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Category — Turismo

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 7)

Iniciando o processo de retorno, deixamos Mendoza para trás numa quarta-feira pós almoço e partimos de ônibus para San Rafael, onde na sexta-feira teríamos um voo para Buenos Aires. A ideia era conhecer um pouco mais essa pequena cidade de 170 mil habitantes que me remeteu bastante a uma Campos do Jordão um tiquinho mais modesta, mas ainda assim bastante elegante e charmosa. Casualmente há pouco de vinho nesse último trecho do passeio.

Após o tour Alta Montanha, que nos encantou em Mendoza, decidimos encarar outro, desta vez em San Rafael, esperando repetir a paixão pela experiência, mas foi o contrário. Entre as opções possíveis de tour escolhemos uma que passava pelo Cânion de Atuel, com paredões de rocha separados por uma estradinha de terra e um rio, que nestes dias estava quase seco, mas com o degelo torna toda a região uma atração para esportes de canoagem.

O problema do tour é que apenas o Cânion renderia um tour de pouco mais de duas horas, então a agência outras “paradas” que além de soarem meio forçadas, acabaram por fim tornando o que seria um passeio pelo Cânion de Atuel no passeio pelas comportas da hidrelétrica Nihuil (“Aqui vocês podem descer para ver uma das turbinas da Hidrelétrica”, disse em certo momento a guia, que não exibia a mesma simpatia da guia do tour Alta Montanha).

Antes de adentrar o cânion, porém, paramos para almoçar na pequena vila de El Nihuil (que rendeu o pior vinho da viagem) e, depois, para fotos no primeiro grande dique, que leva o nome da vila. Paisagem bonita, muito vento, alguns kioskos e segue o jogo. A descida para o cânion, de van, é interessante, mas não há paradas no meio do trajeto, o que tira um pouco da graça de fotos: ou é no topo, ou é no fundo. Ainda assim, paisagem bem bonita.

Dai, então, começa a peregrinação pelas comportas da hidrelétrica (são quatro no total), que me deixaram com tanto tédio que numa passagem que renderia um foto lindíssima, fiquei tão atônito que esqueci de pedir ao motorista para parar – na verdade, eu achava que ele iria parar após ver aquela paisagem. Seguimos em frente, entediados, até uma área em que, na época do rio cheio, deve ser bem disputada com diversos modelos de esportes de ação, mas que neste dia só serviu para me fazer experimentar a Patagonia 247, uma Session IPA refrescante.

Antes de pegarmos o caminho para San Rafael ainda paramos no último grande dique da região, o do Valle Grande, que rende uma bela paisagem, e no único local que me deixou sem fôlego, a visão de todo o vale e da formação rochosa que os locais chamam de Submarino (na foto acima). Absolutamente lindo! Teve mais: na entrada da cidade conhecemos uma fazenda que produz vinho de mesa (mediano) e uma extensa variedade de frutas secas e em compotas além de uma bela sala de maturação de carne (o bacon estava bastante aromático). Foi mais um item de visita incluso pela agência que não acrescentou nada ao pacote do passeio. Uma pena.

Na sexta-feira voltamos para Buenos Aires, e no sábado teríamos um voo à noite para São Paulo, e, enfim, home, sweet home. Mesmo assim não desperdicei esse pouco tempo na capital federal. Na sexta á noite sai decidido a conhecer mais bares de cerveja artesanal argentina, e o passeio, que rendeu caminhadas produtivas até San Telmo, permitiu escrever o post especial 11 points de cerveja artesanal em Buenos Aires.

No sábado, último dia da viagem, uma nova surpresa: lembra que eu escrevi uns posts atrás que ainda iria falar da melhor carne da viagem? Então, no sábado rolou almoço com o casal de amigos André e Giovana em um dos meus, desde então, lugares favoritos para se comer carne na cidade: La Carniceria, em Palermo, e me apaixonei pelos cortes da casa. Pegamos um corte de parrila e um corte defumado, e bateu a carne que comi no 1884. Não é pouco. Com essa despedida caprichada deixamos Buenos Aires em direção à São Paulo, mas já penso que preciso voltar logo.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

julho 19, 2017   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 6)

Na segunda semana do tour 2017 por Mendoza, deixamos o bom Wine Aparts, hospedagem mais simples no centro da cidade, após quatro dias práticos e partimos para dois dias de Club Tapiz Hotel Restô, que fica em Maipú, dentro de uma das vinícolas da Tapiz – eu havia visitado o local no tour de 2014 e me apaixonado. Era segunda-feira, 01 de maio, e a grande maioria das vinícolas estaria fechada devido ao feriado do dia do trabalho, então relaxamos e fizemos o check-in tranquilamente, desfizemos as malas, comemos algumas empanadas da cozinha do restaurante e descansamos antes de visitar a única vinícola que conseguimos agendar no dia, a Trapiche.

Maior exportadora de vinho argentino, a Bodega Trapiche está localizada em Maipú em um prédio antigo, datado de 1912. Pedimos um taxi e duas retas e 13 quilômetros depois, ei-la. O tour foi agradável e, ao final, provamos um Trapiche Fond de Cave Sauvingnon Blanc 2016, um Costa & Pampa Pinot Noir 2014 e, mais interessante do trio, um Medalla Blend 2013. Foi legal conhecer o prédio e a história da vinícola, mas a sensação é de que a gente ainda não tinha enfiado o pé na jaca… ou melhor, nas uvas, não havia sentido a verdadeira Mendoza, e, já de volta ao Club Tapiz, fomos surpreendidos com o aviso de que toda noite há uma degustação orientada dos vinhos da casa para os hospedes. Partiu.

No bonito salão do hotel, o sommelier Alejandro conduziu uma degustação que mais pareceu um agradável bate papo. Éramos dois brasileiros (eu e Lili), dois holandeses e dois argentinos (de Buenos Aires), e Alejandro ficava alternando o foco buscando saber um pouco sobre cada um na mesa enquanto nos alternávamos entre um agradável Tapiz Torrontes e um ótimo Tapiz Malbec 2013 (o maravilhoso Tapiz Black Tears, uma das minhas paixões na última viagem, ficou de fora e, na correria de ir pra cá e pra lá, acabamos não bebendo-o. Uma pena). Dali partimos para mais vinho no restaurante da casa, que infelizmente não nos surpreendeu e ficou abaixo da nossa expectativa. Tudo bem, nada como um dia (e um vinho) após o outro…

Planejamos curtir viagem de maneira econômica com alguns trechos de bike, outros de ônibus e, os mais distantes, de BusVitivinicola (que nem é tão barato e vale mais para conhecer o Valle do Uco) e taxi. Nossos únicos “exageros financeiros” seriam esses dois dias no Club Tapiz e o jantar no restaurante 1884, mas acabamos cedendo a mais um “gasto extra”: no segundo dia de Tapiz (por indicação certeira da atenciosa Monica), contratamos um motorista para ficar conosco entre 9h30 e 17h30 levando-nos a quatro vinícolas (sendo que três delas eu já havia reservado antecipadamente). Foi das melhores decisões da viagem e um dos melhores dias.

Na terça-feira então, no horário combinado, o motorista Claudio Moreno nos pegou para o nosso dia de beber vinho. Meu plano inicial era passar na lendária bodega de Carmelo Patti e beber um vinho com o próprio Carmelo, um enólogo por vocação e, mais do que isso, um grande personagem da cena vinícola local. Ele não pede reserva antecipada nem nada, é só chegar chegando, mas, na manhã seguinte a um feriado, demos com a cara na porta. E como tínhamos horário marcado nas vinícolas seguintes, achamos por bem deixar para encontrar Carmelo na próxima vez que voltarmos.

Esperamos cerca de 30 minutos, que passaram voando com as histórias que Claudio, um excelente guia, nos contava sobre Mendoza. Por exemplo: olhando o mapa da cidade nos dias anteriores, percebemos a quantidade de praças no centro, e Claudio nos explicou que elas foram construídas após o terremoto de 1861, que deixou mais de 4 mil mortos na cidade, visando ser uma área de escape para um possível terremoto futuro (o último marcante foi em 1985). Não só isso: a cidade é toda baixa (há poucos arranha-céus) visando a segurança da população. Claudio também nos contou curiosidades sobre os plátanos que embelezam a cidade no outono e da divisão de água em Mendoza, um bem raro e muito importante numa cidade que, dizem, tem mais de 1000 bodegas, entre outras coisas.

Nossa segunda (primeira na verdade) foi na bela Bodega Alta Vista. Se você fez um tour de vinho, os outros vão ser todos bem parecidos, com pequenas aulas sobre processos e barricas. A diferença é a parte histórica e, claro, os vinhos, que aqui surpreenderam: abrimos com um refrescante Alta Vista Premium Torrontes 2015, seguimos com um Alta Vista Atemporal Blend 2013 (um dos favoritos da viagem) e com um Alta Vista Terroir Selection Malbec 2014. Para fechar, o badalado Alta Vista Alto 2010 (75% Malbec 25% Cabernet Sauvignon), a estrela da casa, excelente.

Dali partimos para, segundo Mônica, da Tapiz, a bodega mais procurada por brasileiros no momento: El Enemigo, projeto pessoal de Alejandro Vigil (apelidado em uma reportagem do jornal Clarin como “O Messi dos vinhos”), enólogo chefe da renomada Catena Zapata, e de Adrianna Catena, filha mais nova do lendário Nicolás Catena (“Na época da crise, quando o país quebrou no final dos ano 90, e todo mundo teve que vender suas bodegas para os estrangeiros, Nicólas era o único que não vendia, mas sim comprava. Dizem que ele fez um pacto”, brincou o motorista). O plano era fazer o tour, degustar os vinhos e almoçar, mas acabamos (com a fome e com a sede) fazendo apenas as duas últimas, que foram a grande surpresa da viagem.

O local é um charme, o almoço foi absolutamente excelente (um costela divina – e enorme) e os vinhos, os melhores das duas semanas: escolhi uma sequencia mais simples e Lili ficou com a sequencia Premium (e, claro, depois alternamos). Experimentamos o El Enemigo Chardonnay, Malbec, Bonarda e os sensacionais Gran Blend, Gran Agrelo e Gran Gualtallary. Lili percebeu que o Gualtallary e o Agrelo têm a mesma composição de 85% Cabernet Franc e 15% de Malbec, mas são bem diferentes. Como o “O Messi dos vinhos” estava por ali, questionamos e, gentilmente, ele puxou uma cadeira e nos deu uma pequena aula sobre rabiscando no papel toalha:

A) A diferença de altitude das vinhas de cada garrafa: a plantação de Agrelo está a 930 metros acima do nível do mar e a de Tupungato, onde é produzida a uva do Gualtallary, 1470 metros. “A cada 100 metros diminui um 1 grau de temperatura”, explicou. Ou seja, as vinhas de Tupungato estão em uma região quase seis graus mais fria.

B) O solo de Agrelo é rico em cascalho, com um pouco de argila e de areia do fundo do mar (você sabia que boa parte dessa região estava encoberta pelo oceano? Assim que a Cordilheira se forma, parte da região de Maipú surge e, por isso, em algumas calicatas no lado de cá da Cordilheira é possível encontrar conchinhas do mar enterradas a bilhões de anos) enquanto o solo de Tupungato tem bastante cascalho e pedras.

C) A posição de cada uma das vinhas em relação ao sol.

Conclusão da aula: “Basicamente o que vocês sentem de diferença é sol, solo e temperatura”. E brincou: “Um amigo meu, enólogo em Bordeaux, me disse certa vez: se você plantar Malbec aqui, o resultado será Merlot. Porque o solo é mais importante que a varietal”. É o famoso Terroir…

Ps. Ao ir para o caixa pagar a conta, com Alejandro próximo, presenciamos a cena de um fã pedindo para o enólogo autografar a garrafa: “Você é um artista”, ele disse, e Alejandro, que deve estar acostumado com os elogios, minimizou o gracejo com gentileza (e eu e Lili nos arrependemos de não ter pegado uma garrafa e feito o mesmo)…

A equipe e o próprio Alejandro haviam nos servido de vinho mais duas ou três vezes e esse delicioso exagero prejudicou a terceira vinícola do dia: satisfeitos com o belo almoço e com a aula de vinhos, partimos para a renomada Lagarde. Lili já havia entregado os pontos, mas lá fomos nós para mais seis vinhos e um espumante: Lagarde Extra Brut, Guarda Chardonnay 2015, Primeiras Viñas 2013 Cabernet Sauvignon, Altas Cumbres Torrontes 2015 (<3 Torrontes), Merlot 2014, Collection Cabernet Franc 2013, um dos meus favoritos da sessão ao lado da estrela da casa, Henry 1 2012. Ufa! O tour foi interessante, mas já estávamos mais pra lá do que pra cá, então hora de voltar pra casa, feliz e vinhamente bêbado.

Após a extensa oferta de vinhos do dia, cabulamos a degustação do hotel à noite (eu só torço para que não tenha entrado um Black Tears na roda justamente nesse dia – ou melhor, torço para a felicidade dos presentes) e fomos arrumar as malas, pois no dia seguinte partiríamos para o trecho final da viagem: dois dias em San Rafael com direito a tour por canyons e mais vinho, e mais dois dias em Buenos Aires (ok, um e meio), que rendera os bares que completam os 11 locais para se beber cerveja artesanal na cidade, assim como a melhor carne de todo o passeio. Fica para o próximo post.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

maio 29, 2017   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 5)

Dois anos e meio depois de um tour por vinícolas argentinas acompanhado de uma turma de sommeliers de vinho, cá e estou de volta com Lili de companhia visando beber muito vinho e desbravar Mendoza. A primeira parada foi em Buenos Aires, onde tive a oportunidade de matar saudade e observar minha Vênus favorita se banhando (La Toilette De Venus, de 1873, de William Adolphe Bouguereau, em exposição no Museu de Bellas Artes de Buenos Aires) e, ciceroneado por Túlio Bragança, do renomado Aires Buenos (simplesmente tudo sobre Buenos Aires), conhecer o Chori (onde se come um excelente choripam gourmet) e iniciar um tour por pubs de cerveja artesanal argentina.

De Buenos Aires, voo para San Rafael e, de lá, um bus para Mendoza – o das 13h estava lotado (quem manda não comprar a passagem antes) e tivemos que esperar o das 14h30. Nenhum problema: o kiosko em frente a rodoviária nos abasteceu com internet, milanesa (daquelas que saem para fora do prato) com batatas e cerveja (mainstream, mas argentina). Por volta das 18h já estávamos em Mendoza. Escolhemos um hostel simples para essa primeira parte da viagem, e ficamos no Wine Aparts, que está próximo do centro nervoso de Mendoza (uma pequena grande cidade de 115 mil habitantes e cerca de mil bodegas). O lance era procurar algumas empanadas para driblar a fome e se preparar para a maratona do dia seguinte…

Acordamos por volta das 8h, tomamos o café no hotel e partimos de ônibus de linha para Maipú, um das regiões vinícolas de Mendoza que é possível acessar de ônibus (Luján de Cuyo também é acessível de ônibus de linha, mas é mais complicado; já o Valle de Uco merece uma maior dedicação via Bus Vitivinicola ou remis – motoristas contratados que fazem esses trechos). O plano era descer num local determinado, alugar uma bike e pedalar entre as vinícolas. Porém, para variar, perdemos o ponto, e fomos parar quase em frente á Bodega Lopez. Aproveitamos e descemos e começamos nossa maratona de vinhos com um bom Casona Lopez 2014 (e um doce demais Dulce Natural Lopez 2016 Torrentes e Moscatel).

Visando corrigir os planos traçados em casa (e guiados pelo Maps, que funciona realmente como mapa via satélite mesmo sem wi-fi), pegamos um ônibus e descemos na Calle Urquiza, onde deveríamos ter descido antes, para alugar duas bikes no Maipu Bikes. Recomendamos: Mario nos atendeu muito bem, corrigiu os horários dos tours que faríamos e ainda fez uma reserva em uma bodega. De posse das bikes (100 pesos a diária) partimos para desbravar as vinícolas da região e, para pânico da Lili, escolhi como primeira a Viña El Cerno, uma bodega de vinhos orgânicos a cerca de seis quilômetros, sendo que tivemos que atravessar uma rodovia (na ciclofaixa) e um pequeno trecho repleto de plátanos sem ciclofaixa.

Bodega pequena e charmosa, a Viña El Cerno, todos os vinhos são orgânicos (ou seja, dispensam pesticidas, fungicidas ou qualquer outro agrotóxico – todo o adubo é natural) e eu e Lili ficamos num embate entre o Malbec 2010 (muito mais macio) e o Malbec 2014 (mais rebelde). Curti. Dali seguimos para almoçar, em meio ao vinhedo, na Tempus Alba, questão de dois minutos de pedalada. Encarei um bom ojo de bife e adorei os vinhos da casa: optei na degustação por Merlot, Tempranillo (meu favorito) e Syrah, uvas mais incomuns na terra do Malbec. O pânico de Lili em pedalar na autoestrada sumiu na volta (viva o vinho), e até paramos para provar azeites na Entre Olivos (gostamos tanto que trouxemos uma garrafa de azeite com alho, que estamos consumindo como se fosse café de tão bom).

A tarde especial consumiu todo o nosso tempo, e perdemos a visita na última vinícola, Lagarde, mas o Mario, da Maipú Bikes, tratou de transferir a reserva para a semana seguinte, nos fazendo evitar de perder 200 pesos. Na volta para casa, um empecilho: em Mendoza não há cobradores de ônibus, e todos os usuários tem um cartão (tipo Bilhete Único) com créditos para pagar a passagem. Bem, eu já tinha providenciado o meu cartão, já tinha colocado créditos, mas não contava com o trecho extra (após perder o ponto) que fizemos de ônibus, então não tinha créditos no cartão para pagar a passagem: “Peça para algum passageiro pagar para você”, orientou o motorista. E lá fomos nós, com 7 pesos nas mãos, pedindo para alguém pagar a nossa viagem. Pelo jeito é comum, pois o processo foi rápido e indolor. Agora… casa.

O sábado teria novamente um tour de vinhos, mas acordamos tarde e decidimos curtir a cidade. Demos um pulo na Plaza Independência e Lili teve a excelente ideia: “Por que não compramos vinhos na Sol y Vino – “a” loja de vinhos em Mendoza – e fazemos um piquenique no Parque San Martin?”. Baita ideia! Pegamos nosso vinho na Sol y Vino (um bom Tupun Bonarda 2014), passamos no supermercado e compramos queijo e salame e torradas e azeite com alho pra acompanhar e partimos de ônibus para o parque, que é belíssimo – eu não o havia visitado na vez anterior, e me apaixonei). Estendemos a toalha e criamos nosso pequeno reino particular, que se encaixou maravilhosamente na tarde outonal de Mendoza. Um dia leve e de descanso para seguirmos para o jantar no badalado 1884, de Francis Mallman.

Eu havia feito a reserva duas semanas antes, e dias antes escreveram pedindo para confirmar, já que a procura estava grande. Reserva confirmada, partimos. Primeira surpresa: o 1884 fica dentro de uma velha bodega na área central de Mendoza (precisamos de ajuda para encontrar o restaurante). Chegamos 10 minutos antes, e logo nos ofereceram uma mesa, que poderia ser na área fechada ou no jardim. Optamos pelo segundo, e a enorme churrasqueira que Mallman mantém no local aromatizou de fumaça todas as roupas na minha mala (risos), um brinde especial pelo jantar caprichado: Lili foi de coelho (ela adora) e encarei um belo ojo de bife, que não foi o melhor da viagem (falarei dele no próximo post), mas estava absolutamente perfeito fechando um sábado simplesmente especial.

Se deixasse por mim, iríamos em 30 vinícolas em seis dias, mas Lili, apaixonada por natureza, queria fazer o tour de Alta Montanha, que segue na estrada que liga Mendoza a Santiago, para em pontos onde se pode observar o Pico do Aconcágua, o mais alto das Américas. Fizemos o passeio via agência El Cristo Redentor (obrigado, Tomaz Alvarenga), e foi um longo dia: nos pegaram 7h30 no hotel e voltamos quase às 18h30. Nesse intervalo, a Madalena, excelente guia local, nos levou pela rota internacional 7 e depois pela 40. Paramos na estação de esqui Penitentes (encaramos o teleférico para encontrar a melhor vista de toda a viagem) e, depois, na ponte Inca. Nos apaixonamos por Uspallata e almoçamos (encarei mais uma milanesa) em Las Cuevas, último vilarejo antes da fronteira com o Chile. Recomendamos fortemente o passeio. Descansamos felizes para encarar a segunda parte do tour Mendoza.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

maio 20, 2017   No Comments

Cervejando em Buenos Aires

O start da revolução cervejeira artesanal começou nos Estados Unidos no final dos anos 70, começo dos 80, e nos anos 90 grande parte dos 51 estados norte-americanos tinha aderido ao “movimento”. O novo século chegou e países como Itália, Dinamarca, Holanda, Canadá, Chile e Brasil, entre muitos outros, embarcaram na onda da revolução cervejeira, que também bateu na porta das respeitadas escolas clássicas (Alemanha, Inglaterra e Bélgica), e muitas delas cederam levemente (a República Tcheca ainda faz charminho).

País do vinho Malbec, a Argentina tinha acenado levemente alguns anos atrás que estava a fim de embarcar na onda, mas as coisas caminharam lentamente no país de Diego Maradona até que nos últimos dois anos houve uma proliferação de cervejarias artesanais e brewhouses que se triplicaram na capital. Se nos anos 00 era possível contar os lugares que vendiam cerveja artesanal na capital argentina nos dedos das mãos, agora já é melhor chamar mais uns dois amigos para ajudar na contagem (e no levantamento de copo).

No geral, a escola de cerveja artesanal argentina ainda soa em um estágio inicial apostando em IPAs, Irish Reds e Golden Ales básicas, mas um nome já se destaca no cenário local: Ricardo “Semilla” é responsável pelas experimentais cervejas Los Bichos Mandan (geralmente nascidas de blends improváveis de outras cervejas artesanais locais com maturação em barris de uísque, vinho ou conhaque de segundo uso com acréscimo de levedura selvagem e lúpulo) e pelo grande hit da atual temporada cervejeira argentina, a linha artesanal Juguetes Perdidos.

Abaixo um passeio por 10 points cervejeiros (e um extra) na capital argentina em maio de 2017, boa parte deles divididos entre San Telmo e Pallermo (há uma honrosa exceção em Caballito). É sempre bom lembrar que pubs que não são brewhouses (ou seja, não produzem a própria cerveja) dependem do que o mercado artesanal tem a oferecer, o que quer dizer que você pode ir a alguns desses bares e a lousa estar completamente diferente (e alguma cerveja citada não estar disponível), o que torna o passeio sempre uma surpresa (a alguma ainda melhor pode estar engatada). Boa sorte na sua caminhada. A minha foi essa.

PRIMEIRA PARADA – Bodega Cervecera (El Salvador 5100, Palermo Soho)
Dica da amiga Cilmara, do blog Lupulinas. Aberta em 2011 inicialmente na Calle Thames, a Bodega Cervecera mudou para este lugar aconchegante cujo diferencial nesta noite foi não estar abarrotado. Ou seja, um lugar calmo para se beber uma cerveja sem stress. Na lousa, 10 rótulos, todos de nano ou micro cervejarias argentinas honrando o lema artesanal “apoya a tu cerveceria local”. Apostei numa Kira Indie American IPA, bastante correta e amarga, mas sem grandes surpresas. O companheiro de boteco Tulio Bragança, do renomado site Aires Buenos (que honra o lema “Simplesmente tudo sobre Buenos Aires”), foi de Finn American Wheat, que chegou sem carbonatação nenhuma, um pecado em se tratando de cerveja artesanal. Um dos méritos das cervejas mainstream é entregar padrão, baixo, mas ainda assim padrão. Uma Budweiser, Stella ou Heineken terá o mesmo gosto em São Paulo, Nova York ou Londres, e se você bebe uma delas “choca” é, muito provavelmente, porque o dono do estabelecimento desligou a geladeira para economizar energia e esse gela/aquece/gela ferra uma das duas únicas vantagens que a grande indústria pode oferecer: padrão para quem está na zona de conforto (a outra é preço). Dai pagar um pouco mais caro numa artesanal e ela vir sem carbonatação dificulta o jogo, mas eventualmente acontece. Ainda assim gostei da Bodega Cervecera, e lamentei não olhar as cervejas locais que eles tinham em garrafa (num post antigo deles num blog vi garrafas de Grosa, uma das minhas cervejas argentinas favoritas).

SEGUNDA PARADA – On Tap (Costa Rica 5527, Palermo Hollywood)
Excelente recomendação do Túlio, esse pub é o grande exemplo do crescimento da procura por cerveja artesanal na capital argentina. Aberto em julho de 2015, o On Tap deu tão certo com suas 20 torneiras de cerveja artesanal argentina que abriu uma filial na mesma calçada e mais cinco (!) bares em outros bairros da cidade. Como só números não significam muita coisa (afinal Justin Bieber vende milhões de discos e sua música é algo tipo Malt 90 – Malt Nojenta, se você viveu os anos 80), conta pontos eles terem duas Juguetes Perdidos entre suas 40 torneiras nos dois endereços da Calle Costa Rica: uma Baltic Porter (que deixei passar) e uma sensacional Grand Cru, uma das melhores cervejas de toda viagem. A média, no entanto, é de Pale Ale, IPA, Red, Golden Ale e Stout (Tulio experimentou uma Hazelnut bem interessante), mas ainda havia uma Wee Heavy engatada (da BierHaus) e uma Wesley Double IPA, que experimentei e curti (ainda que melada demais e amarga de menos). O On Tap original é um local fechado, com mesas e tal (e estava abarrotado). Já o vizinho coloca balcões na calçada, o que é bem legal. O saldo foi extremamente positivo nesse que já está entre os meus três bares favoritos da cidade.

TERCEIRA PARADA – Gull (Cabrera 5502, Palermo Hollywood)
Para fechar a primeira noite, Túlio nos levou ao Gull, que tem um ambiente mais pop, gourmet e arrumadinho (patricinho) com um segundo andar bastante aprazível para dias de verão, mas que não me animou tanto quanto a variedade de rótulos on tap, todos próprios e básicos (Irish Red, Golden, IPA, Honey, Porter e Scottish). O que salvou a noite foi a geladeira da casa, de onde retirei duas La Loggia, uma Imperial Stout e uma Imperial IPA, ambas seladas com cera e sem rótulo, apenas com uma etiqueta que lista os prêmios (merecidos) recebidos pelas duas. Aqui já deu notar outro salto das cervejas locais: em 2014, num tour (de vinhos) que fiz pela Argentina, trouxe três La Loggia na mala, e nenhuma delas (inclusive essa mesma RIS) impressionou muito, todas boas e corretas, mas sem grandes destaques. Essas duas da geladeira do Gull estavam bem melhores e mais provocantes, um ou dois níveis acima das mesmas cervejas que bebi em 2014.

QUARTA PARADA – Cervelar (Viamonte 336, Microcentro)
Na primeira vez que vim a Buenos Aires buscando cervejas argentinas, por volta de 2008 e 2009, a Cervelar era o principal point indicado por blogs e locais. Ainda hoje se você buscar locais cervejeiros na capital argentina pelo Ratebeer, a Cervelar aparecerá em primeiro lugar, mas a sensação é de que este bar na Viamonte (geralmente o indicado) parou no tempo. Nas prateleiras, uma boa seleção básica do que a Argentina tem de cerveja artesanal engarrafada (Antares, OtroMundo, Barba Roja, Beagle, Berlina); em tap, quatro estilos tradicionais, mas absolutamente nenhuma novidade. A sensação é de que este bar é mantido por ter sido um dos primeiros da marca, que hoje soma mais oito pubs na cidade. Dai fica o critério ao que você busca: se você está procurando por cervejas artesanais argentinas em garrafa, esse point da Viamonte pode ser interessante para neófitos; se você quer cerveja on tap, deixe a Cervelar da Viamonte de lado e parta para a Cervelar de San Telmo (Defensa 998), que ganhou um banho de loja, tapas gourmet e 14 torneiras (incluindo uma Double IPA).

QUINTA PARADA – Bélgica (Avenida Pedro Goyena 901, Caballito)
Num belo casarão de esquina em Caballito está localizada uma das joias cervejeiras de Buenos Aires na atualidade, o Bélgica, pub aberto em novembro de 2016 e que conta com 12 torneiras e atendimento “a lá Bélgica”: aqui se bebe cada estilo de cerveja em seu copo próprio, buscando alcançar o melhor resultado (os copos especiais de dose para experimentar alguma cerveja desconhecida são um charme). Indicado a mim pelo próprio Semilla, não estranha encontrar na lousa quatro Juguetes Perdidos entre as 14 opções disponíveis: uma Belgian IPA (que já é um passo à frente das American IPA locais), uma Jamaica Dubbel, uma Saison Maracuya e até uma Scotch Peated Smoked Whisky Barrel (que eu só descobri que estava engatada depois de sair e perdi de experimentar). Outra que chamou a atenção foi a Finn Wheat IPA Blend 2, o que demonstra certo apreço da casa em sair do lugar comum das cervejas artesanais, algo que os diferencia num oceano de mais do mesmo. É um espaço grande com um belo balcão central, mesas e um segundo piso, tudo cheio numa sexta-feira de tempo bastante agradável para se provar cerveja artesanal. Recomendo conhecer.

SEXTA PARADA – Antares Brew Pub (Bolivar 491, San Telmo)
Fundada em dezembro de 1998 por três amigos de faculdade (dois caras e uma garota), a Antares é hoje a maior micro-cervejaria da Argentina, e paga certo preço por ser uma das desbravadoras do universo cervejeiro local. Tal qual a Colorado no Brasil, a Antares funciona como porta de entrada para curiosos adentrarem o mercado cervejeiro artesanal, oferecendo rótulos tradicionais que já soam ultrapassados por nanos e micro cervejeiros (tal qual as escolas clássicas europeias ficaram ultrapassadas pela revolução cervejeira norte-americana). Então se você gosta muito de Colorado, por exemplo, você irá gostar de Antares. Já se você acha que a Colorado já não é mais o que era há 10 anos atrás (você evoluiu, ela permaneceu a mesma) e está mais para mainstream do que para cerveja artesanal, a Antares segue o mesmo caminho. Dito isto, este pub num belo casarão de San Telmo (aliás, são mais de 30 pubs espalhados por todo o país) vive permanentemente tomado. O legal aqui é provar a régua com todas as cervejas da lousa em copos pequenos (são oito tradicionais mais duas cervejas sazonais). Gosto da Kölsch e da Barley Wine – nesse esquema de cervejas mainstream produzidas por “empresas artesanais”.

SÉTIMA PARADA – Sexton Beer Company (Bolivar 622, San Telmo)
Um dos que mais curti a vibe, o Sexton Beer Company foi aberto em fevereiro de 2014, e aposta numa carta apenas com cervejas preparadas no próprio bar, que eles vendem on tap e também em garrafa. O local é pequeno (três mesas e um bom balcão), mas bastante agradável, com alma de pub rock and roll: no som, Iggy Pop esgoelando durante meia hora (clap clap clap) celebrou meus dois pints. Provei a Munyon Citra IPA e a Merican IPA, e as duas estavam muito boas, modelo American IPA “antigo” (amargor “sujo” e levemente resinoso – mesmo na Citra), mas totalmente dentro do estilo. Depois me arrependi de não provar a Dulce de Leche Amber. Quero voltar.

OITAVA PARADA – Breoghan Brew Bar (Bolivar 860, San Telmo)
Alguns passos na mesma rua do Sexton Beer Company está o Breoghan Brew Bar, com uma proposta totalmente inversa: pub totalmente lotado daqueles que você precisa conversar com o vizinho no balcão quase gritando para competir com o pop rock anos 80 que sai das caixas e o falatório no salão, ou seja, um bar mais jovem, de galera, para quem não quer apenas beber e comer, mas também conversar e paquerar. Há várias mesas, um balcão no miolo do bar e outro no canto próximo das torneiras, que somam 15 taps, sete deles da própria casa. Decidi arriscar em uma Buena Birra Cascade e fui beber no anexo do bar, mais calmo e vazio. Desceu bem, outra American IPA das “antigas”, mas o local me soou mais um daqueles para ver, beber, e ser visto.

NONA PARADA – Barba Roja San Telmo (Defensa 550, San Telmo)
Eu estava evitando ir ao Barba Roja, mas queria fechar um post com 10 bares, e não resisti a inclui-lo (no fim acabei indo a 11 bares de qualquer jeito). E eu estava relutante porque nunca bebi uma Barba Roja que “valesse realmente a pena” – e acho que já bebi umas seis ou sete diferentes. Mas como diz o ditado, já que não tem tu, vai tu mesmo. Até curto a arte da cerveja, tão infantil quanto a tampinha destacável e fácil de abrir das garrafas, mas definitivamente eu não vivo no universo Barba Roja: no pub, enorme, escuro e lotado, uma boa seleção de pop rock argentino em alto volume. Na lousa, oito Barbas Rojas diferentes e escolhi a IPA (até para manter a linha da noite após passar na Sexton e na Breoghan), que estava tão ruim, mas tão ruim, mas tão ruim, que a vontade era deixar o pint pela metade. Posicionado no balcão de frente a atendente, que foi bastante gentil, educadamente bebi a cerveja toda. A gente não acerta todas numa mesma noite, certo.

DÉCIMA PARADA – BierLife (Humberto 1º 670, San Telmo)
Desanimado no balcão do Barba Roja, recorri a amigos no Whatsapp, e o cervejeiro e parceiro de confraria Marcio Kovacs (que já havia me auxiliado num roteiro cervejeiro em Nova York) me salvou novamente: “Você está em San Telmo? Vá no BierLife!”. Dica anotada, maps ligado e uma pernadinha leve para encontrar o melhor local cervejeiro da viagem, o point número 1 para mim em Buenos Aires, com 44 torneiras (duas Juguetes Perdidos <3) num casarão que remete muito a um Biergarten alemão: a casa começa em dois salões, abre prum terceiro salão menor que emenda com um quarto salão imenso. E estava totalmente lotada! Esse é o tipo de lugar que faz falta em São Paulo, um galpão cervejeiro imenso com vários ambientes (tudo aqui em São Paulo é pequeno e lotado). A lousa não decepcionou. Encarei a Juguetes Perdidos Belgian IPA (mandei até um elogio bêbado ao cervejeiro) e uma BierLife Wheat Wine que me surpreendeu. A lousa ainda destacava uma Del Parque Pumpkin, uma La Delicia Sidra Espumante Seca, uma BierLife Raisins Wine e uma Juguetes Perdidos Jamaica Dubbel, mas o nível alcoólico já estava alto, a madrugada outonal agradável e a cont fechada: 10 bares, e justamente o último tinha sido o melhor formando um Top 3 com o On Tap de Pallermo Hollywood e o Bélgica Caballito.

EXTRA: NOLA (Gorriti 4389, Pallermo)
Já havia encerrado a lista na madrugada de sexta e as malas já estavam fechadas preparadas para o voo das 22h, mas o sábado prometia um almoço com o casal André e Giovana. O local (escolhido pelo Tulio) foi o Carniceria, responsável por um dos melhores cortes de carne de toda viagem (deixando para trás até o famoso ojo de bife do 1884, do Francis Mallman) – aliás, vale conhecer também o Chori, de um dos donos do Carniceria, algo como um choripan gourmet, mas muito bom (outra boa dica do Tulio). Depois de duas garrafas de vinho e papos muito bons, o casal comentou sobre o NOLA, um bar de comidas cajun comandado por uma nativa de New Orleans com cerveja artesanal própria próximo dali. Não resistimos e saímos batendo perna na agradabilíssima tarde outonal de Buenos Aires. No NOLA bebi mais uma boa IPA bastante fresca e caramelada, e fiquei salivando pelas comidas, mas já não havia espaço depois do almoço. Fica para a próxima, mas eu volto.

maio 12, 2017   No Comments

Histórias de viagem: Ismail na Turquia

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Em 2010, eu e Lili fizemos umas longa viagem de 40 dias pela Europa, e até hoje me lembro como decidimos o roteiro: após o Primavera Sound, em Barcelona, eu queria (precisava!) ver o Wilco em Roma, e a ideia era ir dali pra Escandinávia, mas o fator $ pesou nessa hora. Qual a saída? “Vamos ver qual é o voo mais barato da Easyjet saindo de Roma!”. E era… Atenas. Apenas 10 euros. Uou! Partiu. Dali esticamos para Santorini (até hoje um dos lugares mais espetaculares que visitei) e fomos parar na Turquia, um lugar incrível, um emaranhado de emoções.

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Entre as diversas anotações que eu tinha para a Turquia, uma delas era: “Não deixe de fazer o Nostalgic Bosphorus Tour”. Trata-se de um passeio de barco que sai do porto de Eminönü, quase no Mar Marmara, e vai até o porto de Anadolu Kavagi, quase no Mar Negro. O barco navega todo o estreito de Bósforo parando de um lado na Europa, do outro na Ásia – o rio separa os dois continentes e foi o principal caminho para que Rússia e países do Oriente Médio chegassem ao Egeu e ao Mediterrâneo, e consequentemente à Europa.

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Com esse plano em mente, acordamos cedo um dia e lá fomos nós navegar o Bósforo. 1h30 de passeio depois e estávamos na pequena vila de Anadolu Kavagi, que abriga as ruínas de um castelo bizantino que foi ocupado durante séculos visando a proteção da entrada do estreito para quem vinha do Mar Negro. Descemos do barco e fomos caminhar, comemos peixe fresco, fui proibido no restaurante de beber a cerveja que eu trazia na mochila (o consumo de álcool é proibido pelo Islã e muitos bares nem vendem cerveja) e… conhecemos o Ismail.

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Foi mais ou menos assim: eu sabia das ruínas do castelo bizantino, e fomos tentar subir à pé. Logo no começo da caminhada, um senhor grisalho nos parou e se ofereceu para nos levar até lá em seu carro. Achei incomum e recusei de forma discreta, agradecendo-o. Porém, quando cheguei ao pé do morro e vi que a caminhada iria ser longa (e a gente tinha ainda um barco para pegar de volta para Istambul), decidi voltar e aceitar o serviço de Ismail (que, se não me falha a memória, custou 15 euros).

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Ismail estava aposentado havia 25 anos depois de ter trabalhado por 35 na monitorização do estreito do Bósforo com o Mar Negro por parte do exército turco. Conforme fomos subindo o morro em seu carro, ele nos contava a história da vila: Anadolu Kavagi tem 4 mil habitantes, mil destes soldados que trabalham até hoje monitorando a entrada do Bósforo. Ismail contou detalhes das ruínas, relembrou histórias do exército, falou da família e deu a dica: no final da estrada paralela ao castelo, já no Mar Negro, há uma pequena vila de pescadores que faz um peixe ótimo (menos salgado que o peixe tradicional devido à baixa salinidade do Mar Negro).

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A gente ficou cerca de meia hora fuçando as ruínas do castelo, e ele ficou nos esperando. Vez em quando apontava para algum canto do Mar Negro e contava uma história rápida. Na volta, ele contava animado sobre uns tomates verdes que ele plantava em casa, e que eram bastante populares na região. Assim que paramos na vila, ele fez questão de entrar em sua casa, colher alguns e nos presentear. Na despedida, pedi para que fizéssemos uma foto e que ele anotasse seu nome no meu diário. Se a gente adorou conhecer esse lugar, boa parte do mérito cabe ao Ismail. Obrigado, caro amigo.

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Outras histórias de viagem

agosto 11, 2016   No Comments

Um dia de domingo em Olinda

A aventura toda começou “cedo”: antes do meio dia parti de Pina pra Olinda no 910 (“Rio Doce a Piedade, de Barra de Jangada até Casa Caiada”) e cheguei rápido e sussa. Subi morro, desci morro, fiz fotos, papeei com repentistas, subi morro, desci morro e tomei uma garoa tipicamente paulistana subindo “morro, ladeira, córrego, beco, favela”. A fome bateu e dentre as ofertas disponíveis (vários restaurantes *****) escolhi um “botecão” que tinha “cerveja de verdade” cara demais (R$ 29 numa Primator India Pale Ale não dá), mas me pareceu mais acolhedor, o Peneira, e não errei. Pedi bode com fava, uma Bohemia e gastei umas duas horas e meia (e mais três Bohemias) observando e me divertindo com os frequentadores habituais e assistindo ao primeiro tempo da final da Copa do Nordeste (e torcendo com eles).

Dali parti para A Casa do Cachorro Preto, que receberia um show / ensaio aberto da Rua do Absurdo, cujo disco “Limbo”, de 2014, apareceu em várias listas de melhores do ano. O lugar é uma galeria de arte com obras bem interessantes e vibe ótima. Conta pontos, na minha matemática alcoólatra pessoal, o fato deles terem cerveja caseira no cardápio, a La Ursa em três estilos respeitáveis: Saison, IPA e Bock. O show, marcado para às 16h (eu mesmo cheguei às 17h), começou quase 18h e foi excelente, com a sonoridade do quarteto se misturando com a fauna local (cigarras e outros pássaros) numa execução primorosa de baixo, bateria diminuta (e bastante eficiente), cavaquinho engatado na pedaleira e voz. Fiquei imaginando esse mesmíssimo show ensaio num festival bacana. Gostaria de rever isso nessa sintonia.

Dali, ideia de Jarmeson: Baile Cubano no Clube Bela Vista, no Alto Santa Terezinha. Prum cara infelizmente germânico como eu (ou seja, com as juntas duras), por um lado foi uma tortura: todo mundo dançando e eu ali, remexendo os membros e com medo da omoplata ou do fêmur despencarem do corpo para o meio do salão. Por outro lado foi revigorante, duas horas de música cubana e latina que eu nunca tinha ouvido, metaleira apitando, aquela melancolia feliz do estilo e muito, muito charme melódico numa das melhores músicas do mundo. O cansaço bateu (e, milagre, os ossos não caíram na pista nem nos 15 segundos que insistiram em me tirar pra dançar – pra constatar a falta de “molejão”) e começou uma nova aventura:

Segundo Jarmeson, dali até Pina, onde eu estava hospedado, dava uns R$ 30 (e eu tinha R$ 32 na carteira – e o celular já tinha morrido umas quatro horas antes, ou seja, nada de 99 ou Uber). “Não esquenta com as voltas que o motorista do taxi vai fazer pra sair do morro”, ele avisou. Me despedi, sai do clube e parei um taxi. Falei o destino e ele mandou: “Minha maquininha tá quebrada, quanto você paga até lá?”. R$ 32. Ok, partiu. Mais ou menos. Uns 5 minutos depois, já fora do morro, ele encosta o carro e diz: “Pina é muito longe. Vou deixar você aqui para que você pegue um outro taxi, tudo bem?”. Ok, mas quanto eu te devo? “Não se preocupa, vai sossegado”.

Certo, tô ali no meio de algum lugar do Recife que eu não sei onde, garoando, e decido caminhar a ficar parado. Uns 500 metrôs depois vejo outro taxi, e dou sinal: “Meu caro, quanto você cobra pra me levar até Pina?”. Ele diz R$ 40, aviso que tenho R$ 32 e bora. “Você tava no Baile Cubano e desceu a pé até aqui?”, ele se surpreende. Conto sobre o outro taxista e ele observa: “Pina é longe mesmo”. Segue o cortejo. No caminho, ele liga para uma paquera e pergunta se pode encontra-la no baile em que ela tá. Ela diz que tá embaçado, e o romance fica pra segunda (ele desliga deixando “um cheiro” pra ela). Conversamos então sobre o frio paulistano (do tempo em que ele foi motorista de uma grã-fina do Morumbi) e de Santos e Audax até o momento mágico do dia: começa a tocar uma versão sofrível em português de “Killing Me Softly” na FM, e o amigo motorista dá um show encobrindo a voz da rádio cantando a versão original, em inglês, como se estivéssemos em um karaokê móvel, com direito a agudos, falsetes e tudo mais.

Ele me deixa no hotel, desejo bom trabalho pro parceiro e subo o elevador pensando em quantas nuances um simples dia de domingo (na voz de Gal e Tim) pode ter. Obrigado, Recife 🙂

Ps. Valeu Jarmeson, valeu Júlio. Baita domingo!

maio 5, 2016   No Comments

Histórias de viagem: Maria e Bruges

Em 2009, na hora de montar o roteiro da viagem, decidi incluir Bruges não só por ser uma cidade mítica, mas também porque naquele fim de semana escolhido haveria uma edição do festival local Cactus com Paul Weller, Mark Lanegan, Greg Dulli, Calexico e muito mais no line-up. O festival acontece no parque central da cidade, o Minnewater, e na hora de buscar uma hospedagem escolhi uma que ficava exatamente ao lado do parque.

Assim que entramos na rua descrita na confirmação do Hostel World e, conforme fomos chegando próximo ao número, achamos estranho não existir placa ou alguma informação. Inocentemente, achei que havia reservado um hostel quando, na verdade, tinha reservado um quarto em uma casa (Bed & Breakfest). Fomos e voltamos na rua e decidimos apertar a campainha. Quem nos recebeu entusiasmadamente foi a Maria, uma pessoa muito querida.

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Assim que entramos, Maria se apresentou e, sabendo que éramos brasileiros pela ficha de confirmação da reserva, começou a conversar numa mistura de línguas e sotaques. Ela é uma nona italiana, mas que começa falando em inglês, no meio da frase emenda italiano e termina com coisas em espanhol, holandês ou todo junto e até … português, poucas palavras, mas falava, nos dizendo que a filha havia casado com um brasileiro (pode ser o inverso, minha memória anda falhando). Sinceramente: era enternecedor.

Maria nos mostrou o quarto que iriamos ficar nos alertando: a janela dava para o parque e, neste fim de semana, “irá acontecer um festival de rock ali”, ou seja, haveria barulho. Ela se acalmou assim que contei que tínhamos tickets para o festival e, então, perguntou se eu tinha um mapa da cidade (havia comprado um assim que desci do trem). Mapa na mão, ela começou a indicar os lugares legais para comermos, bebermos e visitarmos, no melhor esquema: “Foge daqui, é coisa pra turista”; “Quer comer uma boa comida feita com cerveja? Vá aqui”; “Aluguem bikes aqui”; e por ai em diante.

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Em um pequeno papel, ela escreveu um recado que funcionava como um vale desconto para passearmos em barcos pelos canais da cidade. Era só apresentar e obter o desconto com o barqueiro. Neste café da manhã da foto, ela nos repreendeu: “Vocês não comeram nada! Nem tocaram no queijo brie!” (risos) Dormimos apenas duas noites em Bruges, e foi extremamente confortável pela maneira como Maria nos recebeu. O quarto que ficamos era de uma de suas filhas, que estava aproveitando o verão europeu e as férias para viajar, deixando-o vago para alguém que quisesse visitar a cidade. Foi bastante útil para nós… e especial.

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Leia também:
– Histórias de viagem: D’akujem (aqui)
– Histórias de viagem: Raconteurs em 2008 (aqui)
– Histórias de viagem: Crianças no Louvre (aqui)
– Histórias de viagem: Um hotel em Paris e Cherry Coke (aqui)
– Dois dias no Cactus Festival 2009, em Bruges (aqui)

julho 11, 2015   No Comments

Histórias de viagem: Raconteurs em 2008

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Fotos por Marcelo Costa

Minha primeira viagem para a Europa foi em 2008, e para acalmar o desejo guardado por tantos anos preparei um roteiro absurdo de 40 dias de viagem passando por nada menos que seis países sempre atrás de shows e festivais. Na época dividi o roteiro de modo direto: eu iria enlouquecer em festivais nos primeiros 20 dias e puxar o freio nos 20 dias seguintes. E o Festival Internacional de Benicàssim foi exatamente o ponto de mudança no roteiro.

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Em três semanas de viagem eu encarava o terceiro festival seguido: comecei no excelente Rock Werchter, na Bélgica (que eu voltaria dois anos depois), parti na segunda semana para a Escócia para pegar o mastodôntico T In The Park (parando em Berlim pra ver Radiohead), que me cansou tanto que cheguei a dormir coisa de duas horas entre um show e outro numa tenda e, dali, partir para a Espanha e para o Benicàssim.

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Para não esquecer: descendo a escada do avião em Girona vindo de Glasgow, a escocesa atrás de mim abriu um sorriso e mandou um sonoro “I Love You, Spain” para comemorar o maravilhoso sol que nos recebia. E foi debaixo de um sol de deserto que cheguei ao festival para pegar minha pulseira, beber como água um copo de um litro de Heineken, e começar a procurar pelos amigos hospedados no vilarejo (fiquei na cidade vizinha, Castelon, que também me abrigou quando voltei ao festival alguns anos depois).

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Depois de troca-los por Grinderman, na Bélgica, e por The Pogues, na Escócia, finalmente me vi frente a frente com o Raconteurs, e foi um daqueles shows de lavar a alma, mas só em alguns momentos. Jack White conseguiu montar uma banda de garagem com todos os clichês do gênero (para o bem e para o mal), e isso fez com o show alternasse muito o clima, com longos improvisos e jams que validam o momento, e que vez em quando desembocavam em momentos matadores, como a versão de “Steady, As She Goes” do vídeo.

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Na época escrevi: “Nenhuma música surge tal qual foi gravada em álbum. Eles recriam tudo, e em várias passagens se superam, mas não é “o” show. São apenas quatro bons músicos declarando paixão e devoção pelo barulho. “Many Shades of Black”, com Brendan Benson comandando, foi um dos grandes momentos, mas muita coisa boa do primeiro disco foi preterida em favor de faixas medianas do segundo”. Bem, hoje amaria ver esse show novamente (com todas as músicas do segundo disco)… Uma baita lembrança boa.

Leia também:
Histórias de viagem: D’akujem (aqui)
Histórias de viagem: Um hotel em Paris e Cherry Coke (aqui)
Histórias de viagem: Resumão de ideias confusas da viagem 2008 (aqui)

fevereiro 21, 2015   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 4)

O trecho final do roteiro foi van na estrada! Pegamos a ruta 40 para sair de Mendoza e seguimos primeiro pela ruta 141 e, depois, pela 38, a caminho de La Rioja, quase sete horas de viagem atrás de bons vinhos… e valeu muito a pena. Antes, porém, uma parada estratégica no meio do caminho para conhecer a produção da Finca Las Moras, em San Juan, a duas horas de Mendoza, uma bodega responsável por uma seleção de vinhos muito interessantes na questão custo / benefício.

Antes de beber, porém, fomos dar um passeio na vinícola e adentrar uma calicata, que nada mais é do que uma enorme escavação no terreno para se estudar a geotécnica do solo, afinal, antes de se investir em uma plantação em um determinado local é bom saber se o tal local tem um solo propício para o plantio. No caso desta calicata da Finca Las Moras, o que mais surpreendeu foi encontrar conchinhas do oceano em meio a terra! Do lado de lá da Cordilheira dos Andes há um oceano, e há alguns milhões de anos atrás tudo isso daqui era… oceano! A formação da Cordilheira dividiu o território, mas o solo não deixa esquecer o passado.

Partiu degustação, e a linha tradicional Dada foi bastante elogiada por seu excelente custo / benefício. O Dada 1 é um blend de Bonarda e Malbec enquanto o Dada 2 nasce da união de Cabernet Sauvignon e Syrah. Já o Dada 3, meu favorito, é 100% Merlot. Da linha PAZ, outro dos sucessos da casa, um Sauvignon Blanc muito bom. Seguiram-se a ainda melhor linha Grand Syrah e os tão ótimos quanto Pedernal (Malbec) e, meu favorito desta parada, o Mora Negra 2011 (Malbec e Bonarda).

Próximo destino, Casa Montes, uma enorme vinícola de San Juán, para provar o Ampakama Dulce Natural Viogneir, um Torrontes fresquissimo e um bom blend tinto 2012 que ainda não está nem rotulado além de um ótimo Don Baltazar Cabernet Franc (estou me apaixonando por essa uva!). Dali direto para a La Riojana, cooperativa de vitivinicultura de La Rioja fundada em 1940, com uma produção absolutamente gigantesca. Eles fazem desde vinhos de caixinha até bons exemplares de Torrontes Riojano e Malbec Rose. Gostei do Ecologica Los Andes Reserva Shiraz Malbec e também dos exemplares da linha Raza (Malbec e Syrah).

Pé na estrada e mais uma parada! Recebidos com empanadas e uma vista de tirar o folego do vinhedo no Valle do Chañarmuyo, nem o cansaço foi páreo para se deslumbrar com a linha de vinhos Keo e, principalmente, Paiman, cujo Tannat da casa se transformou em um dos desejos de consumo da turma da van (se você esbarrar com ele por ai, pega dois: um pra você e um pra mim, ok). Um misto de alegria e dever cumprido marcou o almoço que se seguiu, e a sensação é de que essa viagem por regiões vinícolas da Argentina foi um enorme presente que deve abrir meus olhos não só para os Wines of Argentina, mas de todo mundo. Viagem finita, mas já quero voltar.

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

outubro 27, 2014   No Comments

Na rota dos vinhos na Argentina (parte 3)

O quinto dia de viagem começou na estrada, e o ônibus (leito confortável), se não é comparável a uma cama de hotel, serviu bastante para deixar a carcaça descansar enquanto a cabeça pensava mil coisas. No iPod, Tweedy, Pescado Rabioso, Miles Davis, Charme Chulo, Nevilton e Sui Generis se alternavam embalando rápidos cochilos, que terminaram assim que o sol amanheceu meio vermelho, depois dourado. A chegada a Mendoza às 7h e tanto da manhã parecia uma segunda-feira de Marginal Pinheiros: congestionada e ansiosa.

A primeira tarefa do dia foi uma das mais agradáveis da viagem, uma palestra de Roberto de La Mota sobre o vinho argentino além do Malbec. Enólogo-chefe e proprietário da vinícola Mendel, Roberto de La Mota é um dos grandes nomes da história do vinho argentino, e discorreu sobre sete uvas: Mendel Semillón 2013, Doña Paula Estate Sauvignon Blanc 2014, Colomé Torrontés 2013 (um dos meus preferidos), Durigutti Reserva 2010 Bonarda, Rutini Cabernet Sauvignon 2011, Pasionado Cabernet Franc 2010 e Decero Petit Verdot 2011.

Na sequencia, uma visita à bodega familiar Bressia, que tem apenas 10 funcionários (cinco são da família que dá nome a casa). Fomos recebidos por Marita, que nos levou em um rápido tour pela bodega (da área de engarrafamento passando pelas barricas e até o setor de rotulagem, totalmente manual), e depois nos serviu alguns dos destaques da casa (o Bressia Pinot Noir 2010 Piel Negra me agradou, mas o destaque geral foi o Bressia Profundo 2010, um blend com quatro uvas: Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot).

Da simplicidade encantadora da Bodega Bressia fomos para o luxuoso complexo da Vistalba, que inclui uma agradável pousada, para conhecer alguns vinhos da casa sob a orientação do enólogo Alejandro (me chamaram a atenção os Tomero Malbec 2011 e Petit Verdot 2012 e o excelente Vistalba Corte A) e participar de uma mini-feira de vinhos com sete vinícolas presentes: Lamadrid Estate Wines, Viñedos Urraca, Kaiken (responsável por um dos vinhos que me trouxe para essa viagem), Lagarde, Casarena, Septima, Clos de Chacras e Argento.

Uma minifeira de vinhos funciona mais ou menos assim: cada vinícola monta sua apresentação em uma mesa com dois até quatro vinhos, que serão degustados pelos participantes, que vão rodando as mesas e fazendo suas anotações. É bem corrido (a viagem toda foi bem corrida), mas permite se deparar com rótulos excelentes. Como novato, fiquei na cola dos amigos experts, que me indicavam coisas imperdíveis (“Não deixe de experimentar o Lagarde”, dizia um; “Prove o Cabernet Franc da Casarena”, dizia outro).

Grande parte das minifeiras termina em almoço ou jantar, uma agradável confraternização entre enólogos, representantes e donos de bodega com os convidados, momento que permite aprofundar a conversa sobre vinhos, a combinação com pratos e tudo mais. Desta forma, a mesa de jantar na Bodega Vistalba (após um belo entardecer) foi uma das mais divertidas, com ótimos vinhos (provei novemente o Torrontês da Kaiken), comida excelente e um azeite (Corte V) delicioso de edição numerada produzido pela própria bodega (ganhei o de número 397).

O sexto dia de viagem (e o segundo em Mendoza) começou com uma visita à Trivento (aqui dois vinhos me chamaram a atenção: Trivento Golden Reserve Cabernet Sauvignon 2012 e Eolo Malbec 2012) e, na sequencia, à Bodega Norton (mais três pra lista: Norton Cosecha Especial Vintage 2010 Extra Brut; Lote L-109 Malbec 2009 e Gernot Langes 2008, um blend de Malbec, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc). Meu humor não estava dos melhores, e decidi não participar da minifeira, um erro duplo que mereceu um digno puxão de orelhas.

O lance das minifeiras é que, bem, o pessoal está ali para vender vinho e a turma de brasileiros para anotar interesses, trocar informações, movimentar o mercado. Não me senti muito à vontade em ficar ocupando tempo dos exibidores, porém eu não contava com a astúcia deles: a lista de profissionais presentes é apresentada quando o convite é feito para uma minifeira, ou seja, eles sabiam que eu estaria lá. E só descobri isso na mesa do almoço, quando comecei um papo animado com um enólogo sobre carnes, vinhos, cerveja e música.

“Você não provou o meu vinho”, foi a primeira coisa que ele me disse antes mesmo da entrada do almoço ser colocada na mesa. Respondi (de bate pronto) que iria provar naquela hora, na mesa, mas o que me surpreendeu foi sua resposta quando comentei que era Sommelier de Cerveja: “Eu sei. Entrei no seu site essa semana. Tem entrevistas bem boas sobre música lá”. Engoli seco e, não bastasse o arrependimento (e a certeza bacana de que a paixão pelo vinho é algo sério), amigos do grupo disseram que essa foi uma das melhores minifeiras da viagem…

Tudo bem, haveria uma segunda chance no mesmo dia, quando partimos para a agradabilíssima Bodega Tapiz, também pousada (e também produtora de um azeite delicioso), em que além de conhecer os vinhos da casa, haveria outra minifeira (haja vinho, amigos, haja vinho). Da Tapiz, um dos destaques do dia foi o Black Tears Malbec 2010. Na minifeira, a linha Revancha, de Roberto De La Mota, foi um dos destaques, mas só tive olhos (e paladar) para o Mascota Opi Malbec 2013, um dos meus preferidos de toda a viagem. No jantar, um dos sucessos foi o espumante Brut Nature Colonia Las Liebres feito 100% com uva Bonarda.

O terceiro e último dia nosso em Mendoza foi especialíssimo pelos extremos: de manhã partimos para a Bodega DiamAndes, um projeto arquitetônico impressionante do escritório Bormida & Yanzon de deixar a gente sem ar aos pés da cordilheira. Na parte da tarde visitamos a Gouguenheim Winery, uma bodega na total contramão tecnológica da DiamAndes, que ainda produz vinho da mesmo forma com que os primeiros donos da casa produziam nos anos 40, uma experiência lúdica que abre horizontes: há bons destaques em ambas as casas.

Na DiamAndes me apaixonei pelo DiamAndes de Uco Viognier 2013 e, principalmente, pelo DiamAndes Gran Reserva 2008 (a ponto de compra-lo durante a visita – das 13 garrafas que vieram na mala, apenas mais uma foi comprada diretamente na bodega durante a visita). Da Gouguenheim Winery gostei muito do Syrah Bonarda 2013 e do Red Melosa 2010 (Malbec, Sauvignon, Merlot e Bonarda). Na DiamAntes houve minifeira. Meus destaques: o excelente Pinot Noir da Bodega Laureano Gomez, o Malbec 2012 da Alpasión (com um dos melhores rótulos de toda a viagem) e o trio da Bodega Masi Tupungato, que aproxima a Itália da Argentina (em blends de Corvina e Malbec).

A despedida de Mendoza aconteceu mais à noite, no elogiado restaurante Siete Cocinas da Argentina, com o chef Pablo Del Rio caprichando no menu e a companhia na mesa de representantes das vinícolas Roca, Rutini e Decero. Abrimos a noite com um Rutini Apartado Gran Chardonnay 2013, passamos para um Alfredo Roca Pinot Noir 2010, seguimos com um Alfredo Roca Bonarda 2012, Decero Petit Verdot 2011 e Decero Amano 2011, e fechamos a noite com um Rutini Apartado Gran Malbec 2010 e um indie Cara Sur Bonarda 2013.

Não deu muito para caminhar por Mendoza nos três dias, mas foi possível conhecer um número inimaginável de vinhos da região, o que me faz já ter vontade de fazer planos para uma volta mais calma e sossegada. O trecho final da viagem mapeia a terceira região de vinicultura da Argentina: passaremos por San Juan, onde visitaremos a Bodega Finca Las Moras e Casa Montes e, no dia seguinte, partiremos para La Rioja, para as últimas duas visitas: La Riojana e Paiman. Trecho final de viagem (e já está dando saudades).

Turismo: Na rota das vinícolas argentinas (aqui)

outubro 24, 2014   No Comments