
Ingrid Bergman (e Audrey Hepburn) me perdoem, mas essa loirinha acaba de tomar meu coração de cinéfilo… suspiro…

Ingrid Bergman (e Audrey Hepburn) me perdoem, mas essa loirinha acaba de tomar meu coração de cinéfilo… suspiro…
Ok, preciso assumir: nos últimos minutos, meu coração bateu mais forte por “Sangue Negro”, mas o resultado final – coroando a sensacional obra dos irmãos Coen – não me entristece nem um pouco. Os quatro Oscar de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” (roteiro adaptado, ator coadjuvante para a estupenda atuação de Javier Bardem, direção e melhor filme) são totalmente merecidos. E os sorrisos e lágrimas da Sra Coen, Frances McDormand, foram de emocionar.
Na melhor seleção de filmes em muito tempo, o Oscar também selecionou momentos emocionantes (como Marion Cotillard ganhando a estatueta de Melhor Atriz por “Piaf - Um Hino ao Amor” e Daniel Day-Lewis se ajoelhando aos pés da rainha Helen Mirren ) como também as melhores piadas em muito tempo: “Temos duas grávidas na platéia esta noite: Cate Blanchett e Jéssica Alba. Muito embora, como Jack Nicholson está na platéia, esse número pode aumentar até o final da transmissão”. E em uma piada sobre crianças, o apresentador John Stewart soltou: “and the baby goes to: Angelina Jolie”.
No geral, a premiação foi correta e as expectativas se confirmaram. “Sangue Negro” foi representado pelo Oscar de Melhor Ator de Daniel Day-Lewis; “Juno” com Diablo Cody em Melhor Roteiro Original; “Sweeney Todd” por direção de arte; “Ratatouille” como animação; “Desejo e Reparação” como Melhor Trilha Sonora; e “Ultimado Bourne” faturando três categorias técnicas: Melhor Som, Melhor Edição de Som e Melhor Montagem. Minha única decepção foi Tilda Swinton ter ganhado como Atriz Coadjuvante. Ela está ok no papel, mas nada que merecesse o Oscar que levou.
No entanto, esse pequeno lapso cometido na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante não mancha a premiação. Mancharia se as duas categorias principais não ficassem entre “Onde os Fracos Não Têm Vez” ou “Sangue Negro” (muitos temiam a vitória de “Desejo e Reparação”, um filme mais tradicional do que as obras autorais e difíceis de Paul Thomas Anderson e dos Irmãos Coen). A coroação dos Coen é quase a perfeição, pois não consigo dizer que venceu o melhor, mas sim que venceu um dos dois melhores filmes do ano. O empate seria o ideal, mas como não existe empate no Oscar, parabéns aos irmãos Coen. Eles merecem. Muuuuito.
Melhor Filme - “Onde Os Fracos Não Têm Vez”
Melhor Diretor - Ethan Coen e Joel Coen (”Onde Os Fracos Não Têm Vez”)
Melhor Ator - Daniel Day-Lewis (”Sangue Negro”)
Melhor Roteiro Original - “Juno”
Melhor Documentário - “Taxi to the Dark Side”
Melhor Documentário de Curta-Metragem - “Freeheld”
Melhor Trilha Original - “Desejo e Reparação”
Melhor Fotografia - “Sangue Negro”
Melhor Filme Estrangeiro - “Os Falsários” - “Die Fälscher” (Áustria)
Melhor Montagem - “O Ultimato Bourne”
Melhor Atriz Coadjuvante - Marion Cotillard (”Piaf - Um Hino ao Amor”)
Melhor Mixagem de Som - “O Ultimato Bourne”
Melhor Efeitos Sonoros - “O Ultimato Bourne”
Melhor Roteiro Adaptado - “Onde Os Fracos Não Têm Vez” (Joel Coen e Ethan Coen)
Melhor Atriz Coadjuvante - Tilda Swinton (”Conduta de Risco”)
Melhor Curta de Animação - “Peter & the Wolf”
Melhor Curta Documentário - “Le Mozart des Pickpockets”
Melhor Ator Coadjuvante - Javier Bardem (”Onde Os Fracos Não Têm Vez”)
Melhor Direção de Arte - “Sweeney Todd”
Melhores Efeitos Visuais -”A Bússola de Ouro”
Melhor Maquiagem - “Piaf - Um Hino ao Amor”
Melhor Animação - “Ratatouille”
Melhor Figurino - “Elizabeth: A Era de Ouro”
Sem muitas delongas, já que a premiação acontece no domingo e o último grande indicado, “Juno”, estréia hoje no País. Quem você acha que vai ganhar? Aposte nos comentários. Abaixo seguem os meus pitacos.
MELHOR FILME
Desejo e Reparação
Juno
Conduta de Risco
Onde os Fracos Não Têm Vez
Sangue Negro
MELHOR DIREÇÃO
Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta)
Jason Reitman (Juno)
Tony Gilroy (Conduta de Risco)
Joel Coen e Ethan Coen (Onde os Fracos não Têm Vez)
Paul Thomas Anderson (Sangue Negro)
MELHOR ATOR
George Clooney (Conduta de Risco)
Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Johnny Depp (Sweeney Todd)
Tommy Lee Jones (No Vale das Sombras)
Viggo Mortensen (Senhores do Crime)
MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett (Elizabeth: A Era de Ouro)
Julie Christie (Longe Dela)
Marion Cotillard (Piaf - Um Hino ao Amor)
Laura Linney (The Savages)
Ellen Page (Juno)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford)
Javier Bardem (Onde os Fracos não têm vez)
Philip Seymour Hoffman (Jogos do Poder)
Hal Holbrook (Na Natureza Selvagem)
Tom Wilkinson (Conduta de Risco)
MALHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cate Blanchett (I’m Not There)
Ruby Dee (O Gângster)
Saoirse Ronan (Desejo e Reparação)
Amy Ryan (Medo da Verdade)
Tilda Swinton (Conduta de Risco)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Juno
Conduta de Risco
Lars and the Real Girl
Ratatouille
The Savages
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Desejo e Reparação
Longe Dela
O Escafandro e a Borboleta
Onde os fracos não têm vez
Sangue Negro
MELHOR ANIMAÇÃO
Ratatouille
Persepolis
Tá Dando Onda
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
O Gângster
Desejo e Reparação
A Bússola de Ouro
Sweeney Todd
Sangue Negro
MELHOR FOTOGRAFIA
O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford
Desejo e Reparação
O Escafandro e a Borboleta
Onde os Fracos não têm vez
Sangue Negro
MELHOR FIGURINO
Across the Universe
Desejo e Reparação
Elizabeth: A Era de Ouro
Piaf - Hino ao Amor
Sweeney Todd
MELHOR EDIÇÃO
O Ultimato Bourne
O Escafandro e a Borboleta
Na Natureza Selvagem
Onde os Fracos não têm vez
Sangue Negro
MELHOR TRILHA SONORA
Desejo e Reparação
O Caçador de Pipas
Conduta de Risco
Ratatouille
Os Indomáveis
MELHOR MAQUIAGEM
Piaf - Hino ao Amor
Norbit
Piratas do Caribe: No Fim do Mundo
MELHORES EFEITOS
A Bússola de Ouro
Piratas do Caribe: No Fim do Mundo
Transformers
MELHOR SOM
O Ultimato Bourne
Onde os Fracos não têm vez
Ratatouille
Os Indomáveis
Transformers
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
O Ultimato Bourne
Onde os Fracos não têm vez
Ratatouille
Sangue Negro
Transformers

“Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson - Cotação 5/5
Quando você estiver preparando-se para adentrar a sala de cinema para assistir a “Sangue Negro”, quinto longa do cineasta Paul Thomas Anderson, faça uma limpeza em sua memória e esqueça todo e qualquer filme que você tenha visto nos últimos meses. Na verdade, o ideal é que você entre na sala encarando “Sangue Negro” como o primeiro filme de sua vida, e todos os demais a partir de então soaram menores, incompletos, mero entretenimento para os olhos enquanto seus dentes mastigam pipoca aguardando o final provável em que o mocinho se dá bem.
Peço esse exame de consciência, pois acredito que poucos dos leitores que visitam este espaço puderam assistir a filmes clássicos dentro de uma sala de cinema. Uma coisa é você ver “Laranja Mecânica” na sala de sua casa, e mesmo que você tenha um senhor home theater, nunca conseguirá chegar perto – um milésimo que seja – da experiência que foi, para o público, ter assistido ao filme em uma sala escura, na época de seu lançamento. Outros filmes clássicos concorrem a tal avaliação, mas quantos filmes definitivos tivemos nos últimos 20 anos?
Arrisco-me a citar um: “Magnólia”. Outro: “Sangue Negro”. Oito anos separam o primeiro do segundo, e o que aconteceu com o mundo neste tempo? Muita coisa, mas vou citar apenas três, as três relacionadas aos Estados Unidos da América: houve um violento atentado ás Torres Gêmeas, mais uma guerra manchando de sangue as páginas de História e uma reeleição forjada. Três fatos correlacionados que permitem imaginar que, mesmo sendo muito otimista, o mundo não melhorou absolutamente nada nestes oito anos. Pode-se até dizer o contrário.
“Magnólia” era uma obra que exaltava o perdão, mas o perdão só surgia na tela após o espectador estar fustigado até a alma pela culpa dos personagens que observava. Isso era oito anos atrás. Agora, não há perdão. Não há perdão em “Sangue Negro”. Nem uma chuva de sapos poderia salvar o personagem Daniel Plainview, porém, a grande “piada” proposta por Upton Sinclair – autor do livro “Oil” (que serve de base para o roteiro) – e comprada por Paul Thomas Anderson é: Daniel Plainview não precisa do perdão. A parcela católica do mundo afundada no exercício da culpa nunca irá conseguir entender isso, mas não tem jeito, nem todo mundo precisa do perdão divino.
Daniel Plainview (Daniel Day Lewis excepcional) é um mineirador em busca de fortuna e poder. A seqüência inicial de “Sangue Negro” – de fotografia belíssima e praticamente nenhum som fora o da introdução gótica e épica que abre o filme de forma acachapante – exibe um homem de personalidade forte, que não se deixa abater por ninguém e por nenhuma adversidade. Ele procura por pedras preciosas e elas saem de cena quando o petróleo começa a brotar do solo pátrio. Plainview passa a ser um explorador voraz e um negociante impiedoso que oferece seus serviços como se estivesse oferecendo ajuda e faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que queria em suas mãos.
Melhor frisar a última frase do parágrafo anterior: Plainview faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que quer em suas mãos. Tudo. “Sangue Negro” foge do padrão pré-fabricado dos roteiros hollywoodianos: não há grandes reviravoltas na história, mas sim um crescendo mortífero que joga o espectador nos braços de Daniel Plainview, e ele só o solta na arrepiante, grandiosa, épica e sensacional cena final, não a toa, a grande cena de todo o filme. Até lá você terá que suportar e entender (se for possível) o que move nosso homem: o prazer pela competição, o ódio contra tudo e todos (todos!) e o desejo de isolamento total e completo.
Não há charme, nem sedução. Não há paz, nem perdão. Haverá petróleo. Haverá sangue. Negro e vermelho. Haverá dinheiro. Daniel Plainview personifica o predador e com ele – parodiando outra obra de arte no cinema em 2007 – os fracos não têm vez. Como pode se esperar de uma pessoa tão destrutiva, o grande foco de destruição é ele mesmo, e o trecho final reitera essa premissa. Tanto que após todo o desenlace da trama, a sensação de vazio é algo tão forte que poderia engolir o mundo. Duas vezes. Sem charme, nem sedução. Não há nenhuma atração em “Sangue Negro” além do inevitável prazer cinematográfico, porém, a dualidade insiste em questionar: porque sofremos tanto? Provavelmente – uma resposta vazia, como o filme – sofremos para aprender, mas tudo isso é ralo demais, escapa pelos dedos com oxigênio, como sangue e petróleo.
É impossível imaginar um próximo passo para Paul Thomas Anderson. “Sangue Negro” é um cinema tão perfeito em seus detalhes que suscita a clássica pergunta: o que fazer após atingir a perfeição? Essa resposta fica em segundo plano no momento já que “There Will Be Blood” (titulo original do filme) está em cartaz e o agora é mais urgente que o futuro. Tente limpar o cache de sua memória para dedicar-se completamente ao filme, à trilha estupenda do Radiohead Jonny Greenwood, à atuação espetacular de Daniel Day Lewis e ao ótimo Paul Dano (que interpreta um jovem pastor em uma nova Igreja). Sobretudo, pense – antes de ver o filme – que “Sangue Negro” está em outro patamar de cinema, alguns degraus acima da média comum que preenche as salas de exibição: o das obras-primas. Isso talvez faça o filme descer mais fácil… mas não impede o gosto amargo nos lábios de nossa alma.
Leia também:
- “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, por Marcelo Costa

“Juno”, de Jason Reitman – cotação 3,8/5
Juno MacGuff tem 16 anos. Não se engane pelo nome: Juno é uma menina (na mitologia romana, Juno era a mulher de Zeus). Uma menina estranha para os padrões “normais” (reforçando: entre aspas) da sociedade: ela gosta de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople (artistas que surgiram em média 16 anos antes dela ter nascido) enquanto as paradas de sucesso apontam Britney Spears, Spice Girls e Garth Brooks; já teve uma banda com alguns amigos da escola; usa camisetas largadas enquanto sua melhor amiga brinca de cheerleader; e está grávida.
Ok, gravidez adolescente não é algo tão estranho assim; se fosse, a discussão em torno do aborto não seria tão grande quanto é. Discussões a parte, a gravidez adolescente já rendeu comédias fofas como “Mais ou Menos Grávida”, em que a ruivinha Molly Ringwald engravida do namorado e a visita da cegonha bagunça os planos do jovem casal, mas tudo acaba bem. O tema também rende filmes densos e pesados como o recente “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”, em que a opção pelo aborto e todo desenrolar da história ficará marcado eternamente na memória de uma adolescente grávida e de sua melhor amiga.
Porém, embora suscitem verossimilhança, tanto a ruivinha que fica grávida, casa com o namorado, sofre, mas se dá bem (com o filho e o marido) no final quanto a romena que faz o traumático aborto auxiliada pela amiga parecem menores diante do tratamento ao tema realizado por “Juno”. Os méritos são vários. O roteiro da ex-strip-teaser Brooke Busey (que assina como Diablo Cody) é esperto o bastante para não cair em clichês; a direção correta de Jason Reitman (que parece ter gosto por temas tabus; Reitman estreou com o genial “Obrigado por Fumar”) desenha personagens comuns vivendo situações comuns, e isso aproxima a trama do espectador; a trilha assinada Kimya Dawson (Moldy Peaches) dá aquele sotaque indie adolescente ao filme; e, por fim, Ellen Page encanta e conquista com sua atuação consagradora.
O roteiro foge do óbvio partindo de uma nova premissa: Juno sabe que não tem estrutura nenhuma para criar um filho, porém não tem nenhuma coragem de encarar um aborto (a cena no hospital, em que a atendente a oferece camisinhas com gosto de amora, é impagável). A saída: encontrar um casal que tope adotar o bebê. Com essa idéia em mente, Junto e sua melhor amiga saem à procura do casal perfeito. A direção de Reitman insere cores à trama (perceba a profusão de cores no cartaz; o filme é exatamente assim). Em sua busca pelas situações comuns, Jason Reitman quase não erra em “Juno”. Uma cena capital mostra bem isso: na hora que Juno vai contar ao pai sobre a gravidez, a forma com que ele e a madrasta reagem é totalmente provável. Lembre-se: ele deu o nome de Juno á filha. O diálogo depois que a filha deixa a sala é impagável.
- Você achava que era isso? – pergunta o pai para a madrasta;
- Eu achei que ela estivesse viciada em drogas… – diz a madrasta.
A trilha de Kimya Dawson (de enorme sucesso nos EUA) une Cat Power, Belle and Sebastian e Moldy Peaches com Velvet Underground, Buddy Holly e Sonic Youth (representado por “Superstar”, versão para o original dos Carpenters). O filme respira música, e há até um certo excesso de canções na trama, embora um dos grandes momentos da história resida em uma tirada sensacional – raivosa e certeira – de Juno com relação ao Sonic Youth. Por fim, a estrela Ellen Page. Ela tem apenas 20 anos, atua desde os 10, e conseguiu com Juno criar um personagem tão cativante que é quase impossível não se apaixonar por ele. Ellen Page brilha e faz todos os demais atores circularem ao seu redor. Mais: é extremamente convincente nas cenas em que carrega uma barriga falsa de oito meses (note em seu caminhar), o que torna realmente merecida sua indicação ao Oscar.
Roteiro esperto, direção correta, trilha sonora certeira e uma atriz encantadora: com esses quatro ingredientes, “Juno” vem arrebatando corações, vendendo centenas de milhares de CDs e conquistando nas bilheterias mais de 15 vezes aquilo que custou (US$ 7,5 milhões de custo, US$ 113 milhões nas bilheterias até a semana passada), e por mais que a histeria, as cifras milionárias e suas quatro indicações ao Oscar possam transformar a película em um hype nos cinemas abarrotados de bobagens sem conteúdo, Juno (precocemente madura e exageradamente espirituosa – tal qual os personagens da série Dawsons Creek, lembra?) é a personagem carismática do grande filme indie da temporada: fofo, estranho e charmoso. Quer saber: Juno está certa. Sonic Youth é barulho. Mesmo.
Sabe o temido “Onde os Fracos Não Tem Vez”, o melhor filme de 2007? Então, ele parece um romance água com açúcar perto de “Sangue Negro” (”There Will Be Blood”), poderoso novo filme de Paul Thomas Anderson.
Ainda não sei se me recuperei da porrada que levei no lado esquerdo do peito ao final do filme, mas já posso dar mais alguns pitacos pessoais sobre o Oscar:
“Onde os Fracos Não Tem Vez” leva como Melhor Filme (e é, realmente, o grande filme de 2007). Paul Thomas Anderson fica com o Oscar de Melhor Diretor (a mão dele em “There Will Be Blood” é algo que te pega pelo pescoço e… deixa pra lá), Daniel Day-Lewis como Melhor Ator, Javier Bardem como Melhor Ator Coadjuvante.
É incrível, mas 2008 será o Oscar em que os mocinhos vão sair perdendo…
Volto a falar sobre “Sangue Negro” quando me recuperar…
Já assisti a quatro dos cinco concorrentes na categoria Melhor Filme deste ano. Tenho um encontro marcado com o quinto, “Sangue Negro”, na próxima quinta-feira de manhã, mas já comecei a caraminholar o desfecho da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, principalmente depois de conferir “Desejo e Reparação”, o filme que entra como azarão na disputa e pode sair consagrado na noite de 24 de fevereiro.
Antes de falar do trio que vai dividir opiniões neste ano, vamos descartar dois filmes: “Conduta de Risco” é um filme fórmula. Você (e os membros da Academia) já viu melhores. Esqueça ele. “Juno” é o filme indie do ano. É fofo, tem charme e estranheza, mas não é grande cinema. O diretor Jason Reitman tem jeito pra coisa (ele já tinha mostrado isso no excelente “Obrigado Por Fumar”), e a indicação de “Juno” deve ser comemorada, mas só a indicação já é um prêmio.
Ainda não vi “Sangue Negro”, mas conheço (e tenho grande apreço pela) a carreira de Paul Thomas Anderson. “Sangue Negro” deve ser realmente tudo aquilo que a imprensa internacional comentou, e mais um pouco. “Sangue Negro” tem tudo para estar cabeça a cabeça com “Onde os Fracos Não Tem Vez”, dos irmãos Coen, duas obras pessimistas, absurdas e geniais, cujo único problema reside no gosto amargo que deixam nos lábios da alma do público após a entrada dos créditos finais.
Problema? Claro que não. “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Tem Vez” são perfeitos retratos modernos, filmes que já surgem clássicos, mas que têm contra si o fato de serem difíceis de descer a garganta do público médio. É ai que entra em cena o bom “Desejo e Reparação”. O filme de Joe Wright superou as minhas expectativas (que eram bem baixas) e entra forte na briga pela estatueta de Melhor Filme exatamente por se apoiar em uma história clássica de causa, conseqüência e culpa filmada com sotaque épico.
“Desejo e Reparação” não é um filme perfeito. O livro de Ian McEwan com toda certeza é, mas a adaptação soa espaçosa, excessiva, cansativa em vários momentos. Literatura é uma coisa, cinema é outra. Na ânsia de ser o mais fiel possível ao livro, Joe Wright acaba exagerando quando devia se concentrar em enxugar o roteiro dando ao filme ritmo e a alma do livro. Rasteiramente falando, “Desejo e Reparação” soa como se a história de “Casablanca” fosse contada por Victor Laszlo, querendo reparar o fato de ter separado Rick e Ilsa. Só que “Casablanca” é um filme completamente enxuto, perfeito.
A grande vantagem de “Desejo e Reparação” na corrida pelo Oscar é ter um apelo fácil enquanto seus dois concorrentes, “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Tem Vez”, mesmo sendo melhores, não são de fácil digestão. A Academia já cometeu erros maiores e mais grotescos, e se na última categoria da premiação de 24 de fevereiro eleger “Desejo e Reparação” como filme do ano, não será surpresa nem será um absurdo, visto que o filme atende a certas expectativas da indústria. Apenas não terá vencido o melhor (ou um dos melhores).
Antes, porém, teremos Daniel Day Lewis levando uma estatueta de Melhor Ator por “Sangue Negro”, Javier Bardem se consagrando como Melhor Ator Coadjuvante por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, e os Coen brigando cabeça a cabeça pelo Oscar de Melhor Diretor com Paul Thomas Anderson. Sinceramente, com qual deles o Oscar ficar será merecido e correto. Como ainda não vi “Sangue Negro” tendo a tentação de torcer pelos Coen, mas estas três categorias ficam entre “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Tem Vez”.
Já em Melhor Filme e Melhor Roteiro, PT Anderson e os Coen trazem o azarão “Desejo e Reparação” em seu encalço. Não será nenhuma surpresa se a Academia - num pseudo gesto nobre de bondade - der roteiro para um (minha aposta: os Coen), direção pra outro (PT Anderson) e filme para o terceiro (”Desejo e Reparação”). Eles vão achar que fizeram justiça, mas vão estar errados, como já estiveram em vários outros anos…

“Conduta de Risco”, de Tony Gilroy - Cotação 2/5
Michael Clayton já foi promotor de justiça, vem de uma família de policiais, mas neste momento trabalha para uma grande empresa de advocacia. Sua função: faxineiro. Bem, mais ou menos isso. Michael, na verdade, ganha uma fortuna para limpar a sujeira dos clientes da firma Kenner, Bach & Ledeen, desde um caso em que o homem atropelou alguém e fugiu da cena do crime até grandes empresas atoladas em processos milionários.
Nosso amigo poderia estar bem de grana se seu bar não tivesse falido, se ele não fosse viciado em carteado e se não devesse um belo montante para um agiota. Como se os problemas financeiros não bastassem, Michael fica encarregado de limpar a sujeira de um outro “faxineiro”, Arthur Edens, um dos seus melhores amigos na corporação. Arthur surtou em um julgamento, tirou toda a roupa em frente ao júri e está prestes a sabotar uma mega corporação em um processo de bilhões de dólares.
Após uma boa carreira como roteirista – tendo escrito a trilogia “Bourne” e o ótimo “O Advogado do Diabo” –, Tony Gilroy estréia na direção (sem largar o roteiro) e constrói um excelente thriller político - ancorado em um grande time de atores (George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton e Sydney Pollac) - que arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo os badalados Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Clooney), Melhor Ator Coadjuvante (Wilkinson), Melhor Atriz Coadjuvante (Swinton) e Melhor Roteiro Original. Para um filme de estréia, vamos combinar, não é nada mal.
Porém, mesmo com a mão certeira na direção e roteiro, e com a equipe recheada de atores acima da média, “Conduta de Risco” soa deja vu em grande parte de seus 119 minutos. A escolha de George Clooney para o papel principal soa equivocada, não que ele não seja capaz de arrancar do personagem uma grande atuação, mas porque ele ganhou um Oscar dois anos atrás com um papel praticamente igual a este. Em “Syriana”, Clooney era um agente veterano da CIA trabalhando no Oriente Médio. Em “Conduta de Risco” ele é um advogado veterano trabalhando em Nova York. Acredite: praticamente inexistem diferenças entre os dois personagens.
“Syriana”, que discutia a indústria do petróleo, já vinha embalado por uma onda de filmes que escancaravam os meandros políticos das grandes corporações cuja lista inclui “O Informante” (1999), sobre a indústria do tabaco; “Erin Brockovich” (2000), indústria química; “O Júri” (2003), indústria de armas; e “O Jardineiro Fiel” (2005), indústria farmacêutica. Há praticamente um pouco de cada um destes filmes em “Conduta de Risco”, principalmente “Erin Brockovich”e ”Syriana” (devido à presença marcante de George Clooney), que apesar da mão certeira, não supera em qualidade nenhum dos citados.
O submundo das grandes corporações é um prato cheio para bons filmes e discussões. Se levarmos em conta o best-seller “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein, filmes ágeis como este “Conduta de Risco” mostram perfeitamente como as decisões mais importantes do mundo estão sendo discutidas, definidas e aprovadas em uma pequena sala com poucas pessoas, longe da grande sociedade. Enquanto escrevo (e você lê), pessoas que não conhecemos decidem o nosso futuro. É bastante assustador, e apenas por trazer o assunto à tona, “Conduta de Risco” já merece crédito, mesmo soando repetitivo e sem personalidade.
Desta forma, na teoria, politicamente falando, “Conduta de Risco” é um filme interessante e necessário em uma sociedade cada vez mais apática e dominada por um grupo minoritário de pessoas. Porém, na prática, cinematograficamente ele é um placebo, um filme fórmula perfeito na execução, mas igual – e até inferior – a vários outros do mesmo gênero. Não se impressione pelas sete indicações ao Oscar. Tony Gilroy vai sair da premiação como entrou: com as mãos vazias…
Leia também:
- “Syriana”: grandes empresas, poucos mortais, por Marcelo Costa
- “Jardineiro Fiel”: quem controla quem?, por Marcelo Costa

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu - Cotação 3/5
Romênia, 1987. O regime comunista de Nicolae Ceauşescu completa 32 anos e o país está em frangalhos. Exemplo máximo do caos: não havia mármore para ser usado em túmulos, pois todo ele seria usado para a construção de um enorme palácio planejado pelo ditador. Produtos estrangeiros eram proibidos no país. Porém, de cigarros a anticoncepcionais, tudo podia ser encontrado no mercado negro que funcionava sob as ruínas de um regime opressor. É neste cenário pouco estimulante que vivem as estudantes Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu).
Otilia e Gabita dividem um quarto num dormitório estudantil. Elas são colegas de classe na universidade de uma pequena cidade romena, e se a opressão governamental já não bastasse para tornar os dias longos e difíceis demais, um fato inesperado irá complicar ainda mais a vida das duas meninas: Gabita está grávida, quer fazer um aborto (ilegal no país), e Otilia será sua companheira nessa viagem traumática ao âmago da sordidez humana. Sem palavras de carinho, o diretor Cristian Mungiu (que também assina o roteiro) desfere um pontapé no estômago do espectador.
“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não é, como poderia se esperar, um filme que discute o aborto. O roteiro não explora o tema tabu, e este é um de seus grandes méritos. Mungiu foca sua câmera no desenrolar dos fatos após a grande descoberta, e o que vê em suas lentes não julga o individuo em particular, mas a sociedade como um todo. Não há bandeiras – nem pró, nem contra – em “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. Há apenas o gosto amargo das relações humanas em uma sociedade corrompida. Não à toa, o filme começa focando um pequeno aquário, com dois peixes e pouca água.
Gabita quer fazer um aborto, mas não age para tal. Suga a amiga Otília, que resolve praticamente tudo sozinha e ainda “participa” da negociação imposta pelo homem encarregado dos procedimentos médicos. É Otília quem procura o médico, quem reserva o hotel, quem leva o dinheiro, quem assume a frente da negociação e, por fim, quem dá cabo ao feto de quatro meses, três semanas e dois dias. Gabita se recolhe deixando a amiga encarregada de tudo, e Otília não a desaponta, mas será que tudo teria acontecido da mesma forma se fosse o contrário? Se Otília estivesse grávida?
Cristian Mungiu conseguiu que “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não soasse panfletário, muito embora deixe escorregar um tiquinho de moralismo ao culpar suas garotas, mas seus recursos de dramatização chegam a incomodar em algumas passagens capitais da película. Como quando Otília e Gabita tentam negociar com o fazedor de anjos. O diretor estende a cena até o limite do óbvio repetindo frases (apesar do interlocutor dizer: “Não vou repetir tudo o que disse”) injetando uma carga de tensão desnecessária frente ao impressionante desenrolar do quadro. O mesmo acontece em uma cena de jantar e em outra que flagra uma discussão com o namorado, que poderiam ser mais enxutas.
Essa impressão de excesso contamina o olhar, e por mais que se entre em uma sala de cinema predisposto ao “mal-estar cinematográfico” (afinal, estamos falando de um filme cujo tema principal é – ou deveria ser – o aborto: não dá para esperar leveza), a impressão final é de que a necessidade de obstáculos no roteiro desvaloriza (mas não apaga) o olhar severo, crítico e nada romantizado sobre a sociedade em geral, e Gabita e o “médico” Sr. Bebe (Vlad Ivanov) em particular.
Entrincheirada entre estes dois (humanos, demasiado humanos), Otília é o último cigarro da carteira em uma noite em que se está desesperadamente precisando fumar. Porém, cada vez mais, menos pessoas fumam. E menos Otílias surgem. Estamos vivendo o ápice da sociedade mediana. A grande maioria aceita qualquer coisa. A grande maioria foge, se esconde. E a vida segue neste grande aquário. Melhor não falarmos mais falar nisso. Corte.

É foda demais falar qualquer coisa sobre o Oscar deste ano sem ter visto “Sangue Negro”, dirigido por um dos caras que mais admiro no cinema atual, Paul Thomas Anderson, mas as oito indicações para o sensacional “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen, já fez valer um sorriso nessa manhã chuvosa de São Paulo. Tô na torcida por Javier Bardem desde… novembro do ano passado. E Cate Blanchett, com duas indicações (uma delas por “I’m Not There”), também balança meu coração. E não deu para o Brasil…
Filme
“Desejo e Reparação”
“Juno”
“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
Diretor
Julian Schnabel, “O Escafandro e a Borboleta”
Jason Reitman, “Juno”
Tony Gilroy, “Conduta de Risco”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”,
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”
Ator
George Clooney, “Conduta de Risco”
Daniel Day Lewis, “Sangue Negro”
Johnny Depp, “Sweeney Todd”
Tommy Lee Jones, “No Vale das Sombras”
Viggo Mortensen, “Senhores do Crime”
Atriz
Cate Blanchett, “Elizabeth: A Era de Ouro”
Julie Christie, “Longe Dela”
Marion Cotillard, “Piaf - Um Hino ao Amor”
Laura Linney, “The Savages”
Ellen Page, “Juno”
Ator coadjuvante
Casey Affleck, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
Javier Bardem, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Phillip Seymour Hoffman, “Jogos do Poder”
Hal Halbrook, “Na Natureza Selvagem”
Tom Wilkinson, “Conduta de Risco”
Atriz coadjuvante
Cate Blanchett, “I’m Not Theere”
Ruby Dee, “O Gângster”
Saoirse Ronan, “Desejo e Reparação”
Amy Ryan, “Gone Baby Gone”
Tilda Swinton, “Conduta de Risco”
Filme estrangeiro
“Beaufort” (Israel)
“The Counterfeiters” (Áustria)
“Katyn” (Polônia)
“Mongol” (Cazaquistão)
“12″ (Rússia)
Filme de animação
“Persépolis”
“Ratatouille”
“Surf’s up”
Roteiro original
Diablo Cody, “Juno”
Nancy Oliver, “Lars and the Real Girl”
Tony Gilroy, “Mudança de Risco”
Brad Bird, “Ratatouille”
Tamara Jenkins, “The Savages”
Roteiro adaptado
Christopher Hampton, “Desejo e Reparação”
Sarah Polley, “Longe Dela”
Ronald Harwood, “O Escafandro e a Borboleta”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”
Leia mais:
- “Onde os Fracos Não Tem Vez”, dos Coen, por Marcelo Costa
- “I’m Not There”, de Todd Haynes, por Marcelo Costa