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Posts from — julho 2012

Opinião do Consumidor: Blanche de Brabant

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Fundada em 1909 em Merchtem, uma cidadezinha de pouco mais de 15 mil habitantes na região flamenga de Brabant, na Bélgica, a cervejaria John Davis segue ainda sobre o controle da família, mas em 1993, ao adquirir a Timmermans Brewery, cervejaria criada em uma vila na região dos Flanders, passou a utilizar esse nome (e quadruplicar o número de rótulos). Dentre vários títulos, um dos que andam viajando pelo mundo é a Blanche de Brabant, que homenageia um herói do século 12 que pertenceu à dinastia real francesa

A cor e o aroma cítrico da Blanche de Brabant não enganam: estamos diante de uma tradicionalíssima witbeer belga. No nariz, notas frutadas e cítricas que remetem a limão, laranja, maçã, trigo e coentro – e também certa doçura. No paladar, bastante leveza. O trigo surge mais presente com as mesmas notas do aroma (limão, caramelo, maçã e especiarias – com ênfase no coentro) marcando o paladar. Segundo algumas peças publicitárias, ela pede compania de uma rodela de limão, o que dispenso: para mim, ela é ótima ao natural.

Concorrente da bastante conhecida (e popular até no Brasil) Hoegaarden (e, agora, da nacional Wäls Wit), a Blanche De Brabant perde no fiel da balança devido ao preço. A bela garrafa rolhada de 750 ml pode ser encontrada no Brasil entre R$ 40 e R$ 55 em bons empórios, o que torna seu custo beneficio elevado em comparação às concorrentes. Ainda assim, eis uma cerveja refrescante, que merece uma chance, principalmente em terras belgas, onde custa cerca de 4,50 euros a mesma garrafa de 750ml.

Blanche de Brabant
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,87/5

Leia também:
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)

julho 31, 2012   No Comments

Meu roteiro pelo centro de São Paulo

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São Paulo, uma cidade com 11 milhões de habitantes e média de 7 mil e 400 pessoas por quilometro quadrado. Como canta Wado com certa ironia tristonha, “vem viver comigo nesse apartamento, estamos uns sobre os outros, e temos satisfação”. São Paulo é uma megalópole que exige muito de cada pessoa, mas amo essa cidade de uma forma que não consigo explicar. Nasci no Belenzinho, morei na Mooca, depois fui para o interior. Voltei um milhão de anos depois, e é Tudo Tanto, como canta Tulipa (“O banco, o asfalto, a moto, a britadeira. Fumaça de carro invade a casa inteira”), que a vontade de sumir se aconchega vez em quando.

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Ainda assim, nestes meus 13 anos (em 2012) de morador de São Paulo, criei uma rotina pessoal que costumo seguir todos os sábados, e que diz muito sobre a minha relação com o centro da cidade. É um roteiro simples que poderia ser descrito em uma ou duas linhas: acordar -> passar na Velvet CDs (Rua 24 de maio) -> descer a rua Capitão Salomão, das lojas de DVDs -> comer um sanduíche na Casa da Mortadela (esquina da São João com a Ipiranga) -> voltar pra casa feliz. Mas é um pouco mais que isso. Numa rápida autoanalise, descobri que quase tudo que preciso está no centro de São Paulo. E tudo gira em torno deste passeio rápido de sábado.

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Costumo fazer dois roteiros quando vou ao centro no sábado. Se o tempo está bom, desço a Rua Augusta a pé. Se estou com preguiça, ou o tempo está ruim, desço de ônibus. Antes de ir na Velvet CDs, resolvo alguns pequenos problemas. “Minha” costureira fica no prédio do Sindicato dos Jornalistas, quase na esquina da Ipiranga com a Rua Rego Freitas. A Helga, cabeleireira, e seu Marinho, sapateiro, ficam no mesmo prédio da Velvet CDs (a Galeria Presidente, 116). Se preciso de eletrônicos (para conserto ou alguma novidade), o destino é a Rua Santa Efigênia. Se a necessidade é material fotográfico, Galeria da rua Sete de Abril.

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A Velvet CDs é o tipo de loja que o amigo Carlos Eduardo Lima sonha em seu texto Estrella Discos. Conheci a loja em 1997, numa época em que saia de Taubaté para comprar CDs na Galeria do Rock, e num desses passeios de sábado, subi a escada rolante da Galeria Presidente para conhecer a London Calling, loja que anunciava na revista Bizz desde os anos 80, mas que é bem cara. No mesmo andar (Rua Alta), encontrei a Velvet, comprei um bootleg do Belle and Sebastian, e fiquei amigo do dono, o André, que na época tinha um fanzine, o Velvet Zine, e hoje em dia é parceiro de viagens e grande amigo pessoal.

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A loja é praticamente um ponto de encontro de vários amigos, e o assunto invariavelmente é cultura pop. Uma manhã encostado no balcão da Velvet CDs e você sairá mais informado sobre música e cinema do que se tivesse lido qualquer caderno de cultura de qualquer grande jornal. Já toquei em festa de aniversário da loja (que já existe há mais de 20 anos), já fui vendedor quebra-galho, e tenho para mim que se você quer escrever a sério sobre música, precisa frequentar lojas como essa, saber quais os últimos lançamentos, descobrir o que está em promoção, quem vem tocar no País, o que anda acontecendo no mundo pop.

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Da Velvet, geralmente, dou uma passada rápida na Galeria do Rock. Tenho seis ou sete lojas preferidas de CDs e vinis na Galeria do Rock, e sempre dou uma olhadela na vitrine para ver o que chegou de novo e/ou usado. A Galeria do Rock também tem, no primeiro piso, um dos bons hambúrgueres do centro da cidade (e com bom cardápio de cervejas, para quando quero variar), mas tocamos no assunto comida mais pra frente. Melhor antes se encaminhar para a rua Capitão Salomão, paraíso de CDs e, principalmente, DVDs, com alguns itens que você nem sabia que haviam sido lançados, e muitos custando menos da metade de qualquer grande site varejista.

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Descendo a Capitão Salomão em direção ao Anhangabaú, pegue a calçada da esquerda. Do começo até a próxima esquina você passará por um bom número de lojas, incluindo duas barraquinhas de CDs e DVDs (a primeira é excelente para apaixonados em séries, a segunda para lançamentos de CDs). Meu ponto preferido hoje em dia é a Neco Filmes, no número 54/58, duas lojas juntas com um belo acervo que inclui (no momento) desde raridades de Woody Allen e Pedro Almódovar até obras clássicas de Truffaut, Fellini, Godard, Rohmer e títulos raros de cinema autoral (e curiosidades como o box com todos os episódios da Caverna do Dragão). Tudo entre R$ 10 e R$ 15 (o box, R$ 60).

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Após a Capitão Salomão, hora de comer o melhor sanduíche de mortadela da cidade, numa das esquinas da Rua Ipiranga com a Avenida São João. E não sou só eu quem acha isso: “As quatro estrelas valem pelo conjunto. O clima do lugar é ótimo com atendimento rápido e simpático. A versão mais pedida é a com queijo e vinagrete. O pão está sempre fresco e o recheio é farto, mas não exagerado”, elogia uma repórter do Guia da Folha, em um quadro que os donos exibem com orgulho (a Casa da Mortadela foi a única a receber quatro estrelas – batendo, inclusive, os famosos lanches do Mercadão). Meu lanche preferido é o Pão com Mortadela, Queijo, Vinagrete e Bacon. Sou viciado. 

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Porém, há dezenas de lugares bacanas para se comer no centro de São Paulo. De um restaurante nordestino excelente (e barato) na Galeria Metrópole e Galeria Nova Barão (Restaurante Feijão do Norte), ao prato feito mais em conta da cidade (Restaurante Ita, na rua do Boticário, ao lado do Largo do Paisandu – recomendo não levar a namorada, pois o lance ali é bem true), o tradicionalíssimo Ponto Chic (com o clássico Bauru – no Largo do Paisandu), o ótimo La Farina (número 618 da Rua Aurora), o Churrasqueto (na rua 24 de Maio, quase esquina com a Praça da República) e a excelente Churrascaria Boi na Brasa (Rua Marques de Itu, 188) além do Sujinho da esquina da avenida Rio Branco (e dos pasteis de feira que se multiplicaram na região) e da novíssima Casa Mathilde, uma incrível Doçaria Tradicional Portuguesa na praça Antônio Prado, do ladinho do Bar Salve Jorge.

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Depois de forrar o estômago, hora de voltar pra casa. Ainda costumo dar uma passada na melhor banca de revistas do centro (na esquina da Avenida São Luís com a Praça da República – mas existem várias, algumas vendendo livros com preços ótimos) e caminhar até o Copan para uma passada no tradicional Café Floresta. É um roteiro bastante adaptável de duas ou três horas, mas que me mostra o quanto estou ligado a essa cidade. Quando penso em me mudar (Veneza é o sonho – impossível – atual), imagino que teria que descobrir todos esses lugares novamente (e muitos outros). Bate uma preguiça.

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É claro que o centro de São Paulo não é só isso. Pelo contrário, é muito mais. Tem o Theatro Municipal, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Salve Jorge. Tem a Galeria Boullevard, com várias lojas de vinis, também na R. 24 de Maio, 188 (vale uma visita ao Ventania) e a Galeria Nova Barão (tem que ir na Locomotiva Discos). Tem o Edifício Martinelli. O Mosteiro São Bento (com seu pão incrível). O Pátio do Colégio. O Café Girondino. Vários prédios do Oscar Niemeyer. E com pequenas caminhadas é possível chegar ao Mercado Municipal e à Pinacoteca. Há muita coisa pra fazer no centro de São Paulo. É só desenhar o seu roteiro.

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Todas as fotos por Marcelo Costa

Leia também:
– A solidão do centro de São Paulo no domingo (aqui)
– A história do Edifício Martinelli (aqui)
– Uma tarde no bairro da Liberdade (aqui)
– Meus cinco botecos preferidos em São Paulo (aqui)
– Cinco fotos: São Paulo (edição dupla) (aqui)
– Histórias: cenas da vida em São Paulo (aqui)
– CDs e vinis: Sebos e lojas bacanas em São Paulo (aqui)
– Site do projeto Viva Centro -> http://www.vivaocentro.org.br/

julho 27, 2012   No Comments

Opinião do Consumidor: Amarcord

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Mais uma leva adquirida no Bácaro Pub, em Veneza, a Amarcord já conquista o apaixonado por cinema por seu nome reconhecível: sim, estamos diante de uma turma de amigos que decidiu homenagear Federico Fellini, não só no nome da cervajeria, mas também no de vários rótulos da casa, que tomam emprestados para si nomes de personagens de filmes do diretor. A paixão é praticamente local, pois a Birra Amarcord Artigianale foi fundada na segunda metado dos anos 90 em Rimini, cidade que foi pano de fundo para um dos filmes mais sensacionais de Fellini, e da história do cinema, o mítico “Oito e Meio”.

O sucesso da pequena cervejaria artesanal criada por amigos fãs de cinema fez com que os sócios procurassem uma cidade para uma fábrica maior, e a escolhida foi a medieval Apecchio, cidadezinha de pouco mais de 2 mil habitantes. O próximo passo: conquistar o coração de um dos brewmasters mais respeitados do mundo, Garrett Oliver, o norte-americano que estudou no Reino Unido e transformou a Brooklyn Brewery em referência mundial. Junto com os italianos, Garrett Oliver desenhou uma linha de cervejas especiais com inspiração belga, que chegou ao mercado em 2012, ainda é pouco conhecida, mas encanta.

Garrett Oliver caprichou na receita da Ama Bionda, uma cerveja que leva três tipos de lúpulo, maltes aromáticos e casca de laranja em sua receita. O aroma delicioso traz notas cítricas e florais (um pouco de coentro, talvez limão e hortelã, levemente mel) que remetem diretamente à escola belga. O paladar é bastante interessante, com um toque caprichado no cítrico em meio ao malte de trigo, mas a festa do lúpulo, com o amargor dançando com coentro, pimenta do reino e laranja num conjunto bastante refrescante. Final seco que pede mais.

Como não se apaixonar: ela é ruiva, italiana e se chama Bruna. E é tão novinha que pouca informação existe sobre ela, além de uma medalha de bronze no International Beer Challenge 2012. A Bruna, da Amarcord, segue novamente a escola belga – dubbel aqui. O aroma dança entre tostado (intenso) e adocicado (suave), mas o álcool escapa e se junta às sugestões de nozes e passas. O açúcar mascavo, presente no conjunto, é bastante perceptível no paladar, que remete mais ao álcool do que o aroma pressupõe, acompanhado de nozes, passas e café. Conforme a temperatura vai subindo, ela fica ainda melhor. Como uma belga.

Fechando o trio apaixonante da Amarcord, a deliciosa Mora, uma duplo malte que traz café e cana de açúcar do Malawi em sua formulação. No aroma, há notas dispersas de caramelo e avelã, mas quem comanda é o café (que lembra, e muito, o café italiano de botequim). Para quem esperava um café gelado, a Mora surpreende devido à cana de açúcar, que torna o conjunto adocicado, mas nem um pouco enjoativo. Pelo contrário: as notas de café são bastante nítidas, mas o melaço aconchega o amargo e o final balança entre o suave da cana de açúcar e o denso marcante do café. A questão que fica: cadê os 9% de álcool? Foda!

Onde encontrar no Brasil? Não tem… ainda. Após a chegada das Del Ducatto não deve demorar para que distribuidores brasileiros descubram essa linha especial da Amarcord (a linha tradicional – das garotas Gradisca, Tabachéra, Volpina e Midòna – não é tão elogiada nos sites especializados), mas é quase certo que ela não custará no Brasil os 4 euros (aproximadamente R$ 10) que custa em uma boa cantina, um bom pub ou mesmo um boteco de respeito na Itália. Ou seja, além do Coliseu, de Michelangelo, das massas e de Veneza (entre 10 mil outras coisas), você tem mais um bom motivo para conhecer a Itália. Vale a pena.

Amarcord AMA Bionda
– Produto: Belgian Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,37/5

Amarcord AMA Bruna
– Produto: Belgian Abbey Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,53/5

Amarcord AMA Mora
– Produto: Coffee Flavored Beer
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,76/5

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Leia também:
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Itália: Um conto cervejeiro em Veneza (aqui)

julho 26, 2012   No Comments

No camarim com Maria Rita

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Oito anos atrás, em um longo (e interessantíssimo) bate papo de quase duas horas, o músico e arranjador César Camargo Mariano analisava a carreira então iniciante da filha Maria Rita. “Ela saiu do barzinho, do show do Chico Pinheiro, e no dia seguinte, literalmente, pulou para um estágio de superstar”, comentava o pai. “É muito complicado conviver com isso, mas não é o caso da Maria Rita. Eu conheço muito bem aquela cabecinha, ela tem uma estrutura muito boa para enfrentar tudo isso”, completava, seguro, o pai.

De lá pra cá, Maria Rita gravou mais três discos e passou por todas as fases e testes que a fama exige de um grande artista, ao ponto de, hoje em dia, ela mostrar autoconfiança “como interprete e cantora em um cenário musical tão vasto e rico como o Brasil”. Após a estreia, “Maria Rita”, de 2003, vieram “Segundo” (2005), “Samba Meu” (2007) e “Elo” (2011), quatro álbuns, quatro turnês intensas (sendo que a do último álbum começou antes mesmo do disco existir). Uma boa estrada se fez.

Maria Rita me recebeu no camarim após um show transmitido ao vivo pelo Portal Terra, no final do ano passado, para uma pauta bem simples: rememorar cada um de seus discos, símbolos de fases distintas de sua carreira. Com bastante calma (mesmo com o horário apertado do voo), Maria Rita analisou seus quatro trabalhos de forma reflexiva e atenta. E soltou uma deliciosa gargalhada quando incluiu a mãe, Elis Regina, em uma playlist de artistas preferidos especial para o Sonora. “Só para ter uma mulher, né”. Abaixo, o bate papo:

Me fale de seus discos começando por “Maria Rita”…
“Maria Rita” é um disco de introdução, de apresentação. Foi o disco que fiquei mais nervosa pra gravar, mais ansiosa. Era mais ansiedade do que nervosismo. Senti uma pressão do artista iniciante que grava o segundo disco… (só que) senti no primeiro. Mas trabalhei com pessoas de absoluta confiança, que confio 100% até hoje, mais a produção do Tom Capone, um produtor eterno. (Gravar “Maria Rita”) Foi um astral muito bacana. Dediquei-me muito e fiquei muito orgulhosa de ter conseguido termina-lo da forma como eu tinha imaginado que ficaria. É também um disco generoso, porque contei com o apoio de muita gente. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Marcelo Camelo… Tenho boníssimas lembranças deste disco, desta fase.

O “Segundo”…
Ele surgiu de uma necessidade de encerrar o ciclo (do disco) “Maria Rita”, porque eu sentia que estava carregada de muita história. Teve o nascimento do meu filho, o falecimento do Tom Capone, teve o Grammy… Teve muita coisa… Senti que, principalmente após a ida do Tom (Capone), estava ficando difícil subir ao palco e cantar aquelas músicas. O “Segundo” veio dessa necessidade muito intima de um novo projeto, com novas canções que pudessem contar a história desse momento. O encarte do disco é branco, é tudo muito claro… Têm uma influência das coisas que a gente não vê, mas sabe que existe. O cenário do show tinha rendas, tapete feito á mão, o Divino Espirito Santo, uma brasilidade muita grande que remete a terra. Uma busca por um contato com algo que a gente não consegue explicar. Emoções tão diversas e adversas. Isso tudo influenciou no disco, no visual, na estética sonora. É um disco mais vazio, silencioso. Os takes escolhidos eram os que transmitiam mais emoção, não necessariamente os melhores tecnicamente. Tem erro, tem respiração fora do lugar, então é um disco muito humano.

Parece um disco de transição para o “Samba Meu”…
Possivelmente.

Que é um disco mais alegre…
Exatamente. É uma trajetória. O show do “Segundo” era explosivo e, apesar de eu não ser a compositora das canções, muito autobiográfico. Isso me possibilitou externar um monte de demônios, tristezas e histórias. E pode trazer de volta as alegrias que a vida nos proporciona.

Vamos falar das alegrias então (risos)…
Sim (risos), chegamos então no “Samba Meu”, aquela coisa ultra feminina, a feminilidade aflorada ao máximo, a alegria infundada que é o samba. Não é a toa que o samba é a maior expressão musical característica do povo brasileiro, um povo sofrido, trabalhador, dedicado, e que jamais perde a esperança, jamais perde o sorriso, jamais perde a generosidade e a alegria de estar ali, vivendo, seja qual for o desafio. (“Samba Meu”) É a minha paixão pelo samba. Fiz muita questão que fosse um show absurdamente produzido, dentro dos meus padrões. Queria troca de figurino, queria troca de cenário, queria projeção, luz rodando… Os meus outros shows eram muito mais teatrais, luz parada, e esse eu queria… brilhante, sorridente, pra cima, que é como eu sinto o samba.

Como foi a busca pelo repertório?
Não teve uma linha de raciocínio. Foram canções pelas quais me apaixonei. “Tá Perdoado”, do Arlindo Cruz, por exemplo, o Arlindo me deu antes mesmo de eu pensar em gravar um disco de samba, um ano e meio antes, talvez mais. “Escrevi essa música pra você. Não precisa gravar, fica ai. É sua”, ele disse (risos). Muito querido. E foi a primeira que despertou quando rolou a ideia de gravar o disco. Já tinha essa garantida. E as músicas vieram assim, muito femininas, o que era um desafio, porque o samba… só tem compositor homem no disco. Foi um desafio muito grande gravar essas músicas como eu queria gravar, take corrido, ao vivo, desafio atrás de desafio. Mas eu acho ótimo dar uma chacoalhada, porque cair no lugar comum dá uma preguiça danada.

E o “Elo”?
É o menos ortodoxo, o menos tradicional possível (dos meus discos). Porque veio de um ano e meio de cantoria na estrada, de um show sem nome que não tinha a menor pretensão de virar disco. O show surgiu da minha paixão e completa necessidade de estar em cima de um palco. Eu não queria fazer um disco, mas também não queria sair do palco. Arranjei um meio do caminho (risos) pra fazer algo que não era pra ser um disco nem nada. Não tinha nome, não tinha cenário. Era música em cima do palco. Quatro instrumentos e vamos embora. E o show foi crescendo, os fãs foram pedindo que eu registrasse de alguma forma as músicas do show que nunca havia gravado, e então surgiu a ideia do “Elo”. Ele ganhou esse nome porque só existe por causa da receptividade do público, e, de certa forma, da coragem dessas pessoas saírem de casa para assistir a um show que elas nem sabiam o que era. Foi intenso. O frio na barriga que eu sentia era maior. Porque tudo pode acontecer, é uma democracia, e assim como eles vão (ao show) porque eles querem, eles saem porque querem também. Era um turbilhão. Canções inéditas, canções que ninguém tinha me visto cantar. Era preciso um cuidado comigo mesma, para que todo show não derrapasse, não saísse do foco. É um presente deles para mim, uma inversão de valores que me ensinou muito. Ouso até dizer que (esse disco) me deu um grau de autoconfiança como interprete e cantora em um cenário musical tão vasto e rico como o Brasil.

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Leia também:
– César Mariano analisa carreira da filha Maria Rita (aqui)
– “Tenho saudade de botequim”, diz César Mariano (aqui)
– César Camargo Mariano e a remixagem de “Elis e Tom” (aqui)

julho 24, 2012   No Comments

Cinco fotos: Ouro Preto

Clique na imagem se quiser vê-la maior

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Cruz

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Cidade

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Coreto

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Cão

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Caminhada

Leia também:
– Aleijdinho, “um cara bom de serviço”, por Marcelo Costa (aqui)
– “Ouro Preto é para ser vista à noite”, por Marcelo Costa (aqui)
– Top dos 14 dias em Minas Gerais, por Marcelo Costa (aqui)

Veja mais imagens de cidades no link “cinco fotos” (aqui)

julho 22, 2012   No Comments

Três perguntas: Lemoskine

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Conheço Rodrigo Lemos há um bom tempo, desde quando ele tinha uma das grandes bandas de Curitiba nos anos 00, a Poléxia, e gravou um punhado de canções passionais e grandiosas. Algumas dessas canções (como a bela “Aos Garotos de Aluguel”) foram parar n’A Banda Mais Bonita da Cidade, que conta com Rodrigo na formação, mas, como ele conta no bate papo rápido abaixo, ele é uma “biscate quando o assunto é música”, e está pronto para mostrar as canções de “Toda a Casa Crua”, álbum feito sob a alcunha de Lemoskine disponível para free download aqui. Já tem até show de lançamento fechado, no Teatro Paiol, em Curitiba, 31/08.

Qual a diferença de ter uma banda e de ter um trabalho solo?
Eu estou desapegado de conceitos quando mergulho num trabalho solo… Acho que banda costuma se fechar muito e eu sou uma biscate quando o assunto é música: dou pra tudo e pra todos. Esse disco, “Toda a Casa Crua”, tem sonoridades bem distintas coexistindo e um único fio condutor; que são as letras. Gosto de pensar que está dividido em lado A e lado B, como um vinil. A maior parte do repertório surgiu muito recentemente, em meio a um turbilhão na minha vida, portanto as canções não tiveram tempo de amadurecer antes de serem gravadas. Topei o risco e agora já me sinto livre pra deixar isso para trás e investir em outras ideias.

Já tem show de lançamento marcado: como funciona Lemoskine no palco? Você sozinho? Banda? Amigos?
Sozinho, não… O Lemoskine é um projeto em torno das minhas canções, mas sempre tem mais gente tocando nas gravações e nos shows. Esse disco tem uns detalhes curiosos que deixo pras pessoas irem descobrindo… mas adianto que teve participações das mais inusitadas; de John Ulhoa (que também produziu algumas faixas) tocando “stylophone” a um coro de assovio executado por amigos que fazem parte da equipe que acompanha a Banda Mais Bonita… No show de lançamento, que acontecerá dia 31 de agosto, no Teatro Paiol, a banda será formada por Diego Perin (baixo e clarineta), Luís Bourscheidt (bateria e samples) e Vinícius Nisi (piano e samples); com participações do Ale Rogoski (bateria) e do João Marcelo Gomes (baixo acústico).

Você já tinha trabalhado com o John Ulhoa num single da Poléxia, e agora retoma a parceria no Lemoskine. O que ele acrescenta à sua musicalidade?
O John é como um visitante de outro planeta que vem, faz contato, sintoniza comigo e depois diz: “Tchau… E até a próxima, terráqueo”. Foi bem divertido poder contar com a companhia dele novamente e ele se deu super bem com o pessoal que toca junto. A gente alternava as sessões do disco com doces de restaurante, festa de YouTube e papo sério. Eu sou produtor musical também e tenho meus vícios… Contar com uma visão de fora, que te ofereça um espelho, pode ser estimulante e, no caso do John, as faixas sempre acabam se destacando. Deve ser porque ali existiu uma “simbiose”, sabe? Não foi uma idéia que começou “assim” e também terminou “assim”.

Acompanhe o Lemoskine: http://soundcloud.com/lemoskine/

julho 20, 2012   No Comments

Opinião do Consumidor: Witbier Taperebá

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A única cervejaria 100% artesanal do Pará volta a atacar. Após a boa repercussão da Bacuri Beer, os paraenses da Amazon Beer apostam novamente em uma fruta da região combinada com maltes em sua nova produção. Desta vez a fruta é o Taperebá, conhecido no sudeste como Cajá, que entra numa fórmula que pede benção às witbiers belgas, cervejas medievais bastante leves que eram feitas a partir do malte de trigo, e que tem como carro chefe a popular e especialíssima Hoegaarden.

A Witbier Taperebá segue a risca o caminho aberto pela Bacuri Beer. O aroma é bastante cítrico, tendendo a limão e laranja lima, com o próprio cajá marcando presença. O paladar, por sua vez, segue outro caminho: há um azedinho que remete a limão, mas que logo é vencido pelo agridoce da fruta, embora o amargor retorne levemente no final seco. Eis uma cerveja bem leve – cuja publicidade é voltada para o público feminino – e interessante da linha “produto nacional”, ou seja: essa você só bebe aqui.

Assim como as demais Amazon Beer, a Witbier Taperebá pode ser encontrada no formato chopp no bar da cervejaria na Estação das Docas, em Belém (na beira do rio Guajará), e acompanhada de petisco e amigos deve render uma boa tarde (embora fique a dúvida se a terceira dela deva descer tão bem quanto a primeira – o que no bar pode ser resolvido com uma rodada de Vienna Lager). Nos outros Estados, a Witbier Taperebá pode ser encontrada em garrafa 330 ml entre R$ 7 e R$ 9, ou seja, mais cara que a Hoegaarden, mas vale para sair da rotina.

Dois adendos: a Amazon Beer irá exportar suas cervejas para Estados Unidos, Asia e Europa, uma grande notícia, já que são cervejas com um toque bem brasileiro. Eles investem bastante no paladar feminino, e podem conquistar norte-americanas e francesas (que tem uma boa escola de fruit beers), mas pra não ficarem marcados como uma cervejaria apenas de menininhas seria de bom grado eles cravarem uma IPA caprichada. O segundo adendo: você pode fazer um tour virtual pela Estação das Docas, em Belém. Aqui.

Witbier Taperebá
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 2,87/5

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Leia também
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Amazon Beer: River e Bacuri, por Marcelo Costa (aqui)
– Que tal uma cerveja de banana? E de manga? (leia aqui)
– Wells Banana Bread: uma cerveja que merece ser provada (aqui)
– Kriek Boon: Pode rolar romance, por Marcelo Costa (aqui)

julho 19, 2012   No Comments

A intimidade de Paul McCartney

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Terminei ontem o meu sexto livro de 2012. “A Intimidade de Paul McCartney”, de Howard Sounes, se junta à listinha que já tem “O Resto é Ruído”, do Alex Ross, “A Visita Cruel do Tempo” e “O Torreão”, de, Jennifer Egan, “Sexo na Lua”, de Ben Mezrich e “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (além da releitura do primeiro volume de comédias de Shakespeare). 2012 está rendendo, ao menos para leitura.

Gostei bastante de “A Intimidade de Paul McCartney”. Já tinha aprovado a prosa rápida de Howard Sounes na ótima “Bob Dylan, A Biografia”, e nesta versão beatle, o jornalista vai muito além dos outros livros que pretendem rememorar os fab four. Claro, há bastante pimenta e fofoca de bastidores no livro, além do julgamento de Sounes ser bem pesado com Paul McCartney, embora ele tente relevar isso nos agradecimentos.

“Eu não tinha a intenção de critica-lo nem glorifica-lo excessivamente em sua carreira”, argumenta o jornalista. “Tentei contar a história épica de sua vida de modo verdadeiro e justo”, contemporiza. A justiça, porém, é diferente para cada pessoa, e Sounes pesa a mão em diversos momentos, como por exemplo quando esculacha (com certa razão e raríssimas exceções) quase toda produção musical solo do ex-beatle.

“A Intimidade de Paul McCartney” é um livro para ser lido com bastante cuidado, porém, tem muitos méritos. Traz histórias interessantes dos tempos dos Beatles que foram vetadas tanto na biografia (chapa branca) de Paul, “Many Years From Now”, de Barry Miles, tanto quanto no “Anthology”, mas seu maior mérito é dividir a vida de McCartney em duas fases: Beatles e carreira solo (o Paul pós Beatles é praticamente ignorado em “Many Years From Now”).

Sounes baixa a guarda com respeito (e chega a emocionar, embora solte uma ou outra farpa nas entrelinhas) no capítulo que relembra a morte de Linda e esmiúça o trágico casamento com Heather Mills, com a facilidade do acesso público aos documentos do divórcio, 68 páginas que escancaravam a vida de Paul (listando todas as suas propriedades, todo seu dinheiro e cenas do cotidiano do ex-beatle que viraram festa nos tabloides ingleses).

Fãs até devem ficar ofendidos com a pena afiada de Sounes (que pega pesado em algumas comparações com Dylan, por exemplo, quando diz que Bob, “no melhor de seus momentos, é um homem profundo, enquanto Paul, no melhor, é apenas um bom compositor – e um letrista medíocre”, ou quando esmiúça a fixação por Paul em viver do passado e continuar tocando as canções do mesmo modo de 50 anos atrás nos shows atuais, enquanto Dylan opta por recriar seu repertório toda noite), mas o saldo é bastante positivo.

Abaixo, um dos trechos hilários do livro, que, de certo modo, exibe o poder de sedução de Paul McCartney (como se suas canções já não bastassem pra isso)…

“Paul não divulgou suas experiências com a cocaína e a heroína à imprensa em 1967, isso aconteceu 30 anos depois. O pouco que ele relatou sobre ter usado LSD causou polêmica suficiente em uma época na qual os jornais estavam cheios de matérias sobre astros pop e pessoas próximas a eles presos por uso de drogas. Um amigo fotógrafo dos Beatles, John ‘Hoppy’ Hopkins, foi preso por posse de maconha no dia em que ‘Sgt Peppers’ foi lançado. Além disso, a batida policial na casa de campo de Keith Richards levou Robert Fraser, Keith e Mick Jagger a sentenças de 6, 12 e 3 meses de prisão, respectivamente. Os Stones foram soltos mediante fiança em poucos dias, esperando o julgamento do recurso, mas Fraser cumpriu quatro meses. Embora a intelligentsia considerasse as sentenças injustas, o editor do Times escreveu um elogiado editorial que ajudou os Stones a ganhar o recurso – havia uma sensação de que a policia, mancomunada com os tabloides, estava em busca do maior prêmio de todos: prender um beatle. A confissão sobre o LSD de Paul causou estranheza em John, George e Ringo, que se viram assunto de escrutínio indesejado sobre o uso de drogas, com a ironia de que Paul fora o último entre eles a experimentar ácido. ‘Pareceu estranho para mim’, comentou George anos depois para o documentário ‘Anthology’, “porque estávamos tentando fazê-lo tomar LSD havia mais ou menos um ano e meio – e um belo dia lá estava ele na televisão falando sobre isso”. Com essa declaração, George pareceu sugerir que Paul desejava atenção.

Em Liverpool, os McCartney ficaram preocupados com a noticia de que o membro famoso da família estava usando drogas. Tia Ginny convocou uma reunião de família para discutir a situação, o que a levou ao sul para resolver tudo pessoalmente com o sobrinho. ‘Então ela foi à Londres ficar com Paul’, conta o parente Mike Robbins. ‘Cerca de cinco ou seis dias depois ela voltou, e todos nos reunimos – eu vou lembrar disso para sempre – em sua pequena casa em Mersey View. A família perguntou se Ginny conseguira vê-lo, e a senhora de 57 anos tirou um baseado da bolsa de mão e perguntou, de maneira sonhadora: ‘Vocês já experimentaram um desses?’. A parentada acendeu e fumou a erva. ‘Rimos feitos uns doidos’, revela Mike. ‘Essa era a Tia Ginny’”.

E esse era Paul McCartney. Muito prazer.

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Paul McCartney na Ilha de Wight / Foto: Marcelo Costa

Leia também:
– Sobre Scorsese e filmes que salvam almas, por Mac (aqui)
– Martin Scorsese, eu e a morte, por Marcelo Costa (aqui)
– Jennifer Egan manipula o leitor em “O Torreão”, por Mac (aqui)
– “Sexo na Lua”, de Mezrich: sem a sorte de Zuckerberg, por Mac (aqui)
– “O minimalismo e o rock and roll”, trecho de “O Resto é Ruído” (aqui)

julho 19, 2012   No Comments

Bruce Springsteen é um cara foda

 

Sábado passado, 14/07, Bruce Springsteen e sua E Street Band estavam escalados para fechar o segundo dia do festival Hard Rock Calling, que acontece no imenso Hyde Park, em Londres. O horário programado do show no site oficial do evento era de 19h às 22h15, ou seja, três horas e quinze minutos de show, tempo quase normal de uma apresentação de Bruce atualmente (embora ele tenha batido nas três horas e quarenta e oito minutos num show em Madri, semanas antes).

Porém, um fato inusitado aconteceu: Paul McCartney subiu ao palco, e Bruce Springsteen, 62 anos, mandou: “Há 50 anos espero isso acontecer”. Bruce já tinha recebido Tom Morello (Rage Against The Machine) e John Fogerty (Creedence Clearwater Revival)  no palco na mesma noite, e esse show, recheado de improvisos, se aproximava das três horas e quinze minutos estipuladas pela organização. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer na sequência.

Após quatro hinos de sua carreira tocados em sequencia (“Born in the U.S.A.”, “Born to Run”, “Glory Days” e “Dancing in the Dark”), Bruce recebeu Paul, e a dupla mandou “I Saw Her Standing There'” e a já tradicional cover de “Twist and Shout”, que Bruce toca há anos, mas eis que a produção decide silenciar o palco no minuto final da canção, provocando uma revolta no público e um bate-boca que se estendeu pelos dias seguintes (com até o prefeito de Londres dizendo que a produção levou a lei do silêncio muito à sério).

Bruce Springsteen não falou nada sobre o ocorrido até ontem, três dias depois, quando subiu ao palco para um show em Dublin,e trouxe uma enorme chave de força, que foi ligada, e começou o show tocando “Twist and Shout” do exato momento que cortaram o som em Londres. Ou seja: não o deixaram terminar o show em Londres? Ele terminou em Dublin, e começou outro, que ainda teve outra brincadeira com a situação londrina: policiais falsos entraram no palco na última música, “American Land”, para tentar desligar o som. Dessa vez Bruce não deixou.

Eis duas coisas que vivem fazendo falta no mundo pop: bom humor e inteligência. Bruce Springsteen tem de sobra.

 

Veja mais:
– Três horas e vinte minutos de Bruce na Itália, por Mac (aqui)
– Bruce em Dublin: uma garotinha canta “Waiting For a Sunny Day” (aqui)

julho 18, 2012   No Comments

Duas cervejas trapistas da Westmalle

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Por duas vezes, nos séculos 18 e 19, os Monges Cistercienses da Estrita Observância foram proibidos e perseguidos (assim como as demais ordens monásticas). Em 1791, o mestre da Abadia de La Trappe, Augustinus de Lestrange Dubosc, temendo a perseguição causada pela Revolução Francesa, deixou o país e decidiu enviar monges para lugares distantes (como Itália e Espanha), pensando em novos assentamentos. Um terceiro grupo deveria ser enviado para o Canadá, mas parou na Antuérpia, onde o bispo local fez um convite: “Fiquem aqui”.

Não era só um convite. O bispo arranjou uma fazenda para o grupo nos Flanders, e nascia assim, em 1974, a Abadia Trapista de Westmalle (cujo nome original é Abdij Onze-Lieve-Vrouw van het Heilig Hart van Jezus), que só foi elevada ao posto de abadia em 1836, mesmo ano em que o abade Dom Martinus começou a construção de uma pequena cervejaria, com a primeira produção abastecendo o almoço dos monges em 10 dezembro de 1836. Nascia uma das mais famosas cervejas trapistas.

A cervejaria foi ampliada e reconstruída em 1865, com base em uma planta usada pelos monges trapistas de Forges (perto de Chimay). As vendas no local já haviam sido iniciadas em 1856 (além de cerveja, os monges faziam – e fazem até hoje – pão e queijo), mas a Westmalle só passou a ser vendida comercialmente em 1921. Hoje em dia, a Abadia Trapista de Westmalle, com cerca de 20 monges e 40 funcionários, produz 45 mil garrafas por hora de três tipos de cerveja: Dubbel, Trippel e a sazonal Westmalle Exttra.

A Westmalle Dubbel já mostra sua potência no aroma, extremamente alcoólico, parecendo inclusive mais do que os 7% que o rótulo antecipa. Assim que o nariz se acostuma com o álcool, notas adocicadas de frutas vermelhas (morango, cerveja) se misturam com melaço e caramelo num conjunto sedutor. Na língua, o conjunto é adocicado e cativante, remetendo primeiramente a cereja, depois a caramelo e licor. O finalmente e extremamente seco, mas deixa um rastro de frutado pelo caminho. Uma experiência.

Apelidada de “mãe de todas as Tripel”, a Westmalle Tripel, por sua vez, é uma porrada. O álcool é bem perceptível desde o primeiro momento, mas o aroma é muito mais que isso: é uma festa com notas de laranja, mel, floral, canela, lúpulo, malte e o que a sua imaginação sugerir. Na boca, há um rastro de amargor com toques de cítrico (principalmente laranja e um pouco de abacaxi) banhados levemente em álcool, que vão se aclimatando de forma majestosa. Ainda a acho intensa demais, mas, sem dúvida, é impressionante.

Hoje em dia é facilmente encontrar as duas Westmalle em bons empórios no Brasil, e embora os preços praticados aqui ainda sejam excessivos (entre R$ 15 e R$ 21 a garrafa de 330ml), o retorno do investimento é plenamente satisfatório. Vale, ainda, pensar em uma visita ao mosteiro. O site oficial dá todas as informações sobre visitas e até estadias mais longas, em que o visitante adentra a trilogia que comanda a abadia (da qual a cerveja é apenas para manter a congregação): viver para rezar, viver para a comunidade, viver para o trabalho. Quem sabe…

Westmalle Dubbel
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 4,58/5

Westmalle Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 4,75/5

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Bebendo Westmalle no Belgo, pedaçinho da Bélgica em Londres

Leia também
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)

julho 17, 2012   No Comments