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Trilhas Sonoras de Amor Perdidas

Separando DVDs para um feriado desconectado: “Cinema Paradiso”, “Cry Baby”, “Um Dia de Cão”, “A Família Savage”, “Hiroshima Mon Amour”, “1972″ e “Abril Despedaçado”. Se eu conseguir assistir a três destes sete filmes já me dou por satisfeito.
Também já garanti a nova peça da Sutil Cia de Teatro, “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas”. Como eles não conseguiram renovar os direitos autorais de “A Vida é Cheia de Som e Fúria” (inspirada em “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby), decidiram montar uma peça nova. O Marco Tomazzoni entrevistou o Felipe Hirsh. Leia aqui.
A exibição de “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas” integra uma mini-mostra da Sutil no Sesc Belenzinho, em São Paulo, que inclui ainda “Thom Pain / Lady Gray” (que eu ainda não assisti) e “Não Sobre Amor”, que vi duas vezes e veria a terceira se as novas apresentações agendadas não tivessem esgotadas (ao menos as sessões de sábado e domingo). Fico feliz demais com o sucesso da peça. A Sutil merece.
“Trilhas Sonoras de Amor Perdidas” fica em cartaz até 31 de julho. O esquema lembra muito o de “Alta Fidelidade”: três horas de peça com um intervalo de quinze minutos e muita música. Na foto que abre o post, Guilherme Weber segura o icônico “Horses”, de Patti Smith. Em termos de cultura pop a Sutil é imbatível no teatro. Tente ver.
“Trilhas Sonoras de Amor Perdidas”
De 18/06 a 31/07
Sábados, às 20h; domingos, às 18h
Duração: 3h, com intervalo de 15 minutos
“Thom Pain / Lady Gray”
De 23/06 a 07/07
Quintas, às 21h (no feriado do dia 23, a sessão será às 18h)
Duração: 2h com intervalo de 15 minutos
“Não Sobre o Amor”
De 15/07 a 31/07
Sextas e sábados, às 21h30; domingos, às 18h30

Leia também:
- “Não Sobre Amor”, uma peça cruel e lírica (aqui)
- Guilherme Weber fala sobre “Avenida Dropsie” (aqui)
- Guilherme Weber fala sobre A Vida é Cheia de Som e Fúria (aqui)
- “Nostalgia”, uma encantadora peça de teatro pop (aqui)
Junho 22, 2011 No Comments
Não Sobre Amor

A certa altura de uma troca de cartas entre dois possíveis amantes, ela (aqui apresentada como Alya) pede: “Se quiser escrever, escreva, mas não sobre amor”. Ele, Victor, um escritor, aceita o desafio. E o resultado desta troca efusiva de cartas (reais e imaginárias) trouxe ao mundo o livro “Letters Not About Love”, que reúne a correspondência trocada (e inventada) entre o escritor russo Victor Shklovsky e a romancista franco-russa Elsa Triolet no início do século passado.
Shklovsky foi um dos principais teóricos do Formalismo Russo desenvolvendo o conceito de desfamiliarização em sua literatura. A técnica consiste em retirar um elemento de determinado contexto e fazer com que ele seja sentido a partir de sua falta. No caso da peça, o elemento a ser retirado é o amor, devido à citada proibição feita por Alya/Elsa. Apesar de aceitar a correspondência, a romancista proíbe que este lhe fale de amor. A partir daí, o amor estará presente em tudo, através de metáforas e alusões.
Victor aproveita que está proibido de falar de amor com Alya que amplifica o uso da metáfora abarcando em suas palavras sofridas não só a vileza da mulher que nega o seu amor verdadeiro e intenso, mas também a impossibilidade de voltar para sua pátria, a Rússia, a juventude e autoconfiança perdida, e a distância entre aquilo que ele (e nós) sonhava(mos) ser e, por fim, acabou (acabamos) nos tornando. Tudo está fora do lugar.
Nesta adaptação para o teatro de “Não Sobre Amor”, a Sutil Companhia buscou a simplicidade das peças de câmara, mais intimistas e aconchegantes. Quem deve ter tido trabalho para adaptar as idéias da peça em um caixote imaginário foi a cenógrafa Daniela Thomas, parceira da Companhia desde “Nostalgia” (2001). O resultado, porém, é nada menos que sublime. Assim que a peça começa, com as famosas projeções da Companhia, o cenário se torna um integrante importantíssimo da peça. E surpreende.
Assim como nas cartas de Shklovsky, tudo no palco está fora do lugar. A cama está armada na parede frontal. Disposta na parede direita, uma escravinha com máquina de escrever e cadeira. A janela está no teto. A porta está no alto da parede do lado direito. A lâmpada, no chão. É um impressionante caos visual que, amplificado pelas projeções (de texto e de imagens), fazem deste pequeno quarto amarelo um belíssimo ambiente para uma dolorida história de (des)amor, de solidão e de exílio.
Logo na primeira frase impressa na parede, uma constatação cruel: “Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo; a ironia devora as palavras”. Se tivesse vivido em tempos de internet, Victor Shklovsky estaria ainda mais frustrado. Agora não só as boas palavras estão pálidas de exaustão, mas sim o dicionário todo e mais algumas novas. Banalização de adjetivos.
Ali pelo meio, Leonardo Medeiros (ótimo como Victor) se pega rindo quando confessa para Alya (Simone Spoladore também muito bem): “Estou escrevendo cartas para você e, ao mesmo tempo, estou escrevendo um livro. E o que está no livro e o que está na vida causou uma confusão incurável”. Desta confusão nasce uma belíssima peça de teatro que ainda abre espaço para citações de Maiakovski, Alexander Soljenitsin, Velimir Khliebnikov, Laurence Sterne, Paulo Leminski, entre muitos outros.
Em um dos momentos mais cruéis (e líricos) da peça, Alya (projetada na parede do quarto) responde a uma carta de seu apaixonado: “Pare de escrever o quanto, o quanto, o quanto, o quanto, o quanto você me ama, pois no terceiro quanto já estou pensando em outra coisa”. A noite cai. Para ele, “um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar”. Ela insiste que não quer ler sobre amor. Ele conta histórias de seu editor. É uma peça de amor – apesar do título – mas não só sobre amor. Basta olhar com cuidado.

Leia também:
- Guilherme Weber fala sobre “Avenida Dropsie”, por Marcelo Costa (aqui)
- “Nostalgia”, da Sutil Companhia de Teatro, por Marcelo Costa (aqui)
Março 1, 2009 5 Comments
Realização de uma metáfora
“Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão”
(…)
“A ironia devora as palavras”
Victor Shklovsky
Fevereiro 28, 2009 No Comments
A vida não é cheia de som e fúria
Então, parece que a badalada peça de teatro “A Vida é Cheia de Som e Fúria” não fará parte da mostra especial de 15 anos da Sutil Companhia em São Paulo. Problemas de direitos autorais vencidos podem tirar a peça da programação da mostra comemorativa, que começa na próxima quarta-feira com a exibição gratuita de “Avenida Dropsie”. Já há, inclusive, uma peça escalada para substituir “Som e Fúria” na agenda: “Thom Pain/Lady Grey”, monólogo inédito (estrelado por Guilherme Weber) na capital paulista escrito pelo norte-americano Will Eno. As datas e horários (veja aqui) permanecem os mesmos. :-/
*****
A vida também não tem mais ingressos para o Little Joy em São Paulo. As entradas para a terceira apresentação do trio em São Paulo esgotaram em apenas 1h30. Será que haverá uma quarta na mesma noite da terceira?
Janeiro 28, 2009 No Comments
Obrigatório: Sutil Companhia de Teatro comemora 15 anos

O diretor Felipe Hirsh festeja 15 anos da Sutil Companhia de Teatro levando três peças para o charmoso Teatro do Sesi, na Avenida Paulista (lá no ralador de queijo, manja - hehe): “A Vida é Cheia de Som e Fúria” (baseada no livro “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby), “Avenida Dropsie” (inspirada no livro homônimo de Will Eisner - André, agora eu leio!!!) e “Não Sobre o Amor” (inspirada em ”Zoo” ou “Letters Not About Love”, de Victor Shklovsky).
Das três peças vi “Som e Fúria” não sei quantas vezes (talvez quatro, mas podem ser cinco ou seis) e “Avenida Dropsie” (três), e pretendo reve-las novamente. Entrevistei Guilherme Weber (leia aqui) nos camarins de “Som e Fúria” em 2001, em um período de beatlemania que a peça vivia, deixando todos os dias mais de 200 pessoas para fora do teatro (o que acho que pode voltar a se repetir nessas sessões comemorativas) e fiquei feliz com a notícia.
É uma pena que “Nostalgia”, a fofíssima peça pop inspirada levemente em John Fante que veio na esteira do sucesso de “Som e Furia”, não tenha entrado nesta comemoração (essa eu vi umas 10 vezes em uma época de desemprego, junkismo e muita incerteza no futuro), mas vale muito aparecer para rever a montagem clássica dessas três peças. “Não Sobre o Amor”, já me avisaram, é uma cacetada. Fica a dica. É obrigatório.
Segundo a assessoria, as comemorações - a príncipio - só estão planejadas para São Paulo. Abaixo seguem os horários e mais alguns links:
4 a 22 de fevereiro
Quartas e domingos: Avenida Dropsie
Quintas e sextas: A Vida é Cheia Som e Fúria
Sábados: Não sobre o Amor
25 de fevereiro a 15 de março
Quartas e quintas: Avenida Dropsie
Sextas: Não sobre o Amor
Sábados e domingos: A Vida é Cheia Som e Fúria
18 de março a 5 de abril
Quartas e quintas: A Vida é Cheia Som e Fúria
Sextas: Não sobre o Amor
Sábados e domingos: Avenida Dropsie
Quarta a domingo 20h
Quartas - entrada franca
Quinta a Domingo - R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e idosos)
Leia também:
- “Avenida Dropsie”, com a Sutil Cia de Teatro, por Marcelo Costa (aqui)
- Marcelo Costa entrevista o ator Guilherme Weber (aqui)
- “Nostalgia”, com a Sutil Cia de Teatro, por Marcelo Costa (aqui)

Janeiro 20, 2009 13 Comments

