Três Filmes: Cry Baby, Empire Records e 1972

“Cry Baby”, John Waters (1990)
Em 1988, após sete anos sem filmar, o mestre de filmes trash John Waters havia parido um pequeno sucesso, “Hairspray”, e ganho carta branca para seu novo filme, mas não facilitou: bolou um musical adolescente de trilha sonora impecável para sacanear “Grease”, estrelado por John Travolta em 1977. A história se passa na Baltimore (como todas as histórias do cineasta) dos anos 50 e mostra uma gangue arruaceira liderada por Cry Baby (Johnny Depp), um órfão que foi criado pelos tios – Susan Tyrrell e Iggy Pop (ins)piradissimos – e que traz nas veias o sangue do rock and roll (dos anos 50), babe. Ele se apaixona por uma das meninas certinhas, vai parar na cadeia após levá-la para um show de rock (em que, claro, ele era a estrela) que acaba em confusão, mas não desiste do amor da garota. John Waters obviamente exagera na caricatura (não à toa, o filme fracassou nos cinemas), mas cria um contraponto impagável para o viés romantizado com que o cinema sempre olhou os fifties. O romance em “Cry Baby” é docemente trash (até a deusa pornô Traci Lords marca presença).

“Empire Records”, Allan Moyle (1995)
O ponto de partida desta comédia adolescente (que no Brasil recebeu o péssimo nome de “Sexo, Rock e Confusão”) é bastante interessante: uma loja de discos independente está prestes a ser comprada por uma grande rede que a transformará em uma megastore asséptica. Para tentar evitar que isso ocorra (e salvar o emprego dos amigos), um dos subgerentes da loja, o jovem Lucas (Rory Cochrane), arrisca toda a economia do chefão apostando a grana (9 mil dólares) em um cassino e… perde tudo. Muita gente faria um filme legal a partir disso, mas o diretor canadense Allan Moyle e a roteirista Carol Heikkinen não só desperdiçam uma boa premissa como também um elenco adolescente promissor (liderado por uma Renée Zellweger gatissima fase “Um Amor e Uma 45” e uma Liv Tyler encantadora pré “Beleza Roubada”) filmando um amontoado de clichês adolescentes que honram o lema: ser jovem é ser idiota. Evite o filme, mas ouça a trilha com Gin Blossoms (a linda “Til I Hear It from You”), Edwyn Collins (”A Girl Like You”) e Evan Dando (a cover do Big Star “The Ballad of El Goodo”).

“1972”, José Emilio Rondeau (2006)
Editor da revista Bizz quando ela nasceu em 1985, produtor de discos (Legião Urbana, Camisa de Vênus, Picassos Falsos) e diretor de diversos clipes, a estreia de José Emilio Rondeau no cinema (com sua mulher, Ana Maria Bahiana, de sombra) é um exemplo de ideia bacana que tropeça na execução. A história (com pinceladas autobiográficas) foca um romance adolescente que nasce no meio do embate entre a PM e os fãs de rock que foram assistir ao filme “Gimme Shelter” no cinema Ópera, no Rio, em meio à ditadura. Ela é jornalista (Júlia, interpretada por Dandara Guerra, vai trabalhar como secretária na revista de música A Pedra do Mal – o primeiro emprego de Ana Maria Bahiana na encarnação “pirata” da revista Rolling Stone em 1972, leia aqui). Ele tem uma banda (Snoopy, papel de Rafael Rocha, que parece ler os diálogos). O casal de protagonistas não consegue causar empatia e tampouco soa natural em cena fragilizando ainda mais a fórmula tradicional de comédia romântica seguida pelo roteiro. As referências até tornam a história simpática, mas “1972” sofre de falta de ritmo, tensão e empolgação. Um acerto: a bela trilha sonora com A Bolha, Os Brazões, Novos Baianos e outros.


3 comentários
Eu tinha 12 anos quando assisti a “Empire Records”, que meu irmão trouxe da locadora onde trabalhava. Minha mãe criou o maior caso justamente por culpa do título nacional, não querendo deixar eu assistir porque imaginava que haveria cenas ds sexo…
Na época achei uma comédia ok, feito tantas outras dos anos 90 que certamente serão superestimadas com o revival da década.
Hoje, nem passa por ok. Passo.
Quanto ao “Cry-Baby”, ao vê-lo pela primeira vez, que não me entusiasmou tanto quanto “Hairspray” (este mil vezes melhor que a versão com o John Travolta).
Mas mudei de ideia ao revê-lo.
Por curiosidade, atentem ao elenco de coadjuvantes. Além dos habituais colaboradores de Waters (Ricki Lake, Mink Stole, etc.), há participações breves do ex-galã juvenil Troy Donahue e de Joe D’Alessandro, muso de Andy Warhol.
E aproveitando a deixa: assistam a “Clube dos Pervertidos”, cujo título nacional não é tão equivocado quanto parece, e que consegue relembrar a ousadia dos primeiros filmes de John Waters sem destoar dos seus trabalhos mais recentes. Aliás, embora eu goste de “Pink Flamingos” e “Polyester”, creio que outros filmes de Waters são injustamente ignorados. Se alguém quiser baixar na net, ou ainda acreditar no VHS, assistam a “O Preço da Fama” (Pecker), que consegue discutir os limites do que é cotidiano e do que é arte sem parecer uma tese acadêmica. Afinal, é John Waters, não um desses Christopher Nolans da vida que se levam a sério demais.
O que eu mais gostei na trilha sonora foi The Martinis, a bando do ex-pixies e sua esposa, com vocal a la Kim Deal.
Tentei assistir Impire Records no ano passado e não consegui. Foi frustrante porque eu tinha adorado na época que saiu. Eu tinha 15 anos. Normalmente continuo gostando do que gostava aos 15, mas pelamor de deus, que filme ruim…
Outro foi o Cruel Intentions. Na época eu achava moderno e sexy. Passou na tv a cabo outro dia e eu fiquei com vergonha. Ryan Phillipe é uma bicha rica chata. Sarah está sofrível. Gosto do Joshua Jackson (Pacey 4 ever, haha) e da trilha, que ouço até hoje. Melhor ficar com ela mesmo.
PS: Fazia tempos que não comentava nada aqui, se é que já comentei. Acho que sim. Cancelaram uma reunião e estou com tempo livre, repara não.
PS 2: Adoro seu blog.
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