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Dylan com café, dia 34: Bootleg Series 1

Bob Dylan com café, dia 34: Em novembro de 1969, Greil Marcus, um dos maiores jornalistas de música de todos os tempos, escreveu um longo artigo de cinco páginas na revista Rolling Stone chamado “Bob Dylan: Breaking Down The Incomplete Discography”. No texto, Marcus lamentava que “em oito anos, Bob Dylan lançou apenas nove álbuns” (!) e listava uma longa série de bootlegs não autorizados que ampliavam o alcance do olhar sobre a obra do (então) jovem bardo. A Columbia sinalizou o desejo de combater algumas fontes de pirataria colocando nas lojas, de forma desajeitada, um volume duplo das “Basement Tapes” (1975) que deve ter feito muito pirateiro rir, já que o material lançado não cobria nem 1/5 do que circulava entre os fãs. O segundo passo da gravadora foi um pouco mais ousado: 21 faixas raras presentes no box “Biograph” (1985), que serviram para atiçar a curiosidade de muitos fãs, mas era apenas a ponta de um gigantesco iceberg: cada disco novo de Bob Dylan (desde os anos 60!) surgia “acompanhado” de um álbum duplo pirata, muitas vezes triplo, com as raridades presentes nas sessões de gravação, desde canções acabadas e inéditas que ficaram de fora do disco por algum motivo até versões embrionárias que seriam retrabalhadas a exaustão até o último minuto a que Bob tinha direito de mexer ou mudar algo.

Parte desse material começou a ser mostrado ao mundo em 1991 com esse box (a gravadora chegou a cogitar lançar 10 CDs, mas acabou diminuindo para quatro, e finalmente para três CDs – divididos em cinco vinis, seu segundo lançamento quíntuplo, e três cassetes) caprichado que trazia nada menos que 58 faixas raras, algumas delas nunca ouvidas nem pelos melhores pirateiros do mercado! Lançado em março de 1991, “The Bootleg Series – Volumes 1/3” era, até então, o mais completo panorama da obra de Bob lançado pela Columbia Records registrando de maneira oficial desde canções que Bob havia gravado antes do primeiro álbum, em 1961, até o magnifico “Oh Mercy”, de 1989, aqui representado pela sobra “Series of Dreams”, uma faixa “fantástica e turbulenta”, segundo o produtor Daniel Lanois, que a queria no disco, “mas a palavra final era dele (Dylan)”. Tal qual ela há cinco pepitas de ouro do álbum “Infidels”, incluindo a velvetiana versão inicial de “Tight Connection To My Heart” (aqui listada como “Someone’s Got a Hold of My Heart”) e as sensacionais “Tell Me”, “Foot of Pride” e, principalmente, “Blind Willie McTell”, que fizeram o biografo Brian Hilton lamentar que Bob não tenha feito deste disco um álbum duplo (“Teria rivalizado com ‘Blonde on Blonde’”, acredita) e muitos momentos geniais que validam a máxima de que as “sobras” de Bob Dylan são melhores do que grande parte dos álbuns oficiais “dos outros”. Não é exagero.

Das 58 raridades, 25 são do período que vai de 1961 a 1963, desenhando um Dylan muito mais completo e complexo. Por exemplo, o material final escolhido para os dois primeiros discos – “Bob Dylan” (1962) e “The Freewheelin’ Bob Dylan” (1963) – era muito mais leve, com requintes de humor, enquanto o que ficou de fora exibe traços de amargura, raiva e frustração. Basta comparar a sarcástica e bem humorada “Talking New York”, gravada em novembro de 1961 e presente no disco de estreia, com a amarga e hostil “Hard Times in New York Town”, registrada em um quarto de hotel em dezembro de 1961, e inédita até 1991. “Subterranean Homesick Blues” surge numa versão demo acústica deliciosa, que serviu como guia para a banda eletrificada soltar os cachorros no arranjo. Outra guia comovente é a de “Like a Rolling Stone”, tocada por Bob em andamento de valsa para climatizar os músicos na sua grande criação. Há mais: da demo de “If Not For You”, do álbum “New Morning”, com George Harrison na guitarra (ele depois regravaria a canção no clássico “All Things Must Pass”, de 1970) a quatro lendários takes nova-iorquinos da obra prima “Blood on the Tracks” (1975) até uma pérola desconhecida das sessões do álbum (evangélico) “Shot of Love” (1981) chamada “Angelina”. Com cerca de quatro horas de duração, “The Bootleg Series – Volumes 1/3” merece atenção, dedicação e respeito. Mas, como descobriríamos futuramente, ainda é só a ponta do iceberg – só para se ter uma ideia, a versão pirata “The Genuine Bootleg Series” (dividida em quatro volumes de fácil acesso no Youtube – ou aqui: 1, 2, 3, 4) soma quase 10 horas de raridades. Mergulhe!

Especial Bob Dylan com Café

março 30, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 85: Copyright Collection

Os últimos quatro cafés lidavam com material raro de Bob do inicio dos anos 60, grande parte dele ou pirateada na cara de pau por um mercado paralelo que existe desde o final dos anos 60 buscando saciar fãs insaciáveis ou ainda recentemente lançados de maneira oficial (pero no mucho) numa brecha da lei de direitos autorais da Inglaterra. As Bootleg Series surgiram para dar vazão a esse material raro disputado por fãs no mercado paralelo, mas muita coisa ainda estava engavetada, e para tentar driblar a Lei de Direitos Autorais europeia, a Columbia Records decidiu oficializar o material de 1962 que estava prestes a completar 50 anos em 2012 (e entrar em domínio público) lançando-o numa tiragem limitadíssima de 100 cópias (um conjunto de quatro CDRs) apenas para registro de lançamento e de computo de direitos autorais, repetindo a artimanha em 2013 (com o material de 1963), 2014 (1964), 2015 (1965) e 2016, único ano que teve amplo lançamento com todos os shows de Dylan no período reunidos em um box com 36 CDs (tema de um café futuro).

A “The 50th Anniversary Collection: The Copyright Extension Collection, Volume 1”, que mapeia as raridades de 1962, mergulha nas sessões de “The Freewheelin’ Bob Dylan” com mais de 50 gravações inéditas e ainda oficializa as Mackensie Home Tapes, o set na Gerde’s Folk City e o famoso show no Finjan Club, em Montreal (um dos bootlegs mais famosos do período). Há ainda seis faixas no Gaslight Café que ficaram de fora do álbum lançado em parceria com a Starbucks. Imperdível. No “Volume 2”, que mapeia o material raro de 1963 de posse da gravadora, Dylan já caminhou quilômetros e está com um domínio incomparável de sua arte (basta colocar lado a lado a sessão de 1962 no Gerde’s Folk City com a de 1963 para perceber a evolução). Muito do material que abastece diversos bootlegs (o “Many Faces of Bob Dylan” incluso) batem ponto aqui como a sessão imperdível no Studs Terkel Wax Museum, em Chicago, e o registro potente no Town Hall, que nunca foi registrado oficialmente porque, aparentemente, o microfone do violão está muito próximo e Bob o toca diversas vezes, prejudicando o registro. O terceiro volume da coleção (lançado em nove vinis em 2014 mapeando o ano de 1964) reúne material de um show na TV em Toronto, a fita Eric Von Schmidt’s House (outro bootleg famoso finalmente oficializado) e shows em Londres, Filadélfia, São José e São Francisco (alguns de baixa qualidade) além de registros das sessões do álbum “Another Side Of Bob Dylan”.

O quarto volume lançado da série (2015) lança luz sobre material de 1965, e mapeia a turnê acústica em material geralmente de qualidade bem baixa, mas vale atenção ao concerto (em excelente qualidade) no Free Trade Hall, em Manchester (um ano antes da revolução sônica que rendeu o grito de Judas em 1966), e também ao show da BBC. Após 149 músicas ouvindo Bob ao violão acompanhado de sua gaita, o registro ensandecido de “It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry” com banda (e Michael Bloomfield solando loucamente) no Newport Festival 65 talvez dê uma pequena ideia da loucura que foi essa reviravolta no mesmo evento que o levou às massas nos anos anteriores. E essa é a canção que divide as fases neste volume das “The Copyright Extension Collection”: a partir daqui, registros no Hollywood Bowl, em Forest Hills e em Berkeley trazem os shows metade acústico, metade elétrico, para desespero dos puristas. Lançados de maneira limitada, os quatro boxes estão obviamente esgotados e os poucos disponíveis em sites de revenda custam pequenas fortunas que podem ir de R$ 1500 até R$ 10 mil. Itens raros, mas que valem muito a audição. Porém, para quem não conseguiu pegar os boxes ou acha um exagero todo esse material, a Columbia lançou em larga escala em 2018 o CD duplo “Live 1962 – 1966: Rare Performances from The Copyright Collections”, um best of com 26 canções retiradas da coleção. É uma boa introdução a esse material imperdível.

Especial Bob Dylan com Café

setembro 19, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 81: The Gaslight

Bob Dylan com Café, dia 81: O acervo de raridades de Dylan é imenso, e ainda que as Bootleg Series tenham dado vazão a uma enorme quantidade de material antes só encontrado no mercado de piratarias (e a versão com 18 CDs do volume 12, “The Cutting Edge 1965–1966”, talvez seja o maior exemplo), muita coisa ainda não foi oficializada pela Columbia Records, principalmente o que diz respeito à fase inicial de Bob. Entre os álbuns piratas mais famosos desse período estão as “The Minnesota Hotel Tapes 1 e 2” e “Live Finjan Club, Montreal 62” (estes três CDs circulam “oficialmente piratas” devido a lei de direitos autorais do Reino Unido) além de uma série de três fitas gravadas no Gaslight Café, no Greenwich Village, entre setembro de 1961 e outubro de 1962.

Deste último, o primeiro bootleg veio à tona em 1973 com 17 canções das sessões de 1962 (a sessão de 1961 é facilmente encontrada hoje em dia, inclusive engordando como extra uma versão em CD das “The Minnesota Hotel Tapes”). Em 2005, a Columbia Records pinçou 10 faixas das 17 das sessões de 1962 para oficializar neste “Live at The Gaslight 1962”, lançado numa parceria da gravadora com a rede de cafés Starbucks – uma 11ª, “No More Auction Block”, apareceu em “The Bootleg Series Volumes 1–3”, então seis permanecem inéditas (entre elas, versões para “Kindhearted Woman Blues”, de Robert Johnson, “Ain’t No More Cane”, de Leadbelly, e “See That My Grave’s Kept Clean”, de Blind Lemon Jefferson).

Das 10 que aparecem neste CD, três são faixas autorais da fase inicial de Dylan, sendo que duas delas apareceriam em “Freewheelin”, de 1963 (os clássicos “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”, tocados com paixão e crueza adolescente) e a terceira, “John Brown”, só seria oficializada no “MTv Unplugged” (1995). As outras sete são canções tradicionais como “Cocaine Blues” (1929), “Rocks and Gravel” (adaptação de Dylan para “Solid Road”, de Brownie McGhee, e “Alabama Woman”, de Leroy Carr, num arranjo que combina as duas músicas em uma só), “Barbara Allen” (canção folclórica escocesa de 1665!) e “The Cuckoo” (originalmente gravada por Clarence Ashley em 1920), entre outras. Uma pepita de ouro e de história.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 29, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 79: Cutting Edge

Dentro do processo de “auto-pirateação” proposto pela série Bootleg de Bob Dylan (iniciada em 1991 com o primeiro lançamento triplo), este volume 12 é, provavelmente, o ponto mais alto de qualidade, não só porque cobre um dos principais momentos da carreira de Bob (o período de 65/66 em que ele abandona o gueto folk e se transforma em um grande pop star devido a tríade mágica de álbuns “Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”), mas porque a liberação do material deste período foi praticamente completa, permitindo um mergulho aprofundado nas ideias musicas de Dylan nesses longos dois anos revolucionários.

Lançado em novembro de 2015, “The Bootleg Series Vol. 12: The Cutting Edge 1965–1966” foi apresentado em três versões: a mais simples era o tradicional CD duplo da série com 36 takes alternativos de clássicos como “Just Like a Woman”, “Desolation Row” e “Subterranean Homesick Blues” somando 145 minutos numa edição “best of” do box; a versão Deluxe compilava seis CDs num mergulho mais aprofundado sobre a gravação de diversas faixas do período (o CD 3, por exemplo, praticamente decupa toda a gravação de “Like a Rolling Stone” em 20 faixas); e, por fim, uma sonhada Collector’s Edition trazia em 18 CDs e 9 compactos de 7 polegadas praticamente todo o material gravado por Dylan no período somando quase 20 horas de gravações (vendido a 600 dólares na época do lançamento, essa caixa limitada e numerada – abaixo – hoje em dia pode ser encontrada entre R$ 4 mil e R$ 10 mil).

Via de regra, as críticas reforçam que o volume duplo mais simples compila os melhores momentos dos 18 CDs (a curiosidade mais interessante dos 20 tracks de “Like a Rolling Stone”, por exemplo, está presente no CD duplo, um fragmento em arranjo de valsa que mudou o rumo da gravação), mas o box sêxtuplo traz itens interessantes para fãs principalmente no CD 2 (com variações de “It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry”) e no CD 5 (com takes de “Visions of Johanna”, “She’s Your Lover Now” e “Leopard-Skin Pill-Box Hat”). Ou seja, a versão dupla funciona realmente como um Best Of dos dois boxes seguintes, mais indicados para fãs e completistas. Porém, ouça com atenção essa versão dupla, pois ela aprofunda o olhar de maneira muitas vezes poética sobre vários clássicos do período mais fértil da carreira de Dylan. Para mim, um dos pontos mais altos das “Bootleg Series”.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 23, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 77: Basement Complete

Sempre pairou uma magia mística sobre as “Basement Tapes”, as fitas gravadas das sessões de Bob Dylan na companhia da The Band tocando no porão de uma casa rosa entre junho e outubro de 1967, um ano após Bob sofrer um acidente de moto e tirar férias das turnês até 1974. O primeiro a desdizer essa mística foi o próprio Robbie Robertson: “As sessões foram feitas com bom humor. Era algo entre o ultrajante e o cômico. Foi um tanto irritante quando as músicas começaram a ser pirateadas. Lançamos o disco (em 1975) na base do ‘já que estão documentando isso, que seja em boa qualidade’”. Do outro lado, o crítico Greil Marcus dizia que “certas linhagens fundamentais da linguagem cultural americana foram resgatadas e reinventadas” naquelas sessões. Hummm.

Veja bem, o material era de qualidade tão duvidosa que ao selecionar canções para o álbum duplo lançado em 1975, Robbie incluiu oito canções da The Band entre as 24 faixas, quatro delas nem gravadas no porão da Big Pink, para tentar levantar a qualidade do álbum. Em seu texto na The New Yorker em 1999, Alex Ross dava a real: “Dylan estava farto do papel de messias e produziu dezenas de números dolorosos da velha escola (no porão da Big Pink)”. Dúvidas? Em novembro de 2014, dentro das Bootleg Series, a Columbia Records enfim liberou a integra das sessões totalizando 138 músicas divididas em seis CDs, e como bem definiu a crítica de Sasha Frere-Jones na The New Yorker, “para cada momento de revelação há cinco descartáveis”.

Ou seja, é possível dizer que existem no máximo uns 25 números que realmente interessam neste compêndio, o que lança luz muito mais sobre os exageros da crítica da época do que, necessariamente, sobre o próprio material, já que Dylan & The Band não o estavam gravando com a finalidade de lança-lo, e sim de registrar demos para serem oferecidas a outros artistas e se divertirem destroçando clássicos do rock e do folk (de John Lee Hooker a Johnny Cash, de Hank Williams e Pete Seeger a Curtis Mayfield). Observado e ouvido com distanciamento, “The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete” é um passatempo interessante (principalmente para Dylan e a The Band). Criticamente não deve nem ser levado em consideração, pois não exibe um milésimo da genialidade pré (“Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”) e pós (“Blood on The Tracks”) “Basement Tapes”. São alguns grandes músicos se divertindo num porão. E só. Divirta-se também, mas sem exageros (de preferência seguindo esse faixa a faixa esclarecedor publicado no site oficial de Dylan em 2014).

Especial Bob Dylan com Café

agosto 20, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 76: World Tours

O mundo das biografias não autorizadas populares é, na maioria dos casos, um ambiente de extrema pilantragem e canalhice em que um determinado autor reúne algumas entrevistas “bombásticas” de dois tipos de pessoas: gente que no máximo cruzou a mesma rua que o biografado, quando muito, e familiares e amigos que entram nessa pelo dinheiro, afinal, se o biografado é rico e famoso, qual o problema de se ganhar alguns trocados nas costas dele, não é mesmo.

Este “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” (2005) também é pilantragem, mas é diferente das outras porque parece feito de coração. É sério. O diretor Joel Gilbert se vangloria de ter a melhor banda cover de Bob Dylan do mundo, a Highway 61 Revisited, e centrou o foco de seu documentário no fotógrafo Barry Feinstein, que acompanhou Dylan em seu início de carreira e em suas duas maiores turnês mundiais, além de ser responsável por fotos clássicas tais como todas deste post além das capas dos álbuns “Freewheelin” (1962), “The Times They Are A Changin‘” (1963) e “No Direction Home”, trilha sonora do documentário de Martin Scorsese.

Como já comentando por aqui, a famosa turnê de Bob Dylan em 1966 (que culminou no grito de “Judas” vindo da plateia durante um show em Manchester, na Inglaterra, flagrado no álbum “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert”, lançado em 1998) o trazia pela primeira vez alternando um set acústico, para deleite dos antigos fãs, com um barulhento set elétrico (acompanhado pela futura The Band), uma heresia que deixava algumas pessoas tão transtornadas que princípios de confusão sempre aconteciam nessa parte da apresentação. A turnê terminou abruptamente após um acidente de moto de Dylan, e, traumatizado, ele aproveitou para tirar 8 anos de férias das turnês, só retornando em 1974.

Buscando mapear esse período, “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” traz entrevistas com o cineasta D. A. Pennebaker (diretor do obrigatório “Don’t Look Back”, documentário oficial da turnê de 1966), do jornalista Al Aronowitz (que apresentou Dylan aos Beatles), e de A. J. Weberman, o cara que remexia o lixo de Dylan nos anos 70, foi processado pelo músico, e está criando um dicionário para se entender Bob Dylan. No fim das contas, vale pelas excelentes fotos de Barry Feinstein, pela cara-de-pau de Joel Gilbert e por trechos impagáveis, como a reconstituição do (suposto) acidente de moto que afastou Dylan das turnês e da mídia em 1966.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 16, 2018   No Comments

Dylan com café, 72: Scrapbook 56/66

Bob Dylan com café, dia 72: Na esteira do lançamento do essencial documentário “No Direction Home” (2005), de Martin Scorsese, e de sua trilha sonora caprichada (“The Bootleg Series 7”), surgiu como complemento oficial este livro, “The Bob Dylan Scrapbook: 1956-1966” (2005), escrito por Robert Santelli, então diretor da Experience Music Project de Seattle (hoje Museum of Pop Culture) e curador da exposição Bob Dylan’s American Journey. Como observa a crítica do jornal londrino Independent na época do lançamento do livro, “o texto do especialista em Dylan não oferece nenhuma nova percepção surpreendente, mas isso não importa porque o ponto aqui é mostrar como o talento e a carreira de Dylan se desenvolveram”.

Para acompanhar esse desenvolvimento, o leitor tem a mão dezenas de xerox de documentos, letras escritas a mão pelo homem e reproduções de itens interessantes do período além de um CD com 45 minutos de áudio divididos em 14 faixas, 10 delas de falas extraídas do filme de Scorsese e outras quatro entrevistas de Dylan colhidas de rádios entre 1961 e 1966. Um texto do New York Times rememora: “Em 4 de novembro de 1961, após trabalhar em clubes do Greenwich Village, Bob Dylan fez sua estreia em Nova York no Carnegie Chapter Hall. Dos 225 lugares, 55 estavam ocupados. Menos de dois anos depois, ele era a estrela reinante do movimento das canções de protesto. Mais dois anos, e uma geração discutia se era certo que ele fosse elétrico – não que ele prestasse atenção”.

Este “The Bob Dylan Scrapbook: 1956-1966” traz a reprodução do folheto que apresentava este primeiro show de Dylan, além de cópias das letras manuscritas de “Talkin’ New York”, “Blowin’ In The Wind”, “Gates of Eden”, “It Ain’t me Babe” (escrita num papel do May Fair Hotel, em Londres) e “Chimes of Freedom” (escrita num papel do The Waldorf Astoria, em Toronto), entre outras, e reproduções dos cartazes (Folk City, “Don’t Look Back”, Newport Folk Festival), do convite de Dylan para a Marcha de Washington (quando Martin Luther King fez o discurso “I have a dream”), de releases (“Rebel with a cause”, dizia um texto da Columbia Records) e diversas outras curiosidades imperdíveis para fãs do homem.


Especial Bob Dylan com Café

julho 24, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 69: Bangladesh

Bob Dylan com café, dia 69: No dia 01 de agosto de 1971, Bob subia em um palco pela terceira vez em cinco anos, mais precisamente desde o acidente de julho de 1966, para um concerto beneficente organizado por George Harrison no Madison Square Garden, em Nova York. Antes disso, Dylan tinha se apresentado apenas junto com a The Band no Carnegie Hall num tributo em homenagem a Woody Guthrie em janeiro de 68, e no Festival da Ilha de Wight em agosto de 69, por uma quantia enorme de dinheiro (50 mil dólares) conseguida por seu então empresário, Albert Grossman (este show está presente no volume 10 das Bootleg Series). “Depois de uma série de desastres naturais e uma sangrenta guerra civil, o recém-criado estado de Bangladesh estava enfrentando um desastre humanitário em 1971”, conta Howard Sounes em “Dylan, a Biografia”, lançada em 2002 no Brasil. “O músico Ravi Shankar levou a situação do povo de Bangladesh à atenção de George Harrison na esperança de que ele pudesse fazer alguma coisa para ajudar. Depois do sucesso de um disco (“All Things Must Pass”) e de um single no primeiro lugar das paradas, o ex-beatle organizou dois shows beneficentes monumentais no Madison Square Garden, um de tarde, outra na noite de 01 de agosto de 1971 (com cerca de 20 mil pessoas em cada sessão). Os shows seriam gravados para um álbum ao vivo e um filme, e os lucros iriam para a UNICEF”, explica Sounes.

Após uma primeira parte da apresentação (com participação de Eric Clapton, Ravi Shankar e Billy Preston), assim que terminou de tocar sua “Here Comes The Sun”, George olhou para o set list preso no corpo de sua guitarra e o próximo número trazia apenas a palavra “Bob” seguida de uma interrogação: “Eu olhei ao redor e Bob parecia tão nervoso, mas ele veio”. E então Harrison anunciou seu convidado especial: “‘Gostaria de chamar um amigo de todos nós, o senhor Bob Dylan’. Bob entrou em cena usando brim, com um violão Martin pendurado no ombro e uma armação de gaita em torno do pescoço. Ele estava muito parecido com o cantor folk dos velhos tempos, e foi recebido com entusiasmo, acompanhado na guitarra por Harrison, no baixo por Leon Russel e no pandeiro por Ringo Starr”, completa o biógrafo. Neste dia, Bob tocou “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, “It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry”, e poderosas versões de “Blowin’ in the Wind” e “Just Like a Woman” além de “Mr. Tambourine Man”, todas lançadas no lado cinco do vinil triplo que se seguiu (a versão em CD trouxe de brinde ainda “Love Minus Zero/No Limit”, com intro de “If Not For You” – que chegou a ser testada na passagem de som), e que fez um imenso sucesso, conquistando ainda um Grammy de Melhor Álbum do Ano em 1973. “Bob adorou a emoção de se apresentar após um longo período de inatividade”, pontua Howard Sounes, mas demoraria ainda mais três anos para que ele voltasse às turnês. Curiosidade: uma das fotos do show, de Bob conversando com George, foi usada em uma coletânea de Dylan lançada no mesmo ano (cortando Harrison da foto).

Especial Bob Dylan com Café

julho 9, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 68: George Harrison

Bob Dylan com café, dia 68: No dia 01 de maio de 1970, Bob Dylan entrava no estúdio B da Columbia Records, em Nova York, para dar início ao processo de gravação de um novo disco, “New Morning”, que seria lançado em outubro do mesmo ano. Naquele dia, porém, Bob tinha um acompanhante especial no estúdio: George Harrison. “Let It Be”, o disco derradeiro dos Beatles, seria lançado uma semana depois, no dia 08 de maio, mas George – tanto quanto Paul e John – já estava dedicado a carreira solo, preparando o vindouro disco triplo “All Things Must Pass”, que sairia em novembro de 70. Bob e George estavam em pleno processo de pesquisa e construção de novos discos (George entraria no estúdio Abbey Road no dia 26 de maio para começar a gravar), mas o encontro de 01 de maio visava uma primeira grande aproximação, que aumentaria em “The Concert For Bangladesh” (1971, vídeo abaixo) e se concretizaria nos anos 80, com o Traveling Wilburys.

Em três horários de gravação (14h30 às 17h30; 18h30 às 21h30 e 22h30 às 01h30 do dia seguinte) somando 12 horas de estúdio, a dupla – escudada por Charlie Daniels (baixo) e Russ Kunkel (bateria) com Bob Johnston no teclado em três faixas – registrou 26 músicas em 37 execuções, com foco no trabalho em faixas como “Sign on the Window” e “If Not for You”, ambas com cinco takes, e “Time Passes Slowly”, tocada quatro vezes. A grande maioria do set, porém foi de relaxamento com Dylan na guitarra, piano e voz e George Harrison na guitarra e backing tocando canções de Carl Perkins (“Matchbox” e “Your True Love”), Everly Brothers (“All I Have to Do Is Dream”), Sam Cooke (“Cupid”) e Phil Spector (“Da Doo Ron Ron”) além de canções de Dylan (“Just Like Tom Thumb’s Blues”, “Gates of Eden”, “Rainy Day Women#12 & 35” e “One Too Many Mornings”, entre outras) e até “Yesterday”, de Lennon & McCartney, cantada por Bob. Era para ser uma sessão secreta, mas eis que a revista Rolling Stone que chegou às bancas no dia 28 de maio entregava o encontro dizendo que “Dylan e Harrison se deram bem, e passaram a maior parte do tempo com Dylan cantando canções dos Beatles e George cantando canções de Dylan”.

A reportagem ainda avisava que o destino do material era desconhecido, e pouco dessas sessões apareceram oficialmente nos últimos 50 anos: um dos takes de “If Not for You” marcou presença no primeiro volume (triplo) das Bootleg Series, do começo dos anos 90. Outros dois números, “Working on a Guru” e “Time Passes Slowly”, apareceram em “The Bootleg Series Vol. 10 – Another Self Portrait” (2010). E só (ainda que alguns acreditem que a versão de “Sign on the Window” usada em “New Morning” seja dessa sessão com George não creditado). Dylan continuaria trabalhando no material antes mesmo do polêmico “Self Portrait” chegar às lojas em junho enquanto George iria levar “If Not for You” e uma parceria com Dylan, “I’d Have You Anytime”, para o álbum “All Things Must Pass“. Se nunca circulou oficialmente, o conteúdo das sessões ganhou dezenas de versões em bootlegs (ainda que 14 das 37 gravações tenham sido liberadas) e é facilmente encontrável na web transformando-se num item bastante interessante para fãs (de Dylan e dos Beatles).

Especial Bob Dylan com Café

julho 1, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 67: Woodstock 94

Bob Dylan com café, dia 67: Não é segredo que os produtores do primeiro Woodstock, em 1969, desejavam ardentemente a participação de Bob Dylan no festival. Porém, Dylan vivia uma fase tranquila e familiar na época (representada pelo álbum “New Morning”) e, desde o acidente de moto de 1966 (e o final antecipado e turbulento daquela turnê), evitava grandes audiências. Já em 1994, o cenário era outro. Visando festejar 25 anos do primeiro Woodstock, os organizadores foram atrás de Bob, que havia recuperado o olhar carinhoso da crítica com o excelente “Oh Mercy” (1989), mas sentia suas novas canções próprias tão frágeis que decidiu embarcar em uma série de discos de covers de countrys rurais (“Good as I Been to You”, de 1992, e “World Gone Wrong”, de 1993), ainda que o establisment pop começasse uma série de homenagens (as “The Bootleg Series” se iniciam em 1991 e o grande show “The 30th Anniversary Concert Celebration” é de 1993). Porém, feliz surpresa, Bob aceitou o convite da produção do Woodstock 1994, deu uma pausa na Never Ending Tour e preparou um show especial, que, das 12 canções, traz apenas duas músicas “recentes”: a abertura com “Jokerman” (do álbum “Infidels”, de 1983) e “God Knows” (de “Under the Red Sky”, de 1990).

Entre as outras 10 faixas, apenas clássicos sessentistas do quilate de “Just Like a Woman”, “Masters of War”, (uma versão lenta de) “It’s All Over Now (Baby Blue)”, “Rainy Day Women” e “Don’t Think Twice”, entre outras. A execução é boa, ainda que Bob, como de praxe, não exiba tanta paixão na execução. Aliás, nas três primeiras faixas, ele canta apressado, como se tivesse prestes a perder o último trem para o paraíso, mas depois e o show flui bem e agradavelmente. Registrada em diversos álbuns ao vivo de Dylan (de “Before The Flood” a “Live at Budokan”, de “Real Live” a “MTV Unplugged”), “All Along the Watchtower” surge novamente hendrixiana (Bob sempre disse que a versão de Jimi Hendrix, lançada seis meses após sua gravação original, era sua predileta e desde então toca a música no arranjo do guitarrista) num bom DVD que faz uma ponte interessante entre os demais registros ao vivo de Dylan, e que, devido ao sucesso da apresentação, abriu as portas para o “Unplugged MTV” em 1995. O homem (que nunca foi embora) estava de volta.

Especial Bob Dylan com Café

junho 27, 2018   No Comments