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Category — Europa 2012

Itália: Um conto cervejeiro em Veneza

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Texto e fotos: Marcelo Costa

É quase um conto cervejeiro. Semanas atrás estive em Veneza. Era minha segunda visita ao arquipélago, sendo que na primeira caminhei e me perdi bastante entre Santa Croce e Dorsoduro. Desta vez, tracei com meta me perder no bairro atrás da Piazza San Marco caminhando ainda nos bairros Castelo e Cannaregio. Neste segundo, após passar pelas igrejas San Barnaba e Santa Maria Dei Miracoli, segui em frente totalmente sem destino, quando, na Fondamenta Ormesini, vejo um quadro: “Birre da Tutto il Mundo (O Quasi)”. Tive que parar.

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O Bacaro Pub é de Aldo Campalto, um italiano corpulento que, assim que você pede a carta de birre, avisa: “As (quatro) geladeiras estão a sua disposição. É só pegar”. Há mesas ao lado do canal e variedades de crostinis viciantes no balcão. Era quase 13h, sol a pino. Ficar bêbado não estava nos planos, por isso abri os serviços com uma alemã leve e refrescante, a Augustiner Weissbier, mas quando vi já estava com uma Amacord de 8% na mesa, cerveja artesanal italiana cuja linha extensa homenageia o cineasta Federico Fellini.

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De brasileiras no cardápio, o Aldo só tinha Brahma e Skol, mas a linha de italianas artesanais era surpreendente. Fui ao balcão papear com o cara, e separar algumas para trazer para o Brasil. “Você não acha melhor, ao invés de levar a linha inteira de uma cerveja, levar metade dela e metade de outra? Acho que deveria experimentar as Del Ducato”, orientou. Segui o conselho, separei três Amarcord e três Del Ducato, e Aldo ainda me presenteou com uma Oatmeal Stout, Del Ducato da linha moderna.

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Fundada em 2007, a Del Ducato é uma microcervejaria da cidade de Fiorenzuola d’Arda, na Emília Romana (uma hora de Milão, duas horas de Veneza), com pouco mais de 13 mil habitantes. Com apenas cinco anos de existência, a Del Ducato já é apontada por muitos como a melhor cervejaria italiana, tendo ganhado prêmios em diversos festivais, com uma produção dividida em 22 rótulos separados em três linhas: a clássica (das quais eu trouxe a Winterlude, a A.F.O. e a Chimera), a moderna e a especial.

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A Oatmeal Stout da Del Ducato, cerveja da linha moderna (que ainda tem outros cinco rótulos) já se define no aroma intenso de malte torrado, o que também remete a chocolate amargo e também café moído na hora. O paladar segue as notas do aroma, mas perde no corpo. Estão ali o café moído (ainda mais intenso no paladar), o malte torrado e o mesmo chocolate amargo, mas a Oatmeal Stout é aguada demais, o que prejudica o conjunto. Ainda assim, a definição do site oficial merece citação: “ela evoca finais felizes”.

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A Winterlude integra a linha de cervejas clássicas da Del Ducatto (que traz mais sete rótulos), e é absolutamente perfeita. Isso mesmo: perfeita. Os italianos seguiram a risca a tradição das maravilhosas Tripel belgas, da refermentação na garrafa ao uso de lúpulo especial, no caso importado de uma fazenda da cidade de Poperinge, na região dos Flanders Orientais – área famosa pela cultura do lúpulo, que fornece 80% do material usado na produção belga (e também nesta surpreendente Winterlude).

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O encantamento começa no aroma, frutadíssimo, que remete a laranja, abacaxi e melaço (e, honrando a escola belga, álcool). O paladar é riquíssimo. Primeiro uva, depois laranja, abacaxi, talvez pêssego e mel. A tonelada de álcool (com 8,8%, essa é a cerveja mais forte da Del Ducatto) não intimida: o frutado acaricia o céu da boca enquanto o álcool passeia pela língua. O final fica entre o adocicado e o alcoólico. Apaixonante. Pra fechar: o nome é de uma canção de Bob Dylan…

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Indo por uma linha completamente diferente, a das ales norte-americanas, a A.F.O. (Ale for Obsessed), segundo rótulo lançado pela Del Ducato (em 2006), leva bastante a sério o que o nome propõe: eis uma ale para obcecados em lúpulo. Aqui são 10 tipos diferentes, três deles norte-americanos (Chinook, Cascade e Simcoe). O aroma é levemente frutado, com algo que remete a pimenta e a madeira. O paladar é amargo e incrivelmente saboroso, com o lúpulo distribuindo notas cítricas, que terminam com um leve toque de mel. Ótima.

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Por fim, chegamos à última Del Ducato que veio na mala direto de Veneza, a Chimera, uma Belgian Dark Strong Ale de responsa. O aroma fica entre o alcoólico (são 8% de graduação, que intimidam no início) e o adocicado, com o melaço de caramelo e açúcar queimado marcando presença de forma intensa. O primeiro toque na língua remete à ameixa e uva passa, e a sugestão se estende até a garganta, com o álcool aparecendo de forma suave no final em um conjunto que surpreende. “É um pouco como perseguir uma ilusão”, diz o site oficial.

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No pub do Aldo, em Veneza, cada uma das Del Ducato clássicas saiu por 4 euros (cerca de R$ 10) enquanto a Oatmeal Stout custava 3 euros. No Brasil, com importação da Tarantino, as cervejas da linha moderna saem a partir de R$ 19, da linha clássica a partir de R$ 39 e da linha especial a partir de R$ 90 (a garrafa de 330 ml). Então, recomendável que, em uma viagem à Itália, você procure pelas Del Ducato. O endereço do Bacaro Pub, do Aldo, em Veneza, é Fondamenta Ormesini Cannaregio, 2710. E o cartão avisa: “Aperto tutti i giorni fino alle 2:00”. Vale a pena.

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Del Ducato Oatmeal Stout
– Produto: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3/5

Del Ducato Winterlude
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 8,8%
– Nota: 4,25/5

Del Ducato A.F.O. (Ale for Obsessed)
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,30/5

Del Ducato Chimera
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,62/5

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Leia também
– Diário de Viagem: Europa 2012 (aqui)
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Cinco fotos: Veneza (aqui)
– Diário 2009: Veneza, Veneza, Veneza, Veneza e Ryanair (aqui)
– Diário 2009: A beleza de Veneza e a siesta de Treviso (aqui)

julho 7, 2012   1 Comment

Bruce Springsteen infiamma Trieste


Texto e fotos por Marcelo Costa

O Estádio Nereo Rocco, em Trieste, era a casa do Unione Sportiva Triestina Calcio, time que lutou muito para fazer parte da elite do futebol italiano, mas naufragou este ano caindo para a Lega Pro Seconda Divisione (quarta divisão do futebol profissional da Itália) no mesmo momento em que a direção do clube declarava falência e dissolvia o time de futebol. Uma triste história para um estádio que, no dia 11 de junho, recebeu 30 mil pessoas, não para um jogo de futebol, mas sim para um concerto de rock and roll.

Não um show qualquer. A paixão que Bruce Springsteen inspira na Itália (e também na Espanha) é algo emocionante. Não havia um quarto sequer na grande maioria dos hotéis da cidade (segundo a Secretaria de Turismo, 11 mil camas foram ocupadas) assim como os 30 mil ingressos colocados à venda estavam esgotados. Trieste era a terceira parada italiana da turnê Wrecking Ball (que havia passado por Milão e Florença), e o show era assunto em todas as regiões mais próximas – de Lombardia ao Veneto – e até em países vizinhos (consta que 3 mil pessoas vieram em excursões dos Balcãs, da Austria, do Croácia e da Eslovênia).

Marcado para às 21h, as luzes só foram se apagar (para delírio da italianada) às 21h20, quando, um a um, os quinze integrantes da E Street Band foram subindo ao palco, com a fila sendo encerrada pelo guitarrista (e ex-Sopranos) Steven Van Zandt, aplaudidíssimo. Bruce veio na sequencia, olhou para o mar de gente, e cumprimentou (em italiano e esloveno): “Grande Trieste, urla, dobrodošli”. Alguns segundos depois começava a festa com os hinos “Badlands” e “No Surrender”.

É difícil demais explicar emoção, ainda mais de tanta gente junta. O cara vai, conta “one, two”, a E Street Band entra com peso e um estádio inteiro acompanha a música com um “ôôôôô” que parece a coisa mais simples do mundo, como se todos tivessem ouvido “Badlands” por toda sua vida, e esse fosse o momento para mostrar que aprenderam direitinho o oficio. Quando Jake Clemons, sobrinho de Clarence, faz o solo do tio no sax, o estádio quase vem abaixo. É só a primeira música.

Nestas duas primeiras canções, Springsteen exercita aquilo que fará durante as próximas três horas: largos sprints de um lado para o outro no palco, que geralmente terminam nos braços do público, em alguma das três passarelas que cortam o gargarejo. O público enlouquecido recebe muito bem “We Take Care of Our Own”, primeiro single de “Wrecking Ball”, que abre um bloco de canções do novo álbum na noite – seguem-se a faixa título e a irlandesa “Death to My Hometown”.

Lançado em março, “Wrecking Ball” alcançou o número 1 nos Estados Unidos, e Bruce mostra que confia muito no novo repertório, acertadamente, porque tanto a faixa título quanto “Death to My Hometown” trazem o público fazendo coro e parecem tão inseridas no repertório do homem que soam como se fossem um clássico de algum disco do Boss nos anos 70 (mesmo tendo menos de três meses de existência).

Surge então “My City of Ruins”, do álbum “The Rising” (2001), com Bruce apresentando em italiano – “Questa è la canzone dei saluti e degli arrivederci, delle cose che ci lasciano e di quelle che restano con noi, per sempre!” (algo como “Esta é uma canção de despedida, de pessoas e coisas que partem, mas mesmo assim ficam com a gente para sempre”) – e aproveitando para apresentar o time da E Street Band e mostrar outra novidade: a tour 2012 tem… suingue.

Isso mesmo. Quem estava acostumado com a explosão de energia das turnês anteriores de Bruce Springsteen irá se surpreender como a “Wrecking Ball Tour” namora o soul e o blues, e a emocionante jam session de “My City of Ruins”, em versão arrepiante de quase 13 minutos, tem o poder de transformar um estádio com 30 mil pessoas em um pequeno boteco de beira de estrada. É tudo enorme demais, mas íntimo, um dos vários grandes momentos da noite.

“Spirit in the Night”, do álbum de estreia de Bruce, “Greetings From Asbury Park, N.J.”, de 1973, surge em um arranjo soul de fazer a alma de James Brown sorrir de orelha a orelha. Bruce se joga no palco, se arrasta e vai pra galera. No caminho, o chefão pega uma guitarra de papelão de alguém da frente do palco, brinca de tocar, e olha o pedido do fã: “Downbound Train”, do álbum “Born in the U.S.A.” (1984), vem na sequencia, trazendo o rock de volta ao Estádio Nereo Rocco.

“Jack of All Trades”, outra nova, surge em uma versão bonita, que ganha ainda mais força com o discurso de Bruce antes de começar a canção: “Na América, os tempos são muito difíceis, as pessoas perderam seus empregos, suas casas e há muito pouco trabalho. Sei que vocês também estão enfrentando problemas, e houve o terremoto. Esta é uma canção para todos aqueles que lutam”. Na sequencia, “Youngstown”, do subestimado “The Ghost of Tom Joad” (1995), prova que há muitas pérolas escondidas nos álbuns de Bruce.

“Johnny 99” é outro dos grandes momentos da turnê atual. Bruce traz o quinteto de metais para a passarela central, entre o pessoal do gargarejo, e a galera fica toda ali improvisando, com o público tocando seus pés. Outra de “Born in the U.S.A.” (“Working on the Highway”) e outra nova (“Shackled and Drawn”) mantém a audiência aquecida e cantando. Parece que todos na plateia pensam: “se Bruce, aos 60, consegue, eu também consigo”. E dá-lhe correria e “ôôôô” .

“Waitin’ on a Sunny Day”, do álbum “The Rising” (2001) e um dos maiores hits de Bruce nos últimos 15 anos, é outro momento grandioso. Bruce vai pra galera, escolhe um moleque e o puxa para o palco (assim como ele havia feito em Roma na turnê de 2010). O menino sobe sem um dos tênis (alguém passa o par perdido pra Bruce, que segura), pega o microfone e canta gaguejante a letra, convidando na sequencia: “Come on E Street Band”, e a banda obedece. Lágrimas.

“Apollo Medley” é… foda, uma declaração de amor ao soul que hipnotiza e encanta. Na poderosa “The River”, o público acompanha Bruce cantando a trajetória do rapaz que engravidou a namorada Mary e teve que se casar aos 19 anos. Parecia impossível, mas o público faz ainda mais barulho quando o piano lança as notas de “Because the Night”, parceria histórica de Bruce com Patti Smith, e o show se encaminha para o final com “The Rising”, “We Are Alive” e o hino “Thunder Road”, que sozinha valeria o preço do ingresso.

O show termina, mas ninguém sai do palco e o bis começa com “Rosalita (Come Out Tonight)”, emenda os hinos “Born in the U.S.A.” e “Born to Run”, traz ainda “Bobby Jean” e “Hungry Heart” (a mais cantada da noite) e fecha com “Seven Nights to Rock” (cover do Moon Mullican), “Dancing in the Dark” (com vários fãs dançando com integrantes da banda no palco e Bruce dançando com a mãe de uma fã) e “Tenth Avenue Freeze-Out”. Acabou. Bruce diz ‘eu te amo’ (em italiano) para a plateia, manda beijos e deixa o palco. O relógio marca 00h40. A terça-feira está apenas começando.

No dia seguinte, o jornal italiano Il Piccolo manchetava na primeira página: “Springsteen infiamma Trieste: Storico concerto senza confini, il Boss regala musica e emozioni”. Impossível discordar. Por três horas e vinte minutos (semanas depois, Bruce bateria seu recorde tocando por inimagináveis três horas e quarenta e oito minutos em Madri), Bruce Springsteen entregou ao público italiano um dos melhores shows do planeta, senão o melhor.

Musicalmente impecável, um show de Bruce Springsteen não é bom apenas porque é longo (inclusive, há muita banda por ai que não deveria tocar mais que uma hora – para o nosso bem), mas sim porque Bruce faz valer cada segundo, cada gota de suor que derrama no palco, e não parou no tempo: boa parte do set list é de canções novas, músicas recentes que o público transforma em novos hinos numa relação apaixonada rara na música pop: Bruce é amado por seu público, e o ama na mesma intensidade. Vale a pena assistir essa história de amor ao vivo.

Leia também:
– Três horas de Bruce Springsteen em Roma (aqui)
– As diferenças de “Because The Night” (aqui)
– Histórias de Bruce Springsteen no SXSW (aqui)
– Fé em Bruce Springsteen (aqui)
– Bruce em Madri, o show mais longo, por Rodrigo James (aqui)

julho 2, 2012   No Comments

Itália: Trieste e o Castelo di Duíno

Texto e fotos: Marcelo Costa

“Buongiorno, eu gostaria de um quarto para uma pessoa para hoje e amanhã”, o cara pede assim que chega a recepcionista do hotel. “Para hoje temos vagas, mas para amanhã está tudo lotado”, responde a atendente. “Você poderia me indicar algum outro hotel aqui perto?”, insiste o turista. “Estão todos lotados. Bruce Springsteen faz show aqui e a Itália inteira está vindo pra cá ver o show”, exagera a garota. Hora de bater perna atrás de um local para dormir.

 Trieste é uma cidade de pouco mais de 210 mil habitantes situada no nordeste da Itália, no Mar Adriático, que faz fronteira com as comunas de Duino-Aurisina, Monrupino, Muggia, San Dorligo della Vallee Sgonico e com a Eslovênia (a fronteira com a Croácia está a cerca de 50 minutos de carro). Foi uma importante cidade do Império Austro-Húngaro, do qual era o principal porto, e na segunda, 11 de junho, será invadida por fãs de Bruce Springsteen.

 Costumo ser um cara prevenido em viagens internacionais. Geralmente, quando piso no Velho Mundo, estou com todos os ingressos, tickets de trens, aviões e reservas de hotéis comprados, tentando evitar surpresas. Desta vez, só não reservei hotel em Trieste. “Chegando na estação de trem acho um hotel ali do lado e me ajeito”, pensei, apostando na facilidade de encontrar um abrigo em uma cidade italiana não tão turística. Me enganei redondamente.

 Após camelar por sete hotéis, e receber um “sold out” em todos, comecei a ficar preocupado. No celular, a busca encontrava hotéis disponíveis em Sežana, uma cidadezinha de 11 mil habitantes na Eslovênia, 15 quilômetros de Trieste. Cogitei seriamente atravessar a fronteira, mas havia um risco: na terça pós-show eu teria que estar às 7h na estação de trem em Trieste em direção à Verona para um voo para Amsterdã. O deslocamento talvez fosse complicado.

Arrisquei: entrei num dos hotéis na redondeza da estação de trem e garanti o domingo, implorando: “Se alguém cancelar a reserva para segunda, guarda pra mim”. Check in feito, sai a bater perna pela colônia romana que, no século II, se chamava Tergeste, ficou sob o controle de Bizâncio até 788, quando passou ao controle dos francos. Em 1382 passou a ser protegida do duque de Áustria sendo anexada à Itália apenas em 1918, após a Primeira Guerra Mundial.

 Bastaram alguns minutos caminhando a esmo em um domingo de sol para se apaixonar pela cidade. A luz da cidade (entre o marrom e o amarelo, devido as pedras antigas que decoram todo o centro) a visão do Adriático, as extensas praças e o longo calçadão, que passa por diversas áreas da cidade, são um convite à contemplação. Uma cidade que merece uma visita com mais calma. Dormi o sono dos justos cansados torcendo por uma segunda-feira positiva.

“Buongiorno, apareceu algum quarto?”, foram minhas primeiras palavras na manhã de segunda. “Infelizmente não temos nenhum quarto de solteiro, mas há de casal vago”, ofereceu a recepcionista, explicando: “Você está pagando 70 euros o de solteiro. O casal é 90“. Não pensei duas vezes: “É meu”. Peguei informações de como chegar ao Castelo de Duíno, reduto em que o poeta alemão Rainer Maria Rilke escreveu o doloroso “Elegias de Duíno”, e parti.

 Após um domingo lindo de sol, a segunda amanheceu nublada, com garoa e previsão de pancadas de chuva. Peguei um ônibus para o aeroporto, avisei o motorista que eu queria descer no castelo, e fui ser feliz. Uns dois pontos depois do castelo, o motorista me vê e pergunta: “Por que você não desceu?”. Faço cara de turista idiota, desço na autoestrada, e sigo a pé até o castelo… por dentro da mata. Do capítulo “vivendo perigosamente”.

 Cerca de meia hora depois (podem ter sido o dobro ou o triplo disso, perdi toda noção do tempo) encontrei o castelo, e parti para quase duas horas de contemplação. Sua construção começou em 1389 sobre ruinas de um posto romano, e desde 2003 ele está aberto para visitação, tendo sido consagrado pelo poeta Rainer Maria Rilke, que passou dez anos (entre idas e vindas) no castelo escrevendo o que viria a ser conhecido com “Elegias de Duíno”:

 “Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua natureza mais potente. Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível.” (trecho da primeira das dez elegias que compõe o livro).

O castelo está em excelentes condições, e impressiona como a família Della Torre, dona da edificação por cerca de 420 anos, era extremamente musical, com dezenas de violinos, violoncelos e pianos expostos pela casa (um deles de Franz Listz), que recebeu, entre outros, o arquiduque Franz Ferdinand, Johann Strauss, Paul Valery e Gabriele d’Annunzio. A vista do Adriático e os jardins do palácio são impressionantes. Não consegui visitar o bunker aberto na Segunda Guerra Mundial, mas sai impressionado com o local.

Na saída, uma chuva brindou os poucos turistas que se arriscaram a visitar o local em uma segunda-feira (um deles até chegou a perguntar se o ticket do show do Bruce Springsteen não dava descontos na entrada), que ainda teve passeio de bondinho (panorâmico) do centro até a região de Opicina, no alto do morro, e uma vontade danada de esticar até a Eslovênia ou a Croácia, mas eu já tinha compromissos para a noite de segunda-feira, e não podia faltar.

julho 2, 2012   No Comments

Sete lojas de CDs e vinis na Europa

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Discos Revolver, Barcelona
– Endereço: Calle Tallers, 13, Barcelona (uma travessa das Ramblas)
– Especialidade: Tudo de boa música, incluindo centenas de bootlegs tanto em CD quanto em DVD e vinil (numa vasta coleção).
– Curiosidade: O Wilco fez um set lá este ano (aqui)
– Site oficial: http://www.discos-revolver.com/

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Discos Castelló, Barcelona
– End: Calle Tallers, 7, Barcelona (uma travessa das Ramblas)
– Especialidade: Tudo de boa música, incluindo centenas de bootlegs tanto em CD quanto em DVD e vinil (numa vasta coleção).
– Curiosidade: A loja foi aberta em 1934! No acervo atual, boxes numerados com com as sessões completas de vários discos dos Beatles e dos Stones
– Site oficial: http://www.castellodiscos.es/

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Librerie Paralleles, Paris
– End: Rue Saint Honoré, 47, Paris (ao lado do Forum Les Halles)
– Especialidade: Raridades de música, quadrinhos e contracultura
– Curiosidade: Muita coisa boa nos balcões de promoções
– Site oficial: http://www.librairie-paralleles.com/

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 Crocodisc, Paris
– End: Rue de la Montagne-Sainte-Geneviève, 64 (abaixo do Pantheon)
– Especialidade: Vasto acervo de vinis e CDs
– Curiosidade: São duas lojas, uma ao lado da outra: a primeira mais geral especializada em rock. A segunda em jazz, soul e funk
– Site oficial: http://www.crocodisc.com/

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CD Buttek From Palais, Luxemburgo
– End: Rue do Marche Aux Herbes, 16
– Especialidade: Vasto acervo de vinis, CDs e bootlegs
– Curiosidade: Tem praticamente o mesmo acervo matador de bootlegs numerados da Castelló e da Revolver (com alguns itens não encontrados nas duas)
– Site oficial: http://cdbuttek.oyla.de

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Fopp, Londres
– End: Earlham Street, 1 (em Covent Garden)
– Especialidade: Megastore com vários itens em promoção
– Curiosidade: São oito lojas no Reino Unido em cidades como Cambridge, Edimburgo, Glasgow, Manchester, Nottinghan e Bristol
– Site oficial: http://www.foppreturns.com/

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Music & Video Exchange, Londres
– End: Berwick Street, 95 (travessa da Oxford Street)
– Especialidade: CDs e vinis usados em preços imbatíveis
– Curiosidade: Há caixas fechadas de 60 vinis por 2 pounds / 120 CDs por 10 pounds. Por sua conta e risco (veja aqui). São quatro lojas em Londres com foco em rock e pop. Mas há outras focadas em jazz, roupas, books…
– Site oficial: http://mgeshops.com/main/home

Leia também:
– Onde comprar CDs na Europa, por Marcelo Costa (aqui)

junho 18, 2012   2 Comments

The Stone Roses em Barcelona

Texto e fotos por Marcelo Costa

Comeback mais badalado de 2012, a volta do Stone Roses esgotou 150 mil ingressos em 14 minutos para os dois shows que a banda iria fazer em sua terra natal, Manchester. Porém, fora do Reino Unido, a turma de Ian Brown não tem repetido a acolhida britânica. Em Barcelona, na Sala Razzmatazz (que diz receber até 2 mil pessoas, mas parece caber só 800), só a segunda data, num sábado, esgotou. Isso porque boa parte da plateia era inglesa.

No palco, porém, a banda não decepcionou. Na verdade, até parece que o tempo não passou para o quarteto. A voz de Ian Brown continua perfeita, ainda que ele desafine aqui e ali. Um dos melhores baixistas do mundo, Mani (com Woody Allen estampando a camiseta), só fez melhorar com o tempo, e o mesmo pode ser dito do guitarrista John Squire. As batidas de Reni completam o mix sonoro, que por várias vezes na noite descamba para versões estendidas das canções.

“I Wanna Be Adored” abre a festa de cervejas arremessadas ao alto. Os ingleses vão a loucura, os espanhóis tentam acompanhar, e ”Sally Cinnamon” coloca mais lenha na fogueira. Ian Brown vai até o fosso, cumprimenta a galera do gargarejo, e retorna para “(Song for My) Sugar Spun Sister”. Dai em diante o show alterna momentos de bocejo (“Mersey Paradise”, “Where Angels Play”) com lampejos de paixão (“Waterfall”, “Fools Gold”).

O trecho final, no entanto, é matador: começa com “She Bangs The Drums” e segue com uma versão deliciosa de “Made of Stone”. “This Is the One” mantém o clima lá em cima, e “Love Spreads” resume a noite, com a inglesada pogando como se estivesse em um show do Ramones, comemorando a volta de uma das principais bandas do Reino Unido dos últimos 25 anos (Liam Gallagher, fã confesso, assistiu ao show da sexta aqui mesmo na tribuna).

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A noite ainda não terminou, e uma versão estendida de “I Am The Resurrection”, com quase 13 minutos de batidas e psicodelia, surge no bis e coloca a plateia em transe. Assim que a canção termina, rodas de abraços se formam entre o público (principalmente os ingleses, bêbados, ensopados e melhores amigos do mundo a essa altura da noite), seguindo o exemplo do quarteto no palco, que parece comemorar o bom show como se fosse um gol.

Faltou “Ten Stories Love Song” (que eles tocaram em Amsterdã, alguns dias depois), mas quem sabe da próxima vez… quem sabe no Brasil. Será? Agora é esperar… e torcer.

junho 15, 2012   No Comments

Tom Petty and The Heartbreakers em Cork

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Texto e fotos por Marcelo Costa

Cork é a segunda maior cidade da República da Irlanda e, com seus 120 mil habitantes, a terceira mais populosa da ilha irlandesa, ficando atrás das capitais Dublin e Belfast. É cortada pelo Rio Lee e acredito que deva ter um pub para cada habitante da cidade (é só esperar alguma faculdade norte-americana fazer a pesquisa). É bom lembrar que estamos no país das cervejas Guiness e Murphys e do uísque Jameson.

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Para festejar o verão, a cidade de Cork promove o Live at the Marquee, montando um enorme circo nas docas e recebendo um line-up variado que atende a todos os gostos (em 2012 a lista vai de Justice a Imelda May, de The Specials a Dara O’Briain). Mesmo estando em uma cidade que deve ter menos população que muitos bairros de São Paulo, Tom Petty consegue arrastar cerca de 7 mil pessoas para o circo.

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A “loucura” do pessoal de Cork não é a toa: esta é a primeira turnê europeia de Tom Petty com seus Heartbreakers em 20 anos, e toda a terceira idade da cidade está debaixo da lona esperando o cara que montou um grupo com Bob Dylan, George Harrison e Roy Orbinson. A faixa etária bate na casa dos 50, e eles não brincam: bebem cerveja como se fosse água e dão um show à parte na noite. Bonito de ver.

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O show começa e a banda nem leva set list para o palco. As canções surgem em versões encorpadas, intensas, perfeitas. “Listen to Her Heart”, de seu segundo álbum (“You’re Gonna Get It!”, de 1978), abre a festa, e Tom Petty faz questão de dizer de onde saiu cada canção que vai tocar: “Essa é do “Full Moon Fever””, avisa quando toca “I Won’t Back Down”. “Agora é uma do disco chamado “Damn the Torpedoes”. E vem “Here Comes My Girl”.

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Ele parece feliz, muito feliz. No Twitter, um dia antes, agradeceu a recepção calorosa em Dublin. Já em Cork, estica o sotaque caipira na hora de falar “Thank you soooooooooo much” e leva todo mundo ao delírio quando diz que vai cantar uma canção dos Traveling Wilburys. Surge então “Handle with Care”, cantada a plenos pulmões por quase todo o circo, um momento bonito, de emocionar.

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Uma cover rock and roll de Bo Diddley (“I’m a Man”) destaca o guitarrista Mike Campbell, braço direito e sombra de Tom Petty. Lá pelas tantas, ele agradece: “Nunca tive um número 1, um big sucesso. Obrigado por vocês terem vindo”. E um coro imenso de 7 mil Tom Cruises berra o refrão de “Free Fallin’” e faz o acompanhamento arrepiante do backing vocal em “Learning to Fly”. De chorar.

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Boas canções do álbum “Mojo” (2010) formam o grosso do repertório, e se alternam com pérolas pescadas de uma carreira de quase 35 anos. O público irlandês recebe todas como se fossem hits. De “Kings Highway” (“Into the Great Wide Open”, 1981) a “It’s Good To Be King” (“Wildflowers”, 1994), de “Refugee” (outra do “Damn the Torpedoes”, 1979) até “Your So Bad” (“Full Moon Fever”, 1989).

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Para o bis, novos momentos de histeria marcam as execuções de “Mary Jane’s Last Dance” e “American Girl”, que fecha uma noite especialíssima em que público e banda mostraram que é possível viver (e fazer sucesso) sem números 1 nas paradas. Palmas para Cork e Tom Petty. Como disse um dos amigos, o show era em um circo, mas não houve palhaçada. Que noite, que noite.

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junho 15, 2012   No Comments

Lou Reed ao vivo em Luxemburgo

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Texto e fotos por Marcelo Costa

O Grão-Ducado do Luxemburgo é um pequeno país espremido entre Bélgica, França e Alemanha, com uma das maiores rendas per capita do mundo e uma população de 500 mil pessoas, destes, segundo o taxista iugoslavo que falava português melhor do que muito jogador de futebol brasileiro, 20% portugueses. Ou seja, tome cuidado se quiser reclamar / zoar o taxista achando que ele não vai te entender. Cometemos esse erro…

O Rockhall, no entanto, não fica na cidade de Luxemburgo, mas umas três cidades antes, quase na fronteira com a França. O ticket do ingresso vale para o trem (uma maneira de o Estado apoiar o entretenimento), mas não para o táxi, afinal a Avenida do Rock and Roll (o nome é esse mesmo, ou melhor: Avenue du Rock’n’Roll) é bem distante do centro de Alzette, a tal cidadezinha luxemburguesa quase francesa.

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Após um grupo chatinho meio Kooks, e uma dupla não ensaiada de guitarra e violino, Lou Reed surge se arrastando para o palco. Impressiona como o homem está detonado, caminhando a passos lentos e pesados para o microfone. A banda é toda nova, o que justifica a escolha de Luxemburgo para abrir a turnê: melhor queimar o filme e ensaiar ao vivo em cidadezinhas afastadas para chegar afiado em Londres e Paris.

O programa vendido na banquinha de camisetas aponta oito músicas do Velvet Underground, oito da carreira solo de Lou Reed e oito (!) do álbum “Lulu”, em parceria com o Metallica, mas Lou não o segue, e abre a noite com uma versão potente de “Brandenburg Gate”. O quinteto que o acompanha não tira o olho do maestro, e com a guitarra nas mãos Lou não decepciona (apesar da voz mostrar sinais de desgaste).

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Surge então o primeiro hino do Velvet, “Heroin”, em versão redentora, fiel ao arranjo original, com Lou declarando seu amor à droga e dizendo que ela é sua esposa. “I’m Waiting For The Man” vem com teclado à frente, e os guitarristas se divertem (e erram adoidado). O arranjo é rock and roll a la Jerry Lee Lewis, e a banda atual lembra a fase “Live in Italy”, da primeira metade dos anos 80 de Lou Reed, com muito improviso.

Fica absolutamente claro neste começo (de show e turnê) que Lou está usando este primeiro show como um ensaio de luxo. Parece, inclusive, que a banda está tocando junta pela primeira vez, o que faz com que Lou tenha que acentuar todos os finais, mostrar as notas que devem ser tocadas em determinando momento e, ápice cômico, colocar o dedo na boca em sinal de silêncio para que um dos guitarristas pare de fazer o backing que está fazendo.

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Como um todo, o show é desleixado, e os melhores momentos surgem, acredite, quando Lou pesca uma canção do “Lulu” (ainda rolam “The View”, “Mistress Dread” e “Junior Dad”). Clássicos como “White Light/White Heat” (em que um dos guitarristas errou o backing) e “Walk on the Wild Side” surgem em versões que mais parecem jam sessions, mas “Street Hassle” e “Cremation” compensam.

O set list tem 15 músicas, mas percebendo a confusão em que se meteu, Lou corta duas canções (“apenas” “Sweet Jane” e “Pale Blue Eyes”) e adianta o final. Volta para o bis com uma do “Lulu”, terminando a noite com “Sad Song”, bastante inferior à versão da turnê do álbum “Berlin”, de quatro anos atrás. Os luxemburgueses podem ter a maior renda per capita do mundo, mas assistiram ao provável pior show de Lou Reed desta turnê. E nós também.

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junho 15, 2012   No Comments

Guns N’ Roses em Paris

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Texto e fotos: Marcelo Costa

Localizado ao lado da mítica Cinemateca Francesa, o Palais Omnis Sports Bercy é um gigante disfarçado. Encrustado no que parecia ter sido uma ribanceira, do lado de fora o ginásio de esportes não parece ser tão gigante quanto seus números entregam, com cerca de 19 mil lugares disponíveis para apresentações musicais, sendo que 80% deste número parece estar ocupado por fãs do Guns de todas as idades com bandanas, camisas pretas e calças de couro esperando para conferir ao vivo mais um show da interminável “Chinese Democracy Tour”.

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Apesar do bom número de ingressos vendidos, o transporte público parece não ser afetado e tudo corre tranquilamente para uma noite amena de terça-feira primaveril em Paris. Fãs ocupam seus lugares nas arquibancadas enquanto a pista parece que irá lotar e permanecerá assim durante toda a noite, com muitas pessoas desistindo do show seja pelo atraso costumeiro de Axl Rose, seja pela extensão da apresentação, que ultrapassa duas horas e meia de duração embalada por jams sessions absolutamente dispensáveis.

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Ao meu lado, na fileira D (na metade do ginásio e com uma visão excelente do palco), um clone de Izzy Stradin senta acompanhado de sua namorada, ela com calça de couro rasgada no joelho, tatuagem de flores escapando no pescoço, e adesivo do meet and greet, o qual Axl raramente participa (para não dizer nunca). A garota me olha e dispara um francês cheio de biquinhos. Aviso que não falo a língua de Charlotte Gainsbourg, e ela acena com um sorriso e pergunta em inglês: “Será que ‘ele’ vai atrasar muito? Uma hora? Duas”.

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Tento acalmar a moça dizendo que em 30 minutos, no máximo, o show começa (e tento também acreditar em minhas próprias palavras). Dias antes, em Manchester, Axl havia atrasado três horas. Em Paris, no entanto, o atraso fica “apenas” em uma hora e meia, e o septeto adentra o palco de Bercy ao som de “Splitting the Atom”, do Massive Attack. “Chinese Democracy”, faixa que dá nome ao último álbum do Guns, abre o show de forma surpreendente ancorada em cinco telões, explosões e um pique atlético de banda que cansa só de olhar.

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Axl não economiza e logo após a abertura oferta aos fãs três pérolas do álbum que apresentou o Guns ao mundo: “Welcome to the Jungle”, “It’s So Easy” e “Mr. Brownstone” surgem fortes, intensas, e dão a tônica do que se seguira nas duas horas seguintes, com todos os integrantes da banda correndo de um lado para o outro, tentando se aproximar dos fãs (e da área vip de modelos num canto dentro do palco) enquanto os telões alternam passagens de clipes com imagens de modelos de propagandas de shampoo (ao longo da noite serão mais de 10).

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O pique do vocalista impressiona. Ele canta muito, e bem, faz sua dancinha característica em diversas oportunidades e dobra o pedestal do microfone como nos velhos tempos, mas precisa recarregar-se de oxigênio em mais de 20 canções. Chega a ser engraçado: ele termina sua parte na música e sai dançando animadamente até desaparecer no backstage. Os guitarristas alternam solos, fazem pose e cerca de um minuto depois Axl retorna revigorado para novos berros. Se o show tem 2h30, aproximadamente 30 minutos ele passa no backstage.

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Ainda assim, o show é correto e divertido. O personagem Axl Rose é maior do que a própria banda (que particularmente nesta noite está muito bem), e isso explica parte da má vontade com que boa parte da imprensa vê o Guns, mas os fãs não estão nem ai e rasgam suas vozes em “Rocket Queen”, fazem air piano na cover matadora de “Live in Let Die” (recheada de dezenas de explosões), namoram em “This I Love” e aplaudem de forma impressionante e entusiasmada até um número solo de Dizzy Reed ao piano (“Baba O’ Riley”, do The Who).

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As arrasa quarteirão “You Could Be Mine” e “Sweet Child O’ Mine” são separadas por um solo latino chato de DJ Ashba, e assim que a banda começa a improvisar “Another Brick In The Wall Part 2” deixo o Palais e corro para o metrô vazio com a certeza de que, apesar da imprensa e dos detratores, o Guns e Axl reinam absolutos num mundo paralelo, só deles, uma monarquia do século 13 povoada por solos de guitarra, tatuagens, modelos e colares de 200 mil dólares. E, claro, alguns dos maiores hinos do hard rock dos últimos 20 anos.

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A noite ainda teria “November Rain”, “Don’t Cry”, “Civil War” e “Nightrain” encaixotadas entre dezenas (que parecem centenas) de jams intermináveis. As canções de “Chinese Democracy” rareiam conforme o show avança, e o bis – “Knockin’ On Heaven’s Door”, “Patience” e “Paradise City” – é marcado por um hit e uma jam. Os fãs festejam e a noite se encerra ao som de Sinatra cantando “My Way”. A monarquia (e o hard rock) pode(m) estar fora de moda, mas Axl ostenta a coroa com orgulho. É meio vergonha alheia, mas ele (acha que) pode.

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Melhor deixar.

junho 15, 2012   No Comments

Batendo perna em Paris

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Texto e fotos: Marcelo Costa

Segunda-feira, pós Primavera Sound, todo mundo morto, hora de descansar, certo? Humm, não. Chegamos a Paris por volta das 11h, e fomos recebidos por seis andares de degraus escorregadios e gastos – sem elevador. No terceiro andar, um acesso de riso nos tomou, e as malas triplicaram de peso. Com muito esforço conseguimos chegar ao apartamento.

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A primeira impressão é de médio pra ruim, mas vamos nos ajeitando (e aceitando). A mulher responsável por nos receber não fala nada de inglês, e travamos um diálogo que mais parece uma luta de esgrima. Quando ela está saindo, vitoriosa, lembramos de pedir a senha do wi-fi. Ela sorri, e anota num papel. Duas horas depois descobrimos que ela havia nos dado a senha da portaria do nosso prédio. Lost in Translation.

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É hora do almoço, e opto por retornar a um restaurante em que comi com Lili, e que a encantou por sua sopa de cebola. Fica do lado do Forum Des Halles, e, claro, todo mundo fica animado quando comento que há uma FNAC de três andares no local. Passamos ainda na lojinha Paralléles (47, Rue Saint Honoré), um paraíso com vinis, boxes raros, quadrinhos e memorabilia. Rob Fleming recomendaria.

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Então começa a maratona. Estamos ao lado do Louvre, lembro, e caminhamos até a Pirâmide. Paulo Terron olha para o Arco do Triunfo, e comenta: “Uma vez caminhei daqui até lá”. Já que deu a ideia, vamos os três, com Renato Moikano (que estava caminhando pela primeira vez na Champs Elysees) à frente. No caminho, passamos em uma FNAC e na mega loja da Virgin. Resisto e não compro nada nas duas.

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Debaixo do Arco, comento: “Já que viemos até aqui, vamos até a Torre Eiffel”. E assim parte o trio. O clima está meio cinzento, nublado, e venta. Mas não nos abalamos. Paramos no Trocadero, e pergunto pro Renato: “Tu vai querer subir?”. E ele: “É claro”. A fila do elevador está imensa, então comento da subida via escada, cuja fila é menor. Segundo a previsão no letreiro, os quase 700 degraus são vencidos em 25 minutos.

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Ali pelo número 300, eles, os degraus, estão quase nos vencendo. Rimos, sem poder rir (temos que guardar o ar para o fôlego que resta), mas aos poucos vamos ultrapassando as marcas (inclusive o degrau 666) e, quando percebemos, já estamos sendo atacados pelo vento cortante que atinge o ponto mais alto da Torre. O dia está se pondo, e a visão compensa.

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Alguém se lembra dos seis andares que teremos de enfrentar quando voltar para o ap (que já está arrumado, com wi-fi funcionando, TV francesa disponível, e camas aguardando o sono dos justos), e rimos. Depois da Torre, os seis andares do ap serão fichinha, mas se encontrasse uma lâmpada mágica naquele momento, um dos três pedidos seria certo: um elevador. Os outros dois poderiam ser queijo…

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Acordamos perto do meio-dia na terça-feira, e nenhuma boulangerie nem restaurante quer nos vender o cardápio de café da manhã. Dispensamos um café que parecia o do filme “Antes do Por-do-Sol”, mas que, na verdade, não era frequentado por Celine e Jesse, mas sim por Jim Morrison, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus – e até virou filme), e somos dispensados de mais dois. No fim, opto por uma fatia de queijo com amêndoas, e descubro um café amigável na praça seguinte.

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A ideia era passarmos na Shakespeare and Co, a charmosa livraria focada em língua inglesa, e depois visitarmos a Igreja de Notre Dame, mas percebo o Pantheon numa ladeira, e arrasto os dois amigos para o local. Dali seguimos em direção a Rue Dante, que desde o começo do Boulevard St Germain é lotada de lojas de quadrinhos e toyart, um paraíso para fãs e nerds. Todo mundo compra algo. Ainda descobrimos outra loja de CDs e vinis sensacional: a Crocodisc, na 40, rue des Ecoles.

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Na Shakespeare and Co, um cartaz anuncia que Jennifer Egan, minha paixão atual, irá ler trechos de seu novo livro às 19h da quinta-feira, exatamente quando tivermos partido para Cork. Tento não pensar no assunto (na última vez que estive na livraria, Jonathan Safran Foer lia trechos de “Eating Animals”) e partimos para Notre Dame. A fila está grande, mas rápida. Quando deixamos a igreja, as visitas ao topo estão encerradas. Fica para a próxima vez.

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junho 15, 2012   No Comments

Verona: Quanto dinheiro você trouxe?

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Após um dos melhores voos que já entrei (dormi metade do tempo e na outra segui o conselho do piloto gente boa: “Estamos sobrevoando os Alpes. Apreciem a paisagem”), uma chegada triunfal na Itália. Coisas de quem está vindo de Amsterdã, com direito a doberman cheirando todas as malas e todos os passageiros, e entrevista estilo filme.

Quando estava na fila esperando a minha bagagem percebi os caras me sacando. Um deles veio até perto de mim, deu uma volta, e voltou comentando algo pro superior. Acho que a minha cara de acabado deu a entender a eles outras coisas. Se eles soubessem como foi o dia de ontem…

A coisa toda funcionou como no cinema: um mal-encarado me chamou na hora que eu estava saindo. “Você é de onde?”. “Brasil”. “Vai ficar quantos dias aqui?”. “Dois dias em Veneza, então retorno para o Brasil”. “Está vindo de onde?”. “Amsterdã”. “Me acompanhe”.

Fui com ele e mais três para uma salinha (e o doberman), e ele fez questão de não me dar conforto: tirou a cadeira (que eu tinha pensado em sentar) e fechou as persianas. E começou o interrogatório.

“O que você veio fazer aqui?”. “Férias. Fim de férias na verdade. Já passei por Londres, Paris e Barcelona”. “Algum motivo especial?”. “Estou assistindo a shows, concertos”. “Concertos?”. “Sim. Na segunda passada vi Bruce Springsteen em Trieste”, e exibi a camiseta esperando causar alguma emoção. Nada. “Quando é seu voo de volta?”, ele perguntou pela segunda vez (na tentativa de me confundir). “Sábado. De Veneza”. E mostrei o ticket.

“Onde você vai ficar em Veneza?”. Mostro a reserva, e ele mastiga algumas palavras para outro policial, que faz o papel de bonzinho e várias vezes durante a “entrevista” me defende.

Então vem a pergunta que sempre temo: “Quanto dinheiro você trouxe?”. Sempre temo essa pergunta porque nunca levo dinheiro em espécie, vou retirando da conta bancária conforme a necessidade.

“Devo ter uns 60 euros na carteira, mas uso os cartões para saque e crédito quando preciso”. “Posso ver seus cartões?”. “Claro”. Já estava durando mais do que o normal, e comecei a achar que ele iria arranjar alguma coisa pra me ferrar, por mais que eu estivesse rigorosamente dentro da lei.

“Posso ver sua bagagem?”. “Claro”, e abro a mochila. Ele vê as câmeras, comenta algo novamente ininteligível (mas carrancudo – boa coisa não era) com o amigo e manda a última pergunta. “Você só tem essas duas malas?”. “Não. Deixei outras duas no guarda-volumes da estação de Verona”.

Penso: ferrou, mas o bonzinho, que já viu todos os carimbos do meu passaporte três vezes, e também a ficha do guarda-volumes, confirma. “Sim, ele tem bagagens lá”. Então fala pra mim positivamente: “Vou ganhar uma carona até a estação de trens e economizar 6 euros. Valeu a entrevista”.

Mas não. Ele dá por encerrada a conversa e me dispensa. “Arrividerci”. Obrigado, Itália. : D

Agora, Veneza.

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junho 14, 2012   No Comments