Blog do Editor do Scream & Yell
Random header image... Refresh for more!

Três filmes: Truffaut 1960, 1964 e 1976

pianista.jpg

“Atirem no Pianista” (“Tirez sur le Pianiste”, 1960)
Segundo longa-metragem da carreira de François Truffaut (após a elogiada estreia com “Os Incompreendidos”, em 1959), “Atirem no Pianista” conquista a admiração de muitos – Paul Thomas Anderson incluso - inspirado na Nouvelle Vague. Truffaut homenageia (com boa dose de humor) os filmes policiais B americanos, mas sua versão é descontraída e centrada no drama dos personagens (sem abdicar do suspense). Charles Aznavour interpreta (muito bem) o papel de Eduard Saroyan, um pianista que recusa a fama após ser “abandonado” pela esposa e passa seus dias tocando piano em uma espelunca de quinta categoria enquanto divide suas noites com a vizinha, a bela prostituta Clarisse (Michèle Mercier), e o irmão menor. A vidinha segue esse ritmo até o pianista se apaixonar pela garçonete Lena (Marie Dubois), se envolver em uma briga com o dono da espelunca e ter de fugir de mafiosos que querem a pele de seu irmão. Como tragédia pouca é bobagem e o amor é sempre uma vítima poética, o trecho final de “Atirem no Pianista” – filmado na neve e em preto e branco – soa extremamente lírico (e triste).

pelesuave.jpg

“Um Só Pecado”, (“La Peau Douce”, 1964)
Pierre Lachenay é um escritor de sucesso e diretor de uma revista literária que, em uma viagem para uma palestra em Lisboa, se vê seduzido por uma aeromoça (tipo “Belinda”, de Nick Hornby e Ben Folds, sabe?) e inicia um romance extraconjugal. Pierre começa então o ciclo tortuoso de ter uma amante: quer, mas não pode estar com ela em público; a esposa começa a desconfiar; e a própria amante acredita que ele tem vergonha dela. Jean Desailly está ótimo no papel principal e a irmã de Catherine Deneuve, a tão bela quanto Françoise Dorléac (a aeromoça Nicole), brilha no papel de femme fatale inocente. Truffaut parece mais maduro no modo de filmar neste que é seu quinto longa, mas o roteiro óbvio e moralista não ajuda: o homem trai e precisa lidar com a culpa. Como prêmio pela traição é abandonado pela amante e vingado pela esposa – em um tradicional final trágico como o de centenas de filmes franceses. Dois anos após o imenso sucesso de “Jules e Jim”, Truffaut fracassou nas bilheterias com um filme dramático que tropeça na obviedade.

idade.jpg

“Na Idade da Inocência” (”L’argent de Poche”, 1976)
A pequena cidade de Thiers, no interior da França, abriga um filme delicado centrado em pequenas histórias infantis que Truffaut retirava de jornais. Entram em cena também memórias do cineasta compondo um tocante painel infantil recheado de passagens líricas que encontram paralelo em filmes de Fellini (“Amarcord”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”) – e do próprio Truffaut (“Os Incompreendidos”). Aqui estão presentes os garotos que olham a bela professora tomar banho (“Eles se masturbam no fundo da sala”, ela reclama para outro professor. “Isso é tradição”, responde ele, despistando: “Também fazem isso na minha aula”), o drama do primeiro beijo, o garoto que apanha em casa, a paixão pela mãe do amigo e, claro, pelo cinema (a história de Oscar Doinel – veja só – filho de uma francesa com um inglês, é divertidíssima). “As crianças são mais fortes que os adultos”, diz um personagem em certo momento, mas para Truffaut elas ainda estavam sozinhas sem ter leis que as amparassem. O trecho final do filme merecia ser exibido em escolas. Ou melhor: em casamentos… afinal, tudo começa em casa.

Leia também:
- 1967: “A Noiva Estava de Preto”, Tarantino copiou sim (aqui)
- 1971: “As Duas Inglesas e o Amor”, a essência (aqui)
- 1972: “Uma Jovem Tão Bela Como Eu”, ironia e farsa (aqui)
- 1975 - “A História de Adèle H.”, obra menor (aqui)
- 1977: “O Homem Que Amava as Mulheres”, didático, sombrio (aqui)
- 1978: “O Quarto Verde”, uma ode à morbidez (aqui)
- 1968, 1970 e 1979: As aventuras de Antoine Doinel (aqui)
- 1980: “O Último Metrô”, brilhante, brilhante (aqui)

Top Truffaut até o momento
01) A Noite Americana (1973)
02) O Homem que Amava as Mulheres (1977)
03) O Último Metrô (1980)
04) Jules e Jim (1962)
05) Na Idade da Inocência, (1976)
06) Beijos Proibidos (1968)
07) Domicílio Conjugal (1970)
08) Amor em Fuga (1978)
09) Atirem no Pianista (1960)
10) Os Incompreendidos (1959)
11) Duas Inglesas e o Amor (1971)
12) Uma Jovem Tão Bela Como Eu (1972)
13) O Quarto Verde (1978)
14) A Noiva Estava de Preto (1967)
15) Um Só Pecado (1964)
16) Fahrenheit 451 (1966)
17) A História de Adèle H. (1975)

1 comentário

1 André LDC { 07.05.11 at 4:49 pm }

Assisti ao “Atirem no Pianista” há alguns anos. Creio que foi um dos primeiros do Truffaut que conheci. E ainda é um dos melhores para mim. Curiosidade: o filme é baseado num romance de David Goodis, autor de “A Lua na Sarjeta” e um dos escritores de romances policiais mais subestimados que há.
“Um Só Pecado” tem passagens memoráveis, como o fim de semana que Pierre e Nicole planejaram para si depois de uma palestra numa cidade do interior da França e que se torna um calvário, numa ótima crítica de Truffaut ao provincianismo típico de lugares interioranos. Porém, como foi bem apontado na crítica acima, o moralismo da trama atrapalhou o que tinha tudo para ser um grande filme.
E “Na Idade da Inocência” é ótimo por mostrar uma juventude sem tantas segmentações por idade e crianças atuando de forma natural. Em alguns aspectos, é como se fosse um “Cidade de Deus” sem a Fátima Toledo na “preparação de elenco”.
Porém, próximo do desfecho, o filme ganha um tom discursivo e destoante. Nada menos Truffaut.

(Não tem nada a ver com Truffaut, mas gostaria de indicar um filme que trata de adultério de uma forma honesta e sensível, acrescentada aí a questão da bigamia: “O Bígamo”, dirigido e co-estrelado por Ida Lupino, uma das pouquíssimas mulheres cineastas de Hollywood em seus tempos clássicos; lançado no Brasil numa edição bem barata da London, talvez encontrável em saldões de hipermercados ou em sebos)

Faça um comentário