Meu roteiro pelo centro de São Paulo

São Paulo, uma cidade com 11 milhões de habitantes e média de 7 mil e 400 pessoas por quilometro quadrado. Como canta Wado com certa ironia tristonha, “vem viver comigo nesse apartamento, estamos uns sobre os outros, e temos satisfação”. São Paulo é uma megalópole que exige muito de cada pessoa, mas amo essa cidade de uma forma que não consigo explicar. Nasci no Belenzinho, morei na Mooca, depois fui para o interior. Voltei um milhão de anos depois, e é Tudo Tanto, como canta Tulipa (“O banco, o asfalto, a moto, a britadeira. Fumaça de carro invade a casa inteira”), que a vontade de sumir se aconchega vez em quando.

Ainda assim, nestes meus 13 anos de morador de São Paulo, criei uma rotina pessoal que costumo seguir todos os sábados, e que diz muito sobre a minha relação com o centro da cidade. É um roteiro simples que poderia ser descrito em uma ou duas linhas: acordar -> passar na Velvet CDs (Rua 24 de maio) -> descer a rua Capitão Salomão, das lojas de DVDs -> comer um sanduíche na Casa da Mortadela (esquina da São João com a Ipiranga) -> voltar pra casa feliz. Mas é um pouco mais que isso. Numa rápida autoanalise, descobri que quase tudo que preciso está no centro de São Paulo. E tudo gira em torno deste passeio rápido de sábado.

Costumo fazer dois roteiros quando vou ao centro no sábado. Se o tempo está bom, desço a Rua Augusta a pé. Se estou com preguiça, ou o tempo está ruim, desço de ônibus. Antes de ir na Velvet CDs, resolvo alguns pequenos problemas. “Minha” costureira fica no prédio do Sindicato dos Jornalistas, quase na esquina da Ipiranga com a Rua Rego Freitas. A Helga, cabeleireira, e seu Marinho, sapateiro, ficam no mesmo prédio da Velvet CDs (a Galeria Presidente, 116). Se preciso de eletrônicos (para conserto ou alguma novidade), o destino é a Rua Santa Efigênia. Se a necessidade é material fotográfico, Galeria da rua Sete de Abril.

A Velvet CDs é o tipo de loja que o amigo Carlos Eduardo Lima sonha em seu texto Estrella Discos. Conheci a loja em 1997, numa época em que saia de Taubaté para comprar CDs na Galeria do Rock, e num desses passeios de sábado, subi a escada rolante da Galeria Presidente para conhecer a London Calling, loja que anunciava na revista Bizz desde os anos 80, mas que é bem cara. No mesmo andar (Rua Alta), encontrei a Velvet, comprei um bootleg do Belle and Sebastian, e fiquei amigo do dono, o André, que na época tinha um fanzine, o Velvet Zine, e hoje em dia é parceiro de viagens e grande amigo pessoal.

A loja é praticamente um ponto de encontro de vários amigos, e o assunto invariavelmente é cultura pop. Uma manhã encostado no balcão da Velvet CDs e você sairá mais informado sobre música e cinema do que se tivesse lido qualquer caderno de cultura de qualquer grande jornal. Já toquei em festa de aniversário da loja (que já existe há mais de 20 anos), já fui vendedor quebra-galho, e tenho para mim que se você quer escrever a sério sobre música, precisa frequentar lojas como essa, saber quais os últimos lançamentos, descobrir o que está em promoção, quem vem tocar no País, o que anda acontecendo no mundo pop.

Da Velvet, geralmente, dou uma passada rápida na Galeria do Rock. Tenho seis ou sete lojas preferidas de CDs e vinis na Galeria do Rock, e sempre dou uma olhadela na vitrine para ver o que chegou de novo e/ou usado. A Galeria do Rock também tem, no primeiro piso, um dos bons hambúrgueres do centro da cidade (para quando quero variar), mas tocamos no assunto comida mais pra frente. Melhor antes se encaminhar para a rua Capitão Salomão, paraíso de CDs e, principalmente, DVDs, com alguns itens que você nem sabia que haviam sido lançados, e muitos custando menos da metade de qualquer grande site varejista.

Descendo a Capitão Salomão em direção ao Anhangabaú, pegue a calçada da esquerda. Do começo até a próxima esquina você passará por um bom número de lojas, incluindo duas barraquinhas de CDs e DVDs (a primeira é excelente para apaixonados em séries, a segunda para lançamentos de CDs). Meu ponto preferido hoje em dia é a Neco Filmes, no número 54/58, duas lojas juntas com um belo acervo que inclui (no momento) desde raridades de Woody Allen e Pedro Almódovar até obras clássicas de Truffaut, Fellini, Godard, Rohmer e títulos raros de cinema autoral (e curiosidades como o box com todos os episódios da Caverna do Dragão). Tudo entre R$ 10 e R$ 15 (o box, R$ 60).

Após a Capitão Salomão, hora de comer o melhor sanduíche de mortadela da cidade, numa das esquinas da Rua Ipiranga com a Avenida São João. E não sou só eu que acha isso: “As quatro estrelas valem pelo conjunto. O clima do lugar é ótimo com atendimento rápido e simpático. A versão mais pedida é a com queijo e vinagrete. O pão está sempre fresco e o recheio é farto, mas não exagerado”, elogia uma repórter do Guia da Folha, em um quadro que os donos exibem com orgulho (a Casa da Mortadela foi a única a receber quatro estrelas - batendo, inclusive, os famosos lanches do Mercadão). Meu lanche preferido é o Pão com Mortadela, Queijo, Vinagrete e Bacon. Sou viciado.

Porém, há dezenas de lugares bacanas para se comer no centro de São Paulo. De um restaurante nordestino excelente (e barato) na Galeria Metropole (Restaurante Feijão do Norte), ao prato feito mais em conta da cidade (Restaurante Ita, na rua do Boticário, ao lado do Largo do Paisandu – recomendo não levar a namorada, pois o lance ali é bem true), o tradicionalíssimo Ponto Chic (com o clássico Bauru – no Largo do Paisandu), o ótimo La Farina (número 618 da Rua Aurora), o Churrasqueto (na rua 24 de Maio, quase esquina com a Praça da República) e a excelente Churrascaria Boi na Brasa (Rua Marques de Itu, 188), do Marajá (Rua Martins Fontes, 153), do clássico sanduíche de pernil do Estadão além do Sujinho da esquina da avenida Rio Branco (e dos pasteis de feira que se multiplicaram na região). Sem contar o Rei do Mate (Av. São João, 582), cobrado com justiça nos comentários abaixo, e suas miscelâneas sensacionais (meu preferido: mate gelado, açaí e guaraná).

Depois de forrar o estômago, hora de voltar pra casa. Ainda costumo dar uma passada na melhor banca de revistas do centro (na esquina da Avenida São Luís com a Praça da República – mas existem várias, algumas vendendo livros com preços ótimos) e caminhar até o Copan para uma passada no tradicional Café Floresta. É um roteiro bastante adaptável de duas ou três horas, mas que me mostra o quanto estou ligado a essa cidade. Quando penso em me mudar (Veneza é o sonho – impossível – atual), imagino que teria que descobrir todos esses lugares novamente (e muitos outros). Bate uma preguiça.

É claro que o centro de São Paulo não é só isso. Pelo contrário, é muito mais. Tem o Theatro Municipal, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Salve Jorge. Tem a Galeria Boullevard, com várias lojas de vinis, também na R. 24 de Maio, 188 (vale uma visita ao Ventania) e a Galeria Nova Barão (tem que ir na Locomotiva Discos). Tem o Edifício Martinelli. O Mosteiro São Bento (com seu pão incrível). O Pátio do Colégio. O Café Girondino. Vários prédios do Oscar Niemeyer. O Edifício Itália e seu restaurante no terraço. E com pequenas caminhadas é possível chegar ao Mercado Municipal e à Pinacoteca. Há muita coisa pra fazer no centro de São Paulo. É só desenhar o seu roteiro.

Todas as fotos por Marcelo Costa
Leia também:
- A solidão do centro de São Paulo no domingo (aqui)
- A história do Edifício Martinelli (aqui)
- Uma tarde no bairro da Liberdade (aqui)
- Meus cinco botecos preferidos em São Paulo (aqui)
- Cinco fotos: São Paulo (edição dupla) (aqui)
- Histórias: cenas da vida em São Paulo (aqui)
- CDs e vinis: Sebos e lojas bacanas em São Paulo (aqui)
- Site do projeto Viva Centro -> http://www.vivaocentro.org.br/


20 comentários
totalmente excelente, mac.
me deu saudade dos meus finais de semana de quando eu morava na cidade cinza.
mas um passeio desse sairia caro para minha pessoa.
abraço.
Mac, curti demais o seu texto. Quando estive em Sampa - duas ou três vezes apenas - fiz basicamente esse trecho que você citou, mas apenas no “feeling”, sem saber onde ir direito e sem saber o que iria encontrar. Meu guia foram apenas as imediações de alguns pontos de referência (Galeria do Rock, Velvet CD’s, Santa Efigênia) da qual eu ouço falar e leio há mais uma década. E o que me encantou em São Paulo foi a chance de poder ver/fazer/presenciar/assistir/consumir muita coisa com pouco dinheiro. Moro em Manaus então, em termos de serviços e produtos culturais, ainda temos pouco, mesmo com Internet e tudo. Passar uma tarde no centro de sampa, andando a esmo e entrando em lojas, galerias, livrarias, sebos, museus e cinemas aleatoriamente, gastando pouco e aprendendo e conhecendo muito, é um dos programas obrigatórios para quem visita São Paulo. Li seu texto e lembrei dessas minhas tardes, caminhando sem rumo e sem horário por essas ruas - “programa” que faço questão de repetir toda vez que dou um pulo por aí. Abs,
Esse lanche de mortadela é de longe o melhor de Sampa
Sou um “centrista”.
Como um fanático por gibis senti falta de alguns sebos e bancas de jornal, mas a da República com a São Luís deve ser a melhor mesmo.
Tem também o Sebo do Messias, com uma passada depois pela Padaria Santa Tereza, que é o lugar que me lembra a primeira vez que fui ao centro, e olha que faz tempo, sou de 1957.
E as lojas de CD da Capitão Salomão são um achado de fato.
O ponto Chic é caro, mas o sanduíche é foda, vale também pro Filé do Moraes, caro mas irresistível.
Vergonhosamente, confesso que não conheço a Velvet CDs, será passagem obrigatória.
Este amor que todos temos por nossas cidades, independente de qual, e quem é de fora, na maioria das vezes, não entende.
No centro de São Paulo encontramos tudo e todos.
Vivencio esse amor todos os dias e estou grata em trabalhar no coração da cidade, no Edifício Martinelli, com uma vista espetacular para a praça do Correio (no Vale do Anhangabaú) e a Serra da Cantareira no horizonte da zona norte.
A cada dia, exploro novos sítios e reinvento roteiros.
Belo texto, Marcelo! Grande incentivo aos turistas externos e aos paulistanos. Abs.
Juliana, que demais que você trabalha no Martinelli! Preciso, um dia, subir até o terraço. Fui uma vez até o terceiro andar, mas nunca fiz o “passeio completo”.
E Anísio, o Sebo do Messias tem muita coisa boa mesmo. Alias, tem vários sebos bons e lojas de gibis sim. Quem procurar acha cada coisa sensacional nesse centro!
Muito bom !
Obrigado pela citação.
Há muitos paulistanos que deveriam vir mais ao centro !
Nosso roteiro é bem parecido com o seu, Mac. Eu e Thiago vamos pelo menos uma vez por mês. Subimos a Cap. Salomão e damos uma olhada nos DVDs. Seguimos para as duas galerias (também passamos na Velvet ;)), passo nas lojas de filmes fotográficos, vamos até a galeria Nova Barão ver vinil e conversar com os amigos das lojas de discos…
Lá mesmo podemos comer uma esfiha na tradicional Casa de Esfiha Tahine ou um arrumadinho no Feijão do Norte. Dependendo do pique vamos beliscar umas frutas na barraca do Juca, no Mercadão Municipal. Adoro o centro de cidade
Que demais esse texto!!
Enquanto fui lendo fui relembrando os meus bons momentos no centro dessa cidade caótica e apaixonante.
Pena o nosso centro ser tão desvalorizado as vezes… a grande maioria mal sabe os encantos que ele esconde.
Parabens!!
Mac, tenho uma inveja (branca) não só do roteiro do seu sábado, você deve saber disso. Mas este texto aqui, com estes links todos e opções, vou deixar aqui em uma nova pasta que vou criar nos favoritos: “coisas para se fazer em SP LOGO!” e não destas coisas para se fazer antes de morrer, não.
Que saudade de Sampa…
Conheço quase todos esses lugares, mas o tempo não tem me deixado voltar.
Sempre me comove o jeito como vc fala de São Paulo. Acho que pq compartilho desse amor.
E que delícia de roteiro hein!
Baita texto! Faço roteiro parecido sempre que posso, até pq vivo indo ao centro, mas a trabalho, e mais pros lados da Praça da Sé. Essa parte entre o Paissandu e o Copan deve ser minha preferida da cidade, só nao moraria ali pq de noite a situação é lamentavel. Mas as opções para compras, lazer e alimentação sao infinitas, sem os preços caros do resto da cidade.
Só achei vacilo nenhuma citação a principal atração desse centro da cidade, o Rei do Mate! hehe
abração
Pôôõ, cobrança justíssima! Rei do Mate merece!
Anotado tudo. Próximo final de semana que passar em São Paulo, farei esse roteiro completo. Quem sabe a gente se tromba. Abraço!
Concordo plenamente, Mac, também adoro dar uma caminhada do centro no sábado de manhã, mas nunca tinha dado muita atenção a Velvet, vou sempre a London Calling gastar meu suado dinheirinho…
Mas, enfim, algo que me alucina no centro é o Mate gelado do Rei do Mate na Av. São João (quase na frente da galeria), não tem jeito, em qualquer outra loja da rede no mundo, o mate não é tão bom, simplesmente incrível, uma iguaria que só SP teria o estofo de produzir! OBS: O que tem na frente da BM&F é ótimo também.
Gosto muito também do centro cultural do Banco do Brasil e as vezes nem passo na galeria das lojas de foto, para evitar me desiludir com aquela estonteante vitrine de Leicas!
Outro voto pro Rei do Mate! Não acredito que esqueci dele. Mas a cobrança é justa!
E o André Barcinski escreveu de um ârabe bom e barato na Rio Branco -> http://www1.folha.uol.com.br/colunas/andrebarcinski/1137328-restaurante-arabe-sacia-por-r-10.shtml
Cara, adoro o centro e adoro a Velvet. No ano passado apresentei a Velvet, a London e algumas lojas da Galeria do Rock para um sobrinho de 10 anos que está aprendendo a tocar guitarra.
Sou carioca e morei em Sampa durante dois anos, na década de 1980. Aprendi a amar São Paulo, cidade que me recebeu tão bem. Sempre que aí estou, não deixo de flanar pelo Centrão.
abraço
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