Uma frase
“Você pode viver cem anos se desistir de todas as coisas que o fazem querer viver até os cem anos”
Woody Allen
Janeiro 30, 2012 1 Comment
Três Filmes: Scherfig, Van Sant, Almódovar

“Um Dia” (“One Day”, 2011)
Madrugada de 15 de julho de 1989: Emma (Anne Hathaway), uma nerd com tendência a poetisa, óculos fundo de garrafa e insegurança, leva pra casa um “amigo” de faculdade, Dexter (Jim Sturgess), o pegador da turma, misto de playboy e babaca, que dormiu com quase todas as garotas da sala, e nunca prestou atenção nela, mas nada como o alcoolismo às 5 horas da manhã. Corte: 15 de julho de 1990, 1991, 1992, 1993 (…), 2000: com o passar da data (o filme – e o livro homônimo no qual foi inspirado – se passa nesse dia de todos os anos), os personagens invertem os papeis: Emma constrói uma carreira segura enquanto Dexter, que continua babaca e perdido, entra numa espiral de decadência e decepções que confere um pouco de sentimento prum personagem carente de personalidade. Copia descarada de “Harry e Sally” (1989) e “Cidade dos Anjos” (1998), e outros menores, “Um Dia” é previsível, sem alma, melodramático e raso, e defende com soberba que todo mundo merece o amor (mesmo os tolos e babacas). Lone Scherfig, que havia estreado bem com “Italiano para Principiantes” (2000), mas ganhou fama com o moralista “Educação” (2009), fez um filme asséptico, que mais parece a adaptação de um romance da série Julia. Decepção.

“Inquietos” (“Restless”, 2011)
Garoto que perdeu os pais em um acidente de carro se apaixona por uma paciente terminal de câncer. O resumo em uma linha de “Inquietos” pode afastar alguns possíveis espectadores, mas Gus Van Sant cria uma atmosfera tão delicada em torno de seus dois personagens que as tragédias que os perseguem não conseguem transformar “Inquietos” em um dramalhão choroso. Annabel Cotton (Mia Wasikowska, de “Alice no País das Maravilhas”, 2010) tem apenas três meses de vida, e não pretende passar estes 90 dias desperdiçando momentos. Enoch Brae (Henry Hopper, filho da lenda), que após a morte dos pais e um pequeno período de coma, passou a receber visitas regulares de um fantasma de um soldado kamikase japonês e começou a visitar velórios como se estivesse indo a padaria, primeiramente se assusta com a disposição de Annabel, mas depois se entrega a esta relação improvável. O cineasta Gus Van Sant conduz as cenas de forma lenta sem tornar a história enfadonha, e extrai poesia do relacionamento improvável pintando um quadro delicado, de extrema beleza e sensibilidade, que ao contrário de vilanizar o destino inevitável, opta por valorizar o que existe, mesmo que de forma limitada: a vida.

“A Pele Que Habito” (“La Piel que Habito”, 2011)
O doutor Robert Ledgard (Antonio Bandeiras) é um notável cirurgião plástico que tem a obsessão de recriar a pele humana em experimentos não aprovados pela comunidade cientifica, desde que sua esposa sofrera graves queimaduras após um acidente de carro. Operando em sua própria casa, e assombrado pelos fantasmas da esposa e da filha, enferma mental que se suicidou, Robert Ledgard inicia um processo absurdo e surreal que consiste em transformar um homem em mulher, primeiro através de uma operação de vaginoplastia e, posteriormente, no experimento de uma nova pele. O argumento surreal de “A Pele Que Habito” saiu do livro “Mygale”, de 1995 (publicado depois sob o título “Tarântula”), do escritor francês Thierry Jonquet, mas poderia facilmente ter saído da mente maluca do diretor, que transforma o livro em um excelente filme de suspense tão repleto de camadas que merece ser visto três, quatro, cinco vezes, se possível. Canastrão como sempre, nem Banderas consegue estragar o ritmo do filme, que ganha em cores fortes enquanto discute estupro, vingança, sexo e personalidade de forma esplendida – alternando doses de tensão com boas passagens de ironia (como a brilhante cena final, tão absurda quanto genial, um momento raro de beleza do cinema atual).
Leia também:
- “Educação”: cheio de lições de moral para a vida (aqui)
- “Italiano para Principiantes”: intimismo e simplicidade de (aqui)
Janeiro 30, 2012 4 Comments
O grande desafio
Duas da manhã de segunda-feira e eu tentando coordenar as ideias. Tenho pensando um bocado na vida desde que a taquicardia começou a me visitar com uma frequência não tão agradável. Logo eu, que carrego uma dor de estômago rebelde desde os 21 anos, e que me obriga a endoscopias ano sim, ano não. Vou te contar: dor de estômago, taquicardia e dor de cabeça, juntas, chega a assustar.
As coisas todas começaram a fugir do controle de uns três meses pra cá, e desde então tenho estado mais reflexivo do que o normal, tentando driblar meus próprios limites para fazer as coisas que amo – ou que aprendi a amar. E me questionado cada vez mais sobre quem sou eu, o que me representa, qual minha função no mundo, qual o sentido de tudo isso. Por favor, ria comigo. As coisas não podem ser tão sérias assim.
Se cheguei a alguma conclusão? Nenhuma. Escrevo para eu mesmo me compreender. Ou ao menos tentar. Se a vida que estou levando está provavelmente diminuindo meus anos de vida neste planetinha azul, já está na hora de começar a mudar de vícios. Ou de sonhos. Mas será preciso? Mais: será que ao deixar meus sonhos sumirem no ar como fumaça também não deixo de ser eu mesmo? Não passo a ser outro eu, mais infeliz?
Dúvidas. Mudar é algo complicado. Abandonar coisas é difícil. Estou tentando aconchegar tudo que consigo em uma pequena concha, e me esconder do mundo. Ou, quem sabe, me reinventar. Podemos, você sabe, fazer o que quisermos, na hora que quisermos. Podemos mudar de vida, largar emprego, família, cidade, e vivermos em qualquer lugar, de qualquer maneira. É preciso apenas ter… coragem.
É preciso apenas ser um bocadinho irresponsável, mas se a situação chegou ao ponto que chegou é porque eu já estava sendo irresponsável na tentativa vã de abraçar o mundo e ser feliz. Talvez. Quem sabe. Sei lá. São duas e pouco da manhã de uma segunda-feira e eu preciso olhar nos olhos da minha alma e decidir quem eu quero ser daqui em diante (sendo que me orgulho demais de quem eu fui até agora).
A vida é baseada em uma falha que inevitavelmente irá por fim a tudo em um momento x, muitas vezes sem razão aparente, outras de forma tão óbvia que até soa ironia. Somos todos imperfeitos e tudo que sabemos sobre o fim é igual a nada. Ainda assim, nos raros espasmos de felicidade, a vontade que tenho de não desperdiçar um segundo que seja é tão intensa que, se pudesse, eu nunca fecharia os olhos, nunca dormiria.
Neste fragmento de desabafo talvez esteja a coisa que mais necessito: ser menos intenso, aprender a descansar, contemplar o vazio. O nada. Talvez um mantra. Talvez meditação (talvez eu tente, mas não sei se consigo). Talvez… natação. O grande desafio, no entanto, é curar o corpo sem que a alma adoeça. Sempre brinquei que queria viver até os 100. Não achei que fosse ter que negociar a possibilidade tão cedo…
Janeiro 30, 2012 9 Comments

