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16 cervejas da Thornbridge Brewery

Após a revolução cervejeira artesanal estadunidense, que surgiu a partir dos anos 80 buscando acrescentar sabor e liberdade numa batalha contra a cerveja cada vez mais desinteressante mainstream vendida no país, algumas escolas clássicas, do dia para a noite, envelheceram alguns séculos. Ao revisitar receitas e leva-las, muitas vezes, ao exagero, os norte-americanos acabaram criando uma nova escola, mas, ainda assim, as escolas clássicas de cerveja são a base de uma cultura milenar.

A escola inglesa, por exemplo, segue muitas vezes injustiçada. Exemplos existem aos montes, mas é normal perceber neófitos que bebem uma India Pale Ale inglesa reclamarem da falta de exagero made in USA, pois não entendem que a IPA, quando nasceu, era exatamente assim. O que os norte-americanos foi eleva-la a um novo patamar local, que, muitas vezes, não tem a ver com o que acontece realmente no mundo cervejeiro das terras da Rainha.

Ainda assim é interessante perceber que toda base da cultura cervejeira moderna foi construída por belgas, alemães, tchecos e ingleses, e que agora eles passam a sofrer influências do mundo externo, no geral, e da escola norte-americana, no particular. Um bom exemplo deste caso é o cardápio caprichado da Thornbridge, cervejaria fundada em 2005 em Derbyshire, no Reino Unido, cuja missão parece ser traduzir com elegância para os britânicos os avanços conquistados pela escola norte-americana.

O caminho que a Thornbridge encontrou foi o de utilizar lúpulos bastante aromáticos, deixar o malte caramelo em segundo plano, mas sem elevar excessivamente o álcool, afinal nas ilhas, a cultura da botecagem é coisa séria e ninguém quer ficar bêbado antes do sino soar no pub às 23h. Para conferir isso na prática, 16 rótulos diferentes da cervejaria inglesa mais badalada da atualidade aportam no Brasil via importação da Suds Insanity, responsável também por estrear a sueca Nils Oscar do lado debaixo do Equador.

Numa tarde e noite de quarta-feira no Empório Alto de Pinheiros, em São Paulo, a equipe da Suds Insanity reuniu a imprensa para apresentar os 16 rótulos da Thornbridge Brewery que aportam no país. E a abertura não poderia ter sido melhor para exemplificar o quão fora da caixinha inglesa são as cervejas dos caras: a Raindrops on Roses (5.3% ABV) é uma witbier (que lembra pouco uma witbier clássica) com pétalas de rosas bastante presente no aroma e no paladar. Venceu o “The Home Brew Challenge 2016”. Uma bela surpresa.

Na sequencia, Bang Saray (4.5% ABV), uma Thai Pale Ale com limão Kaffir e capim-limão (também bastante presente) que segue a linha doidinha da anterior em outra boa surpresa (não inglesa). A The Wednesday (4% ABV) é uma English Pale Ale bastante aromática, com lúpulos made in USA Simcoe e Citra. É a cerveja oficial do Sheffield Wednesday Football Club. A próxima foi Kipling South Pacific Pale Ale (5.2%), com lúpulo neozelandes Nelson Sauvin (por isso a brincadeira do SP) bastante presente. Bem leve e aromática. Até agora, uma paleta bem diferenciada de aromas e sabores, o que é bem legal.

Primeira Gose da série, a Mr. Smith Gose To (4% ABV) recebe adição de extrato de melancia. Bastante suavidade, muita melancia presente, acidez bem leve para o estilo. A chave aqui é refrescância. Chegamos então ao hit da casa: com mais de 100 prêmios em todo o mundo, a Jaipur (5.9% ABV) é uma India Pale Ale com seis lúpulos made in USA (Chinook, Centennial, Ahtanum, Simcoe, Columbus e Cascade) e bem terrosa. É daquelas que chamo de IPA do Atlântico (que fica entre Europa e EUA), mas com um pézinho na América. Bem saborosa, com muita percepção de aroma e paladar.

Primeira de duas Imperial IPAs da Thornbridge, a Halcyon (7.4% ABV) carrega uma interessante complexidade de lúpulos (Galaxy, Ella, Chinook, Nelson Sauvin e Branling Cross) e é extremamente saborosa e equilibrada, com 7.4% de álcool imperceptíveis e amargor suave. Uma bela surpresa. Já a outra Imperial da casa, a Huck (7.4% ABV), me soou mais comportada e tradicional, adjetivos que divido também com a Cocoa Wonderland (6.8% ABV), uma Porter com corpo bem leve e torra bem suave. A mais inglesa da série até o momento. Drinkability alto.


Juntando-se a Raindrop on Roses, eis a segunda grande estrela da noite: Fika (7.4% ABV), uma Coldbrew Coffee Porter deliciosa, com aroma de café verde e leve pimenta preta. Na boca, café em primeiro plano (incrível) e um chocolatinho suave. No final, o café verde retorna com pimenta preta. E nada de álcool! Uma delícia (principalmente se você gosta de café). O barco segue com a Wild Swan (3.5% ABV), uma White Golden Pale Ale com jeitão de Session IPA, e com a Chiron (5% ABV), uma APA mais norte-americana do que a Wednesday (que me pareceu mais interessante).

No trecho final, Tart Backwell (6% ABV), uma Sour tradicional (sem adição de frutas), o que traz a acidez para o primeiro plano; Tonttu (6% ABV), uma Red Ale Single Hop Enigma provocante; e AM-PM (4.5% ABV), uma deliciosa Session IPA com lúpulos Ella, Nelson Sauvin, Amarillo e Citra. Para fechar a conta, minha favorita da noite, que fecha o trio pessoal com a Coldbrew Coffee Porter e a Raindrop on Roses: Saint Petersburg, uma absolutamente incrível Russian Imperial Stout com lúpulo Sorachi Ace gritando lindamente no nariz e na boca. São apenas 7.4% de álcool, número baixo pruma RIS, mas um conjunto perfeito.

Todas as Thornbridge estão aportando Brasil com importação em cadeia refrigerada pela Suds Insanity, de Curitiba. Elas estão chegando em garrafas de 330 ml com preços, em média, entre R$ 23 a R$ 30. É uma cervejaria bem interessante por produzir cervejas diferentes adaptadas para um público local, que consome um baixo nível de graduação alcoólica (o ABV mais alto dessa série que aportou aqui é 7.4%!) e não necessita de exageros na receita para se destacar. Com elegância, a Thronbridge vem mudando a maneira do bebedor inglês consumir cerveja. Vá de coração aberto e com muita sede. Fiquei felizmente surpreso!

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