Category — Europa 2008
Onde comprar CDs na Europa

Título extremamente pretensioso, mas tudo bem. O fato é que assim que voltei pra terrinha, dois amigos me escreveram pedindo dicas de lojas de CDs em Londres. Escrevi para um, dei um “control c control v” para o outro e tudo lindo. Hoje, outro amigo pediu dicas, e já está na hora de socializar essas informações. Ainda mais porque você vai ler e perceber que eu deixei de fora aquela loja sensacional que só você conhece, e que dá próxima vez eu irei (risos). Ou seja, é mais para compilar infos mesmo. Seguem dicas de Londres, Paris, Barcelona, Glasgow e Berlim.
Em Paris tem a FNAC (em todos os cantos da cidade) e a Virgin, ambas na Champs Élysées. Bons preços, mas só compra o que estiver na promo! Eles costumam fazer uma promo de CDs por 7 euros, quatro por 20, mas só pra quem tem carteirinha da FNAC ou da Virgin. Mesmo assim, 7 euros compensa muito (comprei Jam, três Sigur Ros diferentes, os três boxes com três CDs cada - com preço de um - do Django Reinhardt mais uns Cohen e Lou Reed que me faltavam). Assim, tudo que não for lançamento geralmente tem um preço bem bom.
Em Londres tem: as megastore e as lojinhas de usados (que não achei em Paris). Nas megas, mesma coisa: bons preços, com a vantagem que em Londres não tem essa de carteirinha de associado, então aproveita as promos de dois CDs por 10 pounds (às vezes quatro). Tem muuuuuita coisa foda. Os lançamentos são caríssimos, então esquece. Muitas coisas do ano passado e de catálogo já estão nas promos de dois por 10 pounds, quando não em uma parte que vai de 3 pounds (como o Secret Machines) até 10 pounds (uma edição especial do último do Snow Patrol). São três as megas: a Zavvi (antiga Virgin), a HMV e a Fopp.
A Zavvi e a HMV são fáceis de achar: as duas estão na Oxford Street, principal rua de compras de Londres, uma em cada ponta. Faz pesquisa. Tem coisas que você vê por 15 pounds em uma que está na promo de dois CDs por 10 pounds na outra. A Fopp, que vários amigos me indicaram, eu acabei não indo em Londres, só em Glasgow, mas me disseram que tem uma pertinho da Oxford. Procurei no google agora e deu uma na 1 Earlham Street, no metro Covent Garden. Estando perto do metro é mole achar. Aliás, tem a Rough Trade, que merece uma visita (embora eu tenha achado os preços salgados). Fica no 91 da Brick Lane.
Já as lojinhas existem em três pontos distintos: na Berwick Street no Soho (a rua da capa do disco do Oasis), que na verdade é uma travessa da Oxford Street. Tem duas lojas fodas nessa rua: a Sister Ray (número 34/35), que não tem usados, mas tem coisas ótimas em ótimos preços (comprei o Rated R, do Queens, edição dupla, por 7 pounds e o novo da Cat Power, edição dupla em capinha de vinil, por 9 pounds) e a MVE (95), loja de usados que você irá deixar seu salário (risos). Eles expõe apenas a capa do álbum em envelopes. Você separa o que quer e leva no balcão. Os preços seguem uma rotina semanal: eles vão abaixando toda semana se não vender. Então, o que vale é sempre o último preço. Tem CD que chegou lá por 10 pounds que eu peguei por 4. Fica no final da rua.
Além dela tem as lojinhas de usados da avenida Notting Hill. Você desce no metro Notting Hill Gate, e sai na própria Notting Hill Gate. Vai no número 38 (acho), que é a Rock and Pop. Passa direto pelo térreo e segue para o porão. Meu amigo, lá você vai passar mal. Coisas de 1, 2 pounds. CDs ótimos! Revire o lugar (a parede principalmente) e só depois suba para o térreo, onde você ainda vai encontrar muita coisa boa. No número 42 tem a Soul and Dance, mais focada em jazz, electro, eletrônico e vinis. Entra só por curiosidade. Você vai acabar levando algo. O terceiro lugar é Camden Town, que eu não fui por absoluto medo de gastar muito. O pessoal do Alto Falante pirou lá!
Em Glasgow existem filiais da HMV e da Fopp nas avenidas principais, mas a loja mais bacana da cidade é a Avalanche Records (que também tem uma filial em Edinburgh). Em Glasgow ela fica na Dundas Street, número 34 (foto acima). Achei por acaso, andando para descobrir onde ficava a estação central de ônibus. É uma lojinha especial, daquelas para se revirar toda e encontrar preciosidades.
Em Barcelona, a grande rua se chama Calle Tallers, e começa exatamente nas badaladas Ramblas. São várias lojinhas de CDs umas grudadas nas outras (cinco ou seis). Entre na Revolver Records (número 11). Além de muitas coisas em bom preço, eles também tem bootlegs excelentes em áudio (comprei um do R.E.M. tour 2008) e vídeo. Só do Bruce Springsteen tinha uns 15 DVDs não oficiais extremamente caprichados (com shows de 1975 até este ano). Fiquei com medo e pulei Beatles e Rolling Stones na prateleira. Era muuuita coisa.
Já a lojinha bacana de Berlim ficava na Warschauer Strasse, mesmo metrô, mas não lembro o número dela. Lá tinha umas dez versões de bootlegs do Joy Division (comprei a edição alemã dupla do “Era Vulgaris”, do Queens, mais um bootleg do Radiohead tour 2008). E tem uma loja de livros e CDs perto da Alexander Platz que é meio saldão que quase me levou a falência. Quando vi, estava com dez boxes de CDs nas mãos. Trouxe só quatro, mas volto um dia para pegar os outros seis…
Agosto 11, 2008 17 Comments
Resumão de idéias confusas
Não sei, mas acho que esse post tem tudo para ser enorme. Sinta-se desobrigado de ler tudo, e perdoe a confusão de idéias que devo tentar transformar em palavras, mas meu coração, neste momento, arde em chamas. Foi absurdamente inebriante fazer essa viagem. É impossível não falar o óbvio, e eu tenho que me juntar ao coro dos contentes: a Europa é… foda. Foda, foda, foda.
Ok, você já sabia disso, né. Eu também, mas a coisa toda é de uma proporção que eu não imaginava ser. Nos meus planos pessoais sempre me imaginei morando fora do Brasil em um certo período da minha vida, e após passar 40 dias vivendo um choque cultural – que mais aproxima do que afasta – a vontade é juntar as coisas e se mandar. Sério.
Nada contra o Brasil. Eu amo esse país com todas as forças que tenho. Lembro sempre do tempo em que servi o exército, companhia de infantaria, pelotão de metralhadoras, no Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté. Cantávamos o hino nacional todos os dias de manhã, e todos os dias de manhã eu me pegava cantando arrepiado. Um ano, um mês e quatro dias assim.
Sempre lembro, também, de uma velha entrevista da Legião na Bizz. A repórter abre perguntando: “Que Pais é Este?”. O Bonfá, afoito, diz: “É um país jóia, maravilhoso, as pessoas são legais pra cacete, não saio daqui por nada. Putz, as pessoas falam a mesma língua que eu”. O Renato, sempre ele, corta: “Não sei. Às vezes fico achando que as pessoas falam uma outra língua que não a minha”.
Essas realidades são bem palpáveis. Tenho muitos amigos no Brasil, minha família é daqui. Nasci em São Paulo, a alguns poucos quilômetros de onde moro. Fui registrado em um cartório na rua Augusta (que se mudou para a Frei Caneca), pertinho daqui, mas muitas vezes sinto que não entendo o que acontece com essa cidade, com esse país.
Ian McCulloch, quando perguntei sobre o que ele achava do Brasil, respondeu: “Acho que gosto das pessoas daqui porque elas sempre estão felizes, apesar de todos os problemas. É bem diferente do que acontece na Inglaterra”. Sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim. Temos o dom da felicidade, e parece que por isso não lutamos por um mundo melhor. Já somos felizes.
Somos felizes apesar de todos os problemas. Apesar das milhares de pessoas dormindo ao relento e passando fome na rua. Apesar do clima tenso de possíveis assaltos a qualquer momento, em qualquer lugar. Apesar dos políticos que elegemos sabendo que eles vão nos roubar sem nos dar, em troca, o mínimo: a esperança de um país melhor.
Vivemos uma condição terceiro-mundista que marca forte na pele – como ferro em brasa – quando você está no exterior. E não é que não haja mendigos, assaltos e políticos corruptos na Espanha, na França ou na Inglaterra. Existem, claro. Como diria um amigo, gente de má índole nasce em qualquer lugar do mundo, não é privilégio nosso.
Também não é que eles sejam melhores que nós. Não são. Há, apenas, um acesso maior aos bens de primeira necessidade: educação, saúde e segurança. Apenas. E é um “apenas” que faz toda a diferença, caros amigos. O choque cultural é imenso, mas no mínimo do mínimo do mínimo, o que faz a diferença são os bens de primeira necessidade.
Em termos culturais, o Brasil é uma ilha. Na minha inocência, eu acreditava que a internet havia nos aproximado do velho mundo, mas não. Continuamos na América do Sul, praticamente inacessíveis a shows de pequeno e/ou grande porte (os que chegam aqui são os médios) sonhando o dia em que o Radiohead fará apenas uma apresentação aqui, num país de 8.514.876.599 km².
O mais engraçado é que passamos uma imagem – inspirada logicamente pelo carnaval – de sermos pessoas liberais, mas estranhamos o top less (nas praias espanholas, nas margens do Sena) e o mictórios ao ar livre e ao lado do palco nos grandes festivais. Aliás, grandes festivais na Europa são sinônimos de sujeira. Existem lixeiras, mas todo mundo joga tudo no chão. Assusta.
Mesmo assim, os museus sensacionais, a história escrita em cada rua, praça e avenida, e as cidades encantadoras com sua beleza antiga ganham o coração da gente de uma forma que eu não imaginava ser possível. São o tipo de coisa que a gente conhece de livros, revistas e fotos, e que não deviam impressionar, mas impressionam, e muito.
É difícil falar das diferenças, do que encanta tanto que faz a gente não querer voltar para a terrinha. Eu me devia essa viagem desde os 29 anos, quando voltei para São Paulo após um longo exílio em Taubaté. O certo teria ter ido aos 19, mas parecia um sonho grande demais e impossível para um filho de classe média baixa. Na verdade, acredito agora que fui na hora certa, e vou voltar.
Uma viagem dessas pressupõe grandes amizades pelo caminho, e agradeço ao Carlos que me apresentou ao Werchter e me ambientou muito bem com bons papos e cervejas na chegada a Europa; à Odile que me abrigou em Leuven e nos recebeu – a mim e o Carlos – com um jantar caprichado; à comitiva recifense (Augusto, Sandro e Rafael) que rendeu boas risadas em Leuven e Bruxelas.
Ao Pepe, companheiro de cervejas alemãs e do show do Radiohead em Berlim; à Ju e a Re que conseguiram o impossível: fizeram de Glasgow um lugar legal; à Carol, Renata e ao pessoal do Alto Falante (James, Machado, Thiago) pelo excelente astral em Benicassim; e ao Daniel, Beth, Luciana e Samuel (e a Coco) por fazerem eu me sentir em casa em Londres.
À você que leu, comentou, deu dicas oportunas e fez com que eu me animasse em escrever esse “diário de viagem maluco” contando as aventuras em cada uma das cidades que passei: Leuven, Bruxelas, Berlim, Glasgow, Bournemouth, Barcelona, Benicassim, Málaga, Madri, Paris e Londres. E, claro, a Leonard Cohen, Lou Reed, Thom Yorke, Michael Stipe, Jason Pierce, Neil Young, Nick Cave e Morrissey, por tudo.
Ainda vou fazer um ranking detalhado do top 10 das cervejas, e segue abaixo um top 30 de shows e um top 10 de cidades, discos comprados e lugares, ok.
Distâncias aproximadas da viagem
São Paulo para Madrid - 8137km
Madrid para Bruxelas - 1572km
Bruxelas para Berlim - 766km
Berlim para Glasgow - 1759km
Glasgow para Bournemouth - 732km
Bournemouth para Barcelona - 1654km
Barcelona para Benicassim - 265km
Benicassim para Malaga - 746km
Malaga para Madri - 535km
Madri para Paris - 1271km
Paris para Londres - 456km
Londres para Madri - 1071km
Madri para São Paulo - 8137km
Dez Cidades
01- Paris (França) (foto)
02- Barcelona (Espanha) (foto)
03- Londres (Inglaterra) (foto)
04- Leuven (Bélgica) (foto)
05- Berlim (Alemanha) (foto)
06- Málaga (Espanha) (foto)
07- Madri (Espanha) (foto)
08- Bruxelas (Bélgica) (foto)
09- Bournemouth (Inglaterra)
10- Glasgow (Escócia) (foto)
Dez Lugares
A Casa Milá, em Barcelona (foto)
A margem do Sena e a Torre Eiffel brilhando, em Paris (foto)
A margem do Tamisa, em Londres (foto)
O Palácio Real, em Madri (foto)
A Grande Praça, em Bruxelas (foto)
A Unter den Linder, em Berlim (foto)
A Abadia de Westminster, em Londres (foto)
A Prefeitura Gótica, em Leuven (foto)
A Catedral, em Glasgow (foto)
O Museu do Louvre, em Paris (foto)

Dez CDs comprados
- Live At Royal Albert Hall 2008, R.E.M. (mais)
- Secret Rainbows, Live in London 2008, Radiohead
- Live in San Francisco 1978, Neil Young and Crazy Horse (mais)
- The Vogue Years, Francoise Hardy (mais)
- Here Comes That Weird Chill, Mark Lanegan (mais)
- Era Vulgaris Tour Edition, Queens of The Stone Age (mais)
- His ‘n’ Hers Deluxe Edition, Pulp (mais)
- Collection Vol 1, 2 e 3, Django Reinhardt
- The Complete Pell Sessions, Wedding Present (mais)
- Volume I, Billy Bragg (mais)
Ps. Beeem mais baratos que esses preços da Amazon….
Trinta Shows
01- Leonard Cohen (Benicàssim) (foto)
02- Lou Reed (Málaga) (foto)
03- Radiohead (Berlim) (foto)
04- Morrissey (Benicàssim) (foto)
05- R.E.M. (T In The Park) (foto)
06- Pogues (T In The Park) (foto)
07- Sigur Ros (Benicàssim) (foto)
08- Neil Young (Werchter) (foto)
09- The National (Werchter) (foto)
10- Spiritualized (Benicasim) (foto)
11- Grinderman (Werchter) (foto)
12- Vampire Weekend (Werchter) (foto)
13- American Music Club (Benicàssim) (foto)
14- Raconteurs (Benicàssim) (foto)
15- The Hives (Werchter) (foto)
16- Babyshambles (Benicàssim) (foto)
17- British Sea Power (T In The Park) (foto)
18- Richard Hawley (Benicàssim) (foto)
19- Sons and Daughters (T In The Park) (foto)
20- The Ting Tings (Benicassim) (foto)
21- The Verve (Werchter) (foto)
22- Gossip (Werchter) (foto)
23- Nada Surf (Benicàssim) (foto)
24- Ben Folds (Wertcher) (foto)
25- José González (Benicassim) (foto)
26- The Kills (Benicàssim) (foto)
27- Echo and The Bunnymen (T In The Park) (foto)
28- Interpol (T In The Park) (foto)
29- The Subways (T In The Park) (foto)
30- Kaiser Chiefs (Werchter) (foto)
Agosto 10, 2008 18 Comments
Em São Paulo
Bem, cheguei. Na verdade, cheguei ontem, mas sacumé, destruído após ter cochilado alguns minutos depois da balada em Londres, ido para a estação de trem às 4h30, embarcado para Madri às 7h e, depois, de lá para São Paulo às 11h encarando exatas 11 horas de vôo. Coloquei os pés em casa com Lili (ela foi me buscar no aeroporto) ali pelas 20h, e depois de desfazer as malas, desmaiei (imagina que sao 5h de diferença de fuso, então 20h em São Paulo era 1h da manhã em Madri).
Agora, com as roupas sujas todas no varal, os CDs comprados na viagem devidamente organizados (deu quase 100, mas tenta adivinhar quais pela foto acima), e uma sopa quentinha esperando Lili chegar do trabalho, apareço para dar um oi e dizer que ainda estou pensando no balanço da viagem. É preciso tomar cuidado nessa hora. A ressaca pós-viagem é brava, e a vontade é voltar pra lá logo, mas segunda às 8h retorno ao batente na capa do iG, mas tenho alguns pensamentos para dividir com vocês.
Preciso ver o novo filme do Batman, ver Wall-E, rever “Antes do Por-do-Sol”, namorar a Lili e respirar São Paulo, matar saudade dessa maldita poluição que faz meu sangue ferver de saudade, pensar com calma em tudo o que aconteceu e me preparar para voltar ao trabalho. Tem um balanção dos shows, das melhores cervejas da viagem, uma lista de agradecimentos aos amigos e um olhar bastante particular sobre as cidades que passei. Estou aqui, mas já volto. Me espera, please.
Agosto 8, 2008 10 Comments
Descalco na Abbey Road
Bem, acabo de chegar do meu ultimo ato turistico desta viagem de 38 dias pela Europa: atravessei, descalco, a Abbey Road, pisando com calma naquela faixa de pedestres imortalizada na capa do penultimo disco dos Beatles, de 1969. O Fabio tirou esse print acima, da camera do site do estudio, que flagra 24 horas 7 dias por semana, todos os fas do quarteto de Liverpool que chegam para fazer essa pequena travessia. Brasileiros, mexicanos, ingleses, franceses, chineses e ate um grupo de argentinos marcaram presenca no local enquanto eu estava la.
Alias, cheguei bem mais cedo do que planejava. Cabulei a visita a Candem (James, se eu fosse la, iria gastar o dinheiro que eu ja nao mais tenho - risos) e fui direto descobrir onde ficava o tal estudio, ja que perdi meu mapa no fim de semana, e o guia naoa falava nada do local, so mostrava uma ruazinha no mapa da capa, perto de uma estacao de trem, que descobri (na pratica) ser longe pacas. Peguei um onibus que me deixou na porta do estudio para seguir o ritual: cravar o nome no muro e atravessar a rua.
A Abbey Road eh uma esquina, sem sinal. Existem avisos antes e depois de chegar nela (aproximadamente 200 metros) apontando ser uma area “turistica”, mas mesmo assim os carros passam chutados. Ou entao, param no exato momento em que voce se aproxima da esquina, como dizendo: “Pode atravessar”. Soh que ninguem quer atravessar e posar para a fotografia com carros na faixa de pedestre, nao eh mesmo. Eu nem liguei, fui assim mesmo, e a foto ficou distante pois a menina nao entendeu o que tentei explicar sobre o zoom.
No entanto, posso dizer que dah um friozinho na barriga, sabe. Nem eh soh por causa da banda, mas sim pelo valor que essa banda tem na vida das pessoas. Foram centenas de pessoas que apareceram ali para atravessar a rua num dia qualquer do meio da semana do mes de agosto. Eh loucura demais imaginar o que os Beatles representam, assim como eh legal demais saber que a banda fez por merecer isso. Tirei algumas fotos para casais que queriam atravessar juntos, e pontualmente as 16h fiz a minha travessia oficial. Agora eh ir pra galera.
Ainda tem balada a noite antes do voo para Madri, e do voo seguinte para Sao Paulo, mas essa viagem esta praticamente encerrada. Ainda volto aqui para um balancao (sim, Argentino, ha um ranking das cervejas, espera que vamos bebe-las em Sao Paulo), os devidos agradecimentos (tem muita gente bacana que fez essa viagem mais especial do que ela ja seria) e para a sequencia normal do blog, dia a dia, aquelas ladainhas de sempre que voces ja conhecem tao bem. Eu sei, eu tambem vou ficar com saudades dessa viagem. Mas a vida segue e a gente precisa batalhar para as proximas ferias serem tao especiais quanto esta. Dedos cruzados.
Agosto 6, 2008 10 Comments
Ruby Tuesday
No dia 02 de setembro de 1666, um pequeno incendio iniciado em uma padaria causou uma das maiores calamidades da historia de Londres, devastando mais de 13 mil casas num terreno de aproximadamente dois mil quilometros quadrados. Uma nova Londres surgiu apos o incendio, reconstruida. O Olde Cheshire Cheese, pub em que festejei meu aniversario com pint de cerveja, bolo de chocolate e velinha de isqueiro, foi um dos predios reconstruidos em 1667. Fica numa travessinha da Rua Fleet, aquela mesma do barbeiro…
Vou te dizer, mas voce ja sabe: Londres eh algo incrivel. O Daniel estava contando que o irmao de Beth, mulher dele, viu o Nirvana no Reading de 1992. E a mae dela viu os Beatles, ao vivo. E nao foi uma vez soh nao: seis!!!! Ele ainda estava falando que numa ruazinha de instrumentos musicais que passamos numa madrugada, uma das lojas abrigava o estudio em que os Stones gravaram todos os seus primeiros singles. E existe um passeio, macabro, que leva voce por todos os pontos em que Jack, o Estripador, atuava. Tem muito mais.
Bem, melhor voltar ao dia pois, senao, me perco. A terca-feira de rubi comecou na Tate Modern, uma das mais interessantes galerias londrinas. Voce sai da St Paul’s, atravessa a Ponte do Milenio - de Sir Norman Foster - sobre o Tamisa e ja cai na frente da Tate com suas 88 galerias que oferecem um excelente acervo de arte moderna. Nao sou conhecedor nem pesquisadir do lance todo, mas preciso dizer que a arte moderna, principalmente as instalacoes e muitas esculturas, nao me convencem. Podem atirar pedras.
Lembro que, uma vez, um grande amigo jornalista perguntou para o Lulu Santos o que ele achava dos Los Hermanos. “Eh muito intelectual para mim. Eles passam aqui em cima”, disse ironicamente Lulu, fazendo um gesto de mao sobre a cabeca, simbolizando que ele, Lulu, nao conseguia alcancar a frequencia dos barbudos. E eh mais ou menos isso que sinto em relacao a arte moderna. Tem muita coisa que deve ser realmente genial, mas que passa muito acima da minha cabeca, do meu intelecto.

Sem contar que a arte moderna precisa de respiro, maturacao, e sou muito urgente para o mundo. E eh por isso que nao gosto de filmes escandalosamente lentos, comida demorada e musica progressiva. Porque todos eles precisam de uma atencao que nao consigo lhes dar. Quando percebo, ja estou pensando que a chuva londrina molhou os meus tenis, que minha meia esta ensopada, que essa chuva que vai e volta e vai e volta e vai e volta eh bem melhor do que uma daquelas tempestades que lavam a alma. Nossa, passei por duas salas.
O mais interessante eh que, no Tate Modern, fiz muito mais anotacoes do que em alguns dos museus espanhois. Tem muita coisa ali que gostei tipo as coisas do De Chirico (“The Uncertainty of The Poet”), Rene Magritte (“The Annunciation”), Paul Klee (o belissimo “Walpurgis Night”), Roy Lichtenstein (o otimo “Mustard on White”, imagem acima), Picasso (“Seated Nude”, “Bust of a Woman”), Robert Delaunay (“Study For The City”), Henri Matisse (“Reading Woman With Parasol”) e Dod Procter (“Morning”, um dos meus preferidos da visita).
Tem coisas, no entanto, que eu realmente nao entendo, como “480×10x10″, de Miroslaw Balka (infelizmente nao achei imagem da obra), que junta em um fio do teto ao chao dezenas de sabonetes, ou a “White Curve”, de Ellsworth Kelly, ou varios quadros do Richter Cage. Na teoria, acredito realmente que deve ser genial, mas nem tente me explicar o porque pois eh exatamente esse o ponto: quando voce precisa explicar a piada para alguem, ela perde totalmente a graca. Depois que Marcel Duchamp iluminou o caminho, eh preciso ter cuidado…
A minha ideia, na sequencia, seria seguir do Tate Modern para a Tate Britain de balsa pelo Tamisa, mas a arte moderna mexe muito com os pensamentos. Tres horas dentro do Tate Modern sao uma eternidade. Decidi vagar pelas margens do Tamisa pensando em alguns quadros quando, ao longe, vejo um predio. Casar com uma arquiteta tem dessas coisas: “Amor, voce ja viu a prefeitura de Londres? Eh do Sir Norman Foster, um dos maiores arquitetos do mundo - e da Inglaterra - na atualidade. Eh um predinho bem maluco”, escreveu a Lili.
Eu achei que tivesse visto um predinho maluco antes, mas assim que fui me aproximando, nao consegui conter o riso: como o cara consegue fazer algo tao… divertido com uma prefeitura? O predio eh sensacional. Em um texto da BBC (leia aqui) que falava sobre a inauguracao da obra, uma leitora reclamava que “a construcao roubava a atencao dos predios historicos ao redor” (a saber: a Torre de Londres e a Tower Bridge), e isso na verdade eh absurdamente genial: eh o passado e o presente convivendo lado a lado com suas virtudes e belezas. Adorei.
Segui caminhando pela Tower Bridge (aquela ponte que abre para os barcos passarem), olhei a Torre de Londres - erguida por Guilherme, o Conquistador, em 1078 - e fui ao encontro da Luciana (com mais duas amigas) para festejar o aniversario no Olde Cheshire Cheese. Cheguei na casa do Daniel por volta das 23h para mais uma sessao de cervejas belgas em comemoracao da data, e fui dormir de alma enlevada. Na verdade, chorei… de felicidade e saudade. De Londres, da viagem, das pessoas especiais que conheci nesses 40 dias. A vida segue em frente, mas a gente vai deixando pedacinhos da alma pelo caminho.
Neste ultimo dia - na pratica - de Londres (e de Europa), vou tentar ir an Tate Britain, almocar em Candem e atravessar a Abbey Road exatamente as 16h (12h no Brasil). Pode acompanhar nesse link aqui. Estou de camiseta vermelha, do Real Madrid, e se der na telha, atravesso descalco como o Paul (ok, vai faltar o cigarro, o Ringo, o George e o John, mas tudo bem). A noite, balada no Buffalo. E las pelas cinco da manha acordo para a maratona da volta. Chego em Sao Paulo, apos uma escala em Madri, no comecinho da noite. E ja vou preparando no voo um balancao da viagem. Nos vemos.
Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Agosto 6, 2008 8 Comments
Blue Monday
Apos um domingo cinza e chuvoso, a segunda-feira amanheceu ensolarada e azulada. Ate o Garfield, que detesta segundas, abriria um sorriso ao olhar pela janela. Aproveitei para bater cartao em dois marcos da cidade: a Abadia de Westminster e a Catedral de St Paul’s. Lembra que achei caro pagar 10 euros para entrar na Lady Chapel e na Corcergieri, em Paris? A entrada para a Abadia é uma facada de 12 pounds (quase 40 reais), e nao adianta tentar jogar um papo de “sou jornalista no Brasil” e tal. Tem que pagar. No entanto, a visita vale a pena, e muito.
Ajuda o fato dos guias de audio serem gratuitos, coisa rara. E, claro, ajuda o fato da Abadia ter muita historia pra ser vista. São Dunstan da Cantuária fundou no local uma comunidade de Monges Beneditinos em 970, mas a Abadia comecou a ser construida entre 1045 e 1050. De la pra ca, varios reis foram coroados no local (a cadeira, com mais de 700 anos, esta aos pedacos, mas é um simbolo da realeza britanica), Elizabeth I esta enterrada no lado direito da belissima Lady Chapel (sua rival, Maria Stuart, que morreu condenada por conspiracao, esta enterrada no lado esquerdo da capela) e ha, ate, um recanto para os poetas, com destaque para Shakespeare.
Depois de uma visita de mais de uma hora, parti em direcao a Catedral de St Paul’s, uma pequena obra-prima do arquiteto Christopher Wren, que apos o grande incendio de Londres em 1666, reconstruiu a catedral destacando a sua enorme cupula decorada (é de cair o queixo). Foi aqui que o principe Charles e Lady Diana Spencer se casaram, abrindo mao da tradicional cerimonia em Westminster para mostrar que eram o principe e a princesa do povo. A catedral fica a 500 metros do Tamisa, e de seu segundo pavimento é possivel ter uma visao extraordinaria da cidade.
Como igreja, St Paul’s é de uma grande simplicidade. O grande programa da visita sao as subidas para as galerias externas, que incluem uma passagem pela Galeria dos Sussuros, no alto da grande cupula. As duas galerias seguintes (Golden e Stone) permitem que o visitante desfrute uma bela visao de Londres. A subida é para os corajosos. Comeca com uma escadinha leve, mas depois se transforma em degraus altos de um caminho estreito, que cansam. Uma menininha, perto da Golden Gallery, implorava ao pai para nao subir mais. Mas a vista vale realmente a pena.
Encarei um capuccino com bolo de chocolate na cripta da catedral (eu devia ter escolhido o muffin), e voltei mais uma vez para a Oxford Street, para resolver umas pendencias de encomendas de amigos. Dali, desci novamente em St Paul’s, atravessei a ponte em direcao ao Tate Modern, e segui caminhando as margens do Tamisa, me encantando com o entardecer londrino, a brisa ao lado do rio e tudo mais. Sentei em um banco e fiquei pensando na vida ate decidir transferir papeis, mochila e anotacoes para uma pizzaria, e lembrar uma das minhas historias preferidas do rock.
Em 1977, o Sex Pistols decidiram “homenagear” o Jubileu de Ouro da rainha Elizabeth II dedicando-lhe seu segundo single: “God Save The Queen”, uma musica que dizia nao existir futuro na Inglaterra. Para promove-lo, o empresario Malcom McLaren - que estava proibido de ter seu grupo tocando nas ilhas britanicas - colocou a banda tocando em um barco, dentro do Rio Tamisa (nao era em terra). O resultado, como voce pode imaginar, foi pancadaria assim que o barco atracou em Londres, com quase todo mundo na cadeia.
O melhor estava por vir: a ironia punk escalou as paradas - mesmo tendo sido banida da BBC e de outras radios - ate bater no numero 1, marcando a unica semana na historia dos charts britanicos em que o numero 1 das paradas apareceu em branco. O Sex Pistols se foi (deixando sua marca na historia do rock), a rainha continua firme e forte (e o partido trabalhador esta caindo pelas tabelas) e o rio Tamisa, que 31 anos atras ouviu “God Save The Queen” ao vivo, continua encantador. Respiro fundo e penso na linha de baixo e no vocal deliciosamente escroto de Johnny Rotten. Deus salve a rainha.
Na verdade, Deus salve o Marcelo. Nesta terca, ou melhor, daqui a 74 minutos (hora de Londres), completo 38 anos de idade (os 40 estao chegando, eu sei). Como o dinheiro ja foi faz uma semana, e o que chegou soh serviu para eu comprar mais algumas duzias de CDs, nada de grandes comemoracoes. Vou visitar a Tate Modern e a National Gallery durante o dia, e deve rolar alguns pints de cerveja em algum pub a noite, e olhe la. Como nao vou estar por ai para receber um abraco ou um telefonema, aceito um brinde de cerveja “in memorian”, ok. Nao esquece. Tin-tin.
Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Agosto 4, 2008 10 Comments
Everyday is Like Sunday
Domingo tipico em Londres: chuvoso, silencioso e cinza. Morrissey estava certo, pode acreditar nele. Estou na sala da casa do Daniel, sentado no sofa, abusando do iMac para tentar traduzir as coisas que estou sentindo. Na porta, a Coco, gata do Samuel (um portugues gente finissima - daquelas pessoas raras - que mora com o Daniel), quer atencao. La fora, chove. E estou curtindo essa calma dominical, essa coisa tao londrina de ficar em casa no meio de um dia de chuva - apesar de estarmos no verao.
Ao contrario de todas as cidades anteriores pelas quais passei, em que eu era realmente um turista - geralmente acompanhado de amigos turistas - desbravando a cidade, em Londres as coisas estao mais relax. Amigos estao me levando pra la e pra ca, e isso tem servido muito para me ambientar e me acostumar. A Luciana, que tem 10 meses de Londres, me levou na Rough Trade e fez uma listinha de lojinhas bacanas onde eu poderia encontrar CDs usados por 1 ou 2 pounds. Foi um estrago, gastei uma grana, mas estou radiante.
O Daniel, que ja esta em Londres faz sete anos e conhece bem o lado rock da cidade, me levou pra balada ontem, num pub demais no centro da cidade, o Old Blue Last. A banda que estava tocando era horrivel, mas a cerveja era Leffe (pint) e a turma que frequenta o lugar vale a balada. Serviu para eu descobrir que Londres vive as madrugadas. Eu tinha uma ideia de que os pubs fechavam as 23h, e a cidade morria, mas que nada, a noite foi longa, divertida, com bons sons na pista, bons papos e um kebab poderoso na hora de ir embora.
Nem acordei de ressaca (cerveja belga eh uma beleza), mas com fome. Batemos um fish and chips e fomos para a Oxford Street procurar uma lente para a maquina digital da Lili. Passei na Zavvi, outrora Virgin, para pegar uma edicao do livro da Deborah Curtis sob encomenda do Danilo, do Speculum, e alem de uma edicao pra mim tambem, comprei o “Scrapbook” do Bob Dylan (eh lindo, lindo, lindo) e tres posters gigantes: “Transformer”, “Ziggy Stardust” e “London Calling” (eu ja escrevi que comprei uma caneca do “London Calling”? Vou tirar uma foto).
Dali fomos pra Notting Hill, para encontrar a Luciana que esta trabalhando numa loja de CDs la (Lu, nao sei como voce consegue??? Eu iria deixar todo o meu salario nessas lojas), e comprar alguns CDs. Alguns???? Perdi a conta de quantos CDs comprei. Serio. Coisas usadas de 0,50p ate 5 pounds (o “Saturnalia” do Gutter Twins, que vai tocar aqui do lado na semana que vem - nao acredito que nao vou ver Greg Dulli e Mark Lanegan juntos!!!!). Peguei as duas coletaneas do Spiritualized, duplas, por 4 pounds cada (uns 14 reais).
Pra voce ter uma ideia do nivel da loja: la tinha a edicao do “Ladies and Gentleman”, do Spiritualized, na versao tablete de remedio. Preco: 4 pounds. So na peguei porque ja tenho o CD, e nessa hora a gente tem que procurar pelas coisas que nunca vai encontrar no Brasil. Meu sonho de consumo: um box com todos os singles do Manic Street Preachers, facada de 81 pounds (quase 300 reais). Eu nem sabia da existencia desse box! Foda. Fora os vinis. O disco da banana, do Velvet, soh esta 7 pounds (25 reais). Vinil, lindo. Vou acabar levando.
Nesses meus ultimos tres dias de Londres (e Europa) vou tentar fazer o roteiro de turismo basico que eu tinha prometido nos ultimos posts. Amanha tem cerveja na beira do Tamisa e, acho, catedral de St Paul e Abadia. Quero separar a terca para os museus (sim, deixei de lado a ideia de ir pra Liverpool no meu aniversario - contencao de gastos) e a quarta para fechar com as coisas que faltam ver, tipo atravessar a Abbey Road descalco. O Fabio comentou no post anterior que ha uma camera 24 horas la. Vou passar as 16h (12h no Brasil). Tenta me ver (hehehe). Olha o link aqui.
Hoje vai ser uma noite tranquila. Cabulei o show do Cornelius e quero dormir cedo. Deve rolar uma macarronada e bons papos com o pessoal da casa nesse domingo tipicamente londrino. Estou me sentindo a vontade nessa cidade, mas acho que enlouqueceria com tanta oferta de cultura pop, com tanta referencia, com tantas aspas, mas seria interessante morar aqui. Bem, planos para o futuro (Paris e Barcelona saem na frente na disputa de abrigar uma casa minha e de Lili na Europa, mas Londres esta no pareo). O presente, no entanto, eh um jantar. Bom apetite para todos nos.
Ps da manha seguinte: acordei cedo para ir tirar copia da chave, que eu perdi na sexta (alias, perdi tudo: mapa da cidade, bilhete do dia do transporte publico, anotacoes e… passaporte. Este ultimo me entregaram na Rough Trade). Chego la, peco a copia pras duas chaves, pago, ok. Abro o portao com a copia, mas nao consigo fechar. Depois de dez minutos desisto e volto ao chaveiro. Ele pede a original, eu explico o que esta acontecendo e, no fim, ele pergunta: “Voce eh de onde?”. E eu: “Brasil”.”Ahh, ok, eu sou de Madri”. Gente, nao existe ingles na Inglaterra!
Agosto 3, 2008 8 Comments
A capital do mundo pop
Ontem, quando estava ajeitando meus planos sobre “o que fazer” em Londres, saquei que o lance de Londres é diferente do de outras grandes cidades/capitais do mundo: Londres é para ser consumida muito mais do que vista. Eu ja tinha essa ideia sobre a cidade, mas a ficha caiu mesmo ontem, quando percebi que, sim, é bacana ver o Big Ben, a London Eye e a troca da guarda, mas o que voce espera mesmo de Londres sao os shows, as lojas e o modo de respirar cultura pop da cidade.
Londres é a cidade que tem, no domingo, um show do Cornelius, e na segunda Drive By Truckers (estou querendo ver os dois), que as lojinhas de CDs e vinis da Berwick Street (a rua da capa do “(What’s the Story) Morning Glory?”) podem causar um prejuizo enorme no seu bolso (eu sabia que ia ser assim… e sai com dor de cabeca - mesmo - da MVE, com um box do Billy Bragg, o EP exclusivo do Strokes para a Observer - 2 pounds, o EP do Twilight Singers com Mark Lanegan - 2 pounds, e muito mais).
Alias, a dor de cabeca ainda nao passou, mas como deve ter balada hoje, melhor escrever agora para registrar o momento: eu preciso sair dessa cidade antes que deixe toda o meu salario aqui (risos). Passei a manha na feirinha da Portobello Road e a tarde na lojinha da Rough Trade (o selo que fez fama lancando uns tais de Smiths). Andei na Heddon Street (capa do “Ziggy Stardust”), ainda vou procurar pela Strand Street (lugar em que o Dylan gravou o clipe de “Subterranean Homesick Blues”) e, claro, atravessar a Abbey Road (se possivel, descalco, como o Paul).
E ainda quero fazer turismo tradicional aqui, subir na Abadia de Westmister, visitar a catedral de St Paul, passar uma tarde na Tate Modern, passear de barco no Tamisa e, quem sabe, ver o acervo da National Gallery e passar novamente na HMV e na Virgin Megastore. Eu sei que é coisa demais para se fazer, que tenho pouco tempo, que as ferias acabam na proxima quinta-feira, quando embarco de volta para Sao Paulo, mas vou tentar aproveitar o maximo possivel do que essa cidade oferece. O que eu conseguir, esta valendo.
Ps. Ainda vou destrinchar esse assunto de “capital do mundo pop”, mas agora preciso de uma aspirina e de uma cerveja belga…
Agosto 2, 2008 7 Comments
Definitivamente, Londres
Nao consegui achar o cafe de “Antes do Por-do-Sol”. Parei na frente da Shakespeare and Co, sai pela esquerda, e vi a rua em que a Celine e o Jesse comecam a caminhada. A segunda rua tambem é facil, mas na hora que chega a terceira, voce ja se perde. Tentei seguir o caminho pelas quatro ruas possiveis, e me perdi. Tudo bem, da proxima vez que eu estiver em Paris, vou “estudar” bem o filme. A ultima tarde na cidade se resumiu a isso. Fui cedo para o aeroporto Charles de Gaule, e mesmo assim fiquei quase duas horas na fila da Easyjet. E pela primeira vez houve um atraso, de quarenta minutos.
Como da vezes seguintes que voei em uma compania low cost, check in e embarque foram uma zona. Sempre fico imaginando as pessoas que pagam o “speedy boarding”, uma taxinha que lhe da algumas vantagens (como embarcar primeiro), e chegam nesse check in que é uma bagunca. Na boa, fui o quarto a entrar na aeronave, e nao pague nada a mais por isso. O voo foi bem sossegado - e ver Paris iluminada do alto foi lindo - com as turbulencias de praxe, uma senhora argentina querida puxando um bom papo, chocolate Godiva e o aviao chegando em Londres recuperando vinte minutos dos quarenta atrasados.
Na imigracao, o tiozinho forcou a barra nas perguntas de praxe (De onde voce esta vindo? Veio fazer o que? Vai ficar onde? Quando voce volta? Deixa eu ver a passagem de volta?), mas me deu o carimbo de seis meses (que soh vou usar por sete dias). Na saida, encontrei um “casal” de brasileiros, na verdade, ele soh estava acompanhando a amiga, pois mulher brasileira passar sozinha pela imigracao no Reino Unido é bem dificil. Eles logo acham que a menina vai se prostituir e tal, e dificultam ao maximo a entrada da garota.
No caso do “casal”, ele trabalha como ajudante de pedreiro em Paris, mora perto de Versailles com a mulher e um filho de dois anos, e nao volta mais para o Brasil. “Cara, estou feliz aqui”. No trecho de trem entre o aeroporto de Luton e o centro de Londres, ele me conta sua saga no Velho Mundo, mareja os olhos, mas termina dizendo que tudo é aprendizado. Ele fica soh um dia em Londres, pois vem no dia seguinte trazer uma outra amiga, que tambem nao quer passar pela imigracao britanica sozinha. No fim das contas, o cara me ajuda. Se nao fosse ele, eu passava batido pela estacao de trem.
O Daniel, amigo que vai me receber em Londres, esta me esperando na porta da estacao, e seguimos de trem para a casa dele, em Shepherds Bush. Passamos pelo mitico Shepherds Bush Empire (que em agosto vai receber shows da dupla The Gutter Twins e do Big Star, e tera Brett Anderson, CSS, Breeders e Ting Tings mais pra frente - olha a programacao), pegamos uma cerveja belga na lojinha de conveniencia (vou sentir saudade das cervejas belgas) e sentamos na varanda da casa para atualizar os papos.
Acordo as 7h30 e nao penso duas vezes: pé na estrada. Comeco a desvendar Londres pelo metro, tentando entender as conexoes. Saio em Westminster de frente para o Big Ben. Passo pela Abadia e, incrivel, comeco a passar um frio do cao. Esta sol, mas o vento cortante entra pelos meus poros e faz em pedacinhos a minha alma. Saio a caca de uma loja de departamentos para comprar um camisao. Caminho, caminho, caminho, e o que encontro: o Palacio de Buckingham! E soh falta meia-hora para a troca da guarda! O tempo fecha, garoa, sai sol de novo, e eu com um frio danado. Definitivamente, estou em Londres.
Volto para a casa do Daniel, tiro meu capotao da mala, coloco, e me sinto fervendo. Troco o capote por um camisao de manga comprida, e mesmo achando que vou me arrepender disso, saio para a rua. Na esquina, dois caras passam sem camisa enfrentando o sol (e o vendaval). Rio sozinho enquanto tento planejar o que fazer nessa cidade maluca. No roteiro, nada muito certo. Vou dar um pulo em CamdenTown (dei uma caminhada em Notting Hill de manha), ligar para uns amigos e torcer para que o dinheiro que a Lili depositou no meu cartao esteja disponivel depois do almoco. Ultimos sete dias de Europa, ja estou comecando a ficar com saudade…
Agosto 1, 2008 7 Comments
Monalisa, Venus de Milo e… Coldplay
Entao, o Louvre. Fiquei cinco horas e doze minutos dentro do museu, e sai com a sensacao de que soh aproveitei 10% dele. Estou tentando lembrar onde li que sao 11 quilometros de exposicao, e se nao for isso, vou te dizer, esta perto. Mas o problema nem é a caminhada, mas que arte é algo para se namorar, ficar olhando, admirando, sem se preocupar com o que voce vai deixar de ver. Porém, no Louvre, se voce nao ver as coisas rapidamente, vai deixar de ver um monte de coisas…
O mais engracado é que sempre fiz parte do grupo de pessoas que batalha para a expansao da arte, para que todo mundo ouca as melhores musicas, veja os melhores filmes, leia os melhores livros, mas entao voce entra no Louvre com aquele mundareu de gente, e pensa que vai ser impossivel aproveitar com calma o passeio. Tipo, a Monalisa: ninguem pode dizer que viu a Monalisa. Primeiro que ela fica uns dez metros do publico protegida em uma redoma (apos um atentado a faca). Segundo que é uma muvuca…
Ou seja: as pessoas estao ali para olhar o quadro e riscarem na caderneta: “vi a Monalisa, proximo item”. Nao ha como tentar interpretar o sorriso da moca, perceber as pinceladas do Leonardo, admirar o quadro com toda calma que ele merece. Sentar uns quinze minutos em frente a ele como fiz com o Hopper na Espanha. Como dizia a Luiza, minha professora de Educacao Moral e Fisica no colegial, “as pessoas veem, mas nao olhar; falam, e nao dizem; tocam, e nao sentem; existem, e nao vivem”. Em parte, a Luiza estava certissima…
Eh claro que esse distanciamento soh acontece nas duas obras mais famosas do museu, aquelas que um mundo de pessoas quer ver: Monalisa e Venus de Milo. As demais estao ao alcance dos olhos e das maos (literalmente) e a badalacao em torno delas é aceitavel dado o porte do Louvre, um museu com um acervo de mais de 350 mil objetos de arte, e que em 2007 foi o museu mais visitado do mundo com a marca impressionante de 8,3 milhoes de pessoas.
E, na boa, soh o Palacio do Louvre ja valeria uma visita. Construido em 1190 como Fortaleza por Filipe Augusto, parte dele virou museu em 1793, com a Revolucao Francesa. Napoleao, sempre ele, adaptou o lugar como museu. Alem dos tres pavimentos de obras classicas que abrangem antiguidades egipicias, romanas, gregas e orientais ate pinturas e esculturas italianas, francesas e holandesas, ha ainda parte dos aposentos de Napoleao III tal qual eram na epoca, e que por si soh ja fazem o queijo da gente cair (foto 1, 2 e 3).
Das obras, os franceses me impressionaram muito com Prud’Hon (“L’Enlevement De Psique”), Gericaut (“Le Radeau de La Meduse”) e Delacroix, que um quadro antes tinha me chamado a atencao: “Nossa, lembra a capa do Coldplay”. Nao era ele, era o seguinte, “Le 28 de Juillet, La Liberte”. Chris Martin é um coxinha, mas tem bom gosto. Ainda teve Chasseriau, que com sua “Suzanne au bain” balancou meu coracao, mas no quesito musa, vou sonhar com Drost e sua “Bethsabee”.
Dos holandeses, nao me odeiem, mas curti muito mais os dois Vermeer do que todos os Rembrant. E dos italianos, nao tem jeito, Da Vinci. E vou te dizer que a Monalisa perde em encanto para a “La Belle Ferroniere”. Gostei muuuito das esculturas, algo que costumo deixar de lado em outros museus. “Dirce”, de Bartolini (foto 1 e 2), “Mercure Enlevant Psique”, de Vries, “Os Escravos”, de Michelangelo, e “Le Trois Graces” ganharam um bom tempo da minha estadia no Louvre.
Terminada a caminhada, decidi ir comer uma baguete ao lado do Pompidou, e encarar o topo do Centro Cultural. Porem, para ir ao topo é preciso pagar os 10 euros do museu, e como corro o risco de ficar sem nenhuma libra para entrar em Londres nesta quinta, e nao conseguiria ver mais obras de arte apos cinco horas de Louvre, deixo a visita ao Pompidou para o ano que vem, com a Lili. Mesmo assim, me aventurei no lugar admirando suas cores (os canos verdes sao para agua, vermelhos para eletricidade, e azuis para ar-condicionado) e a disposicao das salas de leitura.
A sensacao que tenho ao chegar ao hotel - apos, ainda, passar pelo shopping subterraneo Forun de Halles, com uma Fnac de tres andares abaixo da rua - é de que precisarei vir ao Louvre ao menos mais umas dez vezes para aproveita-lo da forma que ele merece. Foi uma otima primeira vez, mas ate os meus 100 anos espero pisar neste lugar sagrado quantas vezes mais conseguir. Sorrio lembrando que, frente a encantadora Venus de Milo, pensei como era lindo o fato de que uma das mulheres mais fotografadas do mundo nao tivesse os dois bracos. E ela sorriu pra mim, tenho certeza.
Bem, chegou a hora, e esse é o meu ultimo dia em Paris. E, detalhe, acabou o dinheiro. Mesmo. Tudo bem, estou em Paris e tenho um bilhete orange. Vou ate a Shakespeare and Co, a livraria em que a Celine reencontra o Jesse em “Antes do Por-do-Sol”, e vou tentar refazer de cabeca o caminho que eles fizeram no filme. Se eu conseguir chegar ate o cafe, paro, peco um expresso, e me dou por feliz. Se nao encontrar, tudo bem, eu ainda vou voltar a ver essa cidade. Paris, eu volto. Me espere.
Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Julho 31, 2008 4 Comments
Lost in Translation
Chego todo empolgado para pedir uma baguete no cafe ao lado do Pompidou, cujo atendente no dia anterior tinha sido muito gente boa: “Sil vous plait, un baguette de jambon and cheese”. O cara ri e nao perde a bola levantada: “French or english?”. E eu: “Merde! Jambon an fromage, fromage”. O cara soh ri…
Fico uns cinco minutos treinando meu frances para perguntar ao atendente como faco para chegar ao segundo andar do Louvre. Chego la e mando: “Pardon, pouvez-vous me dire ou se trouve second etage?”. O cara vira pra mim e responde: “Ablas espanhol?”
No netcafe, um senhor grisalho gasta uns cincoenta segundos misturando portugues, espanhol e frances para me perguntar onde fica o arroba nesse teclado doido: “Eh simples, eh so clicar no altgr e mandar bala”. E o velhinho, surpreso em eu ser brasileiro, agradece: “Ufa, obrigado, estava sofrendo aqui”.
No metro, uma francesa cola em mim e fala algo que eu nao entendo, em frances. Digo: “Pardon, je ne parle pas francais”. Ela me olha com cara de poucos amigos, entao nao perco a deixa: “Est-ce que vous parlez anglais, spanish or portuguese?”. Ela vira as costas a vai embora. 1 x 0, Brasil.
Um grupo de brasileiros esta perdido procurando a Torre Eiffel. Um deles vira para o amigo, e manda: “Pergunta pro gringo ae que vai que ele sabe”. Olho prum lado, pro outro, e descubro que o gringo sou eu. Antes que eles venham gastar o ingles (ou frances) comigo, disparo: “Na quarta rua, a esquerda, voces ja vao ver a Torre Eiffel”. Todo mundo cai na gargalhada…
Julho 30, 2008 7 Comments
“Parri, Parri”
A internet em Paris é disparada a mais cara da viagem. Entao, assim que encontrei um lugar de precos honestos, tratei de voltar a noite, aproveitando meu “bilhete orange” de uma semana (ônibus e metrô). O lugar ficava no Boulevard Clichy, na zona do meretricio parisiense. Ok, assumo, eu queria mesmo voltar a noite. Compara as fotos do Moulin Rouge de dia e de noite que voce vai entender (alias, pra assistir a um show na casa, o ingresso custa 125 euros, mas voce ganha uma garrafa de champagne - risos).
O clima da area nao é tao pesado quanto eu imaginava, mas é bem desaconselhavel para garotas sozinhas. Encostei num pub irlandes e pedi uma Beamish Red, que me desapontou. Esperava mais dessa cerveja vermelha famosa. Mesmo assim, bebi mais dois pint assistindo a um jogo de… hoquei sobre a grama? O jogo acontece num campo gramado de futebol, a trave parece de futebol de salao, a bola parece de golfe, e os jogadores jogam com taco que parece uma colher de pau. Bizarro.
Quando sai do pub, o time amarelo estava vencendo por 2 a 1, e o segundo gol foi de mao, e valeu. Va entender. Apesar de ter encarado um chilly com fries, peguei uma baguete pra comer no hotel, e madeleines com cobertura de chocolate na maquina de doces do metrô (Jonas, você iria adorar isso). Estava pensando na vida, feliz, dentro do vagao do metrô, quando surge um “ohhhhhhhh” geral no ambiente. Viro a pescoco e vejo a Torre Eiffel, completamente azulada, brilhando na escuridao.
Alguem grita no vagao: “Parri; Parri”, e quando percebo, meus olhos marejados ja estao transbordando (bebado é uma m****). Nao penso duas vezes. Desco ali mesmo e sigo hipnotizado em direcao a torre. A Champ-de-Mars esta abarrotada, mas consigo arranjar um cantinho no meio do jardim para aguardar os proximos dez minutos de brilho, a meia-noite (a torre fica acesa a noite toda, mas soh pisca os dez primeiros minutos de cada hora). Pego a minha baguete e as madeleines e decido fazer um piquinique noturno.
Um grupo de mexicanos estoura uma champagne gritanto “Viva Mexico” e se abracando. Uma familia oriental repete a mesma rotina no minimo tres vezes: arma a maquina num tripé, programa o disparo e sai correndo pra posar com a torre iluminada ao fundo. Irlandeses, com varias caixas de cerveja para passar a noite, mais violao e acordeon, tocam musicas regionais. Afegas, com burcas cobrindo o rosto, riem. A Champ-de-Mars parece ser uma versao atualizada da Torre de Babel.
Isso tudo sem contar a centena de casais que se esparramam pela grama. Penso que deve ser intenso viver um romance em Paris, mas mais intenso ainda deve ser sofrer de amor aqui. Se tivesse vivido metade que seja de meus amores desfeitos nessa cidade, com toda certeza, os buracos em meu coracao seriam beeeeem maiores. E teria sido tudo mais dolorido. Feliz, penso em Lili, e agradeco por estar em um momento especial de “mente aberta, espinha ereta e coracao tranquilo”.
Quando as luzes voltam a piscar, a meia-noite em ponto, me levanto, faco algumas fotos da torre toda iluminada e brilhante, digo ate logo a ela e vou caminhando em direcao ao hotel, pois ja nao ha mais metrô. Ainda bebo mais uma Beamish Red em um cafe no caminho, e por mais que eu esteja absurdamente feliz em uma das cidades mais lindas do mundo - se nao for a mais linda, sinto saudades de casa e do colo da minha amada. Durmo sorrindo.
Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Julho 30, 2008 2 Comments
Nem Sadine, nem o anao de jardim…
E… choveu em Paris. Logo depois que escrevi o post de ontem, sai pra rua e uma garoa fina, de verao, diminuia o mormaco do calor europeu. As ruas ficaram lindas. A iluminacao dourada refletia nas pocas d’agua e transformava uma simples rua em uma visao de cair o queixo. Choveu e, ih, acho que me apaixonei por essa cidade. Fiquei horas caminhando na chuva e sorrindo a toa…
No hotel, um novo banho e cama, ja que os planos para o vigesimo oitavo dia de viagem eram mirabolantes. Mas ate que deu tudo certo, dentro do possivel. Acordei e em poucos minutos estava em frente a Catedral de Notre Dame, admirando esse templo gotico repleto de historias que comecou a ser construido em 1163 e so foi terminado em 1333, 170 anos depois.
Napoleao se coroou (retirando a coroa das maos do papa Pio VII e colocando ele mesmo a coroa sobre sua cabeca) imperador aqui, e apesar de ja ter visto catedrais mais belas (como a de Glasgow), é impossivel nao sentir um friozinho na barriga la dentro. Gostar mesmo eu gostei da parte externa, com todos aqueles monstros saindo das partes laterais da catedral para espantar o mal.
Dali fui correndo para a Sainte-Chapelle, a poucos metros. A capela fica dentro do complexo do Palacio da Justica, que ainda abriga a Conciergiere. Dez euros para fazer a visita custou caro. A capela é fofa, mas esta bem detonada, e é essencial visita-la ao escurecer. Durante o dia, os vitrais de 15 metros de altura e as estrelas desenhadas no teto tambem impressionam, mas deve ficar absurdamente lindo a noite.
Isso sem contar que a capela, de acustica excelente, abriga concertos classicos. Hoje, por exemplo, Christophe Guiot, violinista solista da Orquesta Nacional de Opera de Paris, estara apresentando a versao - integral e original - de “As Quatro Estacoes”, de Vivaldi. Nos proximos dias, concertos com obras de Bach tambem estao no programa. Mas o preco… 25 euros. Fica para a proxima.
O ticket de 10 euros da direito a conhecer, tambem, a Conciergerie, palacio construido por Filipe, o Belo (esses nomes sao uma graca, nao?), em 1301, e que na epoca da Revolucao se transformou em prisao, com muitos futuros decapitados aguardando aqui a sua hora. O quarto da presa mais ilustre, Maria Antonietta, esta aberto aos visitantes. Pra sair do reino da Disneylandia, ops, o Palacio de Versailles, e vir pra ca, ela tinha que perder a cabeca mesmo…
A ideia, na sequencia, era dar uma passadinha no Hotel dos Invalidos, palacio construido em 1671 para abrigar ex-combatentes de guerra, e que abriga, hoje em dia, os restos mortais do senhor Napoleao Bonaparte, mas acabei trocando o imperador por uma visita a dois templos do consumismo: a FNAC e a Virgin Megastore, na Champs Elysees. Tinha varias promocoes, mas sai de maos abanando.
Dali segui para o Centro Cultural Georges Pompidou, que o James nao avisou que fechava as segundas e tercas (risos). Inaugurado em 1977, essa maravilha moderna é o lugar mais visitado de Paris (sim, mais do que o Louvre e a Torre), e se destaca por sua arquitetura particular, que joga pra fora do predio todos os canos e estruturas que deviam estar dentro. Pirado, e interessante.
Sai dali disposto a enfrentar um filé com arroz e fritas, mas eis que olho ao lado, e uma multidao (vai, umas vinte, trinta pessoas) esta toda alojada em frente ao Pompidou, armada de baguete, refrigerante ou cerveja, e fruta, fazendo um piquinique em plena hora do almoco. Nao resisti. Peguei uma baguete de salame com queijo brie (oi, Lili), uma coca-cola, e fui para a frente do museu admirar essa rotina tao parisiense.
Em Berlin, bebe-se cerveja em todos os lugares: na rua, no onibus, no trem, nas pracas. Em Paris, come-se baguetes e lanches em todos os lugares: na rua, no onibus, no trem, nas pracas. Quando eu estava chegando na FNAC, contei em uma quadra doze pessoas que passaram devidamente “embaguetadas”. Para mim, pessoalmente, soa ate transgressor: acho estranho comer em publico, assim, andando, mas se voce esta em Paris, faca como os parisienses, certo.
Proxima parada: Sacré-Coeur, a igreja prostrada no alto do boemio bairro de Montmartre, cuja vista ao entardecer, dizem, enche os olhos. O problema é que, no verao, entardecer significa, quase, virar a madrugada. Cheguei na frente da igreja por volta das 16h, um sol danado. Decidi sair caminhando pelas ruas do bairro que encantou Salvador Dali (ele morou aqui) e que foi pano de fundo para a historia de Amelie Poulain.
Desci me perdendo pelo bairro ate chegar a zona (literalmente) de meritricio, que abriga a famosa “casa para maiores” Moulin Rouge. Me senti na Augusta: a cada dez passos alguem perguntava se eu queria dar uma espiadinha nas garotas. Curti o lugar - com dezenas de bares com as cervejas top da minha lista - mesmo sem ter visto a Nicole Kidman como Sadine (suspiro) e nem ter encontrado o anao de jardim…
Um pouco antes, no caminho para a Sacré-Coeur, vi um cartaz no metro que anunciava um festival de jazz na Esplanada de La Defense do dia 14 ao dia 29. Estrelas: Dave Holland, Solomon Burke e Herbie Hancock. Pensei comigo: o ultimo dia é hoje! Sai correndo para o lugar, achando ter tirado a sorte grande, mas eu devia ter confirmado o mes: o festival foi em juin e nao em juillet…
A confusao me levou ao bairro de La Defense. Para nao encher de predios altos o centro da cidade, a prefeitura jogou os predios comerciais e governamentais no lado oeste, em La Defense. Aqui, a arquitetura moderna se destaca dos predios de design maluco ao imenso calcadao/jardim (que lembra um Anhangabau, mas muuuuito mais bonito). No fim ha o Grande Arche, uma visao moderna do Arco do Triunfo. Bacana.
Agora passa das 21h, e o sol ainda nao se foi. Estou enrolando pois queria muito fazer o passeio noturno pela Catedral de Notre Dame, que se encerra as 23h, mas quem diz que vai ser um passeio noturno se ainda tiver sol? Mesmo assim, vou pra la. Apesar do dia ter acordado nublado, o sol dominou o dia todo. Amanha tem Louvre e Pompidou no programa. Haja pernas…
Ps. E soh da Brasil na capa das revistas culturais gratuitas nessa cidade. A Trois Coulers (cinema, cultura e tecnologia) crava: “Bresil, Terre de Cinema”, destacando “Cidade dos Homens” e “Tropa de Elite” em uma reportagem de nove paginas. Alem, traz um texto que pergunta: “Tupi or not tupi?” e abre dizendo: “Voce conhece a literatura brasileira?” Ja a OpenMag coloca o CSS na capa com a chamada “Fiesta do Brazil” e entrevista…
Julho 29, 2008 4 Comments
Oscar Wilde e Jim Morrison
Acordei tao bem disposto que ate cogitei continuar no albergue, fechar os olhos pra tosqueira do lugar e deixar de tomar banho, afinal, se voce esta na Franca, faca como os franceses (risos). Serio, algumas ruas e no metro, em que eh dificil evitar o contato humano, o mau cheiro dah as caras, mas na Champs Elysees, por exemplo, a calcada eh um festival de perfumes e aromas.
Top 3 de cheiros da viagem: Champs Elysees em terceiro mostrando que os franceses tomam banho… de perfume; Plaza Mayor, de Madri, de noite: um festival de sons e cheiros aue deixam bebados os olhos e a alma; e o vencedor foi o cheiro de pao nos arredores da Catedral de Glasgow, um cheiro tao bom que quase eu, Juliana e Renata saimos perguntando de onde vinha…
Voltando a Paris, passei a manha no Pere Lachaise, um cemiterio com mais de 1 milhao de sepulturas, com umas tres centenas de “celebridades” como Balzac, Bizet, Chopin, Auguste Comte, Marcel Proust, Edith Piaf, Moliere, Allan Kardec, Rossini e outros. Na entrada ha um posto que fornece um mapa com os tumulos ilustres. E nao tem jeito, la dentro, todos os caminhos levam ate a sepultura de James Douglas Morrison.
Meu plano inicial era ir direto encontrar Oscar Wilde, mas quando voce percebe ja esta seguindo o fluxo de pessoas em direcao ao tumulo do lendario vocalista do Doors. A sepultura esta cercada com uma protecao de ferro, e um guarda dah plantao fixo frente ao tumulo no horario em que o cemiterio esta aberto. E eh gente boa: ele ate pula a grade e coloca junto a lapide um vinil do Doors que um fa trouxe, para uma fotografia.
Uma guia, francesa, passeia pelo lugar com um grupo de vinte turistas. A cada vinte passos voce esbarra em alguem famoso… morto. “Voce viu o Moliere?”, me pergunta uma menina, em frances. Eu havia visto ele umas vinte lapides atras, e indico. Outra senhora me pergunta de Edith Piaf, quando vemos uma turminha reunida uns 100 metros a nossa direita. “Deve ser lah”, falamos ao mesmo tempo. E era.
Quando chego ao local em que deveria estar o tumulo de Oscar Wilde, percebo que foi criada uma cripta no lugar da lapide com a qual Morrissey posou abracado em fotos promocionais apos sua saida dos Smiths. A cripta tem sinais de labios com baton por todos os cantos possiveis e impossiveis, alem de diversas inscricoes que homenageiam o genial e sarcastico autor de “Salome” e “O Retrato de Dorian Gray”.
Imediatamente retorno anos e anos e me lembro da Biblioteca Municipal de Taubate. Foi dali que eu li apenas o primeiro volume de “Os Caminhos de Swann”, de Marcel Proust, que devorei uma colecao de vinte volumes de Shakespeare (ate hoje sonho com aquela edicao em tom azul, com belissimos postscriptuns) e que li a colecao completa de Oscar Wilde, condensada toda em largo volume de paginas em “papel biblia”.
Li nao sei quantas vezes essa edicao da Nova Aguilar (que perdi de pegar, anos depois, naquelas banquinhas de livros da Paulista) me concentrando quase sempre em contos como “O Principe Feliz” e “O Rouxinol e a Rosa” (que Herbert Viana adaptou sem creditar pra musica homonima do disco “Os Graos”, do Paralamas). O mundo seria bem mais chato se nao fosse Oscar Wilde. Sem ele, inclusive, nao existiria Morrissey. Devia essa passada em frente da cripta, por agradecimento.
Voltei ao albergue, peguei a mochila e fui para o hotel. Tomei um banho demorado, fiz a barba e decidi pqssar a tarde no Jardin du Carrousel, em frente ao Museu do Louvre, ficar la descansando as pernas e observando o mundo de pessoas indo pro museu de um lado, e o Rio Sena do outro. No finzinho da tarde, apos uma baguete e uma coca, sai caminhando a esmo, sem direcao ou destino certo. Fui parar em Montparnasse, quase fora do mapa do guia.
Se nao tivesse com os joelhos detonados ate entrava no segundo cemiterio famoso da cidade, local em que estao enterrados Sartre, Baudelaire e Beckett, mas nao rolou. Voltei de metro pro hotel e nao sei o que fazer nesta terca. Queria muito ir ao Palacio de Versailles, mas - segundo o guia - eh um passeio de um dia inteiro. Quero ainda visitar a Catedral de Notre Dame, o Georges Pompidou, a basilica de Sacre-Couer e, ufa, o Museu d’Orsay. Eu sei, nao vai dar tempo…
O Museu do Louvre fecha as tercas, mas na quarta estarei la para passar o dia inteiro no lugar. Vantagem: o bilhete eh valido pro dia todo, ou seja, pretendo chegar de manha, ficar umas duas, tres horas procurando a Monalisa e a Venus de Milo, sair, almocar, deitar as margens do Sena, e voltar la pelas 16h e ficar ate aguentar ficar em pe (as quartas e sextas o museu fecha soh as 22h). Vamos ver o que vai rolar nestes ultimos dias de Paris…
Ps: Faca um tour virtual pelo Pere-Lachaise aqui
Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Julho 28, 2008 5 Comments
O dia em que deu tudo errado… em Paris

Coisas que preciso lembrar para a proxima vez que eu vier a Paris: nunca mais agendar um voo para as cinco horas da manha; nunca mais reservar albergue nessa cidade; e nunca mais vir pra ca pra ficar soh tres dias. O dia hoje foi um caos, mas nao se preocupa nao que estou bem feliz: por mais que as coisas deem errado; Paris compensa em dobro. Vamos de flashback.
Arrumei as malas em Madri e ainda tinha umas duas horas livres antes de ir para o aeroporto. Apesar de ter andado em museus o dia todo, nao resisti a mais uma caminhada na capital espanhola, e vou te contar que bateu aquela pontinha de saudade antes mesmo de ir. O check-in no Barajas estava marcado pra comecar as 3h40, e depois de bater cabeca no aeroporto, cheguei na Ryanair pouco mais da 1 da manha, eu e mais umas trezentas pessoas.
Nao preguei o olho a noite toda, e nao consegui dormir nem no voo nem no translado/viagem de Beauvais para Paris. Cheguei no albergue pensando em banho gelado e cama macia, mas quebrei a cara: os quartos ficam fechados de 10h as 16h. Subi puto para arrumar a mala, e um japones de New Jersey salvou meu dia: “Voce tem um mapa? Faz o seguinte: nos estamos aqui. Pega a Rua do Commercio que voce vai sair na Torre Eiffel. Depois atravessa, vai no Arco do Triunfo e desce a Champs Elysees”.
O conselho valeu muito, mas inicialmente parei na Torre. Sao quatro filas para subir nela, duas de escada, duas de elevador (esta mais lenta, ja que sobe menos gente por vez). Fiquei uns dez minutos, sol forte, eu nao tinha durmido, tinha andado os dias anteriores inteiros e subir 700 degraus nao ia ser facil. Deixei de lado por um passeio de balsa no Rio Sena (lembra do “Antes do Por-do-Sol”?).
A primeira meia-hora foi de embasbacar. Se eu ficasse um mes aqui, nao conheceria todas as atracoes da cidade, isso que eu soh vi as que estao nas margens do rio: Torre Eiffel, Port de la Conference, Musee d’Orsay, Musee du Louvre, Jardin du Carrusel, Placa de La Concorde, Palais de Justice, Igreja de Notre Dame, todas as pontes (cada uma com uma historia); fora tudo que eu perdi na segunda meia-hora, em que dormi (hehe).
Voltei pro albergue feliz, quase quatro da tarde, pra tentar tomar um banho. Problema 1: minha toalha sumiu; problema 2: o chuveiro esta mais quente que o sol. Desisto e saio a caca de um hotel, e encontro um umas duas quadras mais perto da Torre: Faco a reserva para os proximos tres dias (em que vou perder os tres dias pagos do albergue :/) e volto a caminhar feliz tomando sorvete de chocolate com creme.
Subo na Torre Eiffel, como a baguete mais cara da minha vida (6,50 euros, mais de 15 reais em pao, queijo e presunto) no segundo piso, mas esqueco de pegar o ticket que dah acesso ao terceiro (e mais alto). Nao me abalo. Desco, vou para o Arco do Triunfo e caminho na Champs Elysees. A cidade esta voltando ao normal apos a Tour de France. Pego a direcao pro albergue (ainda durmo la hoje) e dou sorte de ver a Torre com as luzinhas piscando.
Assim, de boa, tudo deu errado hoje, mas talvez essa seja umas das poucas cidades no mundo que compensa as furadas em que a gente se mete (e precisa lembrar de nao repetir). Estou fedendo (nem tanto, mas sou daqueles que precisa de dois a tres banhos diarios para se sentir bem), mas vou beber um pint de cerveja red e torcer pra que a noite passe rapido. Quem sabe, nesta segunda, vou ao Louvre. Ou entao ao Pere Lachaise, para um papo com Oscar Wilde e Jim Morrison. Me aguarda.
Ps: assim como na Belgica, as letras do teclado sao todas trocadas. Perdoe qualquer erro, a falta de acento e a falta de foco no texto. Estou escrevendo cada palavra duas vezes, e haja paciencia e concentracao. Era pra ser um texto melhorzinho, mas mais alguns dias e eu acostumo…

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta
Julho 27, 2008 11 Comments























































