Blog do Editor do Scream & Yell
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Category — EUA 2011

Oito pubs de cervejarias nos EUA

A edição de fevereiro da revista Alfa (com Chico Buarque na capa) trazia uma interessante reportagem sobre o Vale das Cervejas, no Estado do Colorado, região que tem, contada, 74 microcervejarias (leia, depois, aqui – hehe). Não fui a nenhuma dessas cervejarias na viagem, o que não quer dizer que me rendi ao império Inbev, muito pelo contrário, e abaixo listo (em cada uma das cidades pelas quais passei) bares cervejarias que valem muito a sua visita.

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Blackstone Restaurant & Brewery, Nashville
O agito na capital do folk acontece na Broadway Street e na Second, com diversos bares e pubs oferecendo versões novas de Taylor Swift e velhas de Johnny Cash, a maioria tocando repertório próprio e tentando a sorte. No começo da Broadway Street há uma filial concorrida da Rock Bottom (texto mais abaixo), mas vale sair do centro da cidade (de preferência de taxi) para conhecer a Blackstone Restaurant & Brewery, cervejaria a cerca de 10 minutos da área da bagunça, com seis cervejas próprias e um bom número de pratos no cardápio. Minha preferida foi a American Pale Ale, levemente amarga, mas com presença boa de malte equilibrando o conjunto. As premiadas Nut Brown Ale (esforço conjunto do brewmaster da casa com o cervejeiro caseiro Dave Miller) e Chaser Pale (uma interessante Kölsch, estilo alemã pouco explorado) entram no páreo pela briga do primeiro lugar. Há ainda uma Porter (St. Charles Porter), uma American Brown Ale e uma West Coast IPA (Hop Jack).

http://www.blackstonebrewery.com/

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The Flying Saucer, Memphis  (e mais 15 cidades)
A manchete do cardápio, em formato jornal, avisa: “A missão do Saucer é abastecer a comunidade com uma vasta seleção de cervejas artesanais do Tennessee e do resto do mundo”.  E eles levam a missão a sério. São mais de 200 cervejas e uma lousa que informa de aquisições recentes e promoções. O local é enorme, próximo a Beale Street, e seu teto é forrado por pratos com o nome de quem conseguiu alcançar a pontuação máxima no arremesso de dardo do local. “Você pode tentar três vezes”, informa a garçonete. Além da vasta seleção há as “Saucer Flights”, oito tours cervejeiros, cada um com cinco rótulos, por 10 dólares. O primeiro (Around The World) apresenta cervejas de cinco países; o segundo (The Dark Side) reúne cinco cervejas que valorizam o malte torrado; há ainda um tour europeu, outro norte-americano, um apenas para lúpulo-maníacos, outro para fãs de fruit beers e cidras e o que escolhi, “Around The Hood”, com cinco cervejarias locais. Na minha seleção veio uma Abita Purple Haze (aroma frutado e paladar que remete a Chardonnay), a tradicional Blackstone St. Charles Porter, uma Yazoo Dos Perros (leve, mas lupulada e com notas amadeiradas), uma Lazy Magnolia Southern Pecan (brown ale com nozes) e, fechando, uma herbal O’Fallon Hemp Hop Rye (sim, com marijuana). Em Memphis ainda vale beber algumas no Local Gastro Pub.

http://www.beerknurd.com/

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Crescent Brewhouse
Primeiro brewpub de New Orleans (aberto em 1991), a Crescent Brewhouse oferece um tour pelos seus cinco rótulos abrindo com uma Pilsner bem tradicional, seguida por uma Red Stallion (Vienna Lager bem maltada e aromática), pela Black Forest (tradicional estilo Munique) e uma Weiss, a minha preferida do tour. As quatro são fixas na produção da cervejaria, e há uma quinta, sazonal, que eles vão mudando conforme a vontade do brewmaster. Neste tour era uma IPA levemente amarga. As cinco cervejas são boas, mas nenhuma impressiona. Ainda assim, o tour é um ótimo acompanhante para os bons pratos da casa. Você pode conferir o menu no site abaixo.

http://www.crescentcitybrewhouse.com/

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Elevator Brewery And Draught, Columbus
A chance de você passar pela simpática capital do Estado de Ohio é pequena, mas se acaso acontecer, a High Street é a rua que você precisa encontrar. Dois bons pubs cervejarias estão ali: a Barley’s Brewing (nº 467), que além de cervejas direto do barril tem no cardápio a ótima Blue Moon e bons sanduíches, e a preferida da casa, Elevator Brewing. Em uma bela mansão de 1897, assombrada por fantasmas e espíritos (segundo o cardápio), o pub exibe uma lista extensa que mantém, ao menos, 12 tipos de cerveja diferentes escorrendo pelas torneiras. Você pode arriscar entre alguma dos cavalos de batalhas da cervejaria (Dark Horse, medalha de bronze em torneio, a Procastinator Doppelbock ou a demente Hours Imperial Red Ale, de 11% de graduação alcoólica) ou pedir um sampler com três (US$ 4,50) ou seis (US$ 9) cervejas do cardápio. Minha preferida: Three Frogs, uma IPA de responsa.

http://www.elevatorbrewing.com/

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Magnolia Pub and Brewery, São Francisco
Sob o comando do brewmaster Dave McLean, o Magnolia Pub não é só o lugar que vende brownie de chocolate com bacon de sobremesa. Todas as cervejas do cardápio são feitas na casa (são quase 20, embora algumas sejam sazonais) e os destaques são a poderosa Pride to Branthill, uma english strong ale de corar a alma com 9% de graduação alcoólica, mas deixe-a para a segunda ou terceira rodada (senão as outras soaram apagadas, menores), a Piper Pale Ale (5,2%) e a encorpada Stout of Circustance. Eles ainda têm uma Cole Porter no cardápio e uma sazonal bastante interessante: Magnolia Bonnie Lees Best Bitter. O fish and chips (tradicionalíssimo com fritas bravas e muito óleo) é ótimo. Pub com jeitinho de decadente, mas muito bem freqüentado, o Magnolia fica numa esquina da Haight Street, 1398, no bairro da contracultura.

http://www.magnoliapub.com/

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Barney’s Beanery, Los Angeles
Esqueça a Calçada da Fama. Este é o lugar obrigatório (junto com a Amoeba) a se passar em LA. Pub bacana que em suas mesas viu desde Marilyn Monroe comer sanduíche, Jimi Hendrix conversar com Janis Joplin pela última vez antes da overdose, e Quentin Tarantino rabiscar o roteiro de “Pulp Fiction” (entre outras coisas), e que hoje em dia está lotado de TVs passando jogos de basquete, hóquei e beisebol – além de ter mesas de bilhar. De produção própria só tem a boa cerveja que leva o nome da casa, mas o cardápio tentador tem mais de 200 marcas divididas entre EUA e Estrangeiras e entre torneira e garrafa. No cardápio (veja aqui e aqui) tinha uma Monty Python’s Holy Grail inglesa (que estava em falta), que me deixou curioso (essa da foto é uma Pyramid Hefe, do Havaí). A comida é bem boa – destaque para o chilli. São cinco filiais, mas a original é a da Santa Monica Boulevard, 8447, em West Hollywood, trecho histórico da Route 66.

http://www.barneysbeanery.com/

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Rock Bottom, Chicago (e mais 30 cidades)
Pub cervejaria com mais de 30 filiais pelos Estados Unidos, a Rock Bottom de Chicago tem uma boa localização (na saída do metrô Grant, Red Line, na Magnificent Mille) e belíssimas cervejas no cardápio em um ambiente bem legal que se divide entre pub e restaurante. O mestre cervejeiro Chris Rafferty defende que uma boa cerveja se faz unindo as tradições com criatividade. Isso lhe rendeu dezenas de prêmios, como duas medalhas de ouro na Copa do Mundo de Cervejas em 2010. Assim como na Elevator, aqui você pode pedir um sampler com seis cervejas da casa antes de optar por um belo pint. Numa votação entre amigos (eu, Renato e Carlos), a Special Dark, uma stout com vários prêmios e muita personalidade, saiu vencedora, mas a clássica IPA, a ótima Red Ale e a encorpada Bock também podem fazer você feliz. Todo mês, Chris apresenta uma cerveja especial para o cardápio. Vale ficar atento.

http://www.rockbottom.com/chicago/

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Brooklyn Brewery, Nova York
A Brooklyn não é um pub, mas tem como beber cerveja lá. Uma das melhores cervejarias americanas tem casa no Brooklyn (muito fácil chegar de metrô) e faz concorridos tours de experimentação (incluindo títulos que não são encontrados no mercado) durante vários dias da semana no verão, além de ter um boliche, em que você pode jogar com os amigos bebendo direto dos barris fresquinhos. O grande mestre cervejeiro Garrett Oliver conseguiu dar às cervejas da Brooklyn uma característica que une todas as marcas do grupo, sem descaracterizá-las de sua essência. Assim, a Pale Ale deles é maravilhosa, mas tem algo que faz você saber que é uma Brooklyn. Esse mesmo algo, por exemplo, marca as monstruosas Monster Ale e Brooklyn Blast, de teor alcoólico elevado (10% a primeira, 9% a segunda) e muita personalidade. Visite a casa da melhor cerveja americana (grifo meu) na 79 North 11th Street, em Nova York, e muito cuidado com essas fichinhas da foto…

http://www.brooklynbrewery.com/

Veja também:
- Diário EUA 2011: http://screamyell.com.br/blog/category/eua-2011/
- Fotos da viagem: Flickr do Marcelo (aqui) e Flickr do Renato (aqui)
- Top 25 de cervejas da viagem (aqui) e Top 100 de cervejas (aqui)

Abril 26, 2011   2 Comments

Meu olhar sobre o Coachella, remixado

O Paige, do blog norte-americano The Color Awesome, pegou várias fotos minhas do Coachella no esquema do Creative Commons do Flickr, distorceu, clareou, ajeitou curvas e as deixou muuuuito melhores. Ficou muito legal. Abaixo, duas. As demais vocês podem conferir aqui:

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http://thecolorawesome.com

Abril 25, 2011   1 Comment

Balanço: 20 dias de Estados Unidos

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Após três anos emendando mochilagem de férias de 40 dias pela Europa, 20 dias passam voando. Ainda mais nos Estados Unidos, um local novo para o olhar, repleto de significados e (pre)conceitos. Hoje é o último dia, e a viagem de volta começa agora. De Columbus para Chicago, e de Chicago para São Paulo. O dia está nublado e estou bastante cansado, mas a minha cama me aguarda (e 20 dias alternando colchões detonam tanto as costas que ela agradece o retorno à rotina).

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Nova York foi uma experiência especial. Começou como uma paixão avassaladora e terminou com uma pulga atrás da orelha. Preciso voltar. São Francisco, no entanto, não me balançou. Muito menos Los Angeles. Já sobre Chicago, uma frase do Renato: “Se pudesse cortava um dia de Nova York e um de Los Angeles para ficar quatro aqui”. Emendei: “Eu cortava Los Angeles e já vinha direto do Coachella pra cá” (risos). “Mas então não veríamos o Paul”, lembrou ele. Ou seja, Chicago foi paixão a primeira vista, mas tinhámos que passar por LA. Ao menos um dia. :P

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Faltou muita coisa, e sempre falta. No entanto teve alguns pega turistas como a Times Square, em Nova York, e a Calçada da Fama, em Hollywood, locais nível Monalisa, em que você vai para riscar no caderninho, dizer que viu - e nunca mais voltar. Mas ninguém consegue ver a Monalisa (cinco metros de distância, protegida por um vidro que reflete o público, daquele tamanho? Não dá), assim como não há o que fazer na Times Square e na Calçada da Fama além de dizer: existe - e se confraternizar com outros turistas. É tudo irreal. A cidade é outra coisa.

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No geral fiquei bastante impressionado negativamente com a quantidade de pobres andando pelas ruas, ônibus e metrôs das grandes cidades. A quantidade de homeless em Nova York e, principalmente, em Los Angeles e San Francisco impressiona. Senhoras grisalhas empurrando carrinhos de supermercado lotados de restos do sonho americano. O governo não se preocupa com elas assim como a prefeitura de Nova York não se preocupa com os ratos no metrô. A lavagem cerebral enriquece, e também pode cegar.

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Não há muito o que falar de Columbus. Foram apenas 24 horas na cidade, que tem duas ótimas cervejarias na mesma rua e que parece fervilhar de atividades estudantis. Como uma típica cidade do interior (apesar de ser a capital de Ohio), todo mundo lhe cumprimenta e conversa com você. Foi interessante ter ido pra lá (obrigado, Decemberists) e ter a chance de imaginar que, talvez, fora dos grandes centros as coisas funcionem. Talvez.

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Essa viagem chegou ao fim. Agora é pensar nos 10 dias na Europa em maio. Primavera Sound em Barcelona, dois dias em Amsterdã e Eric Clapton no Royal Albert Hall, em Londres, no roteiro. Promete…

Top Ten Shows
01) Arcade Fire no Coachella
02) Arcade Fire em Chicago
03) PJ Harvey em São Francisco
04) Sebadoh em Nova York
05) Paul Simon em Los Angeles
06) The Decemberists em Columbus
07) Death From Above 1979 no Coachella
08 ) Flogging Molly no Coachella
09) Suede no Coachella
10) Cold War Kids no Coachella

Top Ten Cervejas
01) 4,89/5 - Brooklyn Blast, EUA – 9%
02) 4,80/5 - Duvel Green, Bélgica - 6,8%
03) 4,71/5 - Delirium Nocturnum, Bélgica - 8,5%
04) 4,63/5 - Brooklyn Summer Ale, EUA - 5%
05) 4,62/5 - Brooklyner Weissen, EUA - 5%
06) 4,14/5 - Racer 5 India Pale Ale, EUA - 7%
07) 4,11/5 - Guiness Extra Stout, Irlanda - 6%
08 ) 4,04/5 - Magnolia Pride to Branthill, EUA - 9%
09) 4,02/5 - Delirium Tremens, Bélgica - 8,5%
10) 3,94/5 - Sierra Nevada Pale Ale, EUA – 5,6%

Top Ten CDs
01) David Bowie – Station To Station (Deluxe Edition Box)
02) Woody Guthrie – Some Folk (Box 4 CDs)
03) The Faces - Five Guys Walk Into a Bar (Box 4 CDs)
04) The Band - A Musical History (Box 5 CDs e 1 DVD)
05) Gram Parsons – The Complete Reprise Sessions (Box 3 CDs)
06) Wilco – Yankee Hotel Foxtrot (Tour Edition)
07) Neil Young – Eldorado (EP)
08 ) Echo and The Bunnymen – Avalanche (EP)
09) White Stripes – Conquista (Single)
10) The Decemberists – Live at Bull Mouse (Record Store Day Album)

Top Ten Lugares
01) Museu Guggenheim, Nova York
02) Amoeba, Los Angeles
03) Brooklyn Brewery, Nova York
04) Barney’s Beanary, Los Angeles
05) Rock Bottom, Chicago
06) Amoeba, São Francisco
07) Bowery Ballroom, Nova York
08 ) Dodgers Stadium, Los Angeles
09) Lombardi’s, Nova York
10) Magnolia Pub, São Francisco

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Veja também:
- Diário EUA 2011: http://screamyell.com.br/blog/category/eua-2011/
- Fotos da viagem: Flickr do Marcelo (aqui) e Flickr do Renato (aqui)

Ps. Aquele abraço para o Carlos, que novamente topou encarar uma viagem tendo como motivo algumas cervejas e rock and roll, e ao Renato, graaande parceiro de 20 dias comendo fast food, procurando boas cervejas, torrando no deserto, passando frio em Nova York, vendo shows e atravessando os Estados Unidos de lá pra cá e de cá pra lá.

Abril 24, 2011   3 Comments

The Decemberists ao vivo em Ohio

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Bandas “cabeça” são sempre imprevisíveis no palco. Você vai ao show sem saber ao certo o que esperar. Será que eles vão tocar os hits? Será que eles vão fazer um show difícil? Será que eles vão fazer um show para eles ou para nós? É uma questão interessante: amamos bandas “difíceis” pela qualidade delas serem difíceis, peitarem a indústria e seguir fazendo o que lhes der na telha, mas quando estamos frente a frente com elas queremos simplicidade. E isso sempre gera atrito.

A lista de artistas que provocam a plateia é imensa, mas a título de exemplo, Radiohead, Sonic Youth e Lou Reed são imprevisíveis. Os discos são quase sempre uma incógnita, o próximo passo é quase sempre um tiro no escuro, os shows são quase sempre inesperados. O Decemberists, banda de indie folk formada no pequeno Estado de Oregon (cuja população total é três vezes menor do que a da cidade de São Paulo), nos Estados Unidos, segue a risca a cartilha das bandas acima.

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Colin Meloy é o típico nerd com tendencias a gênio. Gordinho, de óculos fundo de garrafa e fã de rock indie oitentista, Colin aprendeu direitinho as aulas ministradas pelo R.E.M. a respeito de sucesso de massa vs carreira de longa duração, e conseguiu repetir o feito da banda de Michael Stipe: após dez anos de um crescimento lento e continuo, “The King is Dead”, o sexto disco do Decemberists, alcançou o número 1 da Billboard em fevereiro deste ano.

“The King is Dead” é um compendio de homenagens: aos Smiths, via título do disco (citação direta a “The Queen is Dead”, o feroz ataque a realeza britânica assinado por Morrissey e Marr), ao R.E.M. (a participação de Peter Buck em três faixas faz desse álbum um grande concorrente aos do R.E.M. em sua primeira fase) e à tradição do folk norte-americano. Segundo Colin Meloy, o mundo vive uma época de revival do folk britânico, e ele quis fugir disso e olhar para as raízes dos EUA.

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O resultado conquistou o público norte-americano, e uma fila imensa se forma na entrada do The LC Pavilion, em Columbus, capital de Ohio, para ver o grupo. O show está sold out (das cinco próximas datas, quatro também já esgotaram) e é grande a expectativa em torno de qual direcionamento Colin Meloy dará ao show. Será que o sucesso amaciou o grupo? O set list, que muda radicalmente de show para show, trará os hits indies do Decemberists? Dúvidas.

Primeiro boa impressão da noite: o LC Pavillion é um lugar bem bacana para ver shows. Há uma divisão na metade da pista, com a parte final alguns degraus acima do gargarejo, possibilitando que a galera do fundão consiga ver a banda com mais facilidade. Copos de cerveja de um litro são vendidos como água, e as pessoas da cidade, extremamente atenciosas, conversam com todo mundo, indiscriminadamente. Todos parecem ser conhecer há séculos, e só estamos há 9 horas em Columbus.

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O show começa com um áudio em que o apresentador, entre outras coisas, pede para que todo mundo cumprimente as pessoas que estão ao seu redor. O LC Pavillion vira um festival de apertos de mãos e sorrisos, e com o clima extremamente amigável, o Decemberists entra no palco e faz um show… estranho.

Os hits surgem aqui e ali, mas a banda pesca canções de todos os discos abrindo o show com a rara suíte “The Tain” (lançade em 2003 pelo selo Kill Rock Stars), não inteira (ela tem 18 minutos), mas quase (uns 8 minutos), e a apresentação não tem um crescendo, mas momentos de histeria alternados com minutos de contemplação.

O público, nas mãos da banda, não se importa e vai a loucura com “Down By The Water”, a segunda música da noite (com belo backing de Jenny Conlee e gaita inaudível de Colin), e “Calimity Song” (a terceira), e quase todas as pérolas de “The Kings Is Dead” marcam presença. Colin fala muito entre as canções, e se o som do disco soa bastante tradicionalista, ao vivo a banda reforça ainda mais a impressão chegando a parecer um grupo circense dos Estados Unidos do século 17.

Na épica “The Mariner’s Revenge Song” (do álbum “Picaresque”, 2005), por exemplo, John Moen larga a bateria e vem para a frente do palco com um bumbo, sobe na banqueta, ameaça se jogar na galera, e o clima (reforçado pelo acordeon de Jenny e pelo banjo de Chris Funk) é de festa cigana. “The Rake’s Song”, o hit do disco anterior e uma das prediletas da noite, incendeia o local. Já “The Hazards Of Love 4 (The Drowned)” é momento de contemplação, e esse alternância de sensações faz com que o show, apesar de ótimo, não se torne grandioso.

Parece, no entanto, opção da banda. A mudança constante de set list faz com que o público se surpreenda com cada nova canção, mas também não mantém o desenho característico de produção de show, que se preocupa com os altos e baixos durante uma apresentação de 90 minutos visando construir um repertório que eleve a adrenalina do público lentamente.

Colin Meloy dispensa esses artifícios e concentra-se nas canções. A rotatividade do set list deve funcionar como loteria: tem dias que o Decemberists pode fazer um daqueles shows da vida de uma pessoa. Em outros pode parecer “apenas” ótimo. Foi essa segunda face que Columbus assistiu. Ninguém sabe o show de amanhã, mas sempre vale a pena arriscar. Com o Decemberists, sempre.

Set List
The Tain
Down by the Water
Calamity Song
…Rise to Me
Billy Liar
The Sporting Life
January Hymn
Don’t Carry It All
The Rake’s Song
16 Military Wives
This Is Why We Fight

The Hazards of Love 4 (The Drowned)
The Mariner’s Revenge Song

June Hymn

Abril 24, 2011   3 Comments

Chicago vista do céu

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Levantar voo do aeroporto O’Hare, em Chicago, é uma das experiências mais especiais que já vivi em uma viagem, semelhante a pousar em Mestro, observando os canais cortarem Veneza em pedacinhos. Acho que só três cidades me fazem derramar lágrimas pela janela do avião: São Paulo (por motivos óbvios, afinal, cada pedaço do que sou foi construído com o olhar de São Paulo e a volta a cidade sempre emociona), Veneza (uma cidade de brinquedo flutuando sobre águas) e, agora, Chicago.

Porém, talvez a visão que vi não seja a visão que todos que saem do aeroporto veem, afinal meu destino atípico (por culpa de Colin Meloy e sua turma) é Columbus, capital de Ohio. O pequeno avião da American Eagle rasga a pista e assim que larga o chão começa a balançar, balançar e balançar. O piloto faz uma curva acentuada para a esquerda e, quando você menos espera, Chicago surge inteirinha à sua frente pela janelinha da aeronave.

Começa pela periferia repleta de casinhas - não amontoadas - em quadras corretas, um campo de futebol americano aqui, um de beisebol ali, quase nenhuma piscina. Ao fundo, no horizonte, a silhueta de Downtown se destaca, com seus belos prédios elevados que tomam 10% (se muito) da cidade. Quase toda Chicago é baixa, casas e casas e casas (impossível não lembrar de Wado cantando “vem morar comigo neste apartamento, estamos uns sobre os outros e temos satisfação”), o que romantiza a visão dos poucos prédios.

O avião atravessa Downtown (ainda balançando) e entra no lago Michigan e a cidade vai ficando para trás – um pedaço do meu coração, também. A costa, recortada delicadamente, é a última visão. Uma história de amor acaba de começar. Sorrio.

Abril 23, 2011   No Comments

A paixão por Chicago e Arcade Fire

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A viagem está chegando ao fim, e até dois atrás nada tinha me impressionado tanto nos Estados Unidos a ponto de me querer fazer voltar para cá ao invés de ir para a Europa, nada até conhecer Chicago. É difícil explicar como em tão pouco tempo uma cidade pode conquistar a gente, mas precisamos levar em conta a primeira impressão, e nesse quesito Chicago é exemplar. A chegada a cidade após a saída do aeroporto é deslumbrante e tudo parece mais… convidativo. Chicago parece uma cidade mais pessoal, mais atenta à coletividade.

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Os prédios altos (e são muitos, e bonitos) não intimidam, mas o frio (mesmo na primavera) não deu descanso alternando-se com vento e garoa, quando não tudo juntos. É complicado querer conhecer uma cidade com frio, garoa e vento, mas demos alguns passeios em locações dos filmes “Curtindo a Vida Adoidado” e “Os Intocáveis”. Do primeiro tínhamos plano de visitar a garagem onde Ferry deixa a Ferrari (e fomos) e subir ao alto do John Hancock Observatory para olhar a cidade, mas dos 100 andares do prédio, 40 estavam debaixo de névoa.

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Já de “Os Intocáveis” passamos por alguns prédios que serviram de fachada para cenas do filme além, claro, da Union Station, palco da cena/homenagem celebre do tiroteio e do carrinho de bebe. Fora isso caminhamos bastante na Magnificent Mile, trecho elegante da Michigan Avenue ao norte do rio Chicago, pegamos o Navy Pier fechando, mas descobrimos a cervejaria Rock Bottom, parada obrigatória para uma boa cerveja e um bom prato (outra boa dica é o PJ Clarkes).

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Eu, Renato e o Carlos (que nos encontrou aqui para ver a dobradinha Arcade Fire/National) abrimos uma rodada na RB cada um com uma cerveja diferente, depois fizemos um teste om oito das cervejas da casa da qual saiu vencedora a Special Dark, uma stout com vários prêmios e muita personalidade. O top 3 final de cada um ficou: Mac com IPA, Red Ale e Special Dark. Renato foi de Special Dark, Red Ale e Ipa enquanto Carlos fechou seu top 3 com Special Dark, Bock e Fuji. Lugar para voltar.

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Mais à noite, já na sexta, teve show do Arcade Fire com abertura do National, ambos inferiores à suas apresentações no Coachella, mas ainda assim especiais. O do National por verificar que a banda está entrando em uma vala de repetição e monotonia devido ao excesso de baladas e aos arranjos bastante parecidos das canções. O grupo depende cada vez mais do caos para fazer o show deslanchar, e numa noite comportada, como esta de Chicago, a gente fica com saudade dos shows de dois ou três anos atrás.

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Já o Arcade Fire é uma destruição sonora em meio a uma missa religiosa de encantar a alma. A intensidade com que os oito integrantes do grupo se dedica ao show faz valer cada centavo pago no ingresso, na cerveja, na pipoca, na camiseta. Ver o show colado no palco é uma experiência e tanto. A execução é primorosa. Ouve-se tudo – do xilofone à sanfona ao violino – em meio ao galopear massacrante da bateria e os riffs sujos de guitarra. O repertório desta primeira noite em Chicago (serão três, todas sold out), no entanto, foi inferior ao do Coachella.

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Além de ter uma canção ao menos do que no festival e de não ter balões, a banda tirou a excelente “City No With Children” e trocou a maravilhosa “Crown of Love” pela fraquinha “Sprawl I (Flatland)”, tocada pela primeira vez ao vivo pela banda. O álbum “Funeral” continua a render os grandes momentos (“Wake Up” é a canção de devoção, com todo mundo de braços levantados espantando maus espíritos), mas “Intervention”, “No Cars Go”, a abertura impressionante com a pesada “Month of May” e a volta do bis com “Ready To Start” não ficam atrás. Um dos shows mais vibrantes da atualidade.

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Deixo Chicago em direção a Port Columbus, onde vejo o Decemberists tocar ao vivo as canções do maravilhoso “Kings Is Dead” na minha véspera de volta ao Brasil. Deixo Chicago pensando em voltar. A cidade de Al Capone e do Wilco se tornou a preferida da viagem, mas vamos deixar o balanço para segunda, quando eu chegar em casa e tudo soar… passado. Agora tenho um bom trecho de metrô e malas até o aeroporto, um novo voo, uma nova cidade e um novo show. Carlos já deve estar lá enquanto Renato deve estar voando para LA para voltar ao deserto de Coachella, que recebe neste sábado o Big Four (Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax). Não tem como segurar o relógio…

Veja também:
- Diário EUA 2011: http://screamyell.com.br/blog/category/eua-2011/
- Fotos da viagem: Flickr do Marcelo (aqui) e Flickr do Renato (aqui)

Abril 23, 2011   4 Comments

Top 25 de cervejas da viagem

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Nova parcial das cervejas da viagem. E contando que faltam apenas três dias, pouca coisa deve mudar. Entraram as duas Delirium belgas (a cerveja que faz o bêbado ver elefantes rosas), uma Pale Ale californiana abraçou o sexto lugar. A maioria saiu do cardápio do Barney’s Brewery (veja aqui e aqui). Vamos ver se chegamos a 30 até o domingo…

01) 4,89/5 - Brooklyn Blast, EUA – 9%
02) 4,80/5 - Duvel Green, Bélgica - 6,8%
03) 4,71/5 - Delirium Nocturnum, Bélgica - 8,5%
04) 4,63/5 - Brooklyn Summer Ale, EUA - 5%
05) 4,62/5 - Brooklyner Weissen, EUA - 5%
06) 4,14/5 - Racer 5 India Pale Ale, EUA - 7%
07) 4,11/5 - Guiness Extra Stout, Irlanda - 6%
08 ) 4,04/5 - Magnolia Pride to Branthill, EUA - 9%
09) 4,02/5 - Delirium Tremens, Bélgica - 8,5%
10) 3,94/5 - Sierra Nevada Pale Ale, EUA – 5,6%
11) 3,90/5 - Brooklyn Pennat Ale, EUA – 5%
12) 3,71/5 - Blue Moon Belgian White, EUA - 5,4%
13) 3,60/5 - Magnolia Piper Pale Ale, EUA - 5,2%
14) 3,57/5 - Newcastle Brown Ale, Escócia - 4,7%
15) 3,41/5 - Arrogant Bastard Ale, EUA - 7,2%
16) 3,26/5 - Pyramid Hefe Weizen, EUA - 5,2%
17) 3,12/5 - Barney’s Brew, EUA
18) 3,10/5 - Blue Moon Summer Honey Wheat, EUA - 5,%
19) 2,90/5 - Shock Top Belgian White, EUA - 5,2%
20) 2,56/5 - Black Star Double Hopped Golden Lager, EUA - 4,6%
21) 2,52/5 - Samuel Adams Noble Pills, EUA - 4,9%
22) 2,42/5 - Bass Pale Ale, EUA - 5%
23) 2,16/5 - Victoria, México - 4%
24) 1,96/5 - Michelob Ultra, EUA - 5%
25) 1,95/5 – Bud Light Lemon, EUA – 4,2%

Top 100 - http://screamyell.com.br/blog/top-100-cervejas/

Abril 21, 2011   1 Comment

Em Los Angeles, desapaixonado

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Estranhei Los Angeles desde que chegamos à cidade. O ônibus nos deixou em uma parte afastada de Downtown, o centro antigo, dominada por mexicanos. Uma fábrica de tecidos, em frente a garagem da compania, oferecia vagas para costureiros com salário de 17 dólares a hora – e estava escrita apenas em espanhol. Tentamos seguir o conselho do David, “nosso” taxista em Palm Springs, e arriscamos o ônibus, mas estava tão lotado (e nós com tantas malas) que decidimos descer e procurar um taxi.

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De Downtown até West Hollywood, onde ficava o hotel, a paisagem mudou. Os prédios altos e teatros antigos abandonados do centro foram dando lugar a uma cidade plana conforme a Santa Monica Boulevard (trecho histórico da Route 66) invadia a cidade. Prédios baixos e ruas largas repletas de carros formaram a paisagem, mas ainda assim o glamour e o luxo da cidade do cinema parecia inexistente - com exceção da vizinha Beverly Hills, de grandes alamedas arborizadas, casas enormes e o centro tomado por grandes marcas, símbolo da vitória do capitalismo.

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Los Angeles é uma cidade fascinada pela fama. Das estrelas nas calçadas do Hollywood Boulevard a placas oferecendo mapas com o endereço da casa de todos os artistas até outdoors de revistas e websites avisando que compram e vendem fotos de famosos 24 horas por dia. “Comprar” é a palavrinha mágica norte-americana. Tudo está à venda – e por preços convidativos. Você pode comer um lanche x, mas incrementa-lo com dezenas de coisas por alguns dólares a mais. Quase tudo funciona assim em cidades que se transformaram em shopping centers.

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O outro lado da moeda da felicidade do supérfluo é que a pobreza está aos olhos de todos, e a falta e uma política governamental que atenda as pessoas sem teto faz com que os moradores de rua, a margem do “american dream”, passeiem pelas cidades com seus carrinhos de supermercado recheados de quinquilharias alimentando-se de restos de comida. A população de “homeless” norte-americana me impressionou – ainda mais em Los Angeles, em que carros caríssimos circulam nas ruas enquanto pobres almas caminham nas calçadas.

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O ônibus 4, que atravessa a Santa Monica Boulevard do começo ao fim, é uma aventura. A população de cachorros de West Hollywood vive muito melhor que metade do que as pessoas que se locomovem no transporte público. A arquitetura da cidade é exagerada, grandiloqüente e agressiva, e dezenas de outdoors (principalmente em Sunset Strip, o trecho mais famoso da Sunset Boulevard) anunciam os novos filmes das produtoras de cinema da cidade mostrado que a indústria, aqui, quer vencer pela insistência. Tudo isso soa amargo e cínico demais.

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O trecho da calçada da fama, no Hollywood Boulevard, é essencialmente turístico – incluindo os teatros Chinese e Kodak (o último, a casa da cerimônia do Oscar). Sunset Strip tem seu charme e dezenas de restaurantes interessantes assim como a Beverly Boulevard (com suas lojinhas de rua que servem caviar) e Melrose Place (o seriado diz muito sobre o local), mas a sensação de que é preciso uma carteirinha imaginária (com bandeiras Visa, Mastercard ou American Express) para apreciar a cidade é constante (e os passeios em ônibus turísticos reforça a impressão).

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Fizemos pouca coisa na cidade. Visitamos a Amoeba (outro rombo no orçamento), bebemos e comemos no Barney’s Beanery, caminhamos na calçada da fama e em Sunset Strip, visitamos o parque temático da Universal Studios (o tour pelos estúdios é bem legal, mas o preço do passe para o parque não é convidativo: 74 dólares) e assistimos a um jogo de beisebol do Los Angeles Dodgers, que apanhou em casa do Atlanta por 10 a 1 (e serviu para que eu aprendesse as regras do jogo, e experimentasse o excelente hot dog do estádio – hehe).

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E ainda teve Paul Simon fazendo um grande show no belíssimo Pantages Theatre, na Hollywood Boulevard, para uma plateia eufórica e histérica, que já na terceira música se levantava das cadeiras para aplaudir efusivamente o artista. A base da apresentação é, o disco novo lançado no mês passado, e a levada africana contagiante fez todo mundo gingar e sambar. Impressiona o poder que o compositor exerce sobre sua audiência. Foram quase duas horas de muitos aplausos para um show suingante e perfeito – incluindo dois encores, um deles aberto por “Sound of Silence”.

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Deixo Los Angeles com uma pontinha de decepção e curiosidade. Para conhecer uma cidade é preciso vive-la, admira-la, descobri-la, pois a primeira impressão normalmente comete equívocos. No entanto, uma questão urge: por que insistir em uma cidade que não causou paixão ao invés de dedicar-se a aquelas cujo amor a primeira vista foi enebriante. Insistir em tentar amar Los Angeles (e São Francisco, e Nova York, embora esta última seja mais fácil de nos conquistar) ou amar incondicionalmente Veneza, Paris, Londres, Praga e Barcelona?

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Enquanto penso o avião se aproxima de Chicago. A comissária de bordo avisa:  tempo nublado, 1 grau de temperatura. Mas o trecho entre o aeroporto e o centro foi bem inspirador. Talvez Chicago seja “a” cidade da viagem. Vamos ver… e esperar que o Arcade Fire ajude a nos deslumbrar…

Veja também:
- Diário EUA 2011: http://screamyell.com.br/blog/category/eua-2011/
- Fotos da viagem: Flickr do Marcelo (aqui) e Flickr do Renato (aqui)

Legendas das fotos acima: 1) Um dos símbolos de Hollywood 2) Crianças brincando de esconde-esconde 3) Placas de rua em Beverly Hills 4) O interior do Barney’s Beanary 5) Uma omelete com bacon, chilly, tomate, cebola e brie no Barne’ys 6) Trecho da Calçada da Fama 7) Reprodução de cenário na Universal Studios  8 ) Lance do jogo Dodgers vs Atlanta 9) Paul Simon ao vivo no Pantages Theatre 10) Efeitos especiais na Universal Studios

Abril 21, 2011   6 Comments

Em Los Angeles, Paul McCartney

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Chegamos a Los Angeles. A primeira impressão foi estranha, uma cidade de prédios baixos, meio detonada e que parece ter vivido dias melhores. O hotel em West Hollywood, paralelo ao trecho da Sunset Boulevard conhecido como Sunset Strip. Caminhamos bastante por ali ontem apenas observando a cidade, tentando entender a Califórnia, que, como disse um novaiorquino para o Renato durante o show do Rush no Garden, eles mesmos não entendem.

Há uma linha circular de ônibus chamada Metrô. Vi vários por aqui contrastando a informação de que o transporte na cidade é exclusivo de carro. Mesmo assim, decidimos andar alguns quilômetros da Sunset Strip observando pontos históricos (os lendários Whiskey a Go-Go, Viper Room e The House of Blues, o Château Marmont, “casa” de Leonardo Di Caprio e Jude Law na cidade – e também do personagem do filme “Um Lugar Qualquer”, de Sofia Coppola) até a Amoeba Music.

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Se você ficou impressionado com a foto da matriz de São Francisco (essa), saiba que a de Los Angeles é ainda maior (ou praticamente igual). Um universo finito de CDs que necessita de dias e dias e dias de muita atenção para ser vasculhado. E dinheiro também. Tempo não é problema, mas “money, que é good nóis não have”, então pensamos em uma passada rápida só procurando itens raríssimos que só poderiam ser encontrados aqui. Quando vimos, as duas cestinhas de supermercado estavam lotadas de itens.

E foi então que aconteceu. Eu ali, querendo sair do lugar o mais rápido possível (desiste do toca-discos e do box da coleção completa do Miles Davis, mas encontrei os EPs “Eldorado”, de Neil Young, e “Avalanche”, do Echo and The Bunnymen, dois sonhos de consumo), e o Renato toca no meu ombro, não fala nada, só aponta: Sir Paul McCartney está no ambiente com três crianças (netos ou filhos da namorada, também presente, não sei ao certo).

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Ele passa por nós agitado tentado conter o impeto infantil da molecada, que quer mexer em tudo. Eles sobem em um palco, no qual Paul tocou em 2007 num pocket show dentro da loja - vídeo abaixo, e os meninos começam a brincar com um toca-discos. Paul observa o pequeno público que o fita, embasbacado, e brinca com os garotos: “Olha, vocês já tem público”. Ele desce do palco, e algumas pessoas o cumprimentam enquanto ele caminha pela loja, para em uma caixa, conversa rapidamente com o atendente, e some na calçada da Sunset Boulevard.

Nas ruas de Los Angeles, em vários lugares existem máquinas que vendem mapas com o local da casa de vários artistas. Sazonalmente há um update que inclui a casa do astro do momento, ou uma mudança de endereço de alguma estrela de Hollywood, algo meio assustador (embora muitos artistas vivam dessa idolatria) e desolador (qual a graça em observar a casa de outra pessoa, desde que ela não seja uma obra de arte arquitetônica?), símbolo de uma era em que o que outro faz parece muito mais importante que o que nós fazemos.

No entanto, cá estamos nós com Paul McCartney. Ele caminha ao meu lado, e um rapaz que vem na direção contrária estica a mão e diz “Hi, Paul”. Ele aperta a mão (cumprimentar desconhecidos deve ser algo surrealíssimo que você aprende a lidar com o tempo e com a fama) e segue loja a dentro mostrando coisas aos meninos. Minha câmera está na mochila, no locker da loja, e Renato está tão catatônico que não consegue sequer unir o ato de levantar a máquina e apertar o botão. Dá vontade de dizer um “See in Rio, Paul”, mas a voz não sai. No caixa, um atendente comenta: “Essa é uma das coisas legais de trabalhar na Amoeba”. Não tem como não concordar.

À noite, refeitos do choque, escolhemos um pub ao lado do hotel para beber uns tragos antes de dormir. Há três ou quatro pubs num raio de 200 metros, e escolhemos o Barney’s Beanery porque está passando um jogo de beisebol nos telões (hoje vamos ao estádio ver um jogo do Dodgers). Mais de 200 cervejas no cardápio. Peço uma Monty Python Holy Grail (que estava em falta hoje). 60 das cervejas da casa são nacionais, e apostei em uma ótima White Ale do Alaska! O bar está lotado de locais, e não parece de forma alguma um ponto turístico. Tem tão cara de pub que esperamos, a qualquer momento, alguém quebrar a cadeira na cabeça de outra pessoa.

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No hotel, depois, descobrimos que o Barney’s Beanery era um dos locais prediletos de Marilyn Monroe e que o pessoal do Doors bebeu muito aqui (pela barriga do Jim Morrison no fim da carreira, muito não é a toa). Tarantino escreveu trechos do roteiro de “Pulp Fiction” nas mesas do Barney’s, que entre fregueses icônicos ainda podem ser citados Janis Joplin, Clark Gable, WC Fields, Mae West, Jack Nicholson, Bruce Springsteen, Demi Moore e Adam Sandler. Caros, isso é Los Angeles. Como ficar imune?

Abril 19, 2011   6 Comments

Coachella 2012: algumas dicas

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Em 2011, o Coachella entrou no seleto grupo dos festivais sold out, então para você que tem alguma pretensão de ir ao festival nos próximos anos, algumas dicas úteis que vão facilitar a sua ida ao festival. Planejamento: não fique em cima do muro. Ou você quer e pode ir, ou não. Isso é importante porque os ingressos evaporam e os melhores lugares para ficar também. Então assim que você decidir realmente ir, vale tomar as decisões abaixo (que nós não tomamos) rapidamente:

1) O festival acontece só em abril, mas os ingressos começam a serem vendidos em dezembro e o line-up oficial é anunciado na segunda quinzena de janeiro. Mas esqueça o line-up: se você quer ir ao Coachella precisa ir pelo festival, não por essa ou aquela banda que você pode ir atrás em shows solo. Isso é importante porque, a partir do momento em que você diz “eu vou” já pode começar a tomar as precauções abaixo.

2) A passagem Brasil/EUA é a etapa mais cara do projeto Coachella, mas você pode comprar antecipadamente e dividir em algumas vezes. Provável que a passagem já esteja paga quando você for viajar (uma dor de cabeça a menos).

3) Procure um hotel ou uma pousada em Coachella para ficar durante os três dias do festival. Esses esgotam rápido e talvez você tenha que ficar em Indio ou, mais longe ainda, Palm Springs. A vantagem de ficar em Coachella mesmo é chegar rapidamente ao festival… e pode chegar em casa logo sem depender de transporte público ou taxi.

4) Alugue um armário no festival. Durante o dia a temperatura bate os 37 graus, mas à noite cai razoavelmente a ponto de um blusa se fazer necessária. Para não ficar andando de lá para cá no deserto com uma mochila nas costas, um armário ajuda muito (acredite). É possível reserva-lo no site oficial.

5) Garanta uma passagem barata de avião ou ônibus (caso você não tenha alugado um carro) de Palm Springs para Los Angeles. Perto do festival os horários se esgotam, e é mais fácil decidir para onde você quer ir estando em LA (cuja malha áerea é maior) do que em Palm Springs, que não recebe todos os trechos de voos do País. Ônibus é uma boa pedida. Confira www.greyhound.com (preços ótimos).

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Abril 19, 2011   31 Comments

Coachella, Day 3

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“Hoje é o dia mais quente do ano em Palm Springs”, avisa David, o “nosso” taxista. A temperatura bateu perto dos 40 graus na hora do almoço do domingo, o que previa um dia enlouquecedor no meio do deserto, mas até que a sensação de calor no último dia do Coachella não foi maior do que a do sábado, quando o festival (e as tendas, e a grama, e qualquer beirada de sombra) pegou fogo e derrubou muitos incautos.

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Ao contrário da programação do sábado, lotada de coisas legais para serem vistas na mesma hora, o domingo parecia um cassino de apostas: o negócio era colar em alguma tenda buscando um nome desconhecido e correr o risco de ver um grande show. Mas isso é só para quem tem fôlego e joelhos para andar debaixo do sol de 40 graus. Na dúvida, fomos no garantido. Nada de inovar no último dia do festival.

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Chegamos ao festival exatamente na hora que começava o show de Angus and Julia Stone, na tenda Gobi. O disco deles tem me acompanhado nos últimos meses, e até comprei o CD na Amoeba, mas o show (hippie e docinho demais) não combina com o deserto (assim como Joy Division não combina com churrasco). Tudo quente demais e Julia desfilando sua vozinha encantadora para uma tenda disputada pela sombra, não pelo show. Esqueço o show e vou continuar com o CD…

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Um pequeno buraco na agenda (@renato_moikano se animou pra ver o Jimmy Eat World, e voltou decepcionado) e da-lhe Newcastle Brown Ale no copo. O festival recomeçou para nós quando o duo (baixo e bateria) Death From Above 1979 fez um estardalhaço no palco principal em um dos melhores shows do dia. A dupla canadense, que encerrou as atividades em 2006, quebrou um silêncio de cinco anos com um show poderoso. Tomara que se animem e continuem tocando juntos.

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O Duran Duran veio na sequencia, e não conseguiu seduzir a plateia. E olha que eles começaram pegando pesado com os hits “Planet Earth” e “Hungry Like The Wolf”, emendaram uma nova e sacaram da cartola o hino “Notorius”, mas nem Ana Matronic, do Scissor Sisters, que subiu ao palco para um dueto em “Safe (In The Heat Of The Moment)”, conseguiu conquistar a audiência. A baladinha “Ordinary World” foi a deixa para troca-los pelo National, que tocava no mesmo horário no palco Outdoor.

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Não poderia ter sido melhor. Chegamos exatamente nos três números finais em que as incendiárias “Fake Empire”, “Mr. November” e “Terrible Love” deixaram todo mundo rouco de tanto gritar. Pouco importa o que veio antes das três. O trio final matou a pau e valeu a caminhada. Dava até para voltar e pegar mais umas duas do Duran Duran, mas preferimos guardar energia para a grande atração rock and roll da noite, os Strokes, que atrasaram 10 minutos para começar o show (e tiveram que cortar três canções novas do set list – depois dizem que Deus não existe).

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Se você não tem arranjos complexos, canções densas e nem balões que mudam de cor, o que fazer para tentar tirar o troféu de melhor show do festival das mãos do Arcade Fire? Fácil: toque alto, muito alto. Foi o que a turma de Julian Casablancas pensou e decidiu fazer, e se não conseguiram arranhar o brilho do show do grupo de Win Butler (que fez história na noite de sábado), ao menos fizeram um baita show de rock com riffs de guitarra passando navalhadas no ar.

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Exibindo hits (“Hard To Explain”, “New York City Cops”, “The Modern Age”, “Juicebox”, “Reptilia”, “Last Nite”, “Take It Or Leave It” e “Under Cover of Darkness”, muito aplaudida), o grupo foi salvo pelo atraso, pois o público iria dormir se eles tocassem as canções novas cortadas do set list (“Games”, que rolou, foi bocejante, mas “You’re So Right” até que soou melhor). Casablancas alfinetou a produção, reclamando por estar “esquentando” a noite para Kanye West, posou de junkie de butique (como sempre faz), mas cantou muito em um típico show de banda de garagem, sem muita vibração, mas com boas canções tocadas no volume máximo. Um bom show nota 7 (um show nota 10 deles é tão difícil quanto ganhar na megasena).

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O som do show dos Strokes estava tão alto que PJ Harvey precisou retardar sua entrada no palco ao lado para que seu público pudesse ouvi-la. Enquanto os Strokes tocavam a última, PJ disparava “Let England Shake” na auto-harpa. Mais falante do que no show de São Francisco, Polly Jean alternou canções novas com velhos hits em um belíssimo show que, como pedia um cartaz no meio do público, deveria ser o principal da noite. Ainda tinha Kanye West (que, descobrimos no hotel, tocou 26 músicas), mas a necessidade de arrumar malas e se preparar para Los Angeles se fez urgente. Ou seja, foi isso: trocamos uma mala por outra.

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O saldo final do Coachella foi extremamente positivo: um show inesquecível (Arcade Fire), várias apresentações de responsa (Flogging Molly, Death From Above 1979, Cold War Kids, Tame Impala, Suede, Kills, New Pornographers, National, Strokes, Black Keys, Big Audio Dynamite) e a certeza de que é possível fazer um festival para 100 mil pessoas mantendo qualidade de serviço, de som e de estrutura. A organização do festival está de parabéns (só não precisava colocar o Kanye para fechar o festival, mas zuzu bem), e Coachella 2012 está logo ali. Prepare-se.

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Top Ten Shows
1) Arcade Fire
2) Death From Above 1979
3) Flogging Molly
4) Suede
5) PJ Harvey
6) Cold War Kids
7) Big Audio Dynamite
8 ) Strokes
9) The Kills
10) Tame Impala

Leia também: Coachella Day 1 (aqui) e Day 2 (aqui)

Abril 18, 2011   No Comments

Coachella, Day 2

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Os joelhos pediram as contas, mas tem como aceitar a demissão no meio de um festival como o Coachella? Não, e se o drama faz parte, bora comer pizza, beber limonada e camelar muito entre um palco e outro. Se no primeiro dia tudo tinha dado certo para nós, o segundo começou enrolado: @renato_moikano foi barrado por causa da lente de sua máquina (uma 75/300, profissional), e o imbróglio nos causou a perda dos shows do Foals e do Gogol Bordello.

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Para situar as coisas: qualquer grande festival, Coachella incluso, aceita a entrada de câmeras não profissionais (e até semi-profissionais, como a minha), dessas que não trocam lente, mas câmeras profissionais apenas credenciados como imprensa. Renato precisou de muita esperteza e sorte, e o primeiro show do dia, pela confusão e pelo calor absurdo, acabou sendo o do Delta Spirit, por engano: a ideia era ver The Radio Dept., mas colamos no palco errado… e ficamos. E valeu, pois o show – sem novidades – foi bem bom.

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Perdi também Jenny (Lewis) and Johnny (Rice), pois só descobri depois, na loja do Record Store Day, que Jenny and Johnny eram eles. Coisas que só o calor faz por você. O primeiro grande momento do dia aconteceu no palco Outdooor, com o The New Pornographers (comandados pela inspirada dupla Neko Case e Kathryn Calder) fazendo aquele bom show característico da banda. No palco principal, o Broken Social Scene repetia (com a mesma intensidade e despojamento) o belo show que vimos na quarta anterior, em São Francisco.

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Ainda rolou ver duas músicas do Elbow, e desistir do show (arrastado), e se decepcionar com o Bright Eyes, que começou bem, mas fez todo mundo dormir no palco principal ao entardecer do deserto. Tudo bem: o Kills estava ali do lado para acordar e colocar em transe a audiência. Alison Mosshart é a dama que consegue transformar em sensual o simples ato de arrumar a altura do pedestal do microfone. Jamie Hince comanda a festa com guitarradas e bateria eletrônica. O show teve por base o bom disco novo, e contou com um trio de backings destilando o melhor da voz negra. Bonito.

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No palco principal, o Mumford and Sons colhia os frutos do enorme sucesso com um show capenga, que ameaçava pegar fogo, mas ficava só na ameaça. Não aprenda com eles: como preencher 50 minutos de apresentação se você só tem um disco de 35 minutos? Entrando atrasado, fazendo longas pausas e tocando música nova. O público, no entanto, aprovou. Dali o destino foi Big Audio Dynamite, afinal não é todo dia que você pode ver um ex-integrante do Clash em atividade.

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E Mick Jones não decepcionou. O som saia potente das caixas enquanto nos intervalos Mick Jones disparava pérolas de ironia britânica: “Eu era um Mumford and Sons 25 anos atrás”, mandou logo na primeira pausa. Depois, ao tirar o paletó, sarreou: “Posso usar um ‘casual day’, né. Afinal nós estamos no meio do deserto e vocês estão de biquíni e sunga”. O pequeno público (o que acontece: a molecada andou faltando nas aulas de história do rock?) dançou e cantou muito. Sai do show direto pra lojinha de CDs comprar a reedição de luxo do primeiro disco deles. Diz muito.

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O dia já estava bem bacana, mas eis que surge Brett Anderson e compania para fazer um show explosivo na tenda Mojave. Nada de blá blá blá: um hit colado no outro e tocado com furia para deixar todo mundo sem voz até o final sensacional com “Beautiful Ones” (lágrimas escorriam em vários rostos). O show estava tão hipnotizante que não teve como sair antes do fim, o que custou duas músicas do Arcade Fire (“Month of May” e “Rebellion, Lies”). Chegamos no começo da terceira, “No Cars Go”, mas só fomos entrar realmente no clima do show (e esquecer o impacto do Suede) em “City With No Children”, uma das grandes canções do grande “The Suburbs”.

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Atração principal do sábado, o Arcade Fire não frustrou as expectativas. Aliás, foi além. Comandados por um inspirado Win Butler, os canadenses fizeram um daqueles shows que as 100 mil pessoas presentes não vão esquecer tão cedo. Um clássico atrás do outro tocados com paixão e entrega. De “Crown of Love” a “Rococo”. De “Intervention” a “We Use To Wait”, “Keep The Car Running” e o final apoteótico com “Wake Up”, com dezenas de balões (que mudavam de cor sincronizados!) caindo sobre o público. “Ready to Start”, “Neighborhood #1 (Tunnels)” e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, no bis, foram responsáveis por encerrar uma noite inesquecível e um dos grandes shows do ano.

Leia também: Coachella Day 1 (aqui) e Day 3 (aqui)

Abril 17, 2011   3 Comments

Coachella, Day 1

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O sol realmente arde no deserto. Após dez dias perambulando pelos Estados Unidos (Nova York e San Francisco com uma pequena parada em Las Vegas), apenas em Palm Springs foi possível tirar a bermuda da mochila e lamentar o esquecimento do protetor solar (obrigatório). A pequena cidade californiana ferve, e neste fim de semana respira a poeira do Coachella Festival, e a corrida atrás das disputadas pulseiras (que esgotaram em seis dias) terminou bem, mas muita gente caiu na enfermaria com insolação.

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Na verdade, tudo deu muito certo no primeiro dia do festival. Na ida rolou um taxi, que dividimos com mais três norte-americanos. Na volta, após uma extensa caminhada para sair do festival, conseguimos parar o taxi do David, um espanglish que não tirou o pé do acelerador até nos deixar no hotel – e também não largou o celular (imagina). Entre ida e chegada, muitos shows bacanas, algumas decepções, comida e bebida boas e com preço ok (tem Newcastle Brown Ale!!!) e a certeza de que o Brasil precisa camelar muito pra fazer um festival assim.

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Do começo. The Morning Benders mostraram músicas novas (mais eletrônicas) e empolgaram a galera da tenda Gobi, lotada. Após cinco músicas, a comitiva Scream & Yell partiu para o Stage (dispensando os chatões do Drums) para conferir o grande Cee Lo Green, que atrasou 20 minutos e só teve tempo de tocar quatro músicas, sendo que uma era “Crazy” (do tempo do Gnarls Barkley) e a outra “Fuck You” (além de uma versão bisonha de “Iron Main”, do Sabbath). Mesmo assim, apesar da banda fraca, o melhor pocket show do festival. Na quinta canção, a produção cortou o som mostrando que nem mesmo um hitmaker cheio de Grammys pode desrespeitar as regras.

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No palco Outdoor, os australianos do Tame Impala mostraram um som encorpado, que deverá render o show do ano em São Francisco (com Yuck, na próxima segunda), caso a velha guarda hippie apareça no Fillmore. Gostei muito mais do show do que do disco, e fiquei impressionado com a cara de moleques dos integrantes (principalmente do baixista: aquilo ali é “trabalho infantil” - risos), mas eles ainda precisam tomar bastante Toddynho para ser uma graaaaande banda ao vivo. Mesmo assim, bom show (e um futuro promissor pela frente).

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O Cold War Kids veio na sequencia e fez um show bonito ao entardecer do deserto. Nathan Willett continua cantando com uma paixão rara, e se enfiar o pé na jaca mais um pouco poderá herdar a coroa de novo Greg Dulli do rock and roll. Eliminando os hits do começo de carreira (uma pena “We Used to Vacation” ter ficado de fora do repertório), os californianos tocaram praticamente em casa com o público na mão, que cantou (e filmou e fotografou) todas as músicas. Todas. O final soul, já com a lua presente, foi belíssimo. Grande show.

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Antes de Mr. Brandon Flowers começar, deu tempo de ver três canções do Interpol, uma delas “Evil” e outras duas terríveis do quarto disco. Interpol ao vivo hoje em dia é assim: as músicas dos dois primeiros discos são bem legais, funcionam, apesar da apatia da banda no palco. As do terceiro eles deveriam pagar para o público ouvir, e nas do quarto alguém deveria subir no palco e dar uma sova nos quatro integrantes com sabonete enrolado numa camiseta do Joy Division. Eis uma banda que já passou da hora de acabar.

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Já Brandon Flowers passou da hora de brincar de carreira solo, né. Ele é cool, carrega a galera na palma da mão, mas o repertório de seu disco solo é fraquinho, fraquinho. Depois, na pista do palco principal tentando ouvir o Black Keys, foi possível perceber que ele tocou algumas do Killers. Só assim para salvar o show. Já a dupla de Ohio deveria pedir 50% de aumento no cachê para a organização do Coachella. O telão só rolou no meio da quarta música e o som, baixíssimo, frustou aquele que tinha tudo para ser o graaaaande show da noite (e um dos destaques do festival).

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Não que tenha o Black Keys tenha pisado na bola, imagina. Com o repertório de hits que os caras tem, e a entrega rock and roll da dupla, provável que fizessem um show bom até sem som, mas a expectativa deixou todo mundo na mão. Uma pena, mas um show para ser revisto (de preferência, no Brasil). Para fugir do rock fake do Kings of Leon partimos para o palco Outdoor, onde os mexicanos do Caifanes tocavam exclusivamente para a comunidade spanglish local. Tudo bem, não valia mesmo perder tempo com o Roupa Nova da cidade do México. Já tenda da Robyn estava bombada.

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Para fechar o primeiro dia, Flogging Molly, um grupo formado por irlandeses em Los Angeles ousando misturar punk rock como música tradicional celta (com direito a sanfona, banjo, violino e flauta). A reverência ao Pogues é claríssima, mas o peso e a interação com o público são absurdas. Dave King, o inenarrável vocalista violonista, brindou com Guiness e soltou a locomotiva punk gerando uma invejável roda de pogo no meio do Coachella. Apesar do peso, todos os instrumentos são perfeitamente audíveis (com destaque para o banjo, marcante) no som do Flogging Molly. Um show de lavar a alma e encerrar com chave de ouro o primeiro dia do festival.

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Leia também: Coachella Day 2 (aqui) e Day 3 (aqui)

Abril 16, 2011   9 Comments

Uma noite com PJ em San Francisco

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São 20h40, e o show está atrasado 40 minutos. O público que esgotou os ingressos do charmoso Warfield, em São Francisco, começa a ecoar “PJ, PJ, PJ”, e de repente o grito se torna uníssono clamando pela presença da cantora. Ela surge virgem, de vestido longo branco, mas com bota de couro negro e um arranjo também negro nos cabelos. Sequer olha para a plateia, pega sua auto-harpa e começa a desfilar as canções desoladoras de “Let England Shake”.

A faixa título abre caminho no campo de batalha seguida de outras duas canções – “The Words That Maketh Murder” e “All & Everyone” – do excelente disco novo e dão o tom que será seguido durante 99% da noite: Polly Jean Harvey em silêncio entre as músicas, e partindo para o microfone não como se estivesse cantando, mas sim narrando desgraças. Chega a chocar a disparidade de público e artista. A plateia urra a cada número, feliz, mas as letras de “Let England Shake” não inspiram felicidade.

PJ segue seu caminho tortuoso sem prestar atenção as pessoas à sua frente, escoltada pelos cavaleiros Mick Harvey, John Parish e Jean-Marc Butty. Ela só larga a auto-harpa na quarta canção da noite, “The Guns Called Me Back Again”, b-side do single “The Words That Maketh Murder”. São 21 músicas no set list, sendo 13 do álbum novo (12 do disco mais um b-side), o que demonstra não só fé na qualidade do repertório de “Let England Shake”, mas também muita coragem.

A audiência, que parece ter aprovado o álbum, aplaude efusivamente cada canção, mas vai a loucura mesmo quando a cantora saca da escuridão alguma pérola empoeirada pelo tempo, como “The Devil” (“White Chalk”, 2007), “The Sky Lit Up” (“Is This Desire?”, 1998) e “Pocket Knife” (“Uh Huh Her”, 2004), mas, inevitavelmente, é a dobradinha matadora da parte final que faz o coração de boa parte dos presentes quase parar: “Down By the Water” e “C’mon Billy” (com PJ de harpa em punho) surgem redentoras, brilhantes, inesquecíveis.

Mais de 70 minutos se passam e a única coisa que o Warfield ouviu de PJ Harvey foram canções. E ela pesca mais três números de “Let England Shake” e fecha o show de forma emocionante, quase pastoral, com “The Colour of the Earth”, canção do ex-Bad Seeds Mick Harvey, que dueta com PJ de forma lírica. Nem um goodbye, nada. Ela apenas se curva para os 2300 presentes e leva suas botas negras em direção ao camarim. Fim do show.

O público não arreda o pé frente a frieza da cantora. Aplaude, urra, faz coro. Ela resiste. O público insiste, 2300 pessoas em pé, e, quase cinco minutos depois, PJ surge sorrindo e fala a primeira frase da noite: “Incrível. Vocês são campeões”. Apresenta a banda e retorna ao tempo em que, vestida de micro-saia preta e top, dizia que precisava de uma pistola. “Big Exit” surge intensa, escorada no riff cortante, abrindo caminho para “Angelene”, outro hit improvável.

O show termina em silêncio com… a apropriada “Silence”. A voz de PJ ecoa pela excelente acústica do Warfield - como se ela estivesse entoando um canto lírico – e a musa deixa o palco dizendo obrigado – pela primeira e única vez na noite – seguido de adeus. Leva consigo o coração de muita gente, e isso a reforça para a próxima batalha. Afinal, todo dia é uma guerra, e PJ sabe melhor do que ninguém disso. Esta noite, no Warfield, ela saiu vencedora. E nós também.

Set List

Let England Shake
The Words That Maketh Murder
All & Everyone
The Guns Called Me Back Again
Written on the Forehead
In the Dark Places
The Devil
The Sky Lit Up
The Glorious Land
The Last Living Rose
England
Pocket Knife
Bitter Branches
Down By the Water
C’mon Billy
Hanging in the Wire
On Battleship Hill
The Colour of the Earth

Bis
Big Exit
Angelene
Silence

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Abril 15, 2011   10 Comments

As rachaduras do american dream

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Estou completamente chapado com São Francisco, a cidade mais rock and roll em que coloquei meus pés até hoje. Talvez rock and roll não seja a palavra certa, pois o psicodelismo, o flower power e a geração beat bateram demasiadamente forte na cidade, o que a deixou com um aspecto bastante particular: São Francisco parece lesada! Tudo aqui acontece em uma tremenda calma, e rachaduras no chamado “american dream” podem ser encontradas facilmente por todos os lugares.

O ponto central da cultura hippie da cidade é o distrito de Haight-Ashbury, delimitado por um lado pelo Parque Golden Gate e, por outro, pelo Buena Vista Park. Foi aqui que a contracultura decidiu se instalar nos anos 60, já que a região era a mais barata para se viver em São Francisco. Em 1967, ano de ouro do movimento hippie, Haight-Ashbury virou o centro do mundo com uma cultura de drogas ilegais, notadamente maconha e LSD, além de outras drogas alucinógenas.

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Corta para 2011: andando pela extensa avenida Haight, a impressão que se tem é que 1967 foi o ano que não terminou. A especulação imobiliária aumentou os alugueis na região, mas o bairro continua sendo uma meca hippie, com lojinhas espalhadas por toda sua extensão e vários tipos que parecem ter vivido o Festival de Woodstook (mesmo aqueles que, aparentemente, não eram nem nascidos na época). Várias lojinhas interessantes de discos se espalham pela rua (que ainda abriga o pub Magnolia), mas a grande vedete é a Amoeba Music, 2.200 metros quadrados de CDs, DVDs, vinis e muito mais.

Fundada por ex-empregados da Rasputin Records, a independente Amoeba se transformou no local de peregrinação de apaixonados por música em geral, com um acervo de mais de 100 mil CDs entre novos e usados. São três lojas: uma em Berkeley, outra em São Francisco e a terceira na Sunset Boulevard, em Hollywood. Imagine-se entrando em uma loja e observando isso aqui. A primeira sensação que bate é: deixa eu sair correndo. Mas o “passeio” vale a pena e é bom mostrar pulso forte porque você deverá encontrar tudo o que você quer e coisas que nem sabia que existiam.

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Tentei me controlar o máximo que pude. Consegui não pegar nenhum box de CDs (que seriam difíceis demais de levar nos próximos trechos de viagem) e me concentrei em coisas raras como as edições duplas de “Yankee Hotel Foxtrot”, do Wilco, de “Brothers”, do Black Keys, e do “Hardcore Will Never Die, But You Will”, do Mogwai, os álbuns remasterizados da Jon Spencer Blues Explosion, o single “Conquista”, do White Stripes, uma caixinha com quatro CDs de Woody Guthrie, o “Complete Reprise Sessions”, do Gram Parsons, e muita coisa de dois dólares. Tudo na foto.

Sai leve, mas com muitas sacolas e ainda vou comprar um toca-discos novo na filial de Los Angeles (150 dólares). Descemos a Haight observando a multidão hippie e paramos no bom Giovanni’s Pizza Club Deluxe, que além de boas pizzas tem ótimas cervejas no cardápio, como a local Anchor Steam (uma Pale Ale de respeito) e a Sierra Nevada Pale Ale (que já tinhámos provado em Nova York) além de Chimay e de uma boa cerveja de torneia, a pale ale Lagunitas. Um bom local para um brunch na região.

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Próxima parada: show do Broken Social Scene no Warfield, um teatro de vaudevillie dos anos 20 que desde os anos 70, sob a administração Bill Graham, transformou em palco de rock. Bob Dylan fez vários shows de sua turnê evangélica de 1979 aqui, mas o quem é quem da casa está exibido em fotos dos shows logo na entrada do charmoso teatro: Bjork em 90 com o Sugarcubes e solo em 1993, ano que também recebeu Iggy Pop, Guns em 91, Pearl Jam em 92, Nine Inch Nails em 94, Ramones em 95, Morrissey e Bowie em 1997, James Brown em 2000. A lista segue, aparentemente, infinita.

A noite não está sold out (só PJ Harvey, Ke$ha e Adele conseguiram esgotar os ingressos este ano), mas cerca de 80% dos 2300 lugares estão ocupados para prestigiar o grupo canadense. A base do show é o disco “Forgiveness Rock Record”, de 2010, e a banda parece muito mais à vontade do que no Primavera Sound, do ano passado. Erram entradas de músicas, e começam tudo de novo (e não foi uma vez só). Brincam com o público e revezam-se constantemente nos instrumentos. O show sobe num crescendo excelente, e quando Kevin Drew (cada vez mais parecido com Eddie Vedder) diz “Goodbye San Fran”, o público vai ao delírio em um bom show desencanado num lugar excelente.

Amanhã, PJ Harvey. Live! Tonight! Sold Out! Bora!

Abril 14, 2011   7 Comments