bandas começaram a pintar como coadjuvantes no festival. E em abril o line-up estava confirmadíssimo com Ghost, Gojira, Channel Zero, Mastodon e – vejam só – Soundgarden.
Bora sair do meu refúgio em Bruxelas rumo à pacata (e relativamente próxima) Werchter. O festival estava marcado para as 13h, e o trajeto entre Bruxelas e Werchter foi bastante tranquilo e organizado. Um trem deixa a estação ao norte da capital rumo a Leuven e o trajeto (em trens expressos) leva 15 minutos. Em trens urbanos, 45. Peguei o urbano mesmo para aprender o caminho para o aeroporto. Um trajeto que precisaria fazer na manhã seguinte.

Em Leuven, a comitiva de fãs com camisetas pretas e cabelos compridos era imensa. Diversas placas sinalizavam o local exato de embarque nos ônibus que fariam o trajeto entre Leuven e o local do show nas cercanias de Werchter. Mais 20 minutos de ônibus e voilà. Chegamos? Ainda não. Mais uma caminhada de 20 minutos e finalmente cheguei à entrada.
Na contra-mão da tendência, o Werchter Boutique conta com uma pista-vip que ocupa toda a frente do palco. Além desse setor, dentro da área vip havia o Snake Pit: um espaço para cerca de 200 pessoas que ficava literalmente dentro do palco, em uma área delimitada por uma alça em forma de U. O local faz referência à turnê original de divulgação do “Black Album” entre 1991 e 1993 quando o Snake Pit foi montado pela primeira vez.

Pontualmente às 13h, o Ghost iniciou sua apresentação. Um goth metal sem sal que passaria completamente despercebido não fossem os trajes da banda que se apresenta em batinas católicas e rostos pintados como se fossem…fantasmas! Uau! Que original. Próximo. Enquanto Gojira não entrava resolvi verificar como um metaleiro gourmet se sairia no festival. As opções eram bem óbvias: hotdog e o hambúrguer mais sem vergonha que já comi na minha vida.
Os preços eram relativamente normais para um festival. Uma cerveja Júpiter (bem gelada, sempre), coca-cola, energético ou água custava 1 Bon (a moeda do festival, equivalente a 2,50 euros). As comidas e sanduíches saiam por 2 Bons. Um estande da Jack Daniels vendia bebidas a partir de 3 Bons. Todos os caixas aceitavam cartão de crédito e euros. As barraquinhas de venda de merchandising oficial apenas grana viva.

E tudo tinha fila. E grande. E ninguém choramingava. Portanto, você, que vai a festivais no Brasil e acha que tudo é desorganizado simplesmente porque tem fila, vê se larga mão dessa síndrome de pangaré de que tudo no Brasil é pior. E lembre-se, tem fila porque você está num maldito festival com mais dezenas de milhares de pessoas, catzo.
Eu tinha certa esperança que o Gojira me surpreendesse. Acho o som do grupo um pouco carente de punch, mas acreditava que a falta de um produtor bacana e competente poderia ter contribuído para que os discos do grupo fossem meio fracotes. Empolgação não faltou, tentativas de contagiar o público também não. Mas faltou peso. O show se arrastou e só serviu pra me mostrar que o próximo disco do grupo, “L’Enfant Sauvage”, deve ser apenas mais do mesmo.

Channel Zero é uma banda belga tão farofa, mas tão farofa, que faz o Papa Roach soar como Black Sabbath. Por tocar para seus compatriotas contaram com simpatia de grande parte da audiência. Mas aqui, chegado, tem duas décadas de fuleiragem metaleira. Não iam me comprar só porque todo mundo estava cantando junto. E não compraram. Culpa do vocalista que ainda não se decidiu se quer cantar ou fazer pose. Uma hora no palco e chega.
Mastodon! Tentar resumir o show em uma palavra seria difícil, mas em duas dá pra tentar. Que tal: desgraça e injustiça? Desgraça porque, bem o Mastodon não fala, ruje. Do início ao fim do show tudo que eles fazem é despejar guitarrada em cima de você. Sem bom dia ou boa tarde, tocaram uma música atrás da outra. Já injustiça vem do público que ignorou completamente o grupo. A desgraceira começou com “Black Tongue” e “Crystal Skull”, e, após dez rounds, terminou com “Blood and Thunder” e “Creature Lives”.

Nada de lamentar, porque quase imediatamente começou o show do Soundgarden. Esse sim eu não via a hora. Eram quase 20h em Werchter e o sol ainda estava marcando presença e bronzeando as banhas belgas. E lá vamos nós. Mas não foi! O Soundgarden fez um dos shows mais preguiçosos que já vi na vida. Cada integrante distante entre si, Chris Cornell arrastando os vocais e tentativas inúteis do baixista (aparentemente o único feliz em estar ali).
O tédio musical fez com que “Outshined”, por exemplo, não saísse da primeira marcha. E “Black Hole Sun” contou com um erro grotesco de Cornnel ao tentar voltar após o solo. Se era pra voltar desse jeito, confesso que preferia o insosso Chris Cornell em carreira solo fazendo shows sonolentos. Ainda assim estou ansioso para ver o show no Download Festival em Donninton Park, no próximo domingo, dia 9 de junho. Se for igual, prometo transformar minha preciosa cópia de “Badmotorfinger” em cortador de pizza.

Já o Metallica foi nada menos que épico. O roteiro da turnê é o seguinte: introdução com a tradicional sequência do cemitério em “The Good, The Bad & The Ugly”, de Sergio Leone, com “The Ecstasy Of Gold” (do mago Ennio Morricone). Em seguida a banda abre com “Hit the Lights” (primeira faixa do primeiro disco que já completa 29 aninhos). Em seguida, “Master Of Puppets”, “Ride The Lightning” (executada pela primeira vez nesta turnê), “For Whom The Bells Tolls” e “Hell and Back”, sobra de “Death Magnetic” (2008) lançada no EP de “Beyond Magnetic” (2011).
Um intervalo e os telões começam a exibir um breve clipe com cenas das gravações do “Black Album”. Grande parte do material extraído está no documentário duplo “A Year And A Half” que acompanhou a gravação e a primeira perna da turnê em 1991. O clipe não economiza com várias imagens de Jason Newsted, então baixista do grupo que deixou o Metallica de forma traumática antes da gravação de “St. Anger”.

A sequência de canções obedece a uma lógica interessante: o disco é executado de traz para frente. Então, o filé mignon do show vem com “The Struggle Within”, “My Friend of Misery”, “The God That Failed”, “Of Wolf and Man”, “Nothing Else Matters”, “Through the Never”, “Don’t Tread on Me”, “Wherever I May Roam”, “The Unforgiven”, “Holier Than Thou”, “Sad But True” e “Enter Sandman”. No bis teve “Battery”, “One” (com direito a nova iluminação toda com lasers) e o tradicional encerramento com “Seek & Destroy”. Épico!
E a saga não terminou aí. Lembram que no post anterior eu ainda não tinha descolado uma passagem de volta para Bruxelas. Bom, imperou a brasilidade. Tapei o destino final do bilhete que eu tinha comprado e consegui me esgueirar no último trem para Bruxelas. Mas, hey, eu não me orgulho disso, hein…

Junho 2, 2012 3 Brindes
Bruxelas: Judas e o esgoto engarrafado

Texto e fotos: Renato Moikano (@renato_moikano)
Penetra na festa! Começa aqui o Scream & Yell Europe 2012 Tour - Metal Edition… Enquanto Marcelo Costa inicia sua saga pela Inglaterra, antes de cair em Barcelona para o Primavera Sound, eu faço uma viagem mais mainstream pelo mundo das arenas de metal da Europa central e Escandinavia. Em seguida passo uns dias com o Mac por Paris (tem Guns, tem Marilyn Manson, o que será que vai rolar?), por Luxemburgo (tem Lou Reed tocando coisas do “metallico” Lulu), por Cork (tem Tom Petty, e aqui não tem nada de metal) e finalmente por Donnington acompanhando os dois últimos dias do Download Festival - que esse ano tem Black Sabbath.

A aventura começa de fato nesta segunda-feira, em Werchter, na Bélgica (sim, a mesma cidade do Rock Werchter). É lá que o Metallica recebe Soundgarden, Mastodon, Channel Zero, Gojira e Ghost no Werchter Boutique. Metaleiros de butique, uni-vos que o James Hetfield e compania irão apresentar na íntegra seu “Black Album”. A bolacha de 1991 será executada de cabo a rabo para celebrar os 20 anos da produção que tirou o Metallica da lista de Grandes Bandas do Metal e colocou-o entre as Maiores Bandas da História. Ponto.

Dia 29, na Noruega tem Ozzy & Friends. Era pra ser um show do Sabbath, mas a doença de Tony Iommi mudou os planos. Mesmo assim tem o devorador de morcegos tocando com Slash e tem também Black Label Society do Zakk Wylde (e eu dormindo em um barco! É sério. Era a hospedagem mais em conta da cidade de Bergen, que, segundo algumas estatísticas, é a cidade em que mais chove no mundo: são 300 dias de São Pedro lavando o banheiro em 365 do ano). A viagem continua passando pelo Primavera Sound de Barcelona, onde o Napalm Death irá combater um trecho do show do The Cure… E por aí vai.

Desembarquei no sábado em Amsterdã com a missão de descolar um jeito de chegar em Bruxelas. A pressa era ansiedade pra conseguir comprar um passe de trem especial para o show do Metallica em Werchter. O bilhete dá direito ao trem de ida até Leuven, busão fretado ida e volta até Werchter, e trem de retorno pra Bruxelas. Apesar da venda de ingressos para o show acontecer tranquilamente pela internet (comprei o meu ainda em dezembro), esse passe só era vendido nas estações.

Cheguei em Amsterdã na estação Central de Bruxelas (ou “Bruxelles-Central / Brussel-Centraal” -> eles tem duas línguas). Pergunta aqui, pergunta ali e nunca ninguém ouviu falar no tal bilhete especial do Werchter Boutique. Resolvi ir para o hotel. Sem malas e de banho tomado conseguiria insistir na busca pelo passe especial. Estou no Siru Hotel, um estabelecimento modernete no norte da capital belga. A duas quadras da Estação Norte.

A estação é imensa, maior que a central, lotada de imigrantes ilegais acampados nos seus corredores. Ainda assim, deserta em um sábado à tarde. No balcão consigo finalmente a informação de que sabem do que se trata meu pedido. O diálogo é truncado. Meu francês é nulo, e o inglês do atendente também. Mesmo assim, é atencioso ao extremo e sai de seu posto para me encontrar na fila e tentar entender melhor o que eu estou pendindo.

Quando retorna ao seu posto começa uma sequencia assustadora de caretas enquanto observa o monitor de seu terminal. Faz que sim, faz que não, franze a testa, sorri, fecha o semblante, respira fundo e me responde: “The train is full”. Existem quatro tipos de passes para esse festival. Apenas um deles garante o retorno a Bruxelas. Os outros passam longe daqui. Resolvo comprar um que vai para Oostende, no norte do país. Mais tarde penso em como voltar para Bruxelas.

Ao explorar a cidade sou surpreendido por um festival de Jazz. Uma espécie de virada cultural sem sustos, com palcos espalhados por cada praça do centro de Bruxelas. E quartetos, sextetos, big bands, e até rappers se apresentando. Já são quase 21h e Bruxellas insiste em ter dia claro, e sol forte. Hora de parar para um cerveja e comer alguma coisa. Escolho o À la Mort Subite, um bar do início do século passado que já recebeu em suas mesas rodas de intelectuais belgas…

O que me atraiu foi a carta de cervejas e o fato de, em alta temporada, não ter quase nenhum turista por ali. Na carta oferecida pela casa, muitas cervejas da Alken-Maes. Entre elas uma Brown Ale chamada Judas. O nome me atraiu e pedi uma grande, 900 ml. Tal qual seu homônimo bíblio, esse tal Judas belga também vai te trair… horas depois. Para acompanhar peço uma tábua de queijos e passo mais de uma hora observando o movimento do bar que recebe em sua maioria belgas.

Com quase dois litros de cerveja em mim (fora duas Chimay que tomei durante a tarde) resolvo dar mais uma volta pelo centro. Passam das 22h mas a noite ainda não caiu por completo. A Grand Place, um dos principais pontos turísticos da cidade, já está iluminada e segue abarrotada de gente que acompanha um show de rap no tal festival de jazz. Barraquinhas no entorno vendem cervejas, cones de batata frita e waffle entupidos de coberturas doces.

No caminho para o hotel, macaco velho que sou, compro alguns doces, água, e mais umas garrafinhas de Coca-Cola e chá Lipton para abastecer o frigobar do quarto. Penso em escrever este primeiro texto para o Mac na chegada, mas sou vencido pelo cansaço e apago na cama. Às 4h da manhã sou acordado. Judas voltou como uma fortíssima dor de cabeça e uma ressaca tão hedionda que chega a acordar um defunto. Sede, o quarto parece um deserto. No frigobar resolvo devorar a garrafa de chá. Giro a tampa e ouço barulho de pressão saindo. Isso não é bom. No primeiro gole quase cuspo. É refrigerante de chá preto! Algo como esgoto engarrafado… A viagem só está começando.

Maio 28, 2012 Encha o copo

