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Três Filmes: Fellini 1952, 1954 e 1955

A genialidade e a delicadeza em três filmes…

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“Abismo de Um Sonho” (“Lo Sceicco Bianco”, 1952)
Segundo filme da carreira de Fellini e primeiro assinado unicamente por ele, “O Sheik Branco” é uma deliciosa fábula de erros – aos moldes de Shakespeare. Fellini consegue ser espirituoso e cruel (sempre com muito humor) exibindo uma delicadeza hoje em dia inexistente no cinema. Ivan (Leopoldo Trieste) e sua recém esposa Wanda (Brunella Bovo) chegam a Roma para a lua-de-mel. O marido sobrepõe diversos compromissos para o casal sendo um encontro com o Papa o mais importante. Wanda, no entanto, tem outros planos. Ela mantém uma correspondência inocentemente apaixonada com um grande ator (o tal Sheik Branco). Enquanto o marido dorme, Wanda vai ao encontro de seu herói para presentear-lhe com um desenho feito por ela e acaba sendo levada para um set de filmagem com a trupe de atores. O Sheik aceita o desenho, mas ainda quer outro presente – e a confusão se forma (as cenas do marido tentando despistar sua família sobre o paradeiro de Wanda são impagáveis) em um filme genial, inocente e delicado. É também o primeiro filme de Fellini com o compositor Nino Rota.

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“A Estrada da Vida” (“La Strada”, 1954)
“Os Boas-Vidas”, de 1953, já havia levado Fellini ao Oscar (indicado por roteiro) e dado a ele o Leão de Prata em Veneza (Melhor Diretor), mas foi com “La Strada”, seu quarto filme, que o diretor conseguiu seu primeiro Oscar – na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (ele havia sido novamente indicado por roteiro e ganhado também o Leão de Prata em Veneza). Nesta obra-prima neo-realista, dois perdidos em mundo sujo vagam por uma Itália pós-guerra entregue à miséria e à fome. Ele é Zampanô (Anthony Quinn espetacular), um homem rude que ganha sua vida fazendo apresentações mambembes. Ela é Gelsomina (Giulietta Masina cativante), uma moça pobre que é vendida pela mãe ao “artista” por 10 mil liras (como a mesma havia feito com a irmã). Gelsomina o acompanha e o ajuda nos números circenses, e passa a admirá-lo em sua inocência, mas sua admiração não sobrevive à violência, à traição e aos crimes que ele comete. Fellini não concede a “A Estrada da Vida” um final feliz (como em “Abismo de Um Sonho”), mas realista. Um clássico – com uma trilha delicada de Nino Rota.

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“A Trapaça” (“Il Bidone”, 1955)
Fellini – novamente com olhar neo-realista – flagra uma Itália decadente sofrendo a miséria pós-guerra. É neste cenário de pobreza que um grupo de trapaceiros ganha vida enganando pessoas de várias formas. O roteiro foca em três deles: Picasso (Richard Basehart), um simplório pintor casado com Iris (Giulietta Masina), esposa que desconfia do dinheiro fácil que entra em casa; Ricardo (Franco Fabrizi), um boa vida que engana todo mundo, não se preocupa com nada (além de carros e mulheres), e se dá bem no final – Fellini opta, de forma inteligente, por não castigá-lo moralmente, pois sabe que existem vários Ricardos pelo mundo. No centro da trama, Augusto (Broderick Crawford), um homem que sente o peso da idade nas costas (ele tem 48 anos), mas que a única coisa que saber fazer na vida é ludibriar pessoas. Há uma clara mudança ética no personagem do primeiro golpe em cena até o último, uma crise de consciência que aumenta quando ele se aproxima da filha – crise que lhe custará muito. Não há espaço para o humor no quinto filme de Fellini, mas sim para um olhar sério (ainda que delicado) sobre a natureza humana.

Leia também:
- Você conhece Roma? E a Roma de Fellini? (aqui)
- “La Strada” (e “Oito e Meio” e “Amarcord”) integram a lista dos melhores filmes de todos os tempos para Woody Allen (aqui)
- Top Fellini / Truffaut: uma lista “in progress”, por Marcelo Costa (aqui)

2 comentários

1 @SedaEscarlate { 07.04.12 at 12:31 pm }

Fellini: Amor pra vida toda.

@SedaEscarlate

2 Boletim da 76ª Sessão: “O Sheik Branco”, de Federico Fellini, 1952 | Cineclube de Caminha { 01.13.13 at 1:15 pm }

[…] http://screamyell.com.br/blog/2011/08/01/federico-fellini-1952-1954-e-1955/ Ficha Técnica:  Título original: Lo Sceicco Bianco, Itália, 1952 Realização: Federico Fellini  Argumento: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Tullio Pinelli,  Ennio Flaiano Produção: Luigi Rovere (producer) Música Original: Nino Rota Montagem: Rolando Benedetti        Fotografia: Arturo Gallea                   Duração: 86 minutos

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