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Category — Turismo

Histórias de viagem: Ismail na Turquia

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Em 2010, eu e Lili fizemos umas longa viagem de 40 dias pela Europa, e até hoje me lembro como decidimos o roteiro: após o Primavera Sound, em Barcelona, eu queria (precisava!) ver o Wilco em Roma, e a ideia era ir dali pra Escandinávia, mas o fator $ pesou nessa hora. Qual a saída? “Vamos ver qual é o voo mais barato da Easyjet saindo de Roma!”. E era… Atenas. Apenas 10 euros. Uou! Partiu. Dali esticamos para Santorini (até hoje um dos lugares mais espetaculares que visitei) e fomos parar na Turquia, um lugar incrível, um emaranhado de emoções.

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Entre as diversas anotações que eu tinha para a Turquia, uma delas era: “Não deixe de fazer o Nostalgic Bosphorus Tour”. Trata-se de um passeio de barco que sai do porto de Eminönü, quase no Mar Marmara, e vai até o porto de Anadolu Kavagi, quase no Mar Negro. O barco navega todo o estreito de Bósforo parando de um lado na Europa, do outro na Ásia – o rio separa os dois continentes e foi o principal caminho para que Rússia e países do Oriente Médio chegassem ao Egeu e ao Mediterrâneo, e consequentemente à Europa.

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Com esse plano em mente, acordamos cedo um dia e lá fomos nós navegar o Bósforo. 1h30 de passeio depois e estávamos na pequena vila de Anadolu Kavagi, que abriga as ruínas de um castelo bizantino que foi ocupado durante séculos visando a proteção da entrada do estreito para quem vinha do Mar Negro. Descemos do barco e fomos caminhar, comemos peixe fresco, fui proibido no restaurante de beber a cerveja que eu trazia na mochila (o consumo de álcool é proibido pelo Islã e muitos bares nem vendem cerveja) e… conhecemos o Ismail.

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Foi mais ou menos assim: eu sabia das ruínas do castelo bizantino, e fomos tentar subir à pé. Logo no começo da caminhada, um senhor grisalho nos parou e se ofereceu para nos levar até lá em seu carro. Achei incomum e recusei de forma discreta, agradecendo-o. Porém, quando cheguei ao pé do morro e vi que a caminhada iria ser longa (e a gente tinha ainda um barco para pegar de volta para Istambul), decidi voltar e aceitar o serviço de Ismail (que, se não me falha a memória, custou 15 euros).

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Ismail estava aposentado havia 25 anos depois de ter trabalhado por 35 na monitorização do estreito do Bósforo com o Mar Negro por parte do exército turco. Conforme fomos subindo o morro em seu carro, ele nos contava a história da vila: Anadolu Kavagi tem 4 mil habitantes, mil destes soldados que trabalham até hoje monitorando a entrada do Bósforo. Ismail contou detalhes das ruínas, relembrou histórias do exército, falou da família e deu a dica: no final da estrada paralela ao castelo, já no Mar Negro, há uma pequena vila de pescadores que faz um peixe ótimo (menos salgado que o peixe tradicional devido à baixa salinidade do Mar Negro).

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A gente ficou cerca de meia hora fuçando as ruínas do castelo, e ele ficou nos esperando. Vez em quando apontava para algum canto do Mar Negro e contava uma história rápida. Na volta, ele contava animado sobre uns tomates verdes que ele plantava em casa, e que eram bastante populares na região. Assim que paramos na vila, ele fez questão de entrar em sua casa, colher alguns e nos presentear. Na despedida, pedi para que fizéssemos uma foto e que ele anotasse seu nome no meu diário. Se a gente adorou conhecer esse lugar, boa parte do mérito cabe ao Ismail. Obrigado, caro amigo.

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Outras histórias de viagem

agosto 11, 2016   No Comments

Um dia de domingo em Olinda

A aventura toda começou “cedo”: antes do meio dia parti de Pina pra Olinda no 910 (“Rio Doce a Piedade, de Barra de Jangada até Casa Caiada”) e cheguei rápido e sussa. Subi morro, desci morro, fiz fotos, papeei com repentistas, subi morro, desci morro e tomei uma garoa tipicamente paulistana subindo “morro, ladeira, córrego, beco, favela”. A fome bateu e dentre as ofertas disponíveis (vários restaurantes *****) escolhi um “botecão” que tinha “cerveja de verdade” cara demais (R$ 29 numa Primator India Pale Ale não dá), mas me pareceu mais acolhedor, o Peneira, e não errei. Pedi bode com fava, uma Bohemia e gastei umas duas horas e meia (e mais três Bohemias) observando e me divertindo com os frequentadores habituais e assistindo ao primeiro tempo da final da Copa do Nordeste (e torcendo com eles).

Dali parti para A Casa do Cachorro Preto, que receberia um show / ensaio aberto da Rua do Absurdo, cujo disco “Limbo”, de 2014, apareceu em várias listas de melhores do ano. O lugar é uma galeria de arte com obras bem interessantes e vibe ótima. Conta pontos, na minha matemática alcoólatra pessoal, o fato deles terem cerveja caseira no cardápio, a La Ursa em três estilos respeitáveis: Saison, IPA e Bock. O show, marcado para às 16h (eu mesmo cheguei às 17h), começou quase 18h e foi excelente, com a sonoridade do quarteto se misturando com a fauna local (cigarras e outros pássaros) numa execução primorosa de baixo, bateria diminuta (e bastante eficiente), cavaquinho engatado na pedaleira e voz. Fiquei imaginando esse mesmíssimo show ensaio num festival bacana. Gostaria de rever isso nessa sintonia.

Dali, ideia de Jarmeson: Baile Cubano no Clube Bela Vista, no Alto Santa Terezinha. Prum cara infelizmente germânico como eu (ou seja, com as juntas duras), por um lado foi uma tortura: todo mundo dançando e eu ali, remexendo os membros e com medo da omoplata ou do fêmur despencarem do corpo para o meio do salão. Por outro lado foi revigorante, duas horas de música cubana e latina que eu nunca tinha ouvido, metaleira apitando, aquela melancolia feliz do estilo e muito, muito charme melódico numa das melhores músicas do mundo. O cansaço bateu (e, milagre, os ossos não caíram na pista nem nos 15 segundos que insistiram em me tirar pra dançar – pra constatar a falta de “molejão”) e começou uma nova aventura:

Segundo Jarmeson, dali até Pina, onde eu estava hospedado, dava uns R$ 30 (e eu tinha R$ 32 na carteira – e o celular já tinha morrido umas quatro horas antes, ou seja, nada de 99 ou Uber). “Não esquenta com as voltas que o motorista do taxi vai fazer pra sair do morro”, ele avisou. Me despedi, sai do clube e parei um taxi. Falei o destino e ele mandou: “Minha maquininha tá quebrada, quanto você paga até lá?”. R$ 32. Ok, partiu. Mais ou menos. Uns 5 minutos depois, já fora do morro, ele encosta o carro e diz: “Pina é muito longe. Vou deixar você aqui para que você pegue um outro taxi, tudo bem?”. Ok, mas quanto eu te devo? “Não se preocupa, vai sossegado”.

Certo, tô ali no meio de algum lugar do Recife que eu não sei onde, garoando, e decido caminhar a ficar parado. Uns 500 metrôs depois vejo outro taxi, e dou sinal: “Meu caro, quanto você cobra pra me levar até Pina?”. Ele diz R$ 40, aviso que tenho R$ 32 e bora. “Você tava no Baile Cubano e desceu a pé até aqui?”, ele se surpreende. Conto sobre o outro taxista e ele observa: “Pina é longe mesmo”. Segue o cortejo. No caminho, ele liga para uma paquera e pergunta se pode encontra-la no baile em que ela tá. Ela diz que tá embaçado, e o romance fica pra segunda (ele desliga deixando “um cheiro” pra ela). Conversamos então sobre o frio paulistano (do tempo em que ele foi motorista de uma grã-fina do Morumbi) e de Santos e Audax até o momento mágico do dia: começa a tocar uma versão sofrível em português de “Killing Me Softly” na FM, e o amigo motorista dá um show encobrindo a voz da rádio cantando a versão original, em inglês, como se estivéssemos em um karaokê móvel, com direito a agudos, falsetes e tudo mais.

Ele me deixa no hotel, desejo bom trabalho pro parceiro e subo o elevador pensando em quantas nuances um simples dia de domingo (na voz de Gal e Tim) pode ter. Obrigado, Recife 🙂

Ps. Valeu Jarmeson, valeu Júlio. Baita domingo!

maio 5, 2016   No Comments

Histórias de viagem: Maria e Bruges

Em 2009, na hora de montar o roteiro da viagem, decidi incluir Bruges não só por ser uma cidade mítica, mas também porque naquele fim de semana escolhido haveria uma edição do festival local Cactus com Paul Weller, Mark Lanegan, Greg Dulli, Calexico e muito mais no line-up. O festival acontece no parque central da cidade, o Minnewater, e na hora de buscar uma hospedagem escolhi uma que ficava exatamente ao lado do parque.

Assim que entramos na rua descrita na confirmação do Hostel World e, conforme fomos chegando próximo ao número, achamos estranho não existir placa ou alguma informação. Inocentemente, achei que havia reservado um hostel quando, na verdade, tinha reservado um quarto em uma casa (Bed & Breakfest). Fomos e voltamos na rua e decidimos apertar a campainha. Quem nos recebeu entusiasmadamente foi a Maria, uma pessoa muito querida.

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Assim que entramos, Maria se apresentou e, sabendo que éramos brasileiros pela ficha de confirmação da reserva, começou a conversar numa mistura de línguas e sotaques. Ela é uma nona italiana, mas que começa falando em inglês, no meio da frase emenda italiano e termina com coisas em espanhol, holandês ou todo junto e até … português, poucas palavras, mas falava, nos dizendo que a filha havia casado com um brasileiro (pode ser o inverso, minha memória anda falhando). Sinceramente: era enternecedor.

Maria nos mostrou o quarto que iriamos ficar nos alertando: a janela dava para o parque e, neste fim de semana, “irá acontecer um festival de rock ali”, ou seja, haveria barulho. Ela se acalmou assim que contei que tínhamos tickets para o festival e, então, perguntou se eu tinha um mapa da cidade (havia comprado um assim que desci do trem). Mapa na mão, ela começou a indicar os lugares legais para comermos, bebermos e visitarmos, no melhor esquema: “Foge daqui, é coisa pra turista”; “Quer comer uma boa comida feita com cerveja? Vá aqui”; “Aluguem bikes aqui”; e por ai em diante.

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Em um pequeno papel, ela escreveu um recado que funcionava como um vale desconto para passearmos em barcos pelos canais da cidade. Era só apresentar e obter o desconto com o barqueiro. Neste café da manhã da foto, ela nos repreendeu: “Vocês não comeram nada! Nem tocaram no queijo brie!” (risos) Dormimos apenas duas noites em Bruges, e foi extremamente confortável pela maneira como Maria nos recebeu. O quarto que ficamos era de uma de suas filhas, que estava aproveitando o verão europeu e as férias para viajar, deixando-o vago para alguém que quisesse visitar a cidade. Foi bastante útil para nós… e especial.

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Leia também:
– Histórias de viagem: D’akujem (aqui)
– Histórias de viagem: Raconteurs em 2008 (aqui)
– Histórias de viagem: Crianças no Louvre (aqui)
– Histórias de viagem: Um hotel em Paris e Cherry Coke (aqui)
– Dois dias no Cactus Festival 2009, em Bruges (aqui)

julho 11, 2015   No Comments

Histórias de viagem: Raconteurs em 2008

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Fotos por Marcelo Costa

Minha primeira viagem para a Europa foi em 2008, e para acalmar o desejo guardado por tantos anos preparei um roteiro absurdo de 40 dias de viagem passando por nada menos que seis países sempre atrás de shows e festivais. Na época dividi o roteiro de modo direto: eu iria enlouquecer em festivais nos primeiros 20 dias e puxar o freio nos 20 dias seguintes. E o Festival Internacional de Benicàssim foi exatamente o ponto de mudança no roteiro.

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Em três semanas de viagem eu encarava o terceiro festival seguido: comecei no excelente Rock Werchter, na Bélgica (que eu voltaria dois anos depois), parti na segunda semana para a Escócia para pegar o mastodôntico T In The Park (parando em Berlim pra ver Radiohead), que me cansou tanto que cheguei a dormir coisa de duas horas entre um show e outro numa tenda e, dali, partir para a Espanha e para o Benicàssim.

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Para não esquecer: descendo a escada do avião em Girona vindo de Glasgow, a escocesa atrás de mim abriu um sorriso e mandou um sonoro “I Love You, Spain” para comemorar o maravilhoso sol que nos recebia. E foi debaixo de um sol de deserto que cheguei ao festival para pegar minha pulseira, beber como água um copo de um litro de Heineken, e começar a procurar pelos amigos hospedados no vilarejo (fiquei na cidade vizinha, Castelon, que também me abrigou quando voltei ao festival alguns anos depois).

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Depois de troca-los por Grinderman, na Bélgica, e por The Pogues, na Escócia, finalmente me vi frente a frente com o Raconteurs, e foi um daqueles shows de lavar a alma, mas só em alguns momentos. Jack White conseguiu montar uma banda de garagem com todos os clichês do gênero (para o bem e para o mal), e isso fez com o show alternasse muito o clima, com longos improvisos e jams que validam o momento, e que vez em quando desembocavam em momentos matadores, como a versão de “Steady, As She Goes” do vídeo.

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Na época escrevi: “Nenhuma música surge tal qual foi gravada em álbum. Eles recriam tudo, e em várias passagens se superam, mas não é “o” show. São apenas quatro bons músicos declarando paixão e devoção pelo barulho. “Many Shades of Black”, com Brendan Benson comandando, foi um dos grandes momentos, mas muita coisa boa do primeiro disco foi preterida em favor de faixas medianas do segundo”. Bem, hoje amaria ver esse show novamente (com todas as músicas do segundo disco)… Uma baita lembrança boa.

Leia também:
Histórias de viagem: D’akujem (aqui)
Histórias de viagem: Um hotel em Paris e Cherry Coke (aqui)
Histórias de viagem: Resumão de ideias confusas da viagem 2008 (aqui)

fevereiro 21, 2015   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 3)

O quinto dia de viagem começou na estrada, e o ônibus (leito confortável), se não é comparável a uma cama de hotel, serviu bastante para deixar a carcaça descansar enquanto a cabeça pensava mil coisas. No iPod, Tweedy, Pescado Rabioso, Miles Davis, Charme Chulo, Nevilton e Sui Generis se alternavam embalando rápidos cochilos, que terminaram assim que o sol amanheceu meio vermelho, depois dourado. A chegada a Mendoza às 7h e tanto da manhã parecia uma segunda-feira de Marginal Pinheiros: congestionada e ansiosa.

A primeira tarefa do dia foi uma das mais agradáveis da viagem, uma palestra de Roberto de La Mota sobre o vinho argentino além do Malbec. Enólogo-chefe e proprietário da vinícola Mendel, Roberto de La Mota é um dos grandes nomes da história do vinho argentino, e discorreu sobre sete uvas: Mendel Semillón 2013, Doña Paula Estate Sauvignon Blanc 2014, Colomé Torrontés 2013 (um dos meus preferidos), Durigutti Reserva 2010 Bonarda, Rutini Cabernet Sauvignon 2011, Pasionado Cabernet Franc 2010 e Decero Petit Verdot 2011.

Na sequencia, uma visita à bodega familiar Bressia, que tem apenas 10 funcionários (cinco são da família que dá nome a casa). Fomos recebidos por Marita, que nos levou em um rápido tour pela bodega (da área de engarrafamento passando pelas barricas e até o setor de rotulagem, totalmente manual), e depois nos serviu alguns dos destaques da casa (o Bressia Pinot Noir 2010 Piel Negra me agradou, mas o destaque geral foi o Bressia Profundo 2010, um blend com quatro uvas: Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot).

Da simplicidade encantadora da Bodega Bressia fomos para o luxuoso complexo da Vistalba, que inclui uma agradável pousada, para conhecer alguns vinhos da casa sob a orientação do enólogo Alejandro (me chamaram a atenção os Tomero Malbec 2011 e Petit Verdot 2012 e o excelente Vistalba Corte A) e participar de uma mini-feira de vinhos com sete vinícolas presentes: Lamadrid Estate Wines, Viñedos Urraca, Kaiken (responsável por um dos vinhos que me trouxe para essa viagem), Lagarde, Casarena, Septima, Clos de Chacras e Argento.

Uma minifeira de vinhos funciona mais ou menos assim: cada vinícola monta sua apresentação em uma mesa com dois até quatro vinhos, que serão degustados pelos participantes, que vão rodando as mesas e fazendo suas anotações. É bem corrido (a viagem toda foi bem corrida), mas permite se deparar com rótulos excelentes. Como novato, fiquei na cola dos amigos experts, que me indicavam coisas imperdíveis (“Não deixe de experimentar o Lagarde”, dizia um; “Prove o Cabernet Franc da Casarena”, dizia outro).

Grande parte das minifeiras termina em almoço ou jantar, uma agradável confraternização entre enólogos, representantes e donos de bodega com os convidados, momento que permite aprofundar a conversa sobre vinhos, a combinação com pratos e tudo mais. Desta forma, a mesa de jantar na Bodega Vistalba (após um belo entardecer) foi uma das mais divertidas, com ótimos vinhos (provei novemente o Torrontês da Kaiken), comida excelente e um azeite (Corte V) delicioso de edição numerada produzido pela própria bodega (ganhei o de número 397).

O sexto dia de viagem (e o segundo em Mendoza) começou com uma visita à Trivento (aqui dois vinhos me chamaram a atenção: Trivento Golden Reserve Cabernet Sauvignon 2012 e Eolo Malbec 2012) e, na sequencia, à Bodega Norton (mais três pra lista: Norton Cosecha Especial Vintage 2010 Extra Brut; Lote L-109 Malbec 2009 e Gernot Langes 2008, um blend de Malbec, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc). Meu humor não estava dos melhores, e decidi não participar da minifeira, um erro duplo que mereceu um digno puxão de orelhas.

O lance das minifeiras é que, bem, o pessoal está ali para vender vinho e a turma de brasileiros para anotar interesses, trocar informações, movimentar o mercado. Não me senti muito à vontade em ficar ocupando tempo dos exibidores, porém eu não contava com a astúcia deles: a lista de profissionais presentes é apresentada quando o convite é feito para uma minifeira, ou seja, eles sabiam que eu estaria lá. E só descobri isso na mesa do almoço, quando comecei um papo animado com um enólogo sobre carnes, vinhos, cerveja e música.

“Você não provou o meu vinho”, foi a primeira coisa que ele me disse antes mesmo da entrada do almoço ser colocada na mesa. Respondi (de bate pronto) que iria provar naquela hora, na mesa, mas o que me surpreendeu foi sua resposta quando comentei que era Sommelier de Cerveja: “Eu sei. Entrei no seu site essa semana. Tem entrevistas bem boas sobre música lá”. Engoli seco e, não bastasse o arrependimento (e a certeza bacana de que a paixão pelo vinho é algo sério), amigos do grupo disseram que essa foi uma das melhores minifeiras da viagem…

Tudo bem, haveria uma segunda chance no mesmo dia, quando partimos para a agradabilíssima Bodega Tapiz, também pousada (e também produtora de um azeite delicioso), em que além de conhecer os vinhos da casa, haveria outra minifeira (haja vinho, amigos, haja vinho). Da Tapiz, um dos destaques do dia foi o Black Tears Malbec 2010. Na minifeira, a linha Revancha, de Roberto De La Mota, foi um dos destaques, mas só tive olhos (e paladar) para o Mascota Opi Malbec 2013, um dos meus preferidos de toda a viagem. No jantar, um dos sucessos foi o espumante Brut Nature Colonia Las Liebres feito 100% com uva Bonarda.

O terceiro e último dia nosso em Mendoza foi especialíssimo pelos extremos: de manhã partimos para a Bodega DiamAndes, um projeto arquitetônico impressionante do escritório Bormida & Yanzon de deixar a gente sem ar aos pés da cordilheira. Na parte da tarde visitamos a Gouguenheim Winery, uma bodega na total contramão tecnológica da DiamAndes, que ainda produz vinho da mesmo forma com que os primeiros donos da casa produziam nos anos 40, uma experiência lúdica que abre horizontes: há bons destaques em ambas as casas.

Na DiamAndes me apaixonei pelo DiamAndes de Uco Viognier 2013 e, principalmente, pelo DiamAndes Gran Reserva 2008 (a ponto de compra-lo durante a visita – das 13 garrafas que vieram na mala, apenas mais uma foi comprada diretamente na bodega durante a visita). Da Gouguenheim Winery gostei muito do Syrah Bonarda 2013 e do Red Melosa 2010 (Malbec, Sauvignon, Merlot e Bonarda). Na DiamAntes houve minifeira. Meus destaques: o excelente Pinot Noir da Bodega Laureano Gomez, o Malbec 2012 da Alpasión (com um dos melhores rótulos de toda a viagem) e o trio da Bodega Masi Tupungato, que aproxima a Itália da Argentina (em blends de Corvina e Malbec).

A despedida de Mendoza aconteceu mais à noite, no elogiado restaurante Siete Cocinas da Argentina, com o chef Pablo Del Rio caprichando no menu e a companhia na mesa de representantes das vinícolas Roca, Rutini e Decero. Abrimos a noite com um Rutini Apartado Gran Chardonnay 2013, passamos para um Alfredo Roca Pinot Noir 2010, seguimos com um Alfredo Roca Bonarda 2012, Decero Petit Verdot 2011 e Decero Amano 2011, e fechamos a noite com um Rutini Apartado Gran Malbec 2010 e um indie Cara Sur Bonarda 2013.

Não deu muito para caminhar por Mendoza nos três dias, mas foi possível conhecer um número inimaginável de vinhos da região, o que me faz já ter vontade de fazer planos para uma volta mais calma e sossegada. O trecho final da viagem mapeia a terceira região de vinicultura da Argentina: passaremos por San Juan, onde visitaremos a Bodega Finca Las Moras e Casa Montes e, no dia seguinte, partiremos para La Rioja, para as últimas duas visitas: La Riojana e Paiman. Trecho final de viagem (e já está dando saudades).

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

outubro 24, 2014   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 2)

O terceiro dia começou puxado com um voo de Buenos Aires para Neuquén, na Patagonia, e se ao ler “Patagonia” você imaginou aqueles cenários idílicos de Ushuaia, saiba que um voo de Neuquén pra lá demora cerca de seis horas e que a Terra do Fogo não é lá dos melhores territórios para plantio de uva (e essa viagem que estou fazendo é sobre vinhos argentinos).

Não é a toa que a grande concentração de vinicultura na Argentina acontece em Mendoza, região responsável por 75% da produção anual de vinhos do país. Neuquén responde por 0.82% da produção de toda a Argentina, e, ainda assim, apenas uma das grandes vinícolas da região, a Bodega Del Fin Del Mundo, produz sozinha anualmente 9 milhões de garrafas de vinho.

Nosso passeio começou assim que deixamos o aeroporto. Uma van no esperava para nos levar para a Bodega Humberto Canale, fundada em 1909 no coração do Alto Vale do Rio Negro, na Patagônia, e hoje dirigida pela quarta geração da família, Guillermo Barzi Canale, que nos recebeu junto ao enólogo da casa (desde 2003), Horacio Bibiloni, que nos recebeu para falar sobre a bodega, nos mostrar alguns de seus vinhos e nos presentear com um almoço coordenado pelo chef Walter, um churrasco maravilhoso que se saiu como a melhor refeição (até agora) da viagem.

Entre os vinhos, provamos cerca de 10 garrafas e o Humberto Canale Cabernet Franc 2012 foi bastante elogiado (também foi um dos meus preferidos), mas a linha toda me agradou, com destaque também para o Humberto Canale Gran Reserva Merlot 2011. Para o almoço seguimos com um Humberto Canale Gran Reserva Malbec e, depois, outro dos melhores vinhos da viagem: Humberto Canale Centenium, um blend de Malbec, Merlot e Cabernet Franc (envelhecidos em barris norte-americanos e franceses) com produção iniciada em 2005 para festejar os 100 anos da vinícola.

Após a passagem na Bodega Humberto Canale, e ainda com as malas na van, fomos conhecer a pequena (mas apaixonante) Bodega Del Rio Elorza. Quem nos recebeu foi o jovem enólogo Agustín E. Lombroni, de 29 anos, que cativou a todos com sua sinceridade (italiana) e seus excelentes vinhos, que não levam o selo de orgânicos (“embora sejam”, comentou alguém). A turma toda elogiou bastante o trabalho de Agustín, que me pareceu um sonhador em meio a tanta gente querendo apenas fazer dinheiro com o vinho. Os vinhos da Del Rio Elorza não são fáceis (principalmente para quem está acostumado com vinhos “mainstream”), mas vale muito ir atrás deles (procure pela linha Verum).

À noite, jantar no excelente restaurante La Toscana, em Neuquén (o melhor da viagem até agora – recomendo), na companhia do simpático Julio Viola, diretor da Bodega Del Fin Del Mundo. A essa altura do campeonato, o cansaço de voo e visita a duas vinícolas cobrou seu preço, e a mesa ficou um pouco dispersa – uma pena, porque os vinhos servidos sob coordenação de Viola me pareceram ótimos, com destaque (pessoal) para os excelentes Fin Del Mundo Single Vineyard Cabernet Franc 2010 e Fin Del Mundo Special Blend (Malbec, Sauvignon e Merlot) 2009. Tentarei levar um deles para São Paulo também…

Para recuperar as energias, nada melhor que uma boa noite de sono, e o fato de 19 de outubro ser o Dia das Mães na Argentina tanto nos ajudou a descansar um pouco mais (afinal, com feriado na cidade, as tarefas foram agendadas para o fim da manhã) quanto prejudicou as visitas às bodegas Del Fin Del Mundo e NQN, com a apresentação pendendo para o lado mais turístico (rápido e protocolar) das vinícolas do que aprofundadas. Uma pena.

Ainda foi interessante comparar a produção artesanal de Agustín na Bodega Del Rio Elorza com a escala industria da Bodega Del Fin Del Mundo, a tal que faz 9 milhões de garrafas por ano. O tour, bastante básico, não me ajudou a aprofundar nos rótulos, mas há coisa interessante aqui. Já na (moderna) NQN, com um prédio de arquitetura caprichada que conversa com seu entorno, a apresentação foi mais agradável e os vinhos soaram melhores, embora o restaurante tenha me decepcionado bastante.

A rápida passagem pela Patagônia (apenas dois dias) me fez ter vontade de aprofundar um pouco mais na região. A próxima parada (após viagem de 10 horas de ônibus leito) é Mendoza, e após quatro dias imerso no mundo do vinho (com todos ao meu redor discutindo animadamente sobre as coisas boas, os problemas e as dificuldades da área), a chegada à região que mais produz vinhos na Argentina me deixa bastante animado. Iremos ficar quatro dias lá (vou tentar dividir o trecho em dois posts) e depois iremos para San Juan e La Rioja. Segue o jogo.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

outubro 19, 2014   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 1)

Quando a turma da Wines of Argentina me convidou para participar de um desafio para harmonizar duas garrafas de vinhos argentinos com canções de uma playlist especial, encarei o convite de maneira leve: apesar de não ser conhecedor de vinhos, o curso de sommelier de cervejas feito no primeiro semestre de 2013 me daria uma base inicial para, no mínimo, não fazer feio. E tinha a parte das músicas, muito bem selecionada. No fim das contas, gostei do texto e, quem diria, entre diversos sommeliers de vinho, fui escolhido para integrar um tour de 10 dias por vinícolas da Argentina.

Nesse momento bate aquela insegurança de estar em um ambiente que você desconhece completamente, e, depois de muito pensar, decidi assumir o personagem do observador, tentando não influenciar na rotina (opinativa) do grupo (somos oito pessoas viajando juntos, todos conhecedores aprofundados do mundo do vinho com exceção de… um) e ir aprendendo com eles. Quando a gente assume que não sabe nada, o mundo se abre de uma forma interessante. Ou seja, encarei esses 10 dias como uma imersão no mundo do vinho (não só argentino) observando experts no assunto.

A primeira parte da viagem passou pela Capital Federal, Buenos Aires, e o ponto de partida não poderia ter sido melhor. Assim que chegamos ao hotel e fizemos o check-in, e com tempo livre, o grupo decidiu ir caminhando por Pallermo Soho até a vinoteca de Joaquin Alberdi, e a visita foi a melhor abertura de viagem possível: em questão de duas horas (e sem compromisso), o grupo, orientado por Joaquin, fez uma seleção de sete rótulos (malucos) de vinho que, automaticamente, entraram na minha lista de vinhos preferidos sem concorrência com os anteriores (há um concorrente, mas falo sobre no post final daqui alguns dias).

Não tinha como dar errado: um dono de vinoteca apaixonado por vinho (“Nós amamos o vinho e somos embaixadores dele. Abrimos, provamos e contamos sua história. Assim como um dono de bordel, eu vendo prazer”, disse em certo momento) e um grupo de sommeliers buscando pelos vinhos mais “estranhos” e fora da curva que pudessem encontrar. E o primeiro já valeu a viagem: um da bodega Passionate Wine, o Ineditos Torrontes Brutal 2011, que automaticamente me remeteu a cerveja saison, mas sem a carbonatação, e me deixou apaixonado. Na hora separei uma garrafa para levar.

Vieram, em sequencia, um da Bodega Gen del Alma (Otra Piel Gualtallary Suelo Gen Mendoza “Cabernet Franc – Sauvignon – Pinot Noir 2013”), um Buenalma Malbec 2008, um Achaval Ferrer Special Blends 2012 (Cabernet Franc), um espetacular 33 de Dávalos 2013, da Bodega Tacuil (de Salta) e… mais dois que não anotei. Para apaixonados por vinho (ou mesmo apenas interessados), a JÁ! é um local para ser descoberto e apreciado. Merece ser colocado na agenda de viagens (rua Jorge Luis Borges 1772, Pallermo Soho, Buenos Aires). É ali, na mesma rua, há uma ótima loja de discos (vinis, CDs e camisetas!).

O jantar foi no elogiado restaurante PuraTierra, e a entrada (excelente) foi um ceviche aquecido (camarão, peixe branco e lula) com gengibre em conserva, maracujá e manga. No prato principal, coelho com crosta de mostarda em grãos, frutas cítricas, folhas de amêndoa e talos acelga, feijão verde e tomate confit. Os vinhos da noite foram uma seleção agradavel da Bodega Terraza de Los Andes, que se não me soaram tão especiais quantos os do JA!, acompanharam muito bem os pratos do PuraTierra.

Na manhã de sexta-feira, um seminário bem interessante sobre a “Vinicultura na Argentina” seguido de degustação de vinhos de quatro bodegas: El Porvenir de Cafayate, El Esteco, Amalaya e Tukma – gostei bastante do El Porvenir Laborum Tannat 2012 e do excelente e meio maluco Tukma Altura 2670 Sauvignon Blanc 2014. No almoço, na Casa Restaurante Umare, uma entrada fenomenal (que estou tentando encontrar a descrição) e um prato principal bom, mas não surpreendente. Para acompanhar, os ótimos vinhos que havíamos provado um pouco antes.

Fechando a parte de Buenos Aires, à tarde dei uma passada na Cervelar (ótima loja próxima a Calle Florida com um bom número de cervejas argentinas – comprei 18 garrafas) e, à noite, show de tango no Café Los Angelitos (que, de forma impressionante, eu gostei, e muito – o quinteto musical é muito bom, já o jantar é médio!). A primeira parte da viagem foi excelente para descobrir bons vinhos (com excelente assessoria – ainda visitamos a excelente loja El Fenix, na avenida Santa Fé, 1199) e matar saudade de Buenos Aires. A próxima parada é Neuquén, na Patagonia.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

outubro 18, 2014   No Comments

Bora beber vinho na Argentina

Eis o roteiro da viagem que farei pela Argentina conhecendo vinícolas em cinco cidades numa promoção da Wines of Argentina. Em janeiro fui convidado para participar de um desafio que pedia uma harmonização de dois vinhos com músicas de uma playlist preparada por eles, e minha harmonização foi uma das escolhidas pelo júri. O prêmio foi essa viagem:

16/10 – São Paulo – Buenos Aires
17/10 – Buenos Aires
18/10 – Neuquén (Patagonia)
19/10 – Neuquén (Patagonia)
20/10 – Mendoza
21/10 – Mendoza
22/10 – Mendoza
23/10 – Mendoza
24/10 – San Juan
25/10 – La Rioja
26/10 – Buenos Aires – São Paulo

Entre as vinícolas que irei conhecer estão a Del Rio Elorza, Fin del Mundo e NQN, em Neuquén; Trivento, Norton, Los Toneles, Diamandes e Gouguenheim Winery em Mendoza; Finca Las Moras e Casa Montes em San Juan; La Riojana e Paimán em La Rioja. Ufa! Abaixo um vídeo que explica o processo do desafio e anuncia os vencedores. No fim da página há link para a minha harmonização.

Leia também:
– Desafio: Harmonizando vinho e música (aqui)

outubro 6, 2014   No Comments

Bora conhecer vinícolas na Argentina

O júri convidado pelo pessoal da Wines of Argentina anunciou ontem à noite (no vídeo acima) os vencedores do desafio de harmonizar vinho e música, e uma das minhas harmonizações foi escolhida. O prêmio será visitar vinícolas argentinas ainda este ano. As explicações do júri para as escolhas estão acima em vídeo. A minha harmonização está aqui. \o/

janeiro 17, 2014   No Comments

Desafio: Harmonizando vinho e música

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Fotos de Liliane Callegari

Sempre fui um admirador de vinhos, mas nunca um profundo conhecedor. Não sei, por exemplo, que vinho combina com determinada comida muito menos ocasião, e quando o pessoal da Wines of Argentina me propôs uma harmonização de vinhos com músicas, achei que seria o momento perfeito para corrigir alguns erros no meu currículo de bebedor, afinal meu olfato evoluiu bastante desde que me formei Beer Sommelier no primeiro semestre de 2013, e passei a estudar a bebida fermentada com afinco. Talvez eu esteja pronto para aproveitar mais do vinho na taça do que há alguns anos atrás. A Wines of Argentina me mandou duas garrafas de vinho: um Kaiken Torrontés 2012, branco, da cidade de Salta, e um Reserve Pinot Noir 2011 da Bodega Salentein, de Mendoza. Se cada vinho precisasse ser harmonizado com apenas uma canção, eu iria de “What’d I Say”, de Ray Charles, para o Kaiken Torrontés 2012 (uma canção sedutora e atrevida para um vinho idem), e “Chelsea Hotel #2”, de Leonard Cohen, para o Reserve Pinot Noir 2011 da Bodega Salentein (uma canção de saudade e memórias, suave e profunda que combina com este vinho), mas optei por criar uma pequena trilha sonora (com canções retiradas da playlist que me foi disponibilizada aqui) que me acompanhasse no tempo em que eu bebesse o vinho.

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A primeira garrafa aberta foi a de Kaiken Torrontés, numa terça-feira calorenta de São Paulo, que tornou o vinho branco, gelado (calculei mais ou menos 10 ºC), ainda mais aconchegante. Na taça, a percepção do Torrontés é de um vinho com um intenso bouquet floral, remetendo a um jardim primaveril. A uva é bastante perceptível no aroma, mas há mais notas frutadas (como, por exemplo, abacaxi), que se traduzem de forma mais clara no paladar, remetendo a pêssego (principalmente em calda) no final.

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No quesito harmonização, a sensação que o Torrontés passa é de um vinho perfeito para abrir um início de noite a dois, ainda com o dia claro e com um clima de sedução que valoriza o feminino, por isso abri com a versão de Brad Mehldau para “Dear Prudence”, dos Beatles, cuja letra original convida a menina para brincar ao sol, algo que o Torrontés parece reafirmar. “What’d I Say”, de Ray Charles, é ótima para fazer a ponte da metade da garrafa, um pouco mais atrevida, mas nem tanto, enquanto os ânimos aquecem. “Eu Sou do Tempo Que a Gente Se Telefona”, de Blubell, com seu arranjo, que começa nos anos 40, e lá pelo meio cresce e preenche o ambiente, parece perfeita para o calor que o vinho e a conversa trazem nesse estágio, e quando a alegria parece querer pular para fora da taça, “Tuve Sol”, do Bajofondo. Uma harmonização de encontro a dois, ao mesmo tempo sedutor e respeitoso, que os aproxima conforme a garrafa esvazia.

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No dia seguinte foi a vez do Reserve Pinot Noir 2011 da Bodega Salentein, um vinho tinto de coloração avermelhada, puxada para o rubi. A recomendação era para bebê-lo em torno dos 17 ºC, mas dado o calor intenso deste começo de janeiro, deixei-o aproximar-se dos 20 ºC e, ao tirar da geladeira, deixei-o a garrafa sobre a mesa alguns minutos, para que o vinho se acostumasse com a temperatura ambiente do meu apartamento. Na taça, o Salentein Pinot Noir me pareceu bastante frutado (frutas vermelhas, mas puxado para amora e cereja), com um leve toque de amadeirado, que também traz baunilha. O paladar, por sua vez, começa doce e frutado, e se abre, como um leque, oferecendo uma paleta variada de tons (leve acidez, frutado, amadeirado, uma pitada de álcool, um toque de baunilha).

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Para este vinho, no quesito harmonização, minha percepção foi direcionada para um conjunto de canções suaves, mas, ao mesmo tempo, profundas. Desta forma, imaginei abrir a garrafa ao som de “Chelsea Hotel #2”, de Leonard Cohen, uma canção de saudade, de memórias, suave e profunda (impressão que o arranjo delicado amplifica). Imagino o vinho descendo aconchegante e nos trazendo memórias e sonhos. Mantendo o clima, “Todas Las Hojas Son Den VIento”, do Pescado Rabioso, grupo que o saudoso Luis Alberto Spinetta manteve entre 1971 e 1973, e, na sequencia, outro de El Flaco, desta vez solo com “Era de Tontos”, as duas canções cumprindo a função de acompanhar o vinho na passagem do estágio da contemplação para o da excitação, com a memória atiçada pelo líquido e pela letra (“No puedo evitar que mi memoria esté recompilando los viejos tempos”, canta El Flaco). Para o final da garrafa, nada acelerado (ao contrário do Torrontés), mas mais reflexão: “Off You”, do Breeders, conduzindo o ouvinte, de mãos dadas com o vinho, por um mundo que muda a todo momento – o que valoriza todo o percurso de memórias feito até aqui.

Vamos começar de novo?

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janeiro 10, 2014   No Comments