R.E.M. em Buenos Aires: “Satisfacción garantizada”

Novembro 2nd, 2008

 O R.E.M. tocou na noite de sábado fechando o Personal Fest, em Buenos Aires. Saiba como foi o show lendo o texto da Rolling Stone argentina (a foto acima é de Leo Liberman): http://www.rollingstone.com.ar/nota.asp?nota_id=1065855

E veja o set list:

Living Well Is The Best Revenge
I Took Your Name
What’s The Frequency Kenneth?
Drive
Driver 8
Man Sized Wreath
Ignoreland
Fall On Me
Electrolite
Imitation of Life
Hollow Man
Everybody Hurts
She Just Wants To Be Me
The One I Love
Night Swimming
Let Me In
Horse To Water
Bad Day
Orange Crush
It’s The End of The World As We Know It (And I Feel Fine)

Supernatural Superserious
Losing My Religion
Great Beyond
Man on the Moon

Falta pouco…

Novembro 1st, 2008

“Existem quatro ou cinco lembranças muito, muito difícies com as quais eu tenho que conviver hoje, da hora que acordo até de noite. Por mais que o sol brilhe lá fora, por mais música, alegria e riso que haja em casa. Uma dessas lembranças é esta: havia uma mulher, talvez uns dois ou três lugares à frente de mim, e ela estava com uma criança pequena, e ela não queria largar da criança. E ela também estava grávida. Todo mundo podia ver. Ela ficou de joelhos, implorando pela criança. Os nazistas pegaram aquela criança e a jogaram no chão e pisaram nela, e depois chutaram, com aquelas botas, a mãe grávida. Isso é algo que não dá para esquecer. É algo que não pode ser mostrado num filme ou na televisão. E, se mostrarem, não é real. É uma encenação, algo que ninguém acredita que pode acontecer de verdade.”

Ester Chichinski

Melhor respirar fundo. Eu passei mal pra caralho em Berlim, em julho. Um guia nos levou em vários “pontos turísticos” e nos deu uma aula de história alemã. No final do tour eu estava tremendamente enjoado. Enjoado por muitos motivos, mas o principal é que essas lembranças narradas acima por Ester flutuam no ar como a poluição e os pássaros. Faz parte da atmosfera, e eles precisam manter isso no ar - acredito eu - para que as novas gerações não cometam os mesmos erros, para que ninguém nunca se esqueça disso (como se fosse realmente possível).

Ester é irmã de Bill Graham, o homem que lançou Janis Joplin, Otis Redding, Cream e muitos outros, e profissionalizou uma arte até então capenga chamada rock and roll. Bill, de família judia, foi internado aos 8 anos em um orfanato ainda em Berlim, para fugir dos nazistas, depois mandado para Paris, Barcelona, Madri e, enfim, Estados Unidos, quando foi adotado e começou vida nova. Sua mãe, segundo Ester, não chegou a Auschwitz. “Injetaram gás dentro do próprio trem, e todo mundo morreu. O trem dela, junto com muitos outros, nunca chegou aos campos de concentração”. Ester chegou em Auschwitz no fim de 1943 e foi libertada em 19 ou 20 de abril de 1945.

O relato - e vários outros - integram a parte inicial de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, livro que está sendo lançado pela Editora Barracuda. Mais pra frente devemos ter histórias de bastidores do rock (Pete Townshend escreveu o prefácio, Keith Richards, Eric Clapton e Santana deram depoimentos), mas esse trecho inicial - que me lembrou o começo de “E o Resto É Loucura”, biografia de Billy Wider - é extremamente sufocante, tão sufocante que não páro de pensar nele desde ontem à tarde, quando comecei a devorar o livro. Das coisas que precisam ser ditas, sempre.

“O Fora”

Novembro 1st, 2008

A Wonkavision está disponibilizando para download “O Fora”, música de outubro, nos três links abaixo:

http://www.myspace.com/wonkavisionmusic
http://www.reverbnation.com/wonkavision
http://www.lastfm.com.br/music/Wonkavision

Tim Maia do Brasil

Outubro 30th, 2008

Ri muito durante as 385 páginas de “O Som e a Fúria de Tim Maia” (até devo ter ficado chapado em alguns momentos pela quantidade de baurets falada no livro), mas vou dizer que assim que cheguei no portão de casa, e entrei na última página, meus olhos marejaram. Sebastião merecia muito mais. Muito mais tudo.

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Próximo livro: “Bill Graham apresenta: Minha vida dentro e fora do rock” (Ed. Barracuda)

Curumin e Nina Becker

Outubro 30th, 2008

 

 Curumin na Galeria Olido

A Galeria Olido é um dos vários espaços bacanas do centro de São Paulo. Quando soube do show do Curumin, achei que ele seria num dos anfiteatros do local (em que vi um dos melhores shows do CSS alguns anos atrás), mas a produção “adotou” o espaço de aulas de dança de salão, com a Avenida São João ao fundo, numa imagem bonita e com um q de poesia.

Curumin encerrava sua temporada no local, e aproveitou para abrir o microfone para MCs, que improvisaram e mandaram o verbo para um bom público que se espalhava no local. Divulgando seu mais recente álbum, o excelente “Japan Pop Show”, o “Curumin Trio” (o próprio na bateria, mais um baixista e um programador) apresentou algumas canções do disco e nos intervalos abria espaço para a intervenção de DJs.

Os intervalos entre uma canção e outra quebraram o ritmo do show, que parecia mais um ensaio aberto com amigos – amplificado pelo clima descontraído do local – do que uma dita apresentação. As versões ao vivo das ótimas “Mal Estar Card”, “Compacto” e “Magrela Fever” credenciam um show completo de Curumin, que se apresenta no Planeta Terra 2008. Fique de olho.

Nina Becker no Studio SP

A responsabilidade não era pouca. Acompanhada pelo grupo DoAmor, a cantora Nina Becker iria cantar as canções do álbum “Build Up”, de Rita Lee – seguindo o tracking list original do álbum. Lançado em 1970, com orquestrações do maestro Rogério Duprat e produção do então marido Arnaldo Baptista, a estréia solo de Rita Lee – ela ainda fazia parte do’s Mutantes – é um clássico do rock brasileiro.

Com um Studio SP recebendo um púbico excelente para o horário, a noite começou com Nina se desculpando pela falta de voz devido a uma gripe repentina, que chegou a atrapalhar a interpretação de algumas canções que exigiam mais do vocal (como “Hulla-Hulla”, “Calma” e “Viagem Ao Fundo de Mim”), mas a experiência funcionou bastante, com o grupo DoAmor surpreendendo nos arranjos e o público cantando boa parte das canções.

“Sucesso, Aqui Vou Eu (Build Up)”, “Eu Vou Me Salvar” e, principalmente, a dobradinha “Macarrão Com Linguiça E Pimentão” e “And I Love Him” foram os grandes momentos da noite, que pelo sucesso de público merece novas exibições (até que para grupo e cantora sintam-se mais à vontade com o repertório e a apresentação cresça em qualidade e profundidade). Que venham outras noites como essa.

Fotos: S&Y/Marcelo Costa (http://flickr.com/people/maccosta)

Leia mais:
- “Japan Pop Show”, de Curumin, por Marcelo Costa (aqui)

Três coisas rápidas

Outubro 29th, 2008

“Loki”, documentário sobre Arnando Baptista, têm mais uma exibição na Mostra de Sâo Paulo neste sábado, 21h30, no Cine Bombril. Se eu fosse você, dormia na bilheteria. É sério.

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Pérolas do ENEM 2008. O tema da redação foi Aquecimento Global e fica a pergunta: será que esse país tem “geito”/”conçerto”?

“Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna.”

“O que vamos deixar para nossos antecedentes?”

“A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu.”

“Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia.”

“O problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta.”

(leia mais aqui)

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A primeira canção do EP produzido por Ivan Santos (vocalista da banda curitibana OAEOZ) e Giancarlo Rufatto está disponível no My Space. Escrita por Ivan e cantada por Giancarlo, “Deserto” recebeu um arranjo complemente diferente da versão original presente no disco “Ao vivo na Grande Garagem que Grava” do OAEOZ. O EP será disponibilizado em breve pela De Inverno Records. Ouça “Deserto” no link abaixo:

http://www.myspace.com/giancarlorufatto

Mostra SP: “Loki - Arnaldo Baptista”

Outubro 29th, 2008

“Loki”, de Paulo Henrique Fontenelle - Cotação 5/5

Nas ruas de Londres, um fã (aparentemente) britânico pára Arnaldo Baptista e começa um discurso emocionado que enaltece a grandiosidade do’s Mutantes, grupo que Arnaldo formou com seu irmão Sérgio e, aquela que viria a ser sua primeira namorada e mulher, Rita Lee. Na seqüência, um brasileiro passa por Arnaldo, caminha uns dez passos e volta gritando: “Mutantes, porra, você é foda demais”. A palavra é exatamente essa: Arnaldo Baptista é foda demais.

“Loki”, documentário emocional de Paulo Henrique Fontenelle, lança luz com devoção sobre a carreira do homem responsável por uma das maiores – se não a maior – e mais geniais formações de rock do lado debaixo do Equador. Fontenelle busca amigos, parceiros e produtores que abrem o coração para a câmera detalhando histórias e causos da vida de Arnaldo Baptista. Mais: resgata imagens raríssimas de época, trechos de entrevistas e aparições em TV que soam como pepitas de ouro visuais que dão um colorido especial ao passado.

O filme começa com um amigo de escola, Raphael Villardi, que lembra o momento em que Arnaldo comprou um baixo e decidiu formar um grupo de rock. Estava criado O’Seis, grupo que viria a ser um dos embriões do’s Mutantes. Daí em diante entra em cena a Tropicália, os grandes festivais da Record, raras entrevistas e a viagem para a Europa que rendeu a gravação do álbum “Technicolor”, gravado em 1970 e lançado apenas em 2000.

Em um dos trechos mais tocantes da película, Arnaldo comenta sobre a relação com Rita Lee, o casamento e a separação, pede desculpas e assume que não pôde dar a atenção que ela merecia naquele momento. Dinho (baterista) e Liminha (baixo) relembram – emocionados – o dia em que Rita avisou que estava pulando fora do barco. “Eu sai para fora da casa do Arnaldo e comecei a chorar”, conta Liminha. “Era o fim”, sentencia Dinho (de olhos marejados). Não foi ao menos por um tempo, enquanto Arnaldo segurou a formação ao lado de Sérgio.

O irmão é outro que dá a cara a bater no filme. “Ele saiu e eu fiquei com os Mutantes, e eu não sabia o que fazer. Eu estava perdido e segui com a banda porque era o que eu achava que tinha que fazer”, desabafa o guitarrista, que em um dos momentos mais intensos do documentário culpa a imprensa, os amigos e a si mesmo pela falta de tato com o irmão. “Ele é um gênio e a imprensa… e as pessoas ficavam falando coisas que confundiram e atrapalharam ele. São todos uns cretinos. E eu também sou um cretino por não conseguir entende-lo e quero pedir desculpas publicamente por isso”, diz Sérgio.

Após sua saída do’s Mutantes, Arnaldo lançou seu primeiro disco solo, “Loki”, que dá título ao filme e é considerado por muitos como um dos dez maiores álbuns da música popular brasileiro, um flagrante de sofrimento e dor que impressiona e comove por sua sinceridade. A partir daí, ele segue com projetos paralelos com a banda Patrulha do Espaço (registros lançados no ótimo álbum “O Elo Perdido”) até lançar o segundo álbum solo, “Singin Alone”, em 1980, e caminhar até a janela do Hospital do Servidor Publico, em São Paulo, quebrar o vidro e pular do terceiro andar atirando-se numa tentativa de suicídio.

O resultado do vôo: sete costelas fraturadas, várias lesões pelo corpo e dois edemas: um cerebral – seríssimo – e um pulmonar. O músico ficou quase dois meses em estado de coma, e quando retornou a si, precisou de mais dois meses para se recuperar (a traqueotomia a que fora submetido afetara suas cordas vocais alterando seu timbre de voz). Amparado por Lucinha Barbosa, Arnaldo renasceu e foi morar em Juiz de Fora, em Minas Gerais, afastado da mídia e do público em busca de paz. De lá pra cá aparições esporádicas em pequenos shows em São Paulo e no Free Jazz Festival, ao lado de Sean Lennon, fã confesso do’s Mutantes, até o álbum “Let It Bed” em 2004 e a reunião consagradora do grupo em 2007.

“Loki” é um dos daqueles documentários que vangloriam o cinebiografado, mas exibe uma sinceridade tão tocável que anula qualquer comentário contrário a sua imensa qualidade. Rita Lee não topou dar entrevistas para o filme, mas liberou o uso de suas imagens. Bancado pelo canal fechado TV Brasil, “Loki” terá raras e esparsas exibições nos cinemas (em sessões especiais e festivais ao redor do país) até estrear definitivamente na telinha. Uma pena. “Loki” é daqueles filmes que deveriam ficar semanas e semanas em cartaz com grande divulgação e grande público em uma telona. Fique atento e não perca a oportunidade de assisti-lo. 

Rodada dupla nesta quarta (e gratuita)

Outubro 28th, 2008

Curumin gratuito às 19h na Galeria Olido e Nina Becker cantando “Build Up”, o primeiro disco solo de Rita Lee (produzido por Arnaldo Baptista), às 21h no Studio SP, também gratuito. Programão!

Promos de livros

Outubro 28th, 2008

A Gabi me avisou, e é legal repassar:

De zero hora às 23H59 de hoje, 28 de outubro, terça-feira, todos os itens da loja eletrônica da Cosac Naify têm 50% de desconto. Aqui:

http://www.cosacnaify.com.br/promocao.asp?language=pt

E vale repetir que os livros da obrigória coleção “Iê, Iê, Iê”, da Conrad, estão esperando os incautos. A Conrad está fazendo uma promoção excelente com o pacote de quatro volumes da coleção Iê, Iê, Iê, que conta com os livros “Reações Psicóticas”, de Lester Bangs, “A Última Transmissão”, de Greil Marcus, “Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches e “Beijar o Céu”, de Simon Reynolds, os quatro livros por R$ 47 (R$ 11,75 cada um, uma bagatela!).

http://www.lojaconrad.com.br/produto.asp?id=832

“Macao”, Jards Macalé

Outubro 28th, 2008

É sintomático que Jards Macalé, Macao para os amigos, abra o décimo disco de sua carreira – de quase 40 anos de janela – com “Farinha do Desprezo”, parceria com Capinan circa 68/69 que abriu seu primeiro disco, homônimo, em 1973. Agora, mais ainda, os versos “já comi muito da farinha do desprezo / não, não me diga mais que é cedo / (…) Só vou comer agora da farinha do desejo” soam fortes e emblemáticos. Para uma versão a altura da original (que conta com Lanny Gordin e Tutty Moreno), Macalé sobrepôs quatro violões rebeldes – todos tocados por ele mesmo – e concentrou-se em uma interpretação arrepiante.

Na segunda faixa, “Boneca Semiótica” (gravada originalmente no segundo álbum de Macalé, “Aprendendo a Nadar”, de 1974), Jards incorpora à melodia de seus violões um sampler da orquestração de Wagner Tiso para a versão original, e ainda programação, prato e garfo, produção, mix e sampler do pessoal do Laptop&Violão, que atualizou a canção (que já era mais 2000 que 1970) de forma interessante (e com uma interpretação mais comovente). “O Engenho de Dentro”, parceria esquecida com Abel Silva, é uma das três canções inéditas de “Macao”, um samba que lembra Paulinho da Viola e destaca um bonito solo de flauta de Dirceu Leite.

“Se Você Quiser” (outra inédita, parceria com Xico Chaves) é um delicioso maxixe que Jards Macalé chama de “samba de berço” e segue o clima de “O Engenho de Dentro”. Já “Balada”, parceria com Ana de Hollanda, tem sotaque jazzy, com o clarinete e o baixo lembrando algo da bela trilha dos “Saltimbancos Trapalhões”, numa letra que procura encorajar novos compositores. “The Archaic Lonely Star Blues” havia sido gravada por Gal Costa no álbum “Legal” (1970), e tem seu primeiro registro na voz do autor numa belíssima versão meio jazz, meio bossa, meio samba-canção.  

Entre os homenageados estão Jacques Brel numa versão voz e piano – e em francês – de “Ne Me Quitte Pas”; Lupicinio Rodrigues comparece cedendo a sua “Um Favor” numa versão voz e violões; Tom Jobim, de quem regravou o clássico “Corcovado” (dedicada à Johnny Alf no encarte); Paulo Vanzolini (e São Paulo – “pelo bem que a cidade me fez e nos faz”) na sublime versão de “Ronda”; e, por fim, Luiz Melodia, com “Só Assumo Só”, faixa que mais lembra o Macalé dos shows atuais, engolindo sílabas, violão dissonante em punho cujas notas ásperas acariciam a audição, emoção a flor da pele em uma letra riquíssima de imagens.

A idéia de Jards para “Macao” era gravar tudo voz e violão, mas ele acabou agregando outros instrumentos conforme as gravações corriam (apenas quatro faixas do álbum seguiram a idéia original). No encarte, ele se explica (e se desculpa sem se desculpar): “Neste disco, quanto mais buscava a perfeição, a voz e (principalmente) o violão sibilava, rosnavam; as cordas ruidavam entre o metal, o nylon e a madeira. Me lembrei de Baden Powell e Nelson Cavaquinho que não tinham pudor do ruído. Achei que a perfeição só existe quando você tenta aperfeiçoar o imperfeito… em vão. Deixei como está: humano”. A humanidade da interpretação de Jards Macalé encanta e crava no peito a verdade absoluta do violão: a beleza está nos ruídos.

“Macao”, Jards Macalé (Biscoito Fino)
Preço em média: R$ 30
Nota: 9