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Posts from — julho 2015

Download: O Livro Negro da USP

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Vi uma cópia do livro exposta na Ocupação Vilanova Artigas, sobre o professor e arquiteto perseguido pela ditadura brasileira, e descobri que o livro está disponível para download gratuito no site da Adusp. Fica a dica! Sobre o documentário sobre Artigas, leia aqui

julho 26, 2015   No Comments

O quarto ap que morei em São Paulo

A saída da rua Rocha (e da casa anterior) culminou com meu período mais difícil em São Paulo: eu havia perdido dois empregos (a Folha da Manhã havia acabado com o Noticias Populares e a bolha da internet havia levado o iG Economia para o brejo) e também um local pra ficar. Era me virar ou voltar pra casa (Taubaté), e optei pela primeira alternativa: morei cerca de dois meses em uma pensão no centro de São Paulo até que uma amiga, queridíssima, me chamasse para morar com ela. Essas lembranças que ando tendo sobre as casas que morei me fazem pensar se agradeci o tanto que essas pessoas que me ajudaram mereciam. Provavelmente não, e elas foram absolutamente importantes para mim. Essa casa, por exemplo, me colocou nos eixos. A partir daqui a minha vida começa a entrar nos trilhos em São Paulo, e as lembranças que tenho é de um ano intenso de descobertas e novidades. Eu adorava a casa (no primeiro andar, e meu quarto era no fundo) e uma das coisas que mais me lembro era do caminhão do lixo parando tipo duas da manhã para retirar caçambas na Congregação Israelita, logo em frente. Mais: o casal (gay) vizinho era extremamente amigo e atencioso. Outra: cansei de tomar porres na Funhouse e voltar tateando as paredes da rua até chegar à porta do apartamento. Foi só um ano, mas foi muito, muito especial e importante.

Cenas de São Paulo

julho 18, 2015   No Comments

Um House of Cards chamado Brasil

Vivemos um momento House of Cards excelente para reflexões, afinal, Francis J. Under… ops, Eduardo Cunha decidiu romper com o governo após a presidente Dilma não intervir na citação de seu nome no escândalo da Petrobras. Dilma vem se segurando como pode, atacada pela oposição e sem apoio de seu partido, uma situação que começou ainda em seu primeiro governo, quando escreveu (ela mesma, sob o olhar de dois conselheiros e um advogado) uma nota que alertava que a compra da refinaria de Pasadena havia se baseado em “documentação falha” e “informações incompletas”.

A história é esmiuçada numa grande reportagem feita por Daniela Pinheiro e publicada na revista Piauí semanas antes da eleição do ano passado (leia aqui), e que também trazia um perfil do candidato de oposição, Aécio Neves. Daniela escreve que a carta de Dilma “caiu como uma bomba de nêutron. Baseada nela, a oposição pediu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a fim de apurar as denúncias”. E, então, algo raro aconteceu no Brasil: a corda arrebentou no lado mais forte, e presidentes de empreiteiras foram presos, além de diversos políticos.

A corrupção e o desvio de verbas acompanha a história brasileira. Em 9 de novembro de 1889, seis dias antes de proclamada a República, aconteceu o Baile da Ilha Fiscal, a última grande festa da monarquia no país. O visconde de Ouro Preto, presidente do conselho de ministros, visando reforçar a posição do Império contra as conspirações republicanas, gastou 250 contos de réis, dinheiro retirado do ministério da Viação e Obras Públicas, e que estaria destinado a socorrer flagelados da seca no Ceará. Este valor correspondia a quase 10% do orçamento previsto para a Província do Rio no ano seguinte.

De lá pra cá, nada mudou. Desvios de verbas e corrupção se transformaram em praxes partidárias, com muitos políticos (de todos os partidos) amparados em alianças visando beneficio próprio. Enganam-se, em parte, aqueles que acreditam que a corrupção seja culpa apenas do PT. Não é bem assim. Ela é culpa do PT, mas também do PSDB, do PMDB, do PP e a lista segue, aparentemente infinita, englobando praticamente todos os partidos. O que Dilma tem a ver com isso? Muita coisa. Ao se negar encobrir atos corruptos de outros políticos, a presidente se isolou tanto da câmara quanto do senado, à espera (parece) do povo.

O povo brasileiro, no entanto, parece viver um estado hipnótico. Veículos de mídia “apontam” Dilma como provável culpada do “caos” (uma meia verdade), e dá-lhe pessoas vestidas de camisa da CBF (um órgão investigado) nas ruas. Enquanto isso, 19 dos 21 deputados investigados na Operação Lava Jato não foram eleitos com votos próprios (17 deles se beneficiaram de votos excedentes vindos de colegas de legenda como Jair Bolsonaro, do PP-RJ). O sistema eleitoral falho, mas ninguém sai às ruas por reforma política, ninguém sai às ruas contra a libertação dos empresários e políticos corruptos que foram presos. Todos seguem o flautista de Hamelim, enfeitiçados.

A corrupção é um mal que atinge a todos os partidos. Se um tem o mensalão, outro tem o trensalão. Se Lula é acusado de tráfico de influência, FHC é acusado de comprar votos para no mensalão da reeleição (e manter durante os oito anos de seu mandato um procurador geral que engavetou mais de 600 processos criminais contra funcionários do governo). Se um tem o Petrolão (que, conforme anda a carruagem, recebe membros de diversos outros partidos), outro tem a Privataria. A sujeira está em todos os cantos, e, nessa hora, a torcida é para que o país sai mais forte de todos esses escândalos.

Sim, porque há duas maneiras de se encarar os atos de Dilma neste momento:

1) admira-la por deixar transparente uma rede de corrupção

2) odiá-la por não ter agido como os antecessores e “jogado o jogo”.

São duas opções bem distintas. A primeira, relembrando a ameaça de um empreiteiro pré-eleição de 2014, pode “parar o país”. Afinal, há tanta gente envolvida na política brasileira que tem as mãos sujas que, o mais correto, era prender todo mundo e começar tudo do zero. Se não corremos o risco de um político envolvido em um escândalo de corrupção ser indicado como um dos relatores de uma CPI (acabou de acontecer na CPI do Futebol).

A segunda opção tem mais a ver com caráter: “rouba, mas faz” é um argumento válido? Se é impossível politicar no Brasil sem se envolver com corrupção, usa-se a máquina estragada para melhorar o país? E como separar quem está “roubando para o bem do povo” daqueles que “roubam para o próprio bem”? Minha conclusão é uma só: a corrupção tem que ser erradicada, os corruptos tem que ser presos e o país tem buscar legitimidade. É possível? Talvez não, o que não nos impede de desejar.

Alguns dizem que este segundo mandato de Dilma é ineficiente, que a inflação está aumentando, que a cotação do dólar está fora de controle, que o número de miseráveis no país voltou a aumentar pela primeira vez em 10 anos, e por ai vai. A questão que fica é: como governar sem apoio da câmara e do senado? Sem apoio de boa parte do próprio partido? Sim, Dilma semeou isso, e fica ao seu critério, caro leitor, decidir se o ato de cultivar inimigos é bom ou não para o futuro do Brasil. A Operação Lava Jato segue. Enquanto isso, incêndios queimam arquivos sobre o trensalão. É preciso ficar de olho.

Na minha humilde opinião, tirando 1499, o ano antes da chegada de Pedro Álvares Cabral e sua turma nesta terra que ainda não tinha nome, 2014 (pelos 7 a 1) e 2015 (pelo avanço na Operação Lava Jato) são, muito provavelmente, os dois melhores anos que esta nação chamada Brasil já presenciou. Se nossos descendentes vão se orgulhar disso daqui a 500 anos é outra história. Nos resta apenas tentar fazer o que achamos certo. E torcer para que ninguém manipule a votação quando estivermos dormindo. É difícil, mas é o que nos resta (ir para a rua é válido, mas precisamos, cada vez mais, mostrar para câmara e senado que estamos de olho neles).

Caso contrário continuarão tirando dinheiro da seca para fazer festas.

julho 17, 2015   No Comments

Sobre crítica musical no mundo de hoje

Perguntas de Daniel Fardin entre janeiro e março de 2013

Como você observa o cenário que a crítica musical se insere hoje?
Acredito que é um cenário interessante. A internet, em um primeiro momento, possibilitou que todos tivessem acesso à informação, e muita gente acreditou que a crítica perderia seu valor com isso. No entanto, como o tempo mostrou, o volume de informação é tão grande, que as pessoas começaram a perceber que necessitavam de alguém que lhes dissesse o que é importante ou não ir atrás. O crítico então volta a ter uma função. Ainda assim é preciso lembrar sempre que a função do crítico vai muito além de dizer sem um disco (filme ou livro) é bom ou ruim. Isso qualquer um com um blog faz. É preciso focar no espaço / tempo e entender o que aquilo tem a dizer ao mundo moderno.

Com a internet, onde o leitor pode encontrar praticamente as músicas que quiser e tirar suas próprias conclusões sobre elas, qual é a real função e importância do crítico atualmente?
Aprofundar a discussão. Olhar a música como um objeto de arte que existe há mais tempo que a internet, situar e perceber a sua função dentro da sociedade. A maioria do público para no “gosto” e “não gosto”. Não é por ai.

A internet está cheia de blogs e sites amadores que se propõem a fazer crítica musical das mais variadas formas. O que você pensa sobre o crítico amador?
É possível encontrar um grande texto em um blog da mesma forma que encontrar um péssimo texto em um jornal. Não adianta ter carteirinha de crítico e não saber explorar o mundo, e nesse ponto a internet é de extremo valor, pois abre as portas para muita gente que sabe explorar o mundo sem ter “carteirinha”. O que importa, no final, é a reflexão. As melhores surgem, normalmente, dos lugares mais improváveis.

Pra você a crítica feita na internet e na mídia impressa trabalham de forma diferente, existindo tipos diferentes de crítica para cada meio? O suporte pode interfere na crítica musical?
Interfere principalmente no espaço que cada mídia concede a cada profissional. Fazer uma resenha de mil toques em um jornal limita ao mesmo tempo em que fazer uma de 10 mil em um blog pode ultrapassar o limite. Porém é mais fácil ser conciso com 5 mil toques em um blog do que em uma revista e/ou jornal.

Para você o que o modelo online de cobertura musical trouxe de novo para crítica?
O calor do momento. Uma coisa é você ver um show, chegar ao jornal ou na revista, e preparar um texto que vai sair daqui dois dias ou, vá lá, daqui 20 dias na edição mensal da revista. Outra é você ver o show e escrever. As ideias estão mais frescas e você não tem como rearranjar depois. O que você tem é o aqui e o agora. Ou seja, ou você tem conhecimento ou não tem. Antigamente você tinha mais tempo para pesquisar. Agora tem menos, mas ferramentas mais ágeis (e traidoras – nunca confie cegamente na Wikipedia, regra número 1 – risos)

Ferramentas de indicação musical online, como Last.fm por exemplo, de alguma forma podem substituir o crítico? Como você vê o crescimento do uso desse tipo de ferramenta? Você usa alguma ferramenta do tipo?
Humm, indicação é uma ferramenta que existe desde o começo dos tempos. Você ouve legal, comenta com seu amigo, ele ouve, curte e a vida segue. Isso não é critica. Critica é analisar um objeto de cultura e entender o mundo através dele. Uso Last.Fm como um arquivo de tudo que ouvi. Para pessoas metódicas é um algo excelente. Mas não fico olhando o que as pessoas estão ouvindo. Não tenho tempo nem de ouvir tudo que preciso ouvir…

É necessário que o crítico musical tenha uma vivência na área em que se arrisca escrever?
É necessário pensar. E argumentar bem. Um cara que não tenha vivência e nunca ouviu coisas a fundo pode chegar e dizer que Beatles, por exemplo, é uma porcaria. Um texto bem argumentado e fundamentado pode causar uma boa discussão acerca do tema, mas mesmo para isso é preciso profundidade. Crítica é aprofundar uma visão sobre uma obra de arte que, muitas vezes, o artista talvez nem saiba por que fez. Se ele olhasse para o lado, ao seu redor, para a sociedade, talvez ele entendesse. Artistas, no entanto, são individualistas. Cabe ao crítico tentar entender o que aquela manifestação de arte quer realmente dizer. Arriscar escrever é válido, afinal só se cresce criticamente escrevendo e argumentando. A vivência, no entanto, vem de entender o mundo. Olhando com cuidado qualquer pessoa pode fazer isso. Mas a maioria é descuidada. Por isso existem os críticos (risos).

Uma questão que me surgiu há pouco, pra você, o que motiva o crítico amador a escrever sobre música sem ganhar – a princípio – nada em troca?
Não lembro quem escreveu, mas um jornalista disse certa vez que “parte do prazer da cultura pop é falar sobre ela”. Ainda assim, não posso falar sobre os outros, apenas sobre mim: e eu escrevo apenas por prazer de falar de um disco, de um filme, de um livro. Escrevendo e argumentando entendo melhor o meu sentimento em relação ao objeto de estudo. E, numa outra escala, acabo provocando o leitor a se interessar por aquela obra de arte. Meu interesse número 1, hoje em dia, em que o site é respeitado, é provocar o leitor, tira-lo da zona de conforto oferecendo-lhe visões interessantes, diferentes e mesmo muitas vezes discordantes sobre um objeto tal de arte. Acredito que pensando sobre cultura, uma pessoa pode pensar melhor sobre todo o resto. E o que precisamos é exatamente isso: pessoas que pensem.

Veja outras entrevistas aqui

julho 14, 2015   No Comments

Histórias de viagem: Maria e Bruges

Em 2009, na hora de montar o roteiro da viagem, decidi incluir Bruges não só por ser uma cidade mítica, mas também porque naquele fim de semana escolhido haveria uma edição do festival local Cactus com Paul Weller, Mark Lanegan, Greg Dulli, Calexico e muito mais no line-up. O festival acontece no parque central da cidade, o Minnewater, e na hora de buscar uma hospedagem escolhi uma que ficava exatamente ao lado do parque.

Assim que entramos na rua descrita na confirmação do Hostel World e, conforme fomos chegando próximo ao número, achamos estranho não existir placa ou alguma informação. Inocentemente, achei que havia reservado um hostel quando, na verdade, tinha reservado um quarto em uma casa (Bed & Breakfest). Fomos e voltamos na rua e decidimos apertar a campainha. Quem nos recebeu entusiasmadamente foi a Maria, uma pessoa muito querida.

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Assim que entramos, Maria se apresentou e, sabendo que éramos brasileiros pela ficha de confirmação da reserva, começou a conversar numa mistura de línguas e sotaques. Ela é uma nona italiana, mas que começa falando em inglês, no meio da frase emenda italiano e termina com coisas em espanhol, holandês ou todo junto e até … português, poucas palavras, mas falava, nos dizendo que a filha havia casado com um brasileiro (pode ser o inverso, minha memória anda falhando). Sinceramente: era enternecedor.

Maria nos mostrou o quarto que iriamos ficar nos alertando: a janela dava para o parque e, neste fim de semana, “irá acontecer um festival de rock ali”, ou seja, haveria barulho. Ela se acalmou assim que contei que tínhamos tickets para o festival e, então, perguntou se eu tinha um mapa da cidade (havia comprado um assim que desci do trem). Mapa na mão, ela começou a indicar os lugares legais para comermos, bebermos e visitarmos, no melhor esquema: “Foge daqui, é coisa pra turista”; “Quer comer uma boa comida feita com cerveja? Vá aqui”; “Aluguem bikes aqui”; e por ai em diante.

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Em um pequeno papel, ela escreveu um recado que funcionava como um vale desconto para passearmos em barcos pelos canais da cidade. Era só apresentar e obter o desconto com o barqueiro. Neste café da manhã da foto, ela nos repreendeu: “Vocês não comeram nada! Nem tocaram no queijo brie!” (risos) Dormimos apenas duas noites em Bruges, e foi extremamente confortável pela maneira como Maria nos recebeu. O quarto que ficamos era de uma de suas filhas, que estava aproveitando o verão europeu e as férias para viajar, deixando-o vago para alguém que quisesse visitar a cidade. Foi bastante útil para nós… e especial.

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Leia também:
– Histórias de viagem: D’akujem (aqui)
– Histórias de viagem: Raconteurs em 2008 (aqui)
– Histórias de viagem: Crianças no Louvre (aqui)
– Histórias de viagem: Um hotel em Paris e Cherry Coke (aqui)
– Dois dias no Cactus Festival 2009, em Bruges (aqui)

julho 11, 2015   No Comments

O terceiro ap que morei em São Paulo

Se a memória não estiver me traindo (o que é sempre possível), esse foi o terceiro prédio que morei em São Paulo, e acho que foi em 2001 (”Meu peito é de sar de fruta fervendo no copo d’água”, ecoa Tom Zé). Fica na esquina da Rua Rocha com a Itapeva, um quilômetro de ladeira até a Paulista (valeu Google Maps). Era uma república, algo complicado prum niilista solitário, e ainda que a experiência não tenha acabado tão bem, tenho boas lembranças desse apartamento – nenhuma delas ligada aos ensaios dominicais da Vai Vai na quadra debaixo (parecia que a bateria da escola de samba estava dentro do meu quarto) nem ao barulho da construção do prédio que começou a ser erguido em frente à minha janela (e que me acordava todo dia às 8h, pontualmente, com o barulho bastante alto – melhor que despertador). Dos bons momentos, houveram grandes batalhas de War e muitos papos legais na sala. A ladeira para a Paulista era um desafio, mas o bairro como um todo era bem… bairro mesmo, o que era bem legal.

julho 3, 2015   No Comments