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10 discos favoritos em 10 dias: Dia 9

O pequeno Martín só chega em dezembro, mas já começou a mudar não só a rotina da casa, como também a própria casa. Na busca por criar um ambiente especial para ele, mudamos o toca-discos que ficava no “quartinho” (que será dele) para a sala, e isso alterou radicalmente a rotina de ouvir música em casa, pois o vinil voltou a ser inserido no dia-a-dia (Lili agora chega à noite, deita no sofá com Martín na barriga e fica ouvindo discos), já que antes, com o toca-discos no quarto, eventualmente ouvíamos vinil lá (eu sempre mantive um toca-discos fuleiro – tipo Crosley – do lado do computador pra ouvir algum material que chega ou matar a saudade de algo que não se encontra na rede). Dai que nesse exercício de escolher 10 discos favoritos (atendendo a um convite do Otávio), eu quis fugir dos discos óbvios evitando falar, mais uma vez, de The Clash, Echo and The Bunnymen, R.E.M., Pixies e Wilco, por exemplo, e centrando foco em discos e artistas que eu amo, mas que na maioria das vezes não tem o devido respeito que merecem.

Como é o caso do grupo carioca João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, que lançou cinco discos fenomenais nos anos 80 (que, juntos, devem ter vendido quase 1 milhão de cópias), cravou no mínimo uns 10 grandes hits em rádios nacionais (e em novelas da Globo), mas tem quase nada de sua discografia encontrável em streaming, o formato “da moda” (apenas a coleta “Hot 20”, lançada em 2000, encontra-se online, sendo que das 20 músicas, só 12 estão disponíveis). O disco de estreia deles, “Os Maiores Sucessos de João Penca & Seus Miquinhos Amestrados”, foi lançado em 1983 pela RCA e vendeu 100 mil cópias no embalo do sucesso da paródia “Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)”, cantada no álbum por Ney Matogrosso.

Eles entraram na minha vida, porém, com o segundo álbum, “Okay My Gay” (1986), que traz um caminhão de hits (“Popstar”, “Lágrimas de Crocodilo”, “Romance em Alto Mar” e “Universotário”, que traz Lulu Santos, um Miquinho eventual, na guitarra solo) e outras faixas que mereciam ter sido (a versão de “Heartbreak Hotel”, vertida para “Cachet”, e a atualização da jovemguardiana “Festa de Arromba” para “Lual de Arromba” é um achado: “E de sarongue, Gretchen botava lenha na fogueira / Não dava bola pro Lobão falando pelos cotovelos… a noite inteira”). E ainda tem “Escrava Sexual” e “Menino Prodígio”. Esse álbum vendeu 250 mil cópias no ano do Cruzado.

“Além da Alienação” (1988), o terceiro álbum, é meu menos favorito deles, e mesmo assim muitas faixas ecoaram no meu quartinho em Taubaté, principalmente “A Louca do Humaitá”, o single “Banana Split” e “Jazz Jazz”. Dai surge meu álbum favorito deles, “Sucessos do Inconsciente”, que cravou nas rádios “Matinê no Rian” (com participação de Paula Toller) e, principalmente, “S.O.S. Miquinhos”, um “merdley” que sacaneava praticamente toda a Jovem Guarda, mas na parada de casa foi praticamente o disco todo número 1: “Menino Justiceiro”, “Larga Meu Pé”, “A Surra”, “O Par”, “O Velho Tubarão”, “Johnny Pirou” e “Cozinho de Noite” estão mais no meu inconsciente do que muitos hits massivos daquele final de década.

O disco derradeiro, “Cem Anos de Rock’n Roll” (1990), repetiu o êxito dos álbuns anteriores (com os hits: “Papa Umama”, “Suga Suga”, “Esse Meu Cabelo Rock”) e inclui mais algumas faixas no meu “the best” pessoal da banda (“Ma Beibe, Beibe” e “O Bom e Velho Rock and Roll”). Passei a década final do século passado indo e voltando aos discos do Miquinhos, e quando o novo século surgiu, tratei de gravar um CDR com mais 25 músicas que não estavam na coletânea “Hot 20” (lançada em 2000) para deixar a mão quando a saudade batesse. Curiosamente, nunca os vi ao vivo (uma resenha antiga na revista Bizz era só elogios). A banda ficou inativa quase todos os anos 90 e voltou para shows esporádicos em 2007, pendurando a chuteira logo na sequencia. Porém, ainda hoje eles soam rockabilly, doo-wop e surf music para ouvir, dançar e se divertir (e os vinis são bem encontráveis por ai! Procure!).

10 discos favoritos

agosto 22, 2018   Encha o copo

Dylan com café, dia 78: Shadows

O ano de 2015 foi aberto com um novo álbum de Bob, seu 36º disco, e muitos se surpreenderam com a escolha inusitada do artista em revisitar, com seu fio rarefeito de voz, o repertório de canções de amor e abandono interpretadas pelo vozeirão de Frank Sinatra na virada dos anos 1950 para os 1960. As pistas, porém, já vinham sido deixadas pelo caminho, do disco de covers natalinas de 2009 (“Christmas in the Heart”) a integra enfim reeditada das Basement Tapes em 2014, oficializando também dezenas de covers das sessões no porão da Big Pink com a The Band em 1967. Isso sem contar que em todas as entrevistas no novo século, Dylan sempre afirmava que só ouvia “música antiga” (muitas delas recriadas e transformadas em “novas” nos discos “Modern Times” e “Love and Theft”, um titulo apropriado), mas regravar Frank Sinatra era o tipo de ousadia inesperada que surpreendeu a todos.

Gravando ao vivo em dois, máximo de três takes com sua banda no mesmo estúdio em que Sinatra registrou a maioria dessas canções (o Studio B da Capitol Records, no coração de Hollywood), Dylan registrou 23 canções, das quais 10 foram selecionadas para o álbum “Shadows In The Night” que, segundo Bob, visava retirar essas canções da sepultura e traze-las a vida novamente. Segundo o engenheiro de som Al Schmitt, Bob chegava ao estúdio com a banda, e ouvia a canção que iria regravar várias vezes até descobrir a maneira de fazer com que a canção soasse… nova. O resultado final é um álbum bonito que “mesmo quando vacila, mantém seu humor singular: apaixonado, assombrado, suspenso entre um presente inconsolável e todos os arrependimentos do passado”, segundo definição de Jon Pareles no New Tork Times. O crítico David Fricke, da Rolling Stone, achou o disco “noir” enquanto Stephen M. Deusner, no Pitchfork, escreveu que “o canto de Dylan é persuasivo sem ser excessivamente reverente”.

No Scream & Yell, Gabriel Innocentini definiu: “Esse é o mais recente exemplo de que ele é um dos artistas mais autoconscientes a surgir no universo popular”. Pessoalmente, acredito que é um disco bonito que, porém, tende a ser esquecido rapidamente, funcionando mais como um exercício de lembrança momentânea que o próprio tempo se encarrega de eclipsar – não a toa, na época do lançamento do disco em 2015, entre cinco e sete canções entraram no set list da Never Ending Tour (em meio a “Blowin’ in the Wind”, “Love Sick” e “Tangled Up in Blue”), sendo que hoje, três anos depois (e mais quatro discos de covers depois, temas dos próximos cafés) um ou outra aparece tímida no set – importante ressaltar que Bob manteve um belo registro vocal ao vivo, ainda que mais para Tom Waits que para Sinatra (como você pode ouvir no bootleg abaixo). Ainda assim, sucesso de vendas (número 7 na Billboard e 1 na parada inglesa transformando Dylan no campeão de vendas mais velho a alcançar o topo), “Shadows In The Night” era apenas a ponta do iceberg. Calma que vem mais…

Especial Bob Dylan com Café

agosto 21, 2018   Encha o copo

Dylan com café, dia 77: Basement Complete

Sempre pairou uma magia mística sobre as “Basement Tapes”, as fitas gravadas das sessões de Bob Dylan na companhia da The Band tocando no porão de uma casa rosa entre junho e outubro de 1967, um ano após Bob sofrer um acidente de moto e tirar férias das turnês até 1974. O primeiro a desdizer essa mística foi o próprio Robbie Robertson: “As sessões foram feitas com bom humor. Era algo entre o ultrajante e o cômico. Foi um tanto irritante quando as músicas começaram a ser pirateadas. Lançamos o disco (em 1975) na base do ‘já que estão documentando isso, que seja em boa qualidade’”. Do outro lado, o crítico Greil Marcus dizia que “certas linhagens fundamentais da linguagem cultural americana foram resgatadas e reinventadas” naquelas sessões. Hummm.

Veja bem, o material era de qualidade tão duvidosa que ao selecionar canções para o álbum duplo lançado em 1975, Robbie incluiu oito canções da The Band entre as 24 faixas, quatro delas nem gravadas no porão da Big Pink, para tentar levantar a qualidade do álbum. Em seu texto na The New Yorker em 1999, Alex Ross dava a real: “Dylan estava farto do papel de messias e produziu dezenas de números dolorosos da velha escola (no porão da Big Pink)”. Dúvidas? Em novembro de 2014, dentro das Bootleg Series, a Columbia Records enfim liberou a integra das sessões totalizando 138 músicas divididas em seis CDs, e como bem definiu a crítica de Sasha Frere-Jones na The New Yorker, “para cada momento de revelação há cinco descartáveis”.

Ou seja, é possível dizer que existem no máximo uns 25 números que realmente interessam neste compêndio, o que lança luz muito mais sobre os exageros da crítica da época do que, necessariamente, sobre o próprio material, já que Dylan & The Band não o estavam gravando com a finalidade de lança-lo, e sim de registrar demos para serem oferecidas a outros artistas e se divertirem destroçando clássicos do rock e do folk (de John Lee Hooker a Johnny Cash, de Hank Williams e Pete Seeger a Curtis Mayfield). Observado e ouvido com distanciamento, “The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete” é um passatempo interessante (principalmente para Dylan e a The Band). Criticamente não deve nem ser levado em consideração, pois não exibe um milésimo da genialidade pré (“Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”) e pós (“Blood on The Tracks”) “Basement Tapes”. São alguns grandes músicos se divertindo num porão. E só. Divirta-se também, mas sem exageros (de preferência seguindo esse faixa a faixa esclarecedor publicado no site oficial de Dylan em 2014).

Especial Bob Dylan com Café

agosto 20, 2018   Encha o copo

10 discos favoritos em 10 dias: Dia 8

Quando o Scream & Yell surgiu online, no segundo semestre de 2000, eu ouvia alt country no café da manhã, no almoço e no jantar, muito por “Being There” (1996) e “Summerteeth” (1999), que eu tinha “descoberto” juntos no final do século. Comecei a ir atrás de outras coisas, e logo cheguei primeiro ao bonito “Strangers Almanac” (1997) e depois a “Faithless Street” (1995), os dois discos de estúdio do Whiskeytown, e consequentemente ao maravilhoso “Heartbreaker” (2000), estreia solo de Ryan Adams, que seria um dos grandes nomes de 2001 com o álbum “Gold”. Quando “Love is Hell” (2004) voltou a me fazer prestar atenção em Ryan Adams, junto a ele veio este “Pneumonia”, e fiquei “doente” novamente. Gravado em uma antiga igreja em Woodstock convertida em estúdio (o Dreamland) em 1999 por Ethan Johns (filho da lenda Glyn Johns, que ainda produziria os dois primeiros solos de Ryan), “Pneumonia” foi engavetado assim que a gravadora Outpost Records deixou de existir em meio à fusão das majors Polygram e Universal. Após dois discos elogiados, mas de vendagem tímida, o Whiskeytown queria fugir do gueto alt country produzindo um disco duplo de pop songs clássicas que os distanciasse da combinação Uncle Tupelo + Replacements (principalmente do disco de estreia). Com Ryan Adams no piano, a entrada do multi-instrumentista Mike Daly na banda (que divide 7 das 15 canções do álbum com Ryan) e participações de James Iha (Smashing Pumpkins) e Tommy Stinson (Replacements), “Pneumonia” flagra um Whiskeytown já despedaçado (só dois integrantes da formação original permaneceram após a malfadada turnê de divulgação de “Strangers Almanac”: Ryan e Caitlin Cary) que começava a abrir caminho para a carreira solo de Adams num disco pungente e melancólico cujo titulo buscava algo que simbolizasse se apaixonar e sucumbir ao amor. Lançado em 2001 (a banda havia terminado em 1999) como uma esquenta (que passou meio batido) para o segundo solo de Ryan, o platinado “Gold”, este “Pneumonia” merecia sorte melhor, mas resiste brilhantemente à passagem do tempo com faixas bonitas como “Don’t Be Sad”, “Crazy About You”, “Mirror Mirror”, “Don’t Wanna Know Why”, a havaiana “Paper Moon” e a baladaça “What the Devil Wanted” partindo corações.

10 discos favoritos

 

agosto 19, 2018   Encha o copo

Dylan com café, dia 76: World Tours

O mundo das biografias não autorizadas populares é, na maioria dos casos, um ambiente de extrema pilantragem e canalhice em que um determinado autor reúne algumas entrevistas “bombásticas” de dois tipos de pessoas: gente que no máximo cruzou a mesma rua que o biografado, quando muito, e familiares e amigos que entram nessa pelo dinheiro, afinal, se o biografado é rico e famoso, qual o problema de se ganhar alguns trocados nas costas dele, não é mesmo.

Este “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” (2005) também é pilantragem, mas é diferente das outras porque parece feito de coração. É sério. O diretor Joel Gilbert se vangloria de ter a melhor banda cover de Bob Dylan do mundo, a Highway 61 Revisited, e centrou o foco de seu documentário no fotógrafo Barry Feinstein, que acompanhou Dylan em seu início de carreira e em suas duas maiores turnês mundiais, além de ser responsável por fotos clássicas tais como todas deste post além das capas dos álbuns “Freewheelin” (1962), “The Times They Are A Changin‘” (1963) e “No Direction Home”, trilha sonora do documentário de Martin Scorsese.

Como já comentando por aqui, a famosa turnê de Bob Dylan em 1966 (que culminou no grito de “Judas” vindo da plateia durante um show em Manchester, na Inglaterra, flagrado no álbum “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert”, lançado em 1998) o trazia pela primeira vez alternando um set acústico, para deleite dos antigos fãs, com um barulhento set elétrico (acompanhado pela futura The Band), uma heresia que deixava algumas pessoas tão transtornadas que princípios de confusão sempre aconteciam nessa parte da apresentação. A turnê terminou abruptamente após um acidente de moto de Dylan, e, traumatizado, ele aproveitou para tirar 8 anos de férias das turnês, só retornando em 1974.

Buscando mapear esse período, “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” traz entrevistas com o cineasta D. A. Pennebaker (diretor do obrigatório “Don’t Look Back”, documentário oficial da turnê de 1966), do jornalista Al Aronowitz (que apresentou Dylan aos Beatles), e de A. J. Weberman, o cara que remexia o lixo de Dylan nos anos 70, foi processado pelo músico, e está criando um dicionário para se entender Bob Dylan. No fim das contas, vale pelas excelentes fotos de Barry Feinstein, pela cara-de-pau de Joel Gilbert e por trechos impagáveis, como a reconstituição do (suposto) acidente de moto que afastou Dylan das turnês e da mídia em 1966.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 16, 2018   Encha o copo

10 discos favoritos em 10 dias: Dia 7

Acho que os portugueses do Deolinda foram a minha última paixão musical avassaladora. A primeira vez que ouvir falar deles foi quando o amigo e jornalista lisboeta Pedro Salgado resenhou o show que o grupo fez em 2011 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para o Scream & Yell. Ler a emoção do Pedro presenciando este concerto de 25 canções, que seria lançado numa versão luxuosa em CD duplo e DVD (no centro da foto), me fez ir atrás do som desses tugas. Comecei a pesquisar mais e quanto mais lia, mais me apaixonava por essa banda que havia surgido nos intensos anos de crise econômica portuguesa, e que tinha algumas de suas músicas entoadas por manifestantes em passeatas contra o governo (notadamente os hinos “Um Contra o Outro” com seu refrão instigante – “Sai de casa e vem comigo para a rua” – e, principalmente, “Movimento Perpetuo Associativo” além de “Parva Que Sou”, inédita presente no disco ao vivo).

A popissima “Mal por Mal”, que abre o disco de estreia (“Canção ao Lado”, de 2008) virou o primeiro hit deles em casa, e depois vieram “Fon Fon Fon”, “Movimento” e a maravilhosa “Garçonete na Casa de Fado” (um dos grandes momentos das duas passagens deles pelo Brasil, São Paulo em 2013, Rio em 2016) mais algumas pérolas do segundo disco, “Dois Selos e Um Carimbo” (2010), notadamente mais “português” (e basta ouvir a hilária “A Problemática Colocação de um Mastro” para entender). Por volta dessa época (2011/2012) eu já tinha criado um elo de ligação pessoal entre uma das bandas que mais amo no Brasil, o Pato Fu, com o Deolinda, duas bandas com compositores letristas brilhantes (Pedro da Silva Martins e John Ulhoa) que escrevem letras com sacadas humoradas geniais que encontraram em duas mulheres poderosas a melhor maneira de passar a mensagem (Ana Bacalhau e Fernanda Takai).

Os discos seguintes do Deolinda, aguardados da mesma maneira que eu aguardava um disco novo da Legião nos anos 80, apenas corroboraram a genialidade do quarteto: “Mundo Pequenino” (2013) é um disco menos tuga e mais mundial, e traz consigo talvez as melhores letras da banda: “Concordância” (“Sou um sujeito, procuro um verbo e um bom complemento direto / Quero frases afirmativas e não viver em voz passiva”, crava Ana no refrão), “Gente Torta”, as brilhantes “Há de Passar” (“Tenho vontade de dizer aquilo que penso, mas tenho medo / Tenho vontade de exigir o que mereço, mas nem me atrevo”), os hits “Musiquinha” e “Seja Agora”, as divertidas “Doidos” (se Lou Reed tivesse gravado “Goodnight Ladies” em Sintra ela soaria assim) e “Semáforo da João XXI” (que narra o romance inevitável entre uma garota que ouvia Bach e um garoto que ouvia The Clash) e, minha favorita, “Pois Foi” (e vale assistir ao vídeo que o Bruno Capelas fez do show em São Paulo para sacar a beleza da letra e da interpretação de Ana – assim como ler a entrevista que ele fez com a banda em 2013).

No disco seguinte, a banda pisou no freio, e lançou o seu “Daqui pro Futuro” (o disco de 2007 do Pato Fu, e não impressiona a coincidência das duas vocalistas estarem gestando um bebê durante as gravações), o delicado “Outras Histórias” (2016), que me cativou ainda mais (e ganhou uma posterior edição deluxe dupla) tornando-os um dos cinco artistas que mais ouvi nos últimos cinco anos, segundo minha LastFM (à frente deles apenas Manics, Bruce Springsteen, Wilco e Dylan) e meu disco favorito deles hoje em dia. Em 2017, após 10 anos de atividades, o grupo anunciou uma pausa na carreira. Ana Bacalhau saiu em carreira solo e os outros músicos se envolveram em outros projetos. E enquanto eles não voltam, você tem tempo de se apaixonar por estes quatro discos… como eu me apaixonei sete anos atrás. Arrisque.

10 discos favoritos

agosto 16, 2018   Encha o copo

25 discos 2018 da APCA e 10 meus

O jornalista Pedro Antunes divulgou em sua coluna no Estadão, hoje, a lista dos 25 discos do primeiro semestre de 2018 para os votantes da cadeira de música popular da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Assim como no ano passado, a votação da APCA em Música será dividida em duas fases: na primeira, os votantes Alexandre MatiasJosé Norberto FleschLucas BrêdaMarcelo Costa e Roberta Martinelli debatem e apontam os 25 discos do primeiro semestre. Em novembro, o juri aponta os 25 discos do segundo semestre, e estes 50 vão para a reunião final que apontará o disco do ano na opinião dos críticos de música da associação – além de outras categorias como artista do ano, revelação, show e projeto especial, entre outros (confira os vencedores do ano passado).

Para a lista deste primeiro semestre foram selecionados pelos cinco votantes 109 álbuns relevantes na opinião dos jurados. Cada um dos cinco votou em 25 discos, e o primeiro corte da lista caiu para 40 álbuns. Dai em diante, através de muito debate, o juri chegou ao consenso dos 25 discos escolhidos pelo grupo no primeiro semestre (apresentados abaixo em ordem alfabética!). No total são 8 discos independentes (bancados pelos próprios artistas, e ai se inclui Cordel e Rashid, que são selos deles mesmos), dois de majors (um da Universal, outro da Warner), três de selos médios (Deck, SLAP e Som Livre) e vários selos independentes, com destaque para dois discos do Selo Risco, dois da EAEO e dois da YB. Confira!

TOP 25 – PRIMEIRO SEMESTRE 2018
01. Almir Sater & Renato Teixeira – + AR (Universal Music)
02. André Abujamra – Omindá (Independente)
03. Anelis Assumpção – Taurina (Pomm_elo / Scubidu)
04. Autoramas – Libido (Hearts Bleed Blue)
05. Ava Rocha – Trança (Circus)
06. Cólera – Acorde! Acorde! Acorde! (EAEO Records)
07. Cordel do Fogo Encantado – Viagem ao Coração do Sol (Fogo Encantado)
08. Craca e Dani Nega – O Desmanche (Independente)
09. Dingo Bells – Todo Mundo Vai Mudar (Dingo Bells / Natura Musical)
10. Djonga – O Menino Que Queria Ser Deus (CEIA Ent.)
11. Elza Soares – Deus É Mulher (DeckDisc)
12. Erasmo Carlos – Amor É Isso (Som Livre)
13. Gui Amabis – Miopia (Independente)
14. Iza – Dona de Mim (Warner)
15. Jonas Sá – Puber (Selo Risco)
16. Juliano Gauche – Afastamento (EAEO Records)
17. Kassin – Relax (LAB 344)
18. Malu Maria – Diamantes na Pista (Independente)
19. Marcelo Cabral – Motor (YB Music)
20. Maria Beraldo – Cavala (Selo Risco)
21. Maurício Pereira – Outono No Sudeste (Independente)
22. Rashid – Crise (Foco na Missão)
23. Romulo Fróes – O Disco das Horas (YB Music)
24. Silva – Brasileiro (SLAP)
25. Wado – Precariado (Independente)

E como a produção musical do primeiro semestre foi excelente, deixo abaixo 10 discos favoritos pessoais meus que merecem atenção (mesmo não estando na lista acima):

MAIS 10 DO PRIMEIRO SEMESTRE (MAC)
01. Arnaldo Antunes – RSTUVXZ (Rosa Celeste)
02. Duda Beat – Sinto Muito (Independente)
03. Lestics – Breu (Independente)
04. Manoel Magalhães – Consertos em Geral (Independente)
05. Marcelo Perdido – Brasa (Independente)
06. Maria Bacana – A vida boa… (Independente)
07. Moons – Thinking Out Loud (Balaclava Records)
08. Poty – Percepção (Independente)
09. Ronei Jorge – Entrevista (Independente)
10. Titãs – Doze Flores Amarelas (Universal)

agosto 10, 2018   1 Brinde

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 6

Capa da segunda edição do fanzine em papel Scream & Yell de 1999, quando Chris Isaak chegou a este “Baja Sessions” (1996) ele já contava com cinco discos elogiados na carreira, um big hit mundial (o single “Wicked Game”, presente no álbum “Heart Shaped World”, de 1989), músicas em filmes de David Lynch (“Gone Ridin’” e “Livin’ for Your Lover” foram inclusas em “Veludo Azul” enquanto uma versão instrumental de “Wicked Game” aparece em “Coração Selvagem”) e uma hilária e rápida participação em “Friends” (Phoebe sacaneando seu falsete a lá Roy Orbison é demais) quando a série estava no topo do topo (não à toa, um dos episódios, que além de Isaak contou ainda com Julia Roberts e Jean-Claude Van Damme, leva o nome de “The One After the Superbowl” e passou exatamente após o evento de maior audiência no ano da TV norte-americana).

Ou seja, Isaak estava de bem com a vida, se dedicando ao surf e a sua paixão pela música antiga, e esse clima delicado e ensolarado paira sobre as 13 canções deste emocional “Baja Sessions”, um disco que reúne covers de artistas que Isaak admira além de regravações distintas de material próprio. Roy Orbison, claro, está representado por “Only The Lonely” enquanto dos filmes “Amor Havaiano” (1937) e “South Of The Border” (1939) foram retiradas, respectivamente, a singela “Sweet Leilani” e a mariachi “South Of The Border (Down Mexico Way)”. Já “Yellow Bird” é uma versão da versão em inglês de 1957 de um clássico haitiano de 1893, “Choucoune”. Fechando em alta a sessão de covers dos outros, “Return To Me”, gravada em 1958 por Dean Martin.

Da própria lavra marcam presença as maravilhosas versões de “Pretty Girls Don’t Cry”, “Back on Your Side” e “Dancin’”, três canções de seu álbum de estreia, “Silvertone”, recriadas com leveza, falsete e emoção 11 anos depois; do platinado “Heart Shaped World” é pescada “Wrong to Love You” enquanto o quarto álbum, “San Francisco Days” (1993) cede “Two Hearts” (que havia sido usada para fechar o grande filme indie “Amor à Queima Roupa”, de Tony Scott com roteiro de Tarantino) e “Waiting” além das inéditas “Waiting for a Lucky Day” e “I Wonder” – a segunda iria embalar o romance de Kevin Costner e Rene Russo em “Jogo da Paixão” (1996). Bonito, romântico e delicado, “Baja Sessions” é daqueles discos para ficar ouvindo o dia todo no repeat e lembrando que, sim, a vida pode ser boa.

Ps. Sim, a cena inicial de Nicole Kidman e Tom Cruise em “De Olhos Bem Fechados” é embalada por uma música de Chris Isaak, “Baby Did a Bad, Bad Thing”…

10 discos favoritos

 

agosto 9, 2018   Encha o copo

O assunto é… assessoria de imprensa

Respostas para Talita N. Rustichelli

Qual a dinâmica Scream & Yell? Há mais pessoas na equipe fazendo matérias? Se sim, quais os horários de reuniões de pauta, dead line etc?
O Scream & Yell é um site colaborativo gerenciado por mim e a dinâmica é simples: os colaboradores quando têm alguma pauta em mente, me escrevem e discutimos a viabilidade dela. Essa é a via 1: os colaboradores me procuram. A via 2 é o contrário: recebo centenas de releases diariamente, e quando vejo algo que interessa, e conhecendo o staff colaborativo do site, encaminho ao jornalista que aquela pauta melhor se encaixa. Não fazemos reunião de pauta (apenas essa discussões online diretas entre editor e colaborador) e os dead lines são acertados nessa conversa, ainda que o perfil de publicação do Scream & Yell exiga liberdade: cada um faz no tempo que tiver livre e sempre tentamos fugir das armadilhas do gancho jornalístico que, muitas vezes, data a pauta – vender o show, o single, essas coisas que morrem no dia seguinte e que muitas vezes são tempo desperdiçado. No Scream & Yell, até pela falta de tempo de todos nós, tentamos utilizar o tempo da melhor maneira e realizar pautas mais longevas, que possam ser lidas com contexto tempos depois, e não apenas no dia que é publicada.

Qual a média de volume de material de música que você recebe diariamente ou semanalmente?
Intensa. Diria que entre 400 e 500 e-mails diários de várias partes do mundo, Brasil em primeiro lugar, mas muita coisa do Canadá, Europa, Estados Unidos, México, Oriente Médio e Austrália. Estou usando parte desse material numa nova seção do site, as postagens de novidades, porque é muita coisa legal.

Que tipo de material te chama atenção? Qual critério usa para filtrar o que pode ou não render matéria pro site?
O que chama a atenção em primeiro lugar são os e-mails escritos especialmente para o site, ou seja, direcionados a alguma seção do site especifica, o que denota que o assessor ou o próprio artista conhecem o site, e isso já adianta o meu trabalho de edição. Por exemplo: é bastante comum eu receber e-mails com “será que rola uma notinha no site sobre isso?” e nós não fazemos notas curtas no Scream & Yell (focamos em entrevistas, reviews, seleção de clipes, entre outras coisas). Tenho absoluto pânico desses e-mails padrão, pois mostra que o assessor não conhece o site. Já há, porém, outros assessores que enviam release já pedindo: “Olha, um clipe para o post semanal que você faz no site”. Ou: “Que tal um ‘três perguntas’ com esse artista?”. É muito importante o assessor conhecer a mídia em que ele quer destacar o cliente dele. Isso acelera o trabalho dele, do artista e do editor do site. Pedir coisas que o site não faz é lixeira de e-mail na certa.

Dá pra dar atenção ao material de músicos do interior do Estado, que não aparecem na grande mídia? O site dá espaço para estes trabalhos? Por quê?
No Mapa de Jornalismo Independente escrito pela Agência Pública, eles definiram o Scream & Yell com perfeição:

“Um site jornalístico sobre cultura pop, com entrevistas, reviews e coberturas de festivais de música, cinema, cerveja. Também produzem e lançam álbuns, fazem podcast e mixtapes e jornalismo musical aprofundado independentemente do apelo do entrevistado: tratando Caetano Veloso, Romulo Fróes e Loomer como iguais, porque todos fazem boa música.”

Então o que nos interessa é… boa música. Lógico, isso é conceitual (boa música é algo para mim e pode ser outra coisa para você), mas partindo desse principio já conseguimos ampliar demasiadamente o leque de atuação. Desta forma, não importa muito de onde é o artista (se de Israel, de Quebec, de Oslo ou de Botucatu), mas sim se ele faz uma música que chama a atenção e se o material chega de uma determinada maneira que se encaixa no site. A gente nunca vai conseguir ouvir tudo, infelizmente, mas o que conseguirmos ouvir e bater a vibe, a gente dá um jeito de destacar.

Analisando a realidade da maioria dos músicos aqui da região Noroeste Paulista, é muito raro alguma banda que tenha um assessor de imprensa. Os próprios músicos ou produtores é que fazem esse trabalho. O que é legal e o que não é legal fazer na hora de fazer contato com um site especializado e enviar material? Por exemplo, mandar e-mails, fazer contato pelo inbox do Facebook… Pode dar alguns exemplos do que considera bom ou ruim neste sentido?
Assessor de imprensa é algo essencial, mas a realiade muitas vezes não permite a um artista ter um assessor. Não vejo nenhum problema no artista fazer esse trabalho, ainda que isso possa tira-lo do foco de fazer música tanto quanto lhe faltará know how pra função. Dentre as coisas ruins posso citar:

1) Fazer contato por Inbox pessoal do Facebook (evito ao máximo responder)
2) Enviar grandes arquivos para o email do site (MP3, fotos imensas e pesadas)
3) Cobrar excessivamente por uma resposta

Pessoalmente, entendo a importância do follow up, mas no Scream & Yell nós não respondemos os e-mails de pauta que recebemos pelo simples motivo de que responder 500 e-mails diários nos tiraria o tempo livre que temos para editar o site, ou seja, essa passaria o dia inteiro respondendo e-mails e não publicaria nada no Scream & Yell. Lemos todos os e-mails e respondemos aqueles que a gente vai tentar realizar algo no site. Enviar três, cinco, dez vezes o mesmo e-mails não vai aumentar a chance de fazer a sua banda aparecer (às vezes, pode funcionar ao contrário), mas sim causar mais lixo virtual na caixa do editor. É muito mais prático você estudar o veiculo para quem você quer mandar o material e ser direto. Dai vão algumas dicas pessoais:

A) E-mails curtos e sem muitas delongas e exageros de marketing (“A banda X lança um disco revolucionário” Zzzzzzz). Seja sucinto: jornalistas não tem tempo para ler grandes e-mails. Faça um texto rápido e, se achar necessário, anexe um release em word ou pdf com mais informações.
B) Faça uma caixa padrão no texto do e-mail com os principais links de redes sociais (e para ouvir o disco. Não envie MP3. Envie um link do Youtube, do Soundcloud, do Bandcamp ou do Spotify. “Ah, mas eu não lancei o disco ainda, quero mandar uma prévia?”. Suba esse arquivo não listado ou com senha no Youtube ou no Vimeo. Não estoure o limite do e-mail do cara, por favor (risos)
C) Selecione uma ou duas imagens de divulgação, com crédito do fotógrafo. Se você está enviando esse release para um site, a imagem não precisa estar em grande definição, ela pode ser tratada e salva especialmente para web. Se for para um veiculo impresso (jornal, revista), a qualidade precisa ser bem melhor, e é recomendável perguntar para o jornalista qual a melhor maneira de enviar essa foto (se anexa, se por webtranfer ou por dropbox, sendo essa última a melhor das alternativas).

Qual a melhor forma de envio de material sobre música? Links por e-mail? Ou CD físico?
Depende de cada veículo. Existem jornalistas que preferem links e existem aqueles que valorizam o material físico. De cara, mande o link. Se o assessor tem uma cota de CDs dedicada para a imprensa, é importante que o jornalista receba esse material, então é só buscar pelo endereço (que pode estar num cadastro tanto quanto ser pedido para o profissional) e enviar. Novamente: atente-se ao veiculo que você está tentando encaixar uma pauta. Isso já irá ajudar em 50% no sucesso da divulgação.

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agosto 9, 2018   Encha o copo

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 5

Dentre tudo que ouço e gosto, algumas bandas rendem alguns momentos de bullying de amigos que, por exemplo, dizem que “é fácil ter 10 mil discos quando se tem a coleção completa do Biquíni Cavadão e do Nenhum de Nós” – aliás, me falta o “Cardume” (1989) em CD, e descobri dia desses que está sendo vendido a R$ 999,99 no Mercado Livre e por R$ 2.174,25 no Discogs (assustou? “Tomate”, do Kid Abelha, em CD tá R$ 160 o mais barato, R$ 300 o mais caro; e “Lulu”, do Lulu Santos, variando de R$ 185 a R$ 450). Bem, aproveitando essa onda de discos favoritos decidi recuperar a primeira fase da discografia do Biquíni, uma improvável banda pop carioca, para eleger um favorito e, assim, lançar milhos aos pombos do bullying.

Apesar da masterização precária do vinil da época, “Cidades em Torrente” (1985) traz três baita big hits (“No Mundo da Lua”, “Timidez” e “Tédio”, com a batidinha deliciosamente safada da guitarra de Herbert Vianna, três canções que são a cara dos anos 80, e que são ótimas) e uma faixa que passou batido na época (a ótima “Múmias”, com Renato Russo no dueto vocal com Bruno Gouveia), mas que foi abusada e virada do avesso pós morte do legionário. Uma pena. Minha favorita: a divertidíssima “Inseguro da Vida”, mas gosto também de “Hotel”, “Caso” e “Reco”. No disco seguinte, “A Era da Incerteza” (1987), a banda começou um processo de amadurecimento, que não rendeu tantos hits (“Ida e Volta” tocou, mas nem tanto), mas ouvi esse disco quase até furar, principalmente o lado A do vinil (com “1/4”, “Tormenta”, “Inocências” e mais a faixa 1 do lado B, “Catedral”, que iria incomodar muita gente hoje em dia). Ainda tenho ele em vinil aqui…

Dai veio o terceiro disco, “Zé” (1989), meu favorito, porque soa um rompimento com os sonhos de sucesso ainda que “Teoria” tenha tocado nas rádios e tanto “Meu Reino” quanto “Bem-Vindo ao Mundo Adulto” ganhado sobrevida no quarto álbum, “Descivilização” (de 1991, que traz as bonitas faixa título, “Arcos” e “Vesúvio” além dos mega-hits “Impossível” e “Vento Ventania”). O tédio que era tema dos discos anteriores aqui se transforma em raiva e turbina canções como “Brincando com Fogo” e “Certas Pessoas”, ganha força irônica em “Samba de Branco” e na rancheira “Meus Dois Amores” e pinta de clássico torto no bluezaço “Direto Pro Inferno” (que, inclusive, já inclui em mixtape).

Dai em diante, perdi conexão com a banda. O disco de covers “80” é terrível (conforme resenha no Scream & Yell em 2001), “Escuta Aqui” (2000) é bacaninha, mas não me lembro de nada dos discos “Agora” (1994) e “biquini.com.br” (1998) – na verdade, eu já estava em outra, e o rock nacional havia ficado nos anos 80. A banda segue na ativa com público cativo e discos novos, mas mesmo esses quatro primeiros, que saíram num box com edições caprichadas em 2001, pouco retornam ao meu som (como pouco retornam os quatro primeiros da Legião), ainda que façam parte da minha história com a música. Bora aproveitar e mandar um #nowplaying para matar saudade.

10 discos favoritos

agosto 8, 2018   Encha o copo