Blog do Editor do Scream & Yell
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Um François Truffaut e três Woody Allen

“O Que Há, Tigreza?”

“O Que Há, Tigresa?” (”What’s Up, Tiger Lily?”), Woody Allen (1966)

Primeiro filme com a assinatura de Woody Allen na direção (”O Que Há, Gatinha?”, do ano anterior, foi dirigido por Clive Donner e Richard Talmadge com roteiro de Allen) , “O Que Há, Tigresa?” é o avô de “Hermes e Renato Apresenta: Tela Class”. Woody Allen comprou os direitos de um filme japonês de espionagem, mudou a ordem do roteiro, inseriu novas cenas, e dublou tudo (com piadas) em inglês. A história gira em torno de um grande segredo milenar: a receita da melhor salada de ovo do mundo. Apesar de algumas tiradas indecentes e muito divertidas, “O Que Há, Tigresa?” funciona mais como análise de carreira. Imaginar que dez anos depois Woody Allen estaria escrevendo “Annie Hall” é das coisas que nos faz ter esperança no mundo.

“Neblinas e Sombras”

“Neblinas e Sombras” (”Shadows and Fog”), Woody Allen (1992)

Eis uma ótima comparação cinematográfica para aquele clichê da pessoa linda e burra. “Neblinas e Sombras” é um pastiche filmado em branco e preto que valoriza a fotografia belíssima de Carlo di Palma (fotografo de “Blow-Up”, de Antonioni, e  todos os Woody Allen entre “Hannah e Suas Irmãs” e “Desconstruindo Harry”) em detrimento do roteiro. Woody Allen encavala dezenas de citações literárias sem nenhum foco e desperdiça um elenco estelar que tem Mia Farrow, Jodie Foster, John Malkovich, Madonna, John Cusack, Kathy Bates e muitos outros. Tudo em “Neblinas e Sombras” parece ser secundário, mero pretexto para a construção de cenas que não servem ao cérebro, mas sim ao olhar. Belo por fora, “Neblinas e Sombras” é oco por dentro. Porém, tem uma piada matadora… hehe

“Um Misterioso Assassinato em Manhattan”

“Um Misterioso Assassinato em Manhattan” (”Manhattan Murder Mystery”), Woody Allen (1993)

Woody Allen vai ao encontro de Alfred Hitchcock neste filme que mistura suspense com comédia partindo de um começo realista (um casal que suspeita que o vizinho tenha matado sua esposa) até virar um pastiche de citações (com direito a sósias, sala de espelhos e humor negro). A história flui bem na primeira metade, quando as peças do tabuleiro são colocadas na mesa. O miolo é exemplar, abrindo lacunas sem deixar pistas para o espectador, porém o exagero do trecho final ameaça por o filme a perder, mas Allen consegue fechar a história a contento. Porém, fica a idéia de que o filme podia render mais. A química de Allen e Diane Keaton volta a render excelentes momentos. Além, Anjelica Huston faz uma participação deliciosa vivendo uma escritora “femme fatale”.  É – disparado – o melhor destes três, mas é segundo escalão na filmografia do diretor.

“Duas Inglesas e o Amor”

“As Duas Inglesas e o Amor” (”Les Deux Anglaises et le Continent”), François Truffaut (1971)

Um filme que exprime a essência de Truffaut: da mística do francês que precisa amar todas as mulheres (em uma passagem impagável, a mãe do jovem Claude fica enfurecida ao pensar que ele pode estar apaixonado apenas por uma das duas inglesas do título, quando ele deveria estar apaixonado pelas duas), nos desencontros românticos (são tantos em “Duas Inglesas e o Amor” que corações fracos podem não resistir), na paixão pela literatura (o filme é uma adaptação do livro “Les Deux Anglaises Et le Continent”., de Henri-Pierre Roche, também autor do romance “Julie at Jim”) e pela confusão que as mulheres podem fazer na vida de um homem. Em “Julie at Jim”, é uma mulher dividida entre dois homens. Aqui temos um homem dividido entre duas belas mulheres… inglesas. E irmãs. Sem enrolar: eu esqueceria a ruiva e me dedicaria à morena, mas Claude não vê as coisas de forma tão simples. Um Truffaut clássico em todos os seus ângulos.

Leia também:
- Dois Woody Allen e três Jason Bourne (aqui)
- As aventuras de Antoine Doinel, de Truffaut (aqui)
- François Truffaut, Kevin Smith e Michael Lehmann (aqui)
- “O Último Metrô”, “Zelig” e “Descontruindo Harry” (aqui)

Dezembro 2, 2009   3 Comments