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1/7 canções: Workingman Blues

Publicado no Facebook em 2015

O desafio proposto (uma música por dia durante sete dias) pelo grande amigo Carlos Freitas, um mestre na canção impopular, me levou a pensar com cuidado e seriedade sobre algo que mudou radicalmente a minha vida: a música. Algumas semanas atrás comentei por aqui sobre um filme emocional que havia visto (“Alive Inside”, disponível no Netflix Brasil) dizendo: “Para quem ama a música…”. Porque para mim é simples assim: eu amo a música e ela acompanhou boa parte dos passos que dei nesses mais de 16 mil dias nessa bolota azul.

A definição de Salman Rushdie em “O Chão Que Ela Pisa” é perfeita:

“Por que a gente gosta de cantores? Onde se esconde o poder das canções? Talvez se origine da mera estranheza de se existir canto no mundo. A nota, a escala, o acorde; melodias, harmonias, arranjos, sinfonias, ragas, óperas chinesas, jazz, blues: o fato de essas coisas existirem, de termos descoberto os intervalos mágicos e as distâncias que produzem o pobre punhado de notas, todas ao alcance da mão humana, com as quais construímos nossas catedrais sonoras, é um mistério tão alquímico quanto a matemática, ou o vinho, ou o amor. Talvez os pássaros tenham nos ensinado. Talvez não. Talvez sejamos, simplesmente, criaturas em busca de exaltação. Coisa que não temos muito. Nossas vidas não são o que merecemos. De muitas dolorosas maneiras elas são, temos de admitir, deficientes. A música as transforma em outra coisa. A música nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se fôssemos dignos do mundo”.

Dentro dessa busca por dignidade, de companhia ou seja lá o que for, eu até queria buscar uma canção alegre, festeira, mas a primeira música que penso (e provavelmente as outras 99 são tão tristes quanto) quando preciso pensar em alguma música é “Workingman’s Blues #2”, de Bob Dylan, que, segundo minha Last Fm, é a música que mais ouvi nos últimos nove anos. Há algumas dezenas de coisas que me fascinam em Bob Dylan, e uma delas é toda beleza que se esconde por trás de uma aparente fragilidade vocal, que, para alguns, se intensificou neste milênio. Como escrevi no texto sobre o show em São Paulo de sete anos atrás, “não há nada mais atual que recusar o amargo, o ardido, o esganiçado, aquilo que não soa limpo (até o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia”.

Sempre que esse assunto vem à tona me lembro de Beck, que certa vez escreveu: “Gosto de gente como Bob Dylan, que faz música para sacudir a cabeça das pessoas. Odeio quem gosta de dizer que Bob Dylan canta mal, que o show dele é uma porcaria e tal… Ora, esse cara nem precisava cantar. Todo mundo devia pagar ingresso só para ver o cara que escreve aquelas canções maravilhosas”.

Oque me interessa na voz de Dylan, porém, é o efeito do tempo sobre ela, as marcas de dores, desilusões, decepções. Sempre tenho uma frase na ponta da língua: “viver é acumular tristezas”. Estranho Rod Stewart e Roberto Carlos cantando hoje em dia como se a vida fosse um paraíso, e talvez até seja… para eles, como se a naturalidade da voz simbolizasse uma pele sem rugas (e sem dramas nem histórias), mas para reles mortais viver é, cada vez mais, “pagar uma conta por dia” (uma atualização politicamente correta daquele velho ditado que versava sobre “matar leões”, e que já está devidamente antiquado).

“Workingman’s Blues #2” atualiza para os tempos modernos um velho country de Merle Haggard. Enquanto o original versava sobre como o trabalho comprara o espaço da diversão (na letra, após uma semana de batente e muito cansaço, o cara planeja sair para beber uma cerveja quando o pagamento chegar), “Working Man’s Blues #2″ avança criticando não só esse capitalismo que vendeu um sonho e acabou, no fim, comprando a alma de todos, mas também suas conseqüências, entre elas a mais visível: a divisão do povo em ricos e pobres.

Presente no grande álbum “Modern Times”, que Dylan lançou em 2006 (e que foi disco do ano em várias publicações, Scream & Yell incluso), “Workingman’s Blues #2” versa sobre a desilusão com a vida cotidiana, em que o lugar mais amado é “uma doce memória”, não o agora, não o presente, pois atualmente “dormir é uma morte temporária”. Nessa letra melancólica, Bob Dylan narra as desventuras dos trabalhadores, cada vez mais sufocados por um capitalismo voraz (“The buyin’ power of the proletariat’s gone down / Money’s gettin’ shallow and weak (…) They say low wages are a reality / If we want to compete abroad”), que muitas vezes força o individuo a situações que ele não deseja (“Well, they burned my barn, and they stole my horse / I can’t save a dime / I got to be careful, I don’t want to be forced / Into a life of continual crime”). A condução da canção destaca notas tristonhas de piano e um riff mastigado e choroso de guitarra fazendo a cama para a voz de Bob Dylan, absolutamente perfeita ao exibir as cicatrizes do tempo para contar/cantar esse blues lamento dos trabalhadores. É triste, mas é real, dolorosamente real, e sentir dor muitas vezes nos faz agir, tentar mudar a situação, ou, ao menos, refletir sobre ela.

dezembro 6, 2017   No Comments