Um puta clichê

May 25th, 2008

Dia desses eu conversei com a Talita, que está se encaminhando para o projeto de conclusão da faculdade de Jornalismo, e está centrando o foco de seu estudo nos sites de cultura. No meio do papo, a pergunta:

- O que te levou a fazer jornalismo?

A resposta aqui

Ps. Tô pensando sobre a vida. Já volto.

Atualizando histórias

May 12th, 2008

Na quinta-feira, enquanto o Intensom com Hurtmold e Mamelo Sound System esgotava os ingressos da choperia, me abasteci de dois chopps escuros para assistir ao Wado no teatro do Sesc Pompéia. Uma seleta platéia acompanhou o músico num passeio por seus quatro álbuns, privilegiando o repertório do recém lançado “Terceiro Mundo Festivo” (baixe aqui).

Centrado em programações, teclados, baixo e bateria (com uma guitarra, tocada pelo próprio Wado, eventual), o show destacou canções mais antigas como “Alagou As”, “Uma Raíz, Uma Flor”, “Ontem Eu Sambei” (do “Manifesto da Arte Periférica”) e “Sotaque” (”Cinema Auditivo”). “Tarja Preta” surgiu em uma versão sinuosa, contagiante.

De “A Farsa do Samba Nublado” marcaram presença “Tormenta”, “Grande Poder”, “Alguma Coisa Mais Pra Frente”, “Se Vacilar o Jacaré Abraça” e “Carteiro de Favela” (faltaram – sempre faltam – “Amor e Restos Humanos” e “Deserto de Sal”). Das canções novas, destaque para a pungente “Melhor”, a poderosa “Fita Bruta” e o sambinha “Fortalece Ai”. De extra, um excelente funk proibidão sobre o 11 de setembro. Classe. (mais fotos aqui)

*************

Na sexta, aniversário de Lili no Veloso. Tomei um banho de caipirinha de frutas vermelhas (acho que a camiseta do Ash não irá sobreviver), mas a turma toda se deliciou com as melhores caipirinhas e coxinhas da cidade (ainda volto para experimentar com calma o bife de tira).

Na volta pra casa pegamos um taxi com Luiz, o equivalente nacional de Jerry Fletcher, o motorista interpretado por Mel Gibson no filme “Teoria da Conspiração”. Se eu tivesse guardado ao menos umas duas ou três previsões que ele nos falou no carro, teria escrito um “cenas da vida em São Paulo”. Coisas assim: O mundo vai acabar em 2022. Na verdade, os Estados Unidos vão acabar, e o Brasil será a maior potência da Terra. Sério.

*************

Eu planejava ver uns filmes no cinema no fim de semana, mas não rolou. No sábado, só Lost. No domingo, uma amiga ligou convidando para um almoço no Consulado Mineiro, na praça Benedito Calixto. Depois de uma bela refeição (bisteca, torresmo, feijão tropeiro, tutu, couve, farofa de banana – estou ficando com fome de novo) e algumas doses da excelente cachaça Germana, não teve como resistir a voltar para casa e desmaiar na cama. Vontade de ficar a semana inteira debaixo do edredom, mas a gente tem que trabalhar, né mesmo. :/

Do humor

April 24th, 2008

O humor é algo bem interessante. Constantemente me pego fazendo coisas que não faria em determinadas situações, tipo, comprar coisas que em uma situação normal não compraria, ou gostar disso ou daquilo, e depois perceber que aquele filme, CD ou coisa que o valha não era aquela coca-cola toda. Acontece. Tem dias que fico lendo meus próprios textos e demoro a achar um que preste. Em outros dias, porém, até dos meus poemas eu gosto. Vá entender.

Pensei nisso tudo, pois hoje na hora do almoço passei nas Lojas Americanas do Shopping Iguatemi e, diante das promos de DVDs, comprei um filme que eu nunca compraria em uma situação normal. Peguei primeiramente o “Despedida em Las Vegas”, do Mike Figgs, que baixou de R$ 19,90 pra R$ 12,90, e eu vou querer rever esse filme uma outra vez com certeza (o filme definitivo sobre o vício em alcoolismo, já que o clássico “Farrapo Humano” derrapa nos últimos cinco minutos).

Peguei também “O Ilusionista”, com Edwart Norton, que perdi no cinema e queria ter muito visto. Na época, entre ele e “O Grande Truque”, do Christopher Nolan, fiquei com o segundo (e não me arrependi – filmão!). Como o DVD estava custando R$ 9,90, não pensei duas vezes. Por último, antes de devolver o DVD de “Os Outros” (uma ótima cópia de segunda categoria de “O Sexto Sentido”) peguei… “O Código Da Vinci”, edição dupla, caprichada, com 25 minutos a mais de filme.

Dois anos atrás escrevi o seguinte: “Não deixe se enganar pelos números de bilheteria do filme e nem pela vendagem astronômica do livro. O Código Da Vinci é um simulacro de literatura e de cinema (texto na integra)”. Catzo, o que me fez pegar o DVD então? Ok, ele estava baratinho (R$12,90), tem os extras e fiquei realmente com vontade de conferir se a versão estendida consegue tapar os buracos deixados no cinema, mas… bem, eu estava bem humorado. Só pode ser isso. Não sei como não peguei o clássico “Curtindo a Vida Adoidado” e “Quem Vai Ficar com Mary?” também…

Se um dia você me ver comprando “Olga”, por favor, evite.

Ps: Apareceram nas Lojas Americanas os três filmes da Trilogia das Cores, do Kieslowiski. Não é a mesma edição bacana do box da Versátil (que você até encontra separado por ai, nunca abaixo dos R$ 25), com extras, entrevistas e outras coisas legais, e sim uma edição mais simples, que vale os R$ 12,90 cada filme (pela excelência da trilogia), mas a edição especial é tãooooooo melhor.

Lili me deu de presente de natal no ano retrasado :o)

A última compra

April 18th, 2008

Eu já tinha decidido que não ia mais passar na Nuvem Nove. Economia é palavra de ordem aqui em casa neste momento pré-viagem de férias. Mas então o Jonas pediu para que eu fosse com ele a loja (e não precisava pressionar tanto, vai), e eu acabei levando o Guto e a Marcela juntos. Tudo 50%. Lá se foram R$ 99 em onze CDs…

É bem provável que nunca na minha vida eu fosse comprar o “Metal Machine Music”, do Lou Reed. Não importa que fosse a edição remasterizada em comemoração aos 25 anos do álbum completados em 2000 (remasterizar microfonia de guitarra, sei). Não importa que David Fricke, da Rolling Stone, estivesse gastando adjetivos no encarte. Não importa nem que o texto original do próprio Lou estivesse transcrito. Nada disso importava.

Porém, você vai e olha o CD na prateleira. Ele olha para você. O preço da etiqueta diz que ele deveria custar R$ 40, o que quer dizer que, neste momento, ele está custando R$ 20. Está lacrado. É uma edição especial numerada (esta é a de número 5.132, o que faz imaginar que mais de 5 mil loucos no mundo têm esse disco em casa) “There is no other álbum in rock & roll like ‘Metal Machine Music’”, avisa a contra-capa.  Era uma vez R$ 20…

Mas para dizer que sou forte (tsc tsc tsc), deixei um da Françoise Hardy, anos 60, que estava de R$ 60 por R$ 30, e a versão remaster do segundo álbum do Blondie, com cinco bônus tracks, de R$ 40 por R$ 20. Eu só devia ter pego os dois da Carmen Miranda, que estavam R$ 9 cada um. Minha última compra na Nuvem Nove acabou ficando assim:

R$ 20 - “Metal Machine Music – Limited Edition”, Lou Reed
R$ 11 - “Recuerdos de Asunción 443″, Jorge Ben Jor
R$ 11 - “Acústico MTV”, Paulinho da Viola
R$ 10 - “Bongo Fury”, Frank Zappa
R$ 10 - “Baby Snakes”, Frank Zappa
R$ 09 - “Gung Ho”, Patti Smith
R$ 07 – Songbook de Dorival Caymmi Volume 3
R$ 05 - “Eliana Pittman”, Eliana Pittman (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “Doris Monteiro”, Doris Monteiro (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “Dory Caymmi”, Dory Caymmi (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “O Último dos Moicanos”, Moreira da Silva (série Odeon 100 Anos)

Ps. escrevi mais sobre a Nuvem Nove na Revoluttion. Leia aqui.

Nuvem Nove e Pasolini

April 15th, 2008

A Nuvem Nove, uma das lojas de CDs mais bacanas de São Paulo, fechará às portas no dia 26 de abril. A primeira vez que fui à loja foi em 2000. Recém mudado para São Paulo, e trabalhando no iG (na primeira das minhas três passagens pelo portal), fui convidado a conhecer o local por dois Fábios, Sooner e Bianchini, com mais alguns outros amigos. Tratava-se da Confraria da Sacola Azul, uma turma de jornalistas que baixava na loja todo dia 15 e 30 (vale e pagamento) para se abastecer dos bons itens que a loja oferecia. A Confraria não durou muito tempo, mas a loja permaneceu firme até o mês passado, quando o Zé, dono da loja, anunciou o fechamento.

Passei por lá hoje, e as prateleiras já estão bem vazias, mas há ainda como encontrar boas coisas por bons preços. Dentre os achados de hoje estão o “Peace and Noise” da Patti Smith, o “1999″ do Prince, “Lê Danger” da Françoise Hardy, o volume 2 do songbook do Ary Barroso, e o grande achado dos últimos meses: o box “A Trilogia da Vida”, de Píer Paolo Pasolini, com “Decameron” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1973) e “As Mil e Uma Noites” (1974). Dos três, assisti apenas ao último em uma sessão no CCBB, anos atrás.

Fiquei tão apaixonado pelo cinema do cineasta italiano que comentei com um amigo, Márcio, cinéfilo de longa data, que relembrou como tinha sido assistir ao polêmico “Saló” em uma das primeiras edições da Mostra Internacional de São Paulo, em 1979. “Estava uma bagunça na sala, falação e piadinhas, coisa de quem não estava acostumado com um evento como a Mostra. Parecia uma sala de aula, e ficou assim até uns dez minutos de filme, quando começaram a sair pessoas da sala assustadas com Pasolini”. Sensacional.

Este reencontro com Pasolini e as lembranças de vários amigos nesse post servem para mostrar o quanto uma loja interessante quanto a Nuvem Nove pode fazer parte da vida afetiva de qualquer pessoa. Boas lojas de CDs, sebos, livrarias, cinemas e shows são lugares ótimos para se encontrar pessoas legais. Na Nuvem Nove (assim como na Sensorial e na Velvet CDs, estas duas na Galeria Presidente, no centro de São Paulo), porém, o interessante não era só comprar música, mas conversar sobre ela. Não à toa, vários encontros de participantes da comunidade da revista Bizz no Orkut foram marcados ali.

Com o fechamento das portas da Nuvem Nove, São Paulo não perde apenas mais uma loja de CDs, mas perde sim um ponto de encontro de pessoas apaixonadas por boa música, algo que pode soar tolamente romântico, mas é a mais pura verdade. Uma grande perda, sem dúvida.

Você descobre que está…

February 6th, 2008

trabalhando demais quando, depois de cinco dias intensos de cobertura de carnaval, acorda às 10h30 da quarta-feira de cinzas em meio a um “grande pesadelo”:

Estou na redação, aquela correria, quando alguém chega:

- Pessoa 1: Marcelo, Marcelo, o MSN vendeu todas as suas ações para um conglomerado asiático que está tirando do ar todo o seu conteúdo…

- Pessoa 2: Não consigo entrar no MSN, não consigo entrar no MSN…

No meu computador, tento acessar o MSN em vão. Vou para a página deles, e sou encaminhado para outra, cuja paisagem remete ao Himalaia. É algo assustador (no sonho; terrivelmente engraçado agora), pois cada clique que dou, a página do MSN começa a carregar e, em seguida, aparece a paisagem do Himalia com palavras e frases em uma língua que não consigo entender.

A redação está uma balburdia, penso no iCQ como alternativa (ao mesmo tempo me pergunto: o ICQ ainda existe?) e no meio da piração lembro que o MSN também detém o Hotmail, e a essa altura todos os meus e-mails foram para o espaço sideral virtual. Começo a teclar calmamente o endereço quando… o telefone toca e eu acordo.

Acho que preciso de uma folga.

Alguém ainda ouve fitas cassete?

January 19th, 2008

Nesta semana, após soltar um spam básico divulgando a publicação dos Melhores do Ano do Scream & Yell, uma amiga retornou o e-mail dizendo que tinha ido parar, através daquele spam, em uma coluna antiga minha na Revoluttion, que versava sobre fitas cassete e tinha o sugestivo título de “Qual música te define?“. Entre papos sobre fitas cassete e seleções de canções para pretês (isso é tão 02 Neurônio, né), lembrei que tenho sei lá quantas dezenas de fitas cassete em casa.~São duas maletinhas cheias delas, a maioria seleções de canções que eu fazia para eu mesmo ouvir, outro tanto de demos, e uma pequena parte de seleções feitas por amigos.

Muito tempo atrás, revirando essas fitas, tive a idéia tosca de sortear uma coleção do R.E.M. e mais algumas outras, e foi bem legal. Aí eu tava pensando se não deveria fazer o mesmo com essas, afinal, é muito melhor que elas sejam ouvidas do que ficarem guardadas eternamente em uma maletinha no quarto escuro. Mas então me pergunto: alguém ouve fitas hoje em dia? Não sei. Eu, até um ano atrás, de vez em quando pegava uma daquelas seleções e colocava pra ouvir, mas agora, na casa nova, meu Tape Deck nem está na sala, o que dificulta.

Dentre as dezenas de seleções que fiz tem algumas que considero especiais tipo a “Sobremesa” (a capa é uma torta de morango), que além de Nação Zumbi (a faixa título), tem R.E.M. (”So, Central Rain, I’m Sorry”), U2 (”Wake Up Dead Man”), Arnaldo Baptista (”Será Que Eu Vou Virar Bolor?”), Neil Young (”Changing Highways”), Engenheiros (”Sob o Tapete”) e Mundo Livre S/A (”Homero, o Junkie”), entre outras.  Tem que ter um gosto bem amplo para curtir uma seleção dessas. Já a “Golden Lights” (inspirada em uma canção dos Smiths) traz Blues Etílicos (”Terceiro Uisque”), Soul Asylum (”Somebody To Shove”), Herbert Vianna (”Lição de Astronômia”), Lou Reed (”Trade In”), Legião Urbana (”A Tempestade”) e Radiohead (”No Surprises”), entre outras. Só estas duas já servem de paralelo para as outras cento e tantas. Será que um dia vou ouvir isso? Será que alguém quer ouvir isso? Será que alguém ainda ouve fitas cassete?

Sonhar é permitido, viver é permitdo

December 28th, 2007

O processo que eu havia iniciado em 2006 persistiu por todo o 2007: meu amadurecimento. Ou, como escreveu o amigo Takeda um dia, o descongelamento. Passamos anos de nossas vidas congelados em um tempo que se foi, mas que não queremos deixar partir. Recusamos o amadurecimento em pró da eterna adolescência. Mas, quer queiramos ou não, a maturidade bate a nossa porta. E quando percebemos estamos descongelando. Dois mil e sete foi um dos anos mais importantes da minha história pessoal. E também da nossa história social, Brasil, saca.  Como diria Marlon Brando, muitas coisas que pareciam ser relevantes, hoje não são mais. Posso creditar meu principio de descongelamento ao fato de ter expandido minhas fronteiras: posso dizer que cheguei perto da fronteira do Chile com a Bolívia e, quer saber, é uma experiência e tanto.

Posso creditar também ao fato de que, desde julho, sou um homem casado. Quase casado, ok. Dividir a vida com uma pessoa é algo extraordinariamente revigorante. E por mais que você se julgue mestre em relacionamentos, acredite, há um mundo de diferenças entre namorar uma pessoa e viver com ela. A gente aprende tropeçando, não tem jeito. E talvez essa seja a graça de tudo, e esse é um dos segredos para se manter uma história de amor: humor. Rir nos momentos bons… e nos ruins também.

Conceitualmente, porém, o que mais mexeu com meus pensamentos em 2007 foram dois fatos isolados acontecidos no meu poderoso inferno astral: o assalto em Buenos Aires e o atropelamento na rua da Consolação, dois minutos da porta de casa. É clichê pra caralho, mas não tem jeito: sentir a morte caminhando por perto mexe com a gente. E o atropelamento nem foi algo assim, violento. Mas depois que recebi o impacto, senti a escuridão, e abri os olhos sentindo um gosto de sangue nos lábios e a mão toda arrebentada, impossível não pensar no que poderia ter sido.

Passei algumas semanas pensando nisso, e o estranho é que, entre o mil anos a dez ou o dez anos a mil, sou partidário do mil anos a mil. Eu nunca quis pouca coisa, mas assim que o pessoal do Resgate me imobilizou e me transferiu para a ambulância, eu só conseguia pensar na quantidade de coisas que ainda não tinha feito, que seria uma grande bobagem divina alguém me aprontar uma peça. Era impossível não caraminholar isso: um dos meus grandes amigos sofreu um acidente de carro, foi transferido para o hospital, acordou no outro dia e falou com a família, tudo ótimo, mas quando foram transferi-lo da cama para uma maca, uma hemorragia interna o levou. Ele tinha 21 anos. Eu também. Melhor não arriscar.

O assalto me balançou de outra forma. Deu tudo errado naquele dia. Pior: os sinais eram evidentes, mas mesmo assim demos bobeira. Lili queria conhecer La Boca. Seus livros de arquitetura rendiam elogios ao lugar, porém, La Boca é um dos bairros mais pobres de Buenos Aires. Não dava pra marcar bobeira. A sucessão de erros começou  no hotel: inseguro em relação ao dinheiro (R$ 4 mil no total), coloquei R$ 2 mil num bolso inferior perto do joelho esquerdo e outros R$ 2 mil foram guardados numa bolsinha por dentro da calça. Como tínhamos uma encomenda (uma camisa do Boca para o sogro), decidi levar R$ 200 em reais mesmo, para aproveitar a valorização da moeda. E mais 100 pesos para comprar outras coisas, almoçar e tal. Ou seja, eu estava portando aproximadamente R$ 4.500, e não se leva uma quantia dessas em um bairro barra pesada, ok.

Além do dinheiro (que era tudo que tínhamos para seguir viagem – Buenos Aires era o começo), eu levava uma Canon S215 (deve estar uns R$ 1500 por ai) na mochila, além de frutas e nosso guia de viagens, que tinha servido de base para todo o planejamento da viagem. Minha idéia era pegar um ônibus na avenida 09 de Julio (havíamos visto vários no dia anterior) e seguir até La Boca. Encostei numa banca de flores e perguntei para um garoto como chegar a La Boca. Ele respondeu?

- La Boca? Não vá a La Boca.

Eu ri, e insisti, mas ele continuou com o mesmo discurso, repetindo mais duas vezes:

- Não vá a La Boca.

Deixamos o menino e seguimos uma quadra. A idéia do ônibus já não parecia tão boa, então paramos um táxi. Assim que disse ao motorista que queríamos ir para La Boca, ele praguejou algo e nos deixou estatelados na calçada. O táxi seguinte, porém, parou e nos recebeu, mas o motorista não abriu a boca um segundo sequer nos 15 minutos de trajeto. Ele nos deixou logo na entrada do bairro pelo lado do porto, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma pixação em um conjunto velho de prédios: “Nos precisamos de água quente”. Poucos dias depois que partimos para Santiago, nevou em Buenos Aires. E moradores de La Boca não tinham água quente…

Fizemos o trajeto turístico, com vários seguranças contratados pelos comerciantes locais, e saímos por uma rua em direção ao estádio de La Bombonera, do Boca Juniors, casa que viu Diego Maradona nascer para o mundo. Eu não havia conseguido entrar no estádio nas duas vezes anteriores que eu o tinha visitado, mas desta vez demos sorte, e passeamos pela arquibancada, tiramos fotos, nos divertimos. Coloquei a máquina digital (que é de média pra grande) no bolso da jaqueta e partimos em busca do almoço.

O guia que levávamos falava muito bem de um restaurante italiano em La Boca, e depois de alguns dias devorando bifes de chouriço, experimentar uma boa massa nos pareceu uma grande oportunidade. Nosso erro, porém, foi nos desligarmos completamente do lugar em que estávamos. Olhávamos os prédios, as casas, eu questionava coisas sobre arquitetura, Lili me explicava, até que chegamos a uma grande igreja (duas quadras fora do centro turístico) e bateu um frio na barriga sem motivo. O motivo, na verdade, se revelou na esquina seguinte.

Assim que entramos na rua do restaurante, a Nepuchea, cinco caras nos cercaram. Um deles tirou Lili de lado, e depois de fuçar nos bolsos de sua jaqueta, e ela dizer que não tinha nada, apenas pediu para que ela ficasse em silêncio. Os outros quatro partiram para cima de mim, me jogando ao chão e tentando me atacar como urubus em busca de carne fresca. Não se deve, nunca, reagir a um assalto, mas tem coisas que são mais fortes que a razão. Colei minha perna esquerda no asfalto (no bolso próximo ao joelho havia R$ 2 mil) oferecendo o bolso da direita, que trazia apenas um caderno de anotações. Com uma mão eu segurava a máquina digital, e com a outra tentava atrapalhar o máximo possível a ação dos quatro rapazes. Passava um pouco do meio-dia.

A grande maioria dos assaltos não dura mais do que um minuto ( e existe uma grande porção que dura segundos, e você só descobre que foi assaltado horas depois), mas este deve ter batido os 120 segundos. Quando, finalmente, eles conseguiram retirar minha carteira (e ver os 100 pesos lá dentro) e minha mochila, saíram correndo deixando eu e Lili para trás. A primeira coisa que me veio à cabeça: documentos. Me levantei na hora e sai correndo atrás deles gritando “documentos, documentos”. O rapaz que estava correndo com a carteira a abriu e foi jogando RGs (meu e de Lili), vistos de entrada no país, cartões de crédito e de débito e outros. Resgatamos tudo e fomos acolhidos por uma família dona de um restaurante. Eles chamaram a polícia (que não veio), nos deram alguns pesos para a passagem do ônibus, e nos acompanharam até o ponto.

Tenho certeza que, assim que sai do restaurante, um dos assaltantes me aguardava na porta. Minha intenção era chutar-lhe o saco com toda força e arremessa-lo no meio da rua, mas seria uma grande idiotice. Eu estava com a máquina (que eles devem ter sentido falta na mochila, já que só a capa dela estava lá) e com R$ 4 mil. Não dava para cometer mais um erro. O dono do estabelecimento bateu boca com o cara, o clima ameaçou esquentar, mas fomos levados em segurança até o ponto de ônibus. O senhor se desculpava pelo acontecido como se ele tivesse culpa, e dizia que atrás do porto havia uma grande favela. Lili passou boa parte da viagem acordando assustada, e minha função – além de protege-la – era dar-lhe segurança e calma. Após alguns dias as coisas voltaram ao normal.

Apesar de toda violência (que, na verdade, me rendeu apenas um roxo no lado esquerdo do rosto, que sumiu no dia seguinte), não foi o fato em si que mexeu comigo, mas os pensamentos que dele decorreram. Primeiramente, não tiro a razão daqueles caras. Eu e Lili éramos dois turistas “esbanjando” enquanto eles estavam ali passando fome. É algo como aquela piada que diz “que a sociedade me deve a sua carteira, saco, mano”. Não estou querendo dizer, de forma alguma, que aprovo. Não, não aprovo. Eu sei o quanto Lili e eu ralamos para juntar aquele dinheiro, o quanto planejamos aquela viagem, mas se os assaltantes fossem se preocupar com isso, não teríamos crimes no mundo, não é mesmo. Na verdade, acho que os motivos são mais importantes que o fato.

Caraminholando incessantemente sobre tudo isso, e caminhando os meses seguintes pelas ruas cheias de pobreza de São Paulo, cheguei a conclusão (óbvia) de que se queremos um mundo melhor, precisamos dar o exemplo. Não ria. Eu sei que é piegas, mas numa entrevista que concedi ao amigo Carlos William, da revista Bula, ano passado, respondi assim a seguinte pergunta:

“E o PT?”
“Um sonho que nos apresentou a realidade: não existem sonhos!”

Não quero descambar para o partidarismo (na verdade, quero ficar cada vez mais longe deles), pois sempre votei em pessoas, não em partidos. O que estou querendo dizer é que se já sabemos que não podemos confiar em ninguém, que não existem sonhos quando o assunto é política, dinheiro e poder, então está na hora de fazermos as coisas nós mesmos. E, mais do que nunca, deixarmos o social de lado e agirmos no pessoal. Sim, mudarmos as coisas ao nosso redor primeiro. Sempre fomos acomodados demais, mas precisamos mostrar que se as coisas podem dar certo, elas tem que começar a dar certo dentro da nossa própria casa, do nosso próprio ambiente de trabalho, da nossa família, do nosso bairro. Sempre acreditei que fazer o bem é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para mudar o mundo, e apesar de parecer a coisa mais piegas do mundo, é no que eu acredito realmente.

Não estou fazendo, de forma alguma, uma apologia da cegueira do tipo “feche os olhos para as coisas feias do mundo, para as pessoas que te xingam no sinal de transito, para aqueles que roubam o seu dinheiro, para os políticos que fazem da nossa capital federal um grande e nada engraçado circo”. Precisamos acreditar na Justiça, evitarmos a tolice (pois, como escreveu Blake, “se os outros não forem tolos, nós teremos que ser”) e buscarmos um mundo melhor. Quero chegar aos 100 anos, como Niemeyer, de preferência em um mundo muito melhor do que este que vivemos agora. Por mais que as grandes empresas nos queiram longe das decisões importantes (já leu o poderoso “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein?), a força está em cada um de nós. E nós podemos construir um mundo melhor a partir da nossa história pessoal, das coisas que vivemos, das pessoas que conversamos, das idéias que trocamos, da camiseta que vestimos. Tenho pensado muito nisso. E acho que essa é uma boa maneira de começar 2008: acreditando em um mundo melhor, apesar de assaltos, atropelamentos e partidos políticos. Apesar de tudo.

Feliz ano novo para todos nós. E força sempre.

Ps. Não esqueça: sonhar é permitido, viver é permitido. Sonhe. Viva.

Feliz 2008.

Açai com vodka

December 18th, 2007

Após uma dúzia de cervejas, papeando sobre misturas alcoólicas, contei que quando meu pai teve uma sorveteria em uma cidadezinha do interior, anos e anos atrás, uma das metas de minhas férias escolares era descobrir qual sorvete combinava melhor com uísque.

Morango e limão foram reprovados, mas chocolate e creme passaram com louvor. A Ligelena, que estava na mesa, contou que adora sorvete com vodka. Eu tinha comentado na mesa algo sobre minha vontade de comer açaí, foi quando deu o estalo na mesa: o que será que vai dar misturarmos vodka com açaí?

A Juliana não quis nem saber (depois, aprovou). O Guto protestou contra o uso de banana e granola. Eu, Jonas, Renata e Ligelena nem ligamos e aprovamos a mistureba toda. Depois que “bebemos” a primeira cumbuca na colher (com uma senhora dose de vodka), pedimos outra, que atendendo aos pedidos do Guto, veio sem granola, mas com banana. Desceu tão bem que já virou um dos pratos especiais do reveillon da turma.

Niemeyer, 100

December 16th, 2007

Aprendi (e estou aprendendo) a admirar a arquitetura. Eu já tinha dividido apartamento com uma querida amiga arquiteta e quase namorado uma quase arquiteta, mas o meu modo de ver a cidade (“veracidade – haverá cidade”, ops, piada interna) mudou completamente quando Lili entrou em minha vida. Casas, prédios, construções, nomes de arquitetos passaram a fazer parte da minha rotina, e eu comecei a gostar disso.

Isso tudo aconteceu, em larga escala, por culpa não só de Lili, mas também de suas (e minhas) queridas amigas Ligia e Kátia. Ver Lili, Ligia e Kátia conversando/discutindo arquitetura é algo bastante inspirador. Parece conversa de boteco sobre futebol, mas elas estão falando sobre os maiores arquitetos do mundo, suas obras, concordando e discordando sobre coisas que eu nem mesmo consigo emitir uma opinião. É bonito de se ver, garanto.

Foi por influência de Lili que aprendi a curtir muito mais o mundo a minha volta, e por conseqüência, descobri um Rio de Janeiro totalmente novo em nossas viagens a cidade maravilhosa. Faz anos que faço uma viagem anual ao Rio. Amo a cidade, o ar, as praias, tudo. Mas ir ao Rio de Janeiro com uma arquiteta é algo bastante diferente. O roteiro passa também por pontos turísticos, mas existem muitos outros que um não arquiteto consegue imaginar.

Na última vez que fomos fizemos um tour com base nos mapas do “Guia de Arquitetura Moderna do Rio de Janeiro”, e foi muito legal. No roteiro, obras como o Palácio Gustavo Capanema (Ministério da Educação e Cultura), marco da arquitetura modernista brasileira (que envolve os nomes de Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos, Roberto Burle Marx e Lê Corbusier) , o Edifício Sede da Petrobras (meu preferido - foto), o Edifício do BNDES, o MAM e o Parque Guinle (queremos morar lá, um dia - olha a vista), entre outros. 

Porém, apesar de aprender a admirar estas obras, nunca achei que fosse ficar sem ar diante de uma. E isso aconteceu (e acredito que vá acontecer sempre) nas duas vezes que visitei o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o MAC, obra de Oscar Niemeyer. Eu já tinha esbarrado em várias obras do Niemeyer aqui e ali em minha vida (gostado mais de umas do que de outras), mas o MAC foi algo bastante especial.

Na primeira vez, fomos eu e Lili. Descemos um ponto de ônibus antes, e foi legal porque permitiu observar o museu de longe. Ele surge do nada, quase uma curva, e realmente parece um OVNI que pousou na beirada de um despenhadeiro. Conforme você se aproxima, ele vai se tornando imponente, e impressionando, mas nada se compara a belíssima visão que temos dentro do Museu. A área de exposição é minúscula e, não tem jeito, compete com a maravilhosa “varanda”, área que traz uma grande janela aberta para a Baia de Guanabara. É inesquecível.

Por mais que me sinta tentado, porém, é pretensão demais da minha parte escrever algo sobre arquitetura tendo estas três experts na sala de casa discutindo o tema com a mesma facilidade com que discuto cultura pop com os amigos. Então, longe de querer soar xereta bisbilhotando em território alheio, deixo este post singelo como uma sincera homenagem ao senhor Oscar Niemeyer, que ontem completou 100 anos. Em algum momento da visita ao MAC meus olhos encheram de lágrimas, e é preciso reconhecer e agradecer quando alguém toca nossa alma dessa forma. Niemeyer, parabéns. E Lili, Ligia e Kátia, obrigado por terem aberto essa porta.

Abaixo, algumas fotos do passeio escolhidas ao acaso: