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Dylan com café, dia 48: Uncut 2

Bob Dylan com café, dia 48: No embalo do então recém-lançado documentário de Martin Scorsese, “No Direction Home”, que saiu em agosto de 2005, a badalada revista inglesa Uncut produziu em setembro um daqueles listões de melhores que só eles têm a manha de realizar com tamanho esmero e qualidade – não só pela lista, mas principalmente pelos convidados que participam dela: 100 Rock and Movie Icons on The Music and Films That Changed Our World reúne em 50 páginas da revista um time invejável de “colaboradores”. O método foi simples: a revista interrogou 100 artistas sobre obras revolucionárias da cultura pop, e colocou certa ordem nas escolhas de seu “júri”.

O especial começa com o número 100 sendo aberto por Chris Martin explicando sua escolha com um “Bem, eu vou ser meio nerd aqui” para citar uma palestra de Brian Eno e chegar a seu disco favorito: “The Soft Bulletin” (1999), do Flaming Lips (e você achou que não tinha nada em comum com o cara do Coldplay, hein), que ele diz ser uma como “Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, mas sendo “Light Side of The Moon”, porque carrega… humor. A lista segue com o ator Robert Downey Jr. escolhendo o álbum “Imperial Bedroom” (1982) de Elvis Costello & The Attractions na posição 96, Ian McCulloch (Echo and The Bunnymen elegendo a série “Sopranos” no número 88, Frank Black (Pixies) indo de “Clube da Luta” no número 86, Trent Reznor contando da emoção de ouvir uma canção sua, “Hurt”, na voz de Johnny Cash no número 85, Stephen Malkmus posando com sua cópia de “Daydream Nation”, do Sonic Youth no número 77, Dave Grohl babando ovo em “Physical Graffiti”, do Led Zeppelin, e por ai vai. A lista completa (e quem escreveu sobre) você confere aqui.

O Top 3 traz Ozzy Osbourne contando como “She’s Love You”, dos Beatles, mudou a sua vida! No número 2, Paul McCartney declara seu amor por Elvis Presley dizendo que “Heartbreak Hotel” é sua melhor gravação. No número… Bob Dylan. E Patti Smith relembra (num texto de página inteira) como foi ouvir pela primeira vez, aos 19 anos, o single “Like a Rolling Stone” na jukebox de um café em 1965 (o texto, na integra, pode ser baixado via Mediafire aqui). Para acompanhar o especial, a revista reuniu um time de luxo para recriar o álbum “Highway 61 Revisited” (que traz “Like a Rolling Stone”), e ainda que o resultado nunca vá arranhar o status de obra genial atemporal do disco original, há boas surpresas com o Drive-By Truckers desacelerando “Like a Rolling Stone”, Paul Westerberg fazendo de “It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry” um bluezão, Willard Grant Conspiracy esvaziando a sonoridade de “Ballad of Thin Man” e valorizando a letra, o American Music Club brilhando em “Queen Jane Approximately” e os Handsome Family levando “Just Like Tom Thumb’s Blues” para a roça num projeto de especial de revista e CD altamente recomendável (você acha facilmente no Ebay!)

Especial Bob Dylan com Café

Abril 20, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 47: No Direction Home

Bob Dylan com café, dia 47: Em um dos capítulos do livro “Crônicas – Vol. 1”, publicado em outubro de 2004, Dylan relembra os tempos difíceis pré-“Oh Mercy” (1989), enfim um grande álbum que encerrava uma década praticamente perdida “por causa do excesso de distrações”, segundo ele. “Onde quer que eu vá, sou um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk rock, um artesão da palavra de tempos passados, um chefe de Estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estou no inferno do esquecimento cultural”, diz. O primeiro dos três turning points no novo século a tirar Bob Dylan deste esquecimento cultural e coloca-lo no lugar em que ele sempre mereceu estar foi um documentário impecável dirigido por Martin Scorsese. Lançado em agosto de 2005, “No Direction Home” compilava em 208 minutos imagens raras (como a primeira exibição do momento em que alguém o chama de “Judas” num show em Manchester, 1966) e dezenas de takes de backstage e shows nas turnês de 1965/1966 além de entrevistas com personagens importantes do período como os músicos Pete Seeger, Maria Muldaur e Al Kooper, a ex-namorada Suze Rotolo (fotografada ao lado de Dylan na capa de “Freewheelin”), o promotor de música folk Harold Leventhal, o cineasta DA Pennebaker (diretor do obrigatório documentário “Don’t Look Back”) e o poeta beat Allen Ginsberg, além do próprio Bob Dylan (impressionantemente desnudado e à vontade a ponto de dizer, sobre o fim do relacionamento com Joan Baez, que “não dá para amar e ser esperto ao mesmo tempo”), entre outros.

O documentário foi acompanhado de uma “trilha sonora” deliciosamente torta em mais um volume imperdível de raridades cobrindo os 7 anos (de 1959 a 1966) que mudaram a música pop: “The Bootleg Series 7 – No Direction Home: The Soundtrack” compila 28 canções, apenas duas delas lançadas anteriormente, com o garimpo começando no CD 1 com a primeira gravação domestica de Bob, “When I Got Troubles”, datada de 1959, e seguindo com outra raridade: “Rambler, Gambler” (1960), canção tradicional gravada por Dylan numa rádio em Minneapolis. O hino “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie, surge numa versão de Bob ao vivo em 1961. Seguem-se takes do famoso álbum pirata “Minnesota Hotel Tapes” (1961), registros do programa de TV “Folk Songs and More Folk Songs” (1963) além de números no Newport Folk Festival (“Chimes of Freedom” em 1964 e “Maggie’s Farm” em 1965 mostrando a mudança do acústico para o elétrico que criou um caos na cena folk da época).

No CD 2, takes alternativos que engrandecem ainda mais os álbuns “Bringing It All Back Home” (1965), “Highway 61 Revisited” (1965) e “Blonde on Blonde” (1966) com versões de “It’s All Over Now, Baby Blue” (mais lenta, mais melódica, mais intensa), “She Belongs To Me” (também mais lenta, e aqui sem bateria, mas com baixo e guitarra), “Tombstone Blues” (frenética, pré-punk), “Desolation Row” (“Com Al Kooper tocando guitarra como o jovem Lou Reed”, observa o crítico John Harris), “Highway 61 Revisited” (numa baita versão de boteco, com slide e piano elétrico sensacionais), “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (no modo blues lento e chapado) e “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again” (também em marcha lenta chapada) além de “Visions of Johanna” (com os Hawks e Al Kooper). O livreto (com dezenas de fotos raras e registros alternativos das capas do período) tem texto assinado por Andrew Loog Oldham, o homem que cuidou dos Stones em seus anos de formação (1963/1967), e que aqui observa: “Na Inglaterra e na França, mais conhecidas como Europa, havia Dylan muito antes que houvesse Beatles e Rolling Stones. 43 anos depois, Dylan ainda move os peões”. Muitos fãs jovens conheceram Bob Dylan através deste documentário de Scorsese, que ganhou uma reedição comemorativa em 2016 com acréscimo de diversas cenas raras. Logo logo, esses novos fãs perceberam, na prática, que Dylan não pertence ao passado. “Modern Times”, seu segundo turning point no novo século (o terceiro será o Nobel de Literatura), vem ai, e é assunto para outro café.

Especial Bob Dylan com Café

Abril 19, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 46: Reggae Tribute

Bob Dylan com café, dia 46: Num episódio famoso da cultura pop, em 1979, Serge Gainsbourg baixou em Kingston para gravar um disco de inéditas reggae com os ainda desconhecidos Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo). O resultado foi “Aux Armes Et Cætera” (1979), um dos maiores sucessos da carreira de Gainsbourg, disco de platina triplo na França ancorado numa versão rastafári de “A Marselhesa” que fez com que a extrema direita francesa o ameaçasse de morte. O sucesso foi tanto que Serge levou Sly & Robbie para a turnê na França, e os colocou no mercado. Serge gravaria outro álbum com a dupla (“Mauvaises Nouvelles des Étoiles”, 1981), mas quem cruzaria Sly & Robbie em 1983 seria Dylan, que contrataria a cozinha jamaicana para o belo álbum “Infidels”, que ainda teria Mark Knopfler e Mick Taylor. Os Wailers já haviam gravado “Like a Rolling Stone” em 1966, mas a ilha jamaicana ainda não tinha mergulhado profundamente na música de Dylan até que o produtor Doctor Dread, fundador da RAS Records, montou uma super banda base (com Sly na bateria, mas sem Robbie no baixo, substituído por Glen Brownie, que acompanhou de Jimmy Cliff a Ziggy Marley, mais Dwight Pinkney na guitarra, entre outros) e convidou um time de estrelas para recriar o repertório de Bob.

Lançado em 2004, “Is It Rolling Bob? A Reggae Tribute To Bob Dylan” traz a capa de “Bringing Back All Home” numa divertida versão Jamaica, com Bob bolando um baseado, uma dreadlocker ao fundo, capa de discos de reggae no chão, um foto de Bob Marley sobre a lareira e até uma cerveja Red Stripe. Gravando em Kingston no padrão Jamaica (um CD reggae, o outro dub), o primeiro disco traz 13 versões e um excelente remix de “I and I” (uma das grandes faixas de “Infidels”) enquanto o segundo toasteia oito versões (“I and I” inclusa). Destacam-se Toots Hibbert (líder da mítica Toots & the Maytals) numa versão poderosa que transforma “Maggie’s Farm” em um grito de guerra escravo; Gregory Isaacs brilha numa pungente “Mr. Tambourine Man”; Nasio Fontaine surge acompanhado por Drummie Zeb & The Razor Posse na religiosa e ótima “Gotta Serve Somedbody” enquanto Sizzla banca o MC agitando “Subterranean Homesick Blues” e Michael Rose (do Black Uhuru) em “The Lonesome Death of Hattie Carroll” (“Uma canção particularmente forte para a história de escravidão na Jamaica, esmagada entre pobreza e violência”, observou a resenha do Guardian) num disco curioso, divertido, reflexivo e descompromissado, como um bom baseado.

Especial Bob Dylan com Café

Abril 18, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 45: Philharmonic 64

Bob Dylan com café, dia 45: Aproveitando que Dylan permanecia na estrada com a Never Ending Tour sem dar sinais de entrar em estúdio, a Columbia Records seguia fuçando o baú e encontrando raridades que eram itens de colecionador entre pirateiros desde os anos 60. Após lançar o show mítico de 66 em Manchester e a bela compilação da The Rolling Thunder Revue Tour 75, as Bootleg Series voltam no tempo: em 1964, Dylan ainda era uma estrela em ascensão após um primeiro disco que ninguém ouviu (“Bob Dylan”) e três álbuns seguidos que sacudiram a ala folk e os pensadores (“The Freewheelin’ Bob Dylan“, “The Times They Are a-Changin’” e “Another Side of Bob Dylan“), mas ainda não havia feito o crossover de público, estando encaixotado na ala dos cantores de protesto.

Sabendo do potencial de seu pupilo e já antevendo o que viria meses depois, o empresário Albert Grossman ia dando campo para Bob crescer, e se em 1961 Dylan passava o chapéu em apresentações no Greenwich Village, em 1964 já tocava em locais glamorosos como o Carnegie Hall. Grossman, então, reservou uma data no Phillarmonic Hall (hoje Avery Fisher Hall), casa de Leonard Bernstein e da Filarmônica de Nova York. A Columbia iria registrar o show prevendo lança-lo, mas Bob vivia um momento tão prolifico na carreira que dois meses depois entraria em estúdio para começar sua revolução com “Bringing It All Back Home”, e este show de 31 de outubro de 1964 já estaria datado e seria arquivado (e amplamente pirateado na década seguinte, mas de registros do público, não destas masters originais).

Lançado e março de 2004, “The Bootleg Series 6 – Concert at Philarmonic Hall” traz o Dylan dos primeiros anos, voz, violão e gaita, rindo da fama e provocando a audiência com canções novas. Das 19 músicas apresentadas por Bob neste show, sete ainda não haviam sido lançadas oficialmente, três delas ainda nem gravadas: “Gates of Eden”, “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)” arrepiante e “Mr. Tambourine Man” (as três apareceriam em “Bringing It All Back Home”) – das outras quatro, uma canção de Joan Baez (que auxilia seu protegido em quatro números aqui) e outras três que só ganhariam lançamento oficial nas bootleg series já nos anos 90, como “Talkin ‘John Birch Paranoid Blues”, uma talking blues em que Dylan tira sarro de um anticomunista que, de tão paranoico, começa a procurar “reds” em todos os cantos da casa, e não achando nenhum, começa a procurar em si mesmo. Interessante observar como “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” mudaria dessa versão acústica em 1964 para a nervosamente eletrificada no ao vivo “Hard Rain”, de 1976. É o último registro antes da tempestade elétrica que viria em 1965. E é um grande show.

Especial Bob Dylan com Café

Abril 17, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 44: Uncut

Bob Dylan com café, dia 44: em 2002, visando comemorar os 40 anos de carreira de Bob, a importante revista britânica Uncut convidou um extenso grupo de artistas para elencar as 40 melhores músicas do homem. Junto à revista, em duas capas diferentes, dois CDs atualizavam o repertório de Dylan em 31 covers, 8 deles exclusivos da revista. Na reportagem de 31 páginas (disponibilizada na integra em 2015 no site da Uncut: leia aqui), 80 artistas apontam suas canções favoritas: Jon Spencer escolheu “Ballad of Thin Man”, Jeff Tweedy foi de “John Wesley Harding”, Damon Albarn de “Rainy Day Women #12 e #35”, Isobel Campbell e Ian McCulloch escolheram “Love Minus Zero / No Limit” enquanto Tom Waits cravou “The Lonesome Death of Hattie Carrol” e Lee Ranaldo escolheu “Visions of Johanna”. O top 3 das 40 músicas votadas foi composto por “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” em terceiro (com voto do ator Jack Black e também de Mike Scott, do The Waterboys), “Tangled Up In Blue” em segundo (com voto de Natalie Merchant) e “Like a Rolling Stone” no número 1 (votada por Pete Yorn, Grant Lee-Phillips e Gerard Love, do Teenage Fanclub, entre outros), com 22 pessoas escrevendo sobre a música (“Foi uma das primeiras músicas do Dylan que ouvi”, relembra Ian McCulloch. “Se fosse “Gates Of Eden” provavelmente teria me assustado”) numa bela introdução à obra genial de Bob (em 2013, a Rolling Stone Brasil lançaria uma edição com um top 100 de músicas, mas sem CDs). Na parte musical do especial da Uncut em 2002, a revista resgata a bela versão de Cat Power para “Paths of Victory” (do álbum “The Covers Record”, 2000) mais releituras de “Shelter From The Storm” por Cassandra Wilson (de “Belly On The Sun”, 2002) “Every Grain of Saint” por Emmylou Harris (de “Wrecking Ball”, 1995) e “Hurricaine”, por Ani DiFranco (do EP “Swing Set”, 2000). Entre o material gravado especialmente para a revista estão uma respeitosa “Don’t Think Twice, It’s All Right” com Johnny Marr, uma grande versão de “Girl From The North Country” com os Waterboys, uma entorpecida “Sitting On A Barbed Wire Fence” por Thurston Moore e Kim Gordon, “Visions of Johanna” com Lee Ranaldo, “I Shall Be Released” por Paul Weller, e “Positively 4th Street” por Paul Westerberg, entre outras. Vale a pena ir atrás!

Especial Bob Dylan com Café

 

Abril 16, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 43: Masked

Bob Dylan com café, dia 43: um ano após “Love and Theft”, Bob juntou a banda da Never Ending Tour para gravar uma série de canções que ele pretendia usar na trilha sonora de um filme que estava fazendo com o cineasta Larry Charles, um dos famosos roteiristas das primeiras cinco temporadas da série Seinfeld. Sob codinomes (Dylan como Sergei Petrov e Charles como René Fontaine), a dupla assina o roteiro do confuso, fraco e bagunçado “A Máscara do Anonimato” (“Masked and Anonymous”), filme lançado em 2003 que conta com um elenco estelar que trabalhou com os salários mínimos do sindicato apenas para ter a oportunidade de estar com Bob. Entre as estrelas estão nomes Jeff Bridges, Penélope Cruz, John Goodman, Jessica Lange, Luke Wilson, Bruce Dern, Ed Harris, Val Kilmer, Giovanni Ribisi, Mickey Rourke, Christian Slater e Susan Tyrrell. Há clássicos na história do cinema feito com apenas dois grandes atores, mas essa constelação, infelizmente, não consegue consertar um roteiro ruim.

“Masked and Anonymous” conta a história de Jack Fate (Bob Dylan), um músico outrora famoso, filho de um ditador (que aterroriza um pobre país terceiro-mundista da América) convocado por rebeldes para se apresentar num concerto beneficente contra seu pai. Surrealista e autobiográfico, “A Máscara do Anonimato” padece de tosquice, mas as músicas ao vivo da trilha foram um bom resultado do equivoco do filme. Acompanhado de sua banda (“atuando” no filme), Bob gravou cerca de uma dúzia de canções no primeiro registro oficial ao vivo da nova formação da Never Ending Band (com Charlie Sexton na guitarra) sendo que nove delas aparecem no filme e quatro (“Down In The Flood”, “Diamond Joe”, “Dixie” e “Cold Irons Bound”) foram lançadas no CD da surreal trilha sonora, que junta covers de Dylan cantadas por diferentes artistas de diferentes nacionalidades: os japoneses Magokoro Brothers recriam “My Back Pages”, o italiano Francesco De Gregori interpreta “Non Dirle Che Non E’ Cosi’ (If You See Her, Say Hello)” e o grupo de rap italiano Articolo 31 improvisa sobre a base de “Like a Rolling Stone” numa trilha que ainda conta com Grateful Dead, Shirley Caesar, Jerry Garcia (solo) e Los Lobos. Uma trilha curiosa para um filme desastroso.

Especial Bob Dylan com Café

 

Abril 15, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 42: Rolling Thunder Revue

Bob Dylan com café, dia 42: em 1969, o jornalista Greil Marcus escreveu um longo texto na Rolling Stone lamentando que Bob Dylan, nos anos 60, tenha lançado “apenas” 9 discos em 8 anos. Corte para os anos 2000, que vão ver apenas três discos inéditos de Dylan na primeira década. Porém, se o material novo não será tão farto (ou melhor, estará adaptado às necessidades do mundo moderno), o baú de raridades trará surpresas maravilhosas aos fãs do homem. Após encantar o público com a reedição imperdível do show no Royal Albert Hall, em Manchester, 1966 (o show do “Judas!”), no volume 4 das Bootleg Series em 1998, a Columbia voltou a produzir ouro no formato de compact disc a laser em 2002 quando compilou em dois CDs (e um DVD extra bônus) alguns dos momentos mais brilhantes da mais brilhante turnê de Bob Dylan, a The Rolling Thunder Revue 1975 – ou como compara o biógrafo Brian Hilton, uma turnê que se equivale a mítica turnê de 1966, mas se lá havia uma batalha entre banda e público toda noite, aqui os shows são pura celebração de amor.

Lançado em novembro de 2002, “The Bootleg Series Vol. 5: Bob Dylan Live 1975, The Rolling Thunder Revue” é uma volta a um tempo que não existe mais. Bob vislumbrou a ideia da turnê quando estava em férias na Córsega e a inspiração surgiu das trupes italianas de “commedia dell-arte”, uma forma de teatro popular que aparece no século XV, na Itália, e se desenvolveu posteriormente na França, e cujo intuito era opor-se (muitas vezes por necessidade) a comédia erudita com apresentações realizadas em ruas e praças, companhias itinerantes de estrutura e esquema familiar e atores que seguiam apenas um roteiro simplificado e tinham total liberdade para improvisar e interagir com o público. Ao chegarem a cada cidade, pediam permissão para se apresentar nas suas carroças ou em pequenos palcos improvisados. Com exatamente esse mesmo mote, quando voltou à Nova York, Bob Dylan juntou um grupo de músicos do Greenwich Village, convidou alguns amigos e caiu na estrada (com dois álbuns matadores fresquinhos de base de repertório: “Blood on The Tracks” e o ainda não lançado – mas já gravado e tocado na tour – “Desire”) no mesmo modelo italiano: as casas de shows, pequenas e intimas, eram reservadas sob pseudônimo, e a banda aparecia disfarçadamente e começava seu “teatro”: Bob Neuwirth fazia seu set, T-Bone Burnett dava um pitaco, Dennis Hopper declamava um poema, Mick Ronson (que havia deixado a banda de David Bowie para acompanhar Dylan) tocava “Life On Mars” e Bob Dylan então surgia para um set acústico. Meia hora depois, Roger McGuinn assumia o lugar de Dylan, tocava algumas coisas do Byrds e passava a função para Joan Baez, que tocava durante cerca de 40 minutos. Dylan então voltava para encerrar a noite em formato banda com mais uma hora de show! No total, mais de 3 horas de espetáculo noite após noite.

Na teoria apaixonada dos hippies, lindo. No papel, porém, as contas não estavam fechando, o que tornou esses primeiros 30 shows (de outubro a dezembro de 1975) únicos. Bob queria que essa turnê durasse para sempre, mas ela não resistiu nem até o natal de 1975, e quando a trupe retornou a estrada em 1976, num modelo de shows em estádios e grandes ginásios, a magia já tinha se perdido (e sido registrada no canto de cisne da turnê, o álbum “Hard Rain”). A inocência, as máscaras pintadas fellinianas, os duetos imperdíveis, a voz de Dylan em seu auge (“Ele nunca cantou dessa forma, nem antes, nem depois”, escreveu o jornalista Peter Doggett), a emoção genuína da The Rolling Thunder Revue 1975 surge compilada nas 22 canções (retiradas de quatros shows) destes dois CDs (uma pena não ser um lançamento quádruplo ou quíntuplo, afinal o CD duplo não faz justiça ao espetáculo de três horas), todas da primeira perna da tour, quando sonhar ainda era possível. Assim como o show de 66 em Manchester, esse é outro momento mágico da música moderna digitalizado para a posteridade. Deleite-se.

Ps. Muitas imagens dessa turnê aparecem no filme “Renaldo & Clara” (1978), escrito por Dylan e Sam Shepard, e dirigido por Bob. São quase quatro horas de projeção com cenas de shows, entrevistas  documentais e vinhetas dramáticas de ficção que refletem as letras e a vida de Dylan à época.

Especial Bob Dylan com Café

Abril 11, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 41: “Love and Theft”

Bob Dylan com café, dia 41: Nem a enorme quantidade de críticas elogiosas, nem os três Grammy’s e muito menos o número 10 na Billboard (o primeiro Top 10 de Dylan desde “Slow Train Coming”, de 1979) conquistado por “Time Out of Mind” (1997) satisfizeram Bob em relação à produção de Daniel Lanois, que ele resume no livro “Crônicas” como “turbulenta”. Ele também havia ganhado um Oscar em 2000 pela canção “Things Have Changed”, do filme “Garotos Incríveis”, e mesmo chegando aos 60 anos (em 24 de maio de 2001), não estava pensando em desacelerar. Muito pelo contrário: em seu novo disco, Dylan assumiria os riscos da produção (assinada com o codinome Jack Frost), que contaria com sua banda da Never Ending Tour e a busca sonora por algo mais leve e animado, mas como com Dylan nada é tão simples, “Love and Theft” foi lançado no fatídico 11 de setembro de 2001.

O crítico da Village Voice foi certeiro: “Se ‘Time Out of Mind’ era seu álbum sobre morte – não era, mas você sabe como as pessoas dizem que é – este é sobre imortalidade”. Fazia muito, muito tempo, que Dylan não soava tão à vontade em um disco cantando novas canções com ecos de jazz, blues, rockabilly e New Orleans, como na acelerada faixa de abertura, que desloca os personagens “Tweedle Dee & Tweedle Dum” de “Alice Através do Espelho”, de Lewis Carrol, para uma festa de Mardi Gras: “Eles estão pegando um bonde numa rua chamada desejo”, sarreia na ideia “Amor e Roubo” do disco (utilizada em diversas faixas). O clima muda totalmente na segunda canção (algo que se seguirá metodicamente até o fim do disco), “Mississipi”, uma suave recriação de uma sobra de “Time Out of Mind” que Dylan dizia que Lanois insistia em lotear de percussão, mas Bob a queria mais simples (antes de chegar aqui, inclusive, ela foi lançada num disco de Sheryl Crow). Já o rockabilly “Summer Days” provoca: “Não se pode repetir o passado… é claro que se pode!”. O clima volta a arrefecer elegantemente em “Bye and Bye”, se torna grandioso no blues de Chicago “Lonesome Day Blues”, baixa a guarda novamente no swingzinho de “Floater” até abrir as portas para uma das grandes canções do disco, a caipiríssima “High Water (For Charley Patton)”. Dylan segue batendo suavemente (“Honest With Me”, “Cry A While”) e assoprando (“Moonlight”, “Po’ Boy”, “Sugar Baby) num álbum elegante, primeiro volume de uma trilogia que se seguirá com “Modern Times” (2006) e “Together Through Life” (2009), mas isso já é assunto para outros cafés.

Ps 1: uma versão deluxe do álbum ganhou um segundo CD com duas então raridades: “I Was Young When I Left Home”, gravada em Minneapolis em dezembro de 1961, surgia pela primeira vez, mas será oficializada também no volume 7 das Bootleg Series. Já o take alternativo de “The Times They Are a-Changin'”, datado de 23 de outubro de 1963, nunca havia sido editado, e só consta deste lançamento. É uma versão mais lenta, menos militante e mais introspectiva do hino que deu nome ao terceiro álbum de Bob.

Ps. 2: O box triplo “The Bootleg Series Vol. 8 – Tell Tale Signs” exibe três versões diferentes de “Mississipi”, todas das sessões “Time Out of Mind”. Adoro a versão 3, para mim, a com melhor vocal de Dylan, mas a 2 também é bem interessante, e as três soam bem diferentes do floreio que Bob acrescentou à versão final presente em “Love and Theft”. Esse box ainda traz versões ao vivo de “High Water (For Charley Patton)” (bem guitarreira e muito próxima da versão mostrada no Brasil em 2008) e “Lonesome Day Blues”.

Ps. 3: “Love and Theft” foi ainda mais longe do que “Time Out of Mind” nas paradas batendo na 5ª posição do ranking da Billboard. O álbum também ganhou um Grammy na categoria de Melhor Álbum Folk de 2001.

Especial Bob Dylan com Café

Abril 10, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 40: Royal Albert Hall

Bob Dylan com café, dia 40: A boa recepção e o sucesso do lançamento das “The Bootleg Series – Volumes 1/3” em 1991 abriu os olhos da Columbia Records para algo que pirateiros sabiam desde os anos 60: além de artisticamente revolucionário, o extenso material raro de Dylan era altamente vendável. Criou-se então uma divisão na gravadora para, arqueologicamente, pesquisar o acervo, e o primeiro lançamento que viria a tona seria a oficialização de um dos álbuns piratas mais famosos de todos os tempos, que começou a circular em vinil já no começo dos anos 70 com os nomes mais variados: “In 1966 There Was” (1970), “Royal Albert Hall Concert 1966” (1970), “Royal Albert Hall” (1971), entre dezenas de outros. A Columbia iria lança-lo pela primeira vez completo, e chegou a remasteriza-lo e a anunciar o projeto em 1995, mas decidiu engaveta-lo.

Como tudo que cerca a música de Dylan, a remasterização caiu nas mãos dos pirateiros, e novamente a festa se fez. A Columbia então retomou o projeto e, finalmente, em outubro de 1998 chegava às lojas num invólucro de luxo “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert”. Com um som muito melhorado e um livreto com fotos incríveis de época, um dos álbuns piratas mais desejados por fãs de Dylan em todo o mundo (Jimmy Page incluso) enfim via a luz do laser e a agulha do vinil de maneira oficial além de corrigir um equivoco: durante muito tempo pensou-se que o áudio desse show fosse o da apresentação no Royal Albert Hall em Londres, diante de toda realeza britânica, dos Beatles e dos Rolling Stones, mas, na verdade, era o áudio do show que ocorreu em Manchester, no Free Trade Hall, vulgo Royal Albert Hall, 10 dias antes. Vivendo no limite, constantemente chapado e parindo obras primas a cada minuto, Dylan passava por uma rotina traumática em seus shows da turnê de 1966.

A primeira parte da apresentação o trazia num set acústico, folk, solo. Já na segunda, Dylan subia ao palco eletrificado acompanhado pelos barulhentos Hawks, e era constantemente vaiado. O clima era tão tenso que havia boatos de gente armada no público pronta para alveja-lo durante o set elétrico. Extremamente simbólico, “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert” capta tudo isso em detalhes. Do silêncio respeitoso com que o público ouve na primeira parte versões absolutamente sublimes de “Visions of Johanna”, “Desolation Row”, “It’s All Over Now, Baby Blue” e “Just Like a Woman” ao início de caos assim que os Hawks disparam uma canção nunca gravada em estúdio por Dylan, “Tell Me, Momma”, que, segundo Jon Spencer, “isso é punk rock, cara”. Em “I Don’t Believe You”, Bob Dylan provoca: “A coisa costumava ser daquele jeito, mas agora é assim”. O público ri, nervosamente. A tensão só aumenta. Seguem-se, entre gritos da plateia, “Just Like Tom Thumb’s Blues” (“É possível sentir o gosto do suor e o cheiro do medo”, observa o biógrafo Brian Hinton), “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, “One Too Many Mornings” (“Que soa como o mais violento clássico local entre United e City”, compara Hinton) e uma raivosa “Ballad of a Thin Man” (“Há um monte de Mr. Jones na plateia, um deles provavelmente com uma faca. Ou com algo ainda mais perigoso”, suspeita o biógrafo).

O gesto final desta apresentação caótica e histórica não poderia ter sido mais simbólico: a banda está afinando os instrumentos, preparando-se para alçar voo no último número da noite sob o barulho de uma plateia inquieta, que berra coisas desconexas até que, enfim, uma voz se sobressai na multidão: “Judas!”, alguém claramente grita. Aplausos efusivos irrompem no teatro. “Não acredito em você”, diz Dylan ao microfone. “Você é um mentiroso”, completa. Ele então se vira para a banda e ordena: “Play fucking loud!!!”. E “Like a Rolling Stone” surge como o Apocalipse em oito minutos vorazes. O show termina entre vaias e aplausos. Não há pedidos de bis. Não haverá bis. De maneira surrealista, “Deus Salve a Rainha” ecoa no ambiente. Este show termina e, após ele, Dylan faria apenas mais cinco apresentações (as duas últimas no Royal Albert Hall londrino) e interromperia a turnê de maneira abrupta, devido a um acidente de moto. Traumatizado, ele só voltaria a fazer uma turnê 8 anos depois, em 1974. Primeiro registro oficial em áudio desse ano doido (o histórico registro em vídeo – acima – foi feito por  D.A Pennebaker, que havia filmado a turnê europeia de Dylan em 65 para o documentário “Don’t Look Back”, lançado em 1967, e acompanhado Dylan na turnê de 66 com as filmagens permanecendo inéditas até 2004, quando foram encontradas numa pilha de filmes danificados pela água recuperados do cofre de Dylan e inclusas no documentário “No Direction Home”, de Martin Scorsese), este show, posteriormente, ganhou relançamento no box completista “The 1966 Live Recordings”, lançado em 2016, com 36 CDs compilando 23 shows desta turnê que sacudiu a música moderna. Um clássico. Vá atrás!

Especial Bob Dylan com Café

 

Abril 8, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 39: Time Out of Mind

Bob Dylan com café, dia 39: Após o lançamento de seu “Unplugged MTv”, Dylan seguiu estrada afora com sua banda na Never Ending Tour. Foram 115 shows em 1995 e 84 em 1996, com uma pausa entre novembro e fevereiro de 1997. Naquele inverno nevado em sua fazenda no Minnesota, Bob escreveu uma série de novas canções que, segundo ele, partilhavam de um mesmo ceticismo: “São canções mais preocupadas com as realidades duras da vida do que com o idealismo cor-de-rosa e cintilante tão popular nos dias de hoje”. Após sete anos sem material inédito, Bob entrou em estúdio em janeiro de 1997 escudado por Daniel Lanois para esboçar os arranjos do novo material. Eles não trabalhavam juntos desde “Oh Mercy” (1989), e o clima no estúdio em muito lembrava aquelas sessões, com Dylan e Lanois discutindo intensamente sobre o rumo de cada uma das canções, num processo de queda de braço criativo que, normalmente, terminava no estacionamento, com Bob e Daniel argumentando suas ideias longe da banda. No início das sessões, Dylan mandou uma declaração por escrito à sua gravadora: “Antes de gravar essas músicas, Daniel e eu conversamos sobre elas, sobre como deveriam soar longas. A música em si possui um efeito tão potente quanto às letras, e isso é proposital. Trata-se de um álbum performático, não poético, literário. Sentimos a música, mais do que pensamos nela”.

As sessões aconteceram entre 13 e 28 de janeiro de 1997, e a banda tocava o novo material ao vivo cerca de 12 horas por dia – o bruto de canções inéditas gravadas renderia facilmente dois novos discos. Lanois seguiu na produção enquanto Dylan dizia: “Acho que esse novo disco pode ser chocante por sua aspereza”. Então em maio Bob foi diagnosticado com histoplasmose, uma micose sistêmica que afeta órgãos internos (principalmente pulmão) e é causada por um fungo transmitido por aves e morcegos. O homem cancelou dois meses de shows da Never Ending Tour e, por muito pouco, “Time Out of Mind” (1997) não foi um disco póstumo. Em agosto, porém, Dylan já estava recuperado e de volta à estrada, e o novo disco, lançado em setembro, receberia os maiores elogios da carreira de Dylan desde “Blood on The Tracks” (1975). As críticas variavam de “73 minutos de genialidade” a “Dylan em seu ápice criativo” e “o álbum se atreve a tratar de mortalidade e é chocante em sua amargura”. A definição do biografo Brian Hinton para a esplendorosa faixa de abertura, “Love Sick”, é tão primorosa quanto à música: “Soa como psicodelia desacelerada, ‘I Put A Spell On You’ tocada em um hospício”.

Outra boa definição de Brian: “A canção ‘Dirt Road Blues’ é como se Charley Patton tivesse vivido o bastante para gravar nos estúdios da Sun Records nos anos 50”. Em “Standing In The Doorway”, uma suavemente desesperada canção de abandono anestesiada por melancolia, Bob canta: “Eu sei que a misericórdia de Deus deve estar próxima”. Já “Million Miles” é um blues em marcha fúnebre enquanto “Tryin’ To Get To Heaven” inspirou uma das melhores canções de Marcelo Nova. Especialista em “emprestar” trechos de canções de outros artistas (muitas vezes canções inteiras), Bob incluso, ao ouvir esta canção, Nova titubeou: “Eu estava traduzindo ‘Tryin’ To Get To Heaven’, em que o Dylan diz que está tentando entrar no céu antes que fechem a porta, e fiquei dias pensando nisso até concluir: eu não quero entrar no céu. Daí surgiu a poderosa ‘A Balada do Perdedor’”. No r&b retrô “’Til I Fell In Love With You”, Dylan canta que sua casa está em chamas, e lamenta: “Achei que choveria, mas as nuvens passaram reto”. O primeiro anti-single do disco foi “Not Dark Yet”, uma fantasmagórica e maravilhosa canção sobre a desintegração de um relacionamento. “E, vamos ser sinceros, com tamanho deleite sobre sua própria amargura”, pontua Hilton. Para Emmylou Harris, essa é a melhor música já composta sobre… envelhecer. Calma, há mais: A próxima, “Cold Irons Bound”, ganhou o Grammy de 1998 como Melhor Performance Vocal Masculina (outros dois Grammys foram concedidos ao disco: Melhor Álbum do Ano e Melhor Álbum Folk), e Daniel Lanois dá um show colocando a voz de Dylan milésimos à frente dos instrumentos, rebeldes, nervosos, e tudo soa puro farrapo: “É tão triste ver a decadência da beleza”, canta Dylan, concluindo: “Mais triste ainda é sentir seu coração sendo arrancado”.

Com a banda na mesma pegada desconstruída, nervosamente jazzy & blues, “Can’t Wait” trata o amor como uma condenação. Para encerrar, a mais longa faixa cantada por Dylan em um álbum de estúdio, e assim que terminou a sessão de gravação de “Highlands”, um cara da gravadora perguntou: “Bob, você tem uma versão curta dessa canção?”. E Bob respondeu: “Essa é a versão curta!”. São 16 minutos e 32 segundos (e ele não estava brincando: há uma versão de 27 minutos dessa mesma canção!) de um blues lento que vai num crescendo suave enquanto Bob narra acontecimentos nonsense, como estar ouvindo Neil Young e ter “que aumentar o som”, ou estar em um restaurante em Boston sem ter ideia do que quer comer. É a típica canção interminável (Bob já fez várias dessas), em que o verso atual puxa um próximo verso e assim por diante, encerrando um álbum grandioso, marcado pela dor, pelo desamor e pelo envelhecimento. Sucesso de crítica e público, “Time Out of Mind” foi o primeiro álbum de Dylan no Top 10 dos mais vendidos da Billboard em quase 20 anos (o último havia sido “Slow Train Coming”, em 1979) e inaugura uma nova fase na carreira do bardo. Assim como “Oh Mercy”, Dylan, no entanto, não ficou tão satisfeito com o resultado da produção de Lanois (ou, como alguém certa vez escreveu – sobre “Chaos and Creation in the Backyard”, o último grande disco de Paul McCartney, produzido pelo genial Nigel Godrich: um bom produtor tira qualquer artista de sua zona de conforto, mas poucos grandes artistas estão dispostos a esse exercício de caos e criação), e passará a produzir ele mesmo seus futuros discos de estúdio.

Ps. Segundo o amigo @garrasverdes (do Selo 180) no Instagram:  “Em vinil, teve uma tiragem pequena na época do lançamento e ficou anos fora de catálogo. Custava uma fortuna. Mas a procura era tamanha que pintaram umas prensagens piratas (em vinil colorido/marmorizado). Alguns anos atrás o selo Music On Vinyl reeditou o LP duplo oficialmente”

Especial Bob Dylan com Café

 

Abril 6, 2018   No Comments