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Posts from — Janeiro 2009

Diversão, descompromisso e pontos nos ís

Texto e fotos: Marcelo Costa

A banda foi formada faz menos de seis meses e o debute chegou às lojas brasileiras na semana passada. No entanto, os três shows que o Little Joy agendou para São Paulo esgotaram em tempo recorde para padrões paulistanos: cerca de 1h30 cada um. Uma banda praticamente desconhecida esgotando shows em São Paulo denota que realmente estamos vivendo um novo tempo e é bem provável que as 700 pessoas que lotaram a casa nas duas primeiras noites nem tivessem pegado na mão o primeiro disco do trio, mas conheciam todas as canções de cor.

É claro que o termo “banda desconhecida” não se encaixa tão bem ao Little Joy. Projeto feito de brincadeira entre Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (Strokes), acrescido da vocalista, tecladista e namorada deste último, Binki Shapiro, o Little Joy é o tipo de banda que já nasceu com vários fãs (egressos de duas grandes bandas do rock nacional e mundial anos 00), e o som do grupo, quando não esbarra no rock praieiro e californiano dos sixties, se divide entre Strokes (“How To Hang A Warhol”, “Keep Me In Mind”) e Hermanos (“Evaporar”, “With Strangers”).

O clima de felicidade reina no palco. Amarante agradece pela presença e diz que está feliz com a recepção. Moretti joga confete: “Nós tocamos ontem à noite aqui e foi legal, foi legal. Mas hoje… é uma festa”. O público delira. Depois, inverte a posição de escudeiro com Amarante e se prepara “para fazer uma besteira total”, segundo o próprio: “Eu vou cantar. Essa é uma música dos Kinks e é chamada ‘This Time Tomorrow’”. A versão fidelíssima é um dos grandes momentos da noite ao lado de outra versão, “Walkin’ Back To Happiness”, de Helen Shapiro (que não guarda nenhum parentesco com a loirinha da banda).

Os dois “famosos” da noite assumem as guitarras enquanto Binki divide-se entre o teclado, xilofone, escaleta e vocais e ainda arranja tempo para deixar escorrer algumas doses de charme. Ao vivo o trio é acrescido das participações de Matt Romano, na bateria, Todd Dahlhoff, no baixo e Noah Georgeson (produtor de Devendra Banhart e Joanna Newsom) na terceira guitarra, no glockenspiel e teclados. O show é correto e tem jeito de ensaio aberto. A platéia, feliz, canta todas as músicas e, quando pode, grita “Amarante, Amarante” (o que acontece duas vezes nesta segunda noite) entusiasmadamente.

Como era de se esperar, o show é curto. O álbum tem pouco mais de 30 minutos e acrescentando-se uma música nova – ainda sem nome – e mais dois covers passamos de pouco mais de 40 minutos de show, mas a audiência está feliz. Apesar da diversão e do descompromisso, o Little Joy não sai com o cinturão de campeão da noite. O Cidadão Instigado, que abriu a balada, mostrou algumas músicas inéditas e arrasou em versões soberbas de “Os Urubus Só Pensam Em Te Comer” e “O Pobre Dos Dentes de Ouro”, duas faixas do disco que ganhou o Prêmio de Melhor do Ano pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte e, também, do Prêmio Scream & Yell 2005 (aqui).

Comandada pelo vocalista e guitarrista Fernando Catatau, a ótima apresentação do Cidadão Instigado causou um choque interessante e representativo no resumo da noite – e do mundo atual. O trabalho do Cidadão Instigado está bem à frente do Little Joy, mas são os cariocas (Fabrizio também nasceu na cidade) que saem ovacionados pela audiência. Amarante e Moretti criaram uma deliciosa diversão descompromissada que foi ao encontro de um público carente dos projetos originais de suas bandas em férias. Eles são a banda nova que o público já gostava antes de ver e/ou ouvir, mas musicalmente precisamente trabalhar muito para fazer algo… instigante. Por isso a noite foi do Cidadão Instigado. Pena que pouca gente percebeu…

http://www.flickr.com/photos/maccosta/

Leia também:
– “Existem 15 bandas melhores que o Little Joy”, por Tiago Agostini (aqui)

Janeiro 31, 2009   No Comments

Ressaca (atualizada)

Se você estiver caminhando por ai e topar com uma holandesa Amsterdã 500 ml na graduação alcoólica de 8,4%, tome cuidado. Tome muuuuuito cuidado.

*****

Bem, sábado, e estou todo detonado ainda. Lili não se conformava com a ressaca, e segundo meus relatos saiu-se com essa: “Você comeu algo estragado”. Refiz meu roteiro de quinta, e não é que ela estava certa. Como podemos viver em segurança se não podemos confiar no molho vinagrete de um dos nossos botecos favoritos?

Na quinta, prevendo a bebedeira, passei em um dos meus botecos prediletos para comer um dos meus sanduíches prediletos: Pão com mortadela com molho vinagrete. Na primeira mordida senti um gosto diferente do normal, mas fiquei entretido pelo ambiente.

Dez segundos depois chegou um um cara com enormes fones de ouvido, e sem tira-los fez um sinal com o indicador para o garçom, que logo lhe trouxe uma latinha de Skol. Nesse meio tempo ele me olhou, tirou os fones, colocou nos meus ouvidos e disse: “Esse cara não é foda?”. Nos aproximadamente cinco segundos que ouvi deu para reconhecer a voz de Robertão cantando o soul “Não Vou Ficar”. Ele tirou exclamando: “O tempo passa, mas ninguém consegue fazer isso”.

Foram só essas duas frases em dez segundos, ele colocou novamente o fone, fez um sinal de positivo com a cabeça e saiu levando a latinha de cerveja nas mãos. Pensei: vou escrever um Cenas de São Paulo disso e comecei a perceber mais coisas que aconteciam no bar enquanto devorava meu pão com mortadela com vinagrete estragado. Terminei, fui para o show, enchi a cara, acordei mal para trabalhar no dia seguinte e no meio do dia voltei para casa detonado.

Daquelas situações em que a azeitona da empada realmente faz mal.

Ps. Ou seja, a Amsterdã está liberada para consumo. Mesmo assim, não gostei tanto dela.

Janeiro 30, 2009   No Comments

Europa 2009

Começamos ontem a traçar os planos para a viagem para a Europa no segundo semestre. Fiz um rascunho tosco de datas e Lili ainda precisa decidir o período. O Carlos, grande companheiro de Rock Werchter em 2008, já veio dizer que Metallica, Killers, Coldplay e Placebo confirmaram presença na edição de 2009 do melhor festival da Europa, mas já limamos ele dos planos pois pretendemos descer no velho mundo na metade de julho, e não no começo.

Na verdade, Lili quer muito ir em agosto ou setembro, e eu fico sendo tentado a ir em julho para prestigiar mais uma vez o FIB, na Espanha, que já confirmou Franz Ferdinand, Kings of Leon, Paul Weller e Oasis para a edição que começo dia 16 de julho. Meu rascunho inicial prevê decida em Bacelona, depois Benicassim, Madri, Paris, Londres e Berlim (e Aachen, na Alemanha, para visitarmos o Carlos). Mais ou menos uns 80% da viagem será parecido em locais com os do ano passado pois será a primeira vez de Lili por lá.

Este primeiro rascunho está levando em conta que devo ficar entre 10 e 15 dias sozinho na Europa em agosto, o que provavelmente me levará para Amsterdã, Budapeste e ao Pukkelpop, maior (mas não melhor, já que o Werchter detem esse posto) festival belga da atualidade, e que em 2008 foi estrelado por The Killers, Metallica, Manic Street Preachers, Flaming Lips, Mercury Rev, Tindersticks, The Gutter Twins e… Móveis Coloniais de Acajú. No fim de agosto ainda rola o Rock En Seine, badalado festival parisiense. Muita coisa ao mesmo tempo agora, mas não dá para abraçar o mundo, né mesmo.

Janeiro 30, 2009   No Comments

Attitude is Everything

Essas duas histórias que seguem abaixo estão flutuando na atmosfera da minha mente desde o fim do ano. Mais precisamente no dia 31 de dezembro quando assisti ao especial do programa Alto Falante sobre os festivais europeus. Uma das reportagens chamou a minha atenção. Alguns dias depois, já em Ouro Preto, Lili leu no Estado de Minas uma reportagem interessante que praticamente tinha o mesmo tema. As duas reportagens tratavam sobre… atitude.

Atitude vem do latim aptitudinem e do italiano attitudine, e significa uma maneira organizada e coerente de pensar, sentir e reagir em relação a grupos, questões, outros seres humanos, ou, mais especificamente, a acontecimentos ocorridos em nosso meio circundante. É um dos conceitos fundamentais da psicologia social. Faz junção entre a opinião (comportamento mental e verbal) e a conduta (comportamento ativo) e indica o que interiormente estamos dispostos a fazer. Entrando no coloquial: é quando deixamos de ser imóveis e começamos a nos movimentar.

A reportagem em questão do Alto Falante é a primeira do primeiro bloco em Londres (assista aqui). O chapa Terence Machado entrevista Suzanne Bull, produtora do festival Attitude is Everything, que explica: “É um evento para melhorar o acesso de pessoas deficientes em shows. (…) O projeto começou faz oito anos, quando escrevi para uma revista de música falando como era ruim o acesso para deficientes em shows. Alguém da prefeitura de Londres leu e me ligou perguntando se eu gostaria de receber algum dinheiro para começar o projeto”, conta Bull.

A entrevista segue e Suzanne fala mais sobre o projeto (site oficial), que é bastante interessante, principalmente quando um deficiente comenta que já esteve no Brasil, foi a shows, mas não viu outros deficientes na platéia. “Eu sempre fui a shows durante toda a minha vida, sozinho, e eu queria que todo mundo fosse. O Attitude is Everything é uma boa maneira de fazer as pessoas acordarem. É só tornar mais fácil o acesso a deficientes. Temos dinheiro como todos e queremos gasta-lo em eventos”, diz um entrevistado. O lance todo que quero grifar, porém, é que tudo isso começou com uma carta escrita para uma revista.

Após assistirmos à reportagem, caçoamos pensando como isso nunca poderia acontecer no Brasil. Imagina: você vai, reclama sobre algo que está errado em nossa sociedade (e são tantos erros) e a prefeitura ou o governo, quem quer que seja, liga para você oferecendo um dinheiro para que você monte um projeto para resolver este problema. Lindo, né. E completamente utópico, certo? Bem, mais ou menos. No dia 03 de janeiro, uma manchete de um caderno qualquer do Estado de Minas contava: “Moradora consegue criar Defesa Civil em Brumadinho em uma semana”.

A história de Ilma Cândida Sobrinho é o melhor exemplo de que atitude é tudo. Em 24 e 25 de novembro de 2008, Ilma, 53 anos, participou de um seminário em que o meteorologista Ruibrant dos Reis alertava para um volume alto de chuvas na cidade de Brumadinho, que poderia causar enchentes e muita tragédia. Preocupada com a previsão, Ilma procurou a Defesa Civil da cidade e descobriu que ela só existia no papel. “Isso acontece muito. Decretam o órgão apenas para captar recursos”, conta a moradora para a reportagem.

Ela não desistiu, foi atrás do procurador-geral de Brumadinho, que autorizou a reativação do conselho. “Fizemos, em uma semana, o estudo que era para ser feito durante todo o ano”, conta. Segue a reportagem: Na segunda 15 de dezembro, ela, temendo a forte chuva prevista, e já com o mapeamento das áreas de riscos em mãos, retirou três famílias de imóveis que poderiam desabar.  Na quarta, 17, a previsão se confirmou: Brumadinho foi alagada pelas águas do Rio Paraopeba, que chegou a subir 10 metros. A família de Alessandra Silva dos Santos foi uma das que foram retiradas antecipadamente. “Se estivesse lá quando a tempestade chegou, eu e os meus cinco filhos não sobreviveríamos.”

Nesse dia, centenas de casas ficaram submersas. Cerca de 2.000 pessoas ficaram desalojadas, 200 famílias desabrigadas, 25 casas totalmente danificadas e quatro pontes atingidas, sendo que duas delas foram levadas pelas correntezas. Ilma acionou centenas de voluntários, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e a Defesa Civil do estado. “Já tínhamos avisado todos os habitantes, por isso, eles estavam preparados. Mesmo assim, foi uma loucura, porque a nossa preocupação de salvar todos era imensa, tanto é que fui à rádio da cidade pedir ajuda da comunidade”, conta. Brumadinho teve uma vítima: um senhor de 64 anos foi levado pelas correntezas do Rio Paraopeba.

Em dezembro de 2007 escrevi um longo texto chamado “Sonhar é permitido, viver é permitido”, em que entre outras coisas dizia: “se já sabemos que não podemos confiar em ninguém, que não existem sonhos quando o assunto é política, dinheiro e poder, então está na hora de fazermos as coisas nós mesmos. E, mais do que nunca, deixarmos o social de lado e agirmos no pessoal. Sim, mudarmos as coisas ao nosso redor primeiro. Sempre fomos acomodados demais, mas precisamos mostrar que se as coisas podem dar certo, elas tem que começar a dar certo dentro da nossa própria casa, do nosso próprio ambiente de trabalho, da nossa família, do nosso bairro. Sempre acreditei que fazer o bem é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para mudar o mundo, e apesar de parecer a coisa mais piegas, é no que eu acredito realmente.”

Quando esses três episódios (as duas reportagens e a lembrança do post antigo) se juntaram na minha cabeça, algo meio que pedia um texto como esse. Reclamamos demais. Da família, do emprego, do governo. E o problema não é reclamar. Reclamar é essencial. Acomodados não reclamam e acabam se aconchegando na monotonia de uma vida errada.  Evite isso a todo custo. A partir do momento que temos noção de que algo está errado, de que as coisas poderiam ser diferentes e bem melhores, precisamos nos mexer. Com inteligência, cautela, malandragem e boa vontade. Precisamos criar atalhos para que as saídas se tornem mais claras. Não dá para ficar parado olhando o mundo girar. Não dá para chorar sobre a cerveja derramada. A vida passa rápido demais. É bom se mexer.

Links:
– Assista ao programa Alto Falante no Youtube (aqui)
– Leia a reportagem do Estado de Minas sobre Ilma (aqui)

Janeiro 29, 2009   No Comments

“Ocean Rain”, um dos melhores álbuns já feitos

Ian McCulloch nunca foi modesto ao falar do álbum “Ocean Rain”. Para justificar o pedido à gravadora para que ela bancasse um estúdio em Paris para o grupo gravar seu quarto álbum, McCulloch foi enfático: “Nos os advertimos que este seria o maior álbum já feito, porque nos acreditávamos nisso. E The Killing Moon é a melhor música já escrita. Eu acredito nisso. Ela é simples e bela e soa como nenhuma gravação que eu já tenha escutado”. Quem lê isso imagina que parir “Ocean Rain” foi um mar de rosas, mas não foi bem assim.

Após passar um perrengue danado com seus dois primeiros álbuns (“Crocodiles” e “Heaven Up Here”), cultuados no circuito independente, mas solenemente ignorados pelos charts, o grupo alcançou o sucesso com o terceiro disco, “Porcupine”, e hits do quilate de “The Cutter” e “The Back of Love”, mas o clima interno já não era dos melhores. Quando em estúdio para gravar as pré-bases do vindouro quarto disco, Ian ficou tão desanimado que quase abandonou o barco. “As gravações em Bath foram horríveis. Ficamos cinco dias lá e nada funcionou. Para piorar, peguei uma gripe”, conta o vocalista, que pensou em sair da banda.

Porém, o baterista Pete de Freitas o convenceu-o a entrar em estúdio para regravar algumas partes. “Fomos os dois para os estúdios Amazon e Pete sugeriu usar escovinhas, algo que nunca havíamos tentado. Eu ainda estava gripado, mas tudo soou brilhante. A melhor coisa que já tínhamos feito. Cheguei em casa tarde da noite e minha esposa me esperava. Toquei para ela uma parte de Killing Moon e ela chorou. Pensei que ela tivesse odiado, mas ela disse que era a canção mais linda que eu havia escrito. O disco foi feito nesse clima”, resume o vocalista.

Em Paris, o Echo and The Bunnymen encontrou tudo aquilo que esperava: uma cidade apaixonante movida a passeios de bicicleta por Montmatre, visitas ao cemitério Pere-Lachaise (“para dar um alô para Jim Morrison e Oscar Wilde”, conta Will Sargeant) e sessões de gravação no Studio Dês Dames, que tinha uma atmosfera aconchegante. Segundo o guitarrista, “Paris tinha se transformado na nossa cidade, a segunda casa dos Bunnymen’s”. O vocalista completa: “Eu cai de amores por Paris. ‘Ocean Rain’ está completamente ligado à cidade”.

Acompanhados por uma orquestra de 35 instrumentos, os Bunnymens deixaram a crise de lado e se concentraram nas gravações. As rachaduras estavam visíveis (Pete de Fretitas deixou a banda no ano seguinte), mas no estúdio tudo funcionava. Eram apenas nove canções assistidas por Gil Norton (que quatro anos depois gravaria “Doolittle”, do Pixies) que afastavam o grupo da crueza de seus primeiros álbuns. No clima de “The Killing Moon”, o Echo construía um disco de rock clássico inspirado nas chansons de Jacques Brel, Scott Walker e na orquestração de “Forever Changes”, clássico do Love.

Lançado em maio de 1984, “Ocean Rain” bateu na segunda posição do chart britânico, e “The Killing Moon” entrou no Top Ten. A beleza de canções como “Silver”, “Seven Seas”, “My Kingdom” e “Ocean Rain” permanece 25 anos depois, no momento em que o álbum ganha uma luxuosa reedição que inclui três b-sdies – “Angels and Devils”, “Silver (Tidal Wave)” e “The Killing Moon (All Night Version)” – e a integra de uma apresentação arrasadora no Royal Albert Hall em julho de 1983 além de comentários de Will Sargeant e Ian McCulloch sobre as gravações do álbum.

O show abre com três cacetadas de “Crocodiles”: a psicodélica “Going Up” e as clássicas “Villers Terrace” e “All That Jazz”. O clima segue acelerado com “Heads Will Roll”, mas “Porcupine” preenche o ambiente. “All My Colours (Zimbo)” abre caminho para a primeira das duas canções de “Ocean Rain” apresentadas na noite: “Silver”. “Simple Stuff” volta a acelerar o clima, mas o público aplaude mesmo o single “The Cutter”. “The Killing Moon” surge acelerada, rápida e bela. Seguem-se “Rescue”, “Never Stop”, “The Back of Love” (também muito aplaudida, o que faz Ian agradecer ao público dizendo que Londres é o melhor lugar para tocar – e viver).

O trecho final é todo “Heaven Up Here”. Abre com a poderosa “No Dark Things”, segue-se com a faixa título (em versão de corar o rosto) e finaliza com “Over The Wall”. Para o bis, “Crocodiles” em versão estendida que bate os sete minutos e quase triplica seu tempo em álbum. Ian grita “come on, baby” de forma alucinada e cai sobre “Light My Fire”, do Doors. Pete de Freitas massacra na bateria enquanto Will Sargeant pontua o arranjo, Les carrega tudo no baixo e Ian não pára de improvisar (veja um vídeo desta apresentação aqui). Um bis arrasador que no show original ainda contava com uma versão de “Do It Clean”, não inclusa nesta edição, mas presente no box “Crystal Days”.

“Ocean Rain” é um álbum magnífico. “Uma obra-prima”, define Ian McCulloch sem nenhuma modéstia no encarte. Ele vai além: “É o nosso Davi de Michelangelo. É o álbum que me fez perceber que havia muito mais mulheres em nossos shows. Não estávamos mais tocando para a turma do futebol”, resume. Da mesma forma, “Ocean Rain” marca o ápice da carreira do grupo de Liverpool, que nunca mais conseguiu atingir o mesmo momento de genialidade completa (apesar de bons momentos de discos como “The Game”, “Evergreen” e “What Are You Going To Do With Your Life?”). “Ocean Rain”, não o melhor álbum já feito, mas com certeza um dos melhores.

– Marcelo Costa entrevista Ian McCulloch (aqui)
– Siberia”, do Echo and The Bunnymen por Marcelo Costa (aqui)

Janeiro 26, 2009   No Comments

As duas faces do Autoramas

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari

Cinco anos atrás entrevistei Gabriel Thomas na época do lançamento de seu terceiro álbum e abri o papo questionando (tomando como mote o título do disco): “Nada pode parar os Autoramas?”. Gabriel foi incisivo: “Nada nem ninguém! Só nós mesmos!”. O disco estava sendo lançado com tiragem de 3 mil cópias pela principal gravadora independente do país, a Monstro, trazia alguns hits, mas deixava um elefante atrás das orelhas: Será que o Autoramas alcançou o seu máximo?

De lá para cá a banda perdeu, primeiro, a baixista Simone (ícone da primeira fase do trio) e depois Selma, gravou mais um disco (e também uma coletânea de raridades), excursionou mundo afora e ganhou do chefão da Rough Trade a definição de “the most important independent band in Brazil”. Sem contar que Gabriel se aventurou no projeto Lafayette e os Tremendões, que trouxe alguns bons frutos para o quarto disco do trio, “Teletransporte”, ampliando o alcance da musicalidade do grupo.

Porém, elogios e aventuras a parte, dois fatores definem a nova fase do grupo: a entrada de Flávia, a nova baixista, que trouxe musicalidade e desempenho de palco para a banda. E Gabriel parece estar vivendo o seu melhor momento como músico e entertainment. Juntos, esses dois fatores fizeram com que as duas apresentações que a banda fez em São Paulo às vésperas do aniversário da cidade fossem as melhores do Autoramas na capital paulista. E isso é algo raro e extremamente positivo.

Imagina uma banda que está na estrada faz nove anos, poderia ter conquistado o sucesso de massa com seu segundo álbum, mas não recebeu ajuda da gravadora e então criou uma reputação inatacável no cenário independente. Não sei a conta de quantos shows do Autoramas já vi, mas estes dois com certeza foram os melhores. Poucos nomes da música conseguem ampliar o alcance de seu trabalho – de forma positiva – após dez anos de carreira, e o Autoramas adentra este seleto grupo.

A apresentação de sexta à noite, no CB, marcou a estréia em palcos paulistanos do projeto acústico do trio. Nada de metais, violinos, músicos de apoio e banquinhos. Apenas Gabriel no violão, Flávia no baixo acústico e Bacalhau na bateria. E um repertório impecável que homenageava Erasmo (“Minha Superstar”), Elvis (“Love Me”), Carl Perkins (“Blue Suede Shoes”) e Reginaldo Rossi (“No Claro e No Escuro”), resgatava Little Quail (“Galera do Fundão”) e apresentava pela primeira vez na cidade um grande hit de Gabriel na voz de amigos seus: “I Saw You Saying”, cantada em coro pelo público.

Isso tudo sem contar o bom repertório próprio do grupo, mais romântico, com destaques para “Música de Amor”, “Copersucar”, “A História da Vida de Cada Um”, “Agora Minha Sorte Mudou”, “O Bom Veneno” e “A 300 Km”. Gabriel não economiza elogios para a nova baixista em entrevistas dizendo que sem ela o acústico não aconteceria, e a versatilidade de Flávia fica evidente no palco. São só os três músicos, um violão, e a sonoridade preenche o ambiente com classe e elegância. Para fechar a noite, uma versão sacolejante e instrumental de “Blue Monday”, do New Order.

No dia seguinte, a parada era outra. No projeto Pares, do Sesc Pompéia, o Autoramas divida o palco com o Cachorro Grande em uma noite de guitarras em alto volume. Abriram com “Motocross” e seguiram-se hits do quilate de “Paciência”, “Mundo Moderno”, “Nada a Ver”, “Rei da Implicância”, “Você Sabe”, “Fale Mal de Mim” e “Carinha Triste”. Uma das poucas canções que marcou nos dois shows, “A 300 Km/H” foi um dos grandes momentos da noite ao lado de “Surtei”, um blues do álbum “Teletransporte” dedicado, neste show, para Beto Bruno, vocalista do Cachorro Grande. Flavia cantou “Send Me a PostCard”, do Shoking Blue, e Gabriel resgatou “1,2,3,4”, do Little Quail.

Na seqüência, o Cachorro Grande entrou no palco disposto a satisfazer uma horda de jovens fãs que aguardava os gaúchos em São Paulo com ansiedade. A banda abriu com “Roda Gigante”, hit do último álbum, “Todos os Tempos”, e depois fez um passeio pelo repertório destacando “Hey, Amigo”, “Lunático” e “Você Não Sabe o Que Perdeu” em uma apresentação bem mais comportada e polida do que o usual do quinteto. Para o final, as duas bandas subiram juntas ao palco para homenagear Beatles com uma cover de “I Saw Her Standing There” e encerrar um ótimo fim de semana de rock and roll.

Mais fotos dos shows do Autoramas e do Cachorro Grande aqui

Leia também:
– “Teletransporte”, do Autoramas, por Marcelo Costa (aqui)
– André Azenha entrevista o Autoramas (aqui)

Janeiro 26, 2009   No Comments

Os Melhores do Ano do Scream & Yell

A gente até faz nossas listinhas particulares, mas curte mesmo juntar com a dos amigos, somar tudo e ver o que dá. Neste ano, 84 convidados dividem suas opiniões para o Prêmio Scream & Yell de Melhores de 2008, que demorou para sair (ok, nem tanto, ainda estamos em janeiro – risos), mas saiu.

Votação bastante equilibrada em diversas categorias, e algumas surpresas aqui e ali. Amigos da Rolling Stone Brasil, Veja, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, MTV, iG Música, VIP e Playboy, além de editores de sites, blogs e músicos dividem suas listas pessoais com os leitores. Está tudo no link do banner abaixo. Divirta-se.

Janeiro 19, 2009   No Comments

Senhor F lança coletânea ibero-americana

Control C Control V

O portal Senhor F inaugura nesta semana série de coletâneas “11 Temas”, com artistas ibero-americanos atuais. A primeira edição traz artistas do México, Portugal, Peru, Argentina, Brasil, Chile e Uruguai (playlist abaixo). Em sua maioria, são músicas recentes, dos últimos lançamentos em discos-cheios, eps ou singles. Com periodicidade mensal, e arte de Sara Soyaux, a coletânea terá apenas versão virtual, para download gratuito.

A banda argentina El Mato a Un Policia Motorizado, grande revelação do rock local e sul-americano, abre a coletânea com o tema “Mi Próximo Movimiento”, de seu novo EP “Dia de los Muertos”, lançado recentemente. Também da Argentina, The Tormentos comparece com “Espanto”, instro-surf que, junto com o disco “Death Drop!”, fez do quarteto definitivamente um dos melhores do mundo no gênero.

“A Morte”, do disco “Autista”, com o cantor e compositor português Azevedo Silva, acompanhado de Filipe Grácio, introduz os “cantautores” na coletânea. Ao lado dele figura o brasileiro Beto Só, com a música “Com Leite e Café”, de seu novo disco “Dias Mais Tranqüilos”, melhor disco do ano para o jornal Correio Braziliense, de Brasília. E também o chileno Gepe, destaque da moderna música do país, com tema de seu novo EP “Las Piedras”.

A banda mexicana San Pascualito Rey, outra grande surpresa da nova cena musical em língua espanhola, se faz presente com “Caemos o Volamos”, de seu último disco “Deshabitado”. A coletânea ainda destaca os peruanos Turbopotamos com “Terrorize You/Disco Flor”, single lançado na segundo semestre de 2008. E os brasileiros Volver, do Brasil, com “Não Sei Dançar”, do disco “Acima da Chuva”, outro destaque entre os melhores lançamentos do ano no Brasil.

Também do Brasil, “11 Temas” traz o grupo Macaco Bong com a música “Noise James”, do disco “Artista Igual Pedreiro”, eleito o melhor de 2008 para a Rolling Stone. Outra presença importante na coletânea é a dos chileno Congelador, com a musica “Abrigo”, que abre o novo disco que marcou o retorno da banda à cena musical. Ainda destaque da região do Prata, o duo uruguaio Danteinferno agrega ao playlist o noise-pop “Happy Easter”.

Segundo o editor de Senhor F, Fernando Rosa, o projeto pretende contribuir para promover um maior intercâmbio da produção independente ibero-americana. “É uma idéia inspirada na ‘Parada Senhor F’, que durante muito tempo ajudou a divulgar internamente a cena independente brasileira”, diz ele. E também em outros iniciativas, como as coletâneas da revista espanhola Zona de Obras, ou os “podcasts” do Zona Girante, produzido na Argentina.

“11 Temas” – Volume 1

1.El Mato a Um Policia Motorizado – Mi próximo movimiento (Argentina/Laptra)
2.Azevedo Silva – A morte (Portugal/Lastima)
3.San Pacualito Rey – Caemos o volamos (México/Independente)
4.Volver – Não sei dançar (Brasil/Senhor F Discos)
5.Turbopotamos – Terrorize you/Disco flor (Peru/Discos Gordos)
6.Congelador – Abrigo (Chile/Quemasucabeza)
7.Beto Só – Com leite e café (Brasil/Senhor F Discos)
8.Gepe – De paso (Chile/Quemasucabeza)
9.Danteinferno – Happy Easter (Uruguai/Debil+Amplitude)
10.Macaco Bong – Noise James (Brasil/Trama+Monstro+Fora do Eixo)
11.The Tormentos – Espanto (Argentina/Scatter Records)

DOWNLOAD GRATUITO AQUI

Janeiro 18, 2009   No Comments

Habemus vencedor (ou quase)

Na verdade, ainda faltam chegar alguns votos perdidos para o Melhores do Ano Scream & Yell, o que pode bagunçar algumas categorias como “disco internacional”, cujo primeiro lugar recebeu (até o momento) 15 votos, o segundo 14 e três discos empatam na terceira posição com 13 votos, mas não consegue impedir que a fatura esteja liquidada em “disco nacional”, cujo álbum vencedor abriu cinco votos do segundo colocado (e este ficou seis votos à frente do terceiro).

A grande barbada deste ano, você sabe, é “show internacional”. O vencedor está batendo os demais concorrentes por quase 25 votos de diferença. Em “Filme” (tanto nacional quanto gringo) a fatura também já está fechada com uma margem de vantagem de cinco votos. As melhores músicas (nacional e gringo) parecem firmes. Na verdade, a grande canção internacional já tem lugar garantido. A nacional pode até perder… para outra do mesmo artista.

Segunda-feira, se o BBB 9, a Gisele Bündchen e o SPFW deixarem, o especial Melhores do Ano do Scream & Yell estará no ar. Até o momento, 81 votos estão computados. Duas longas noites de trabalho pela frente. Aguarde.

Janeiro 16, 2009   No Comments

No clipping do iG e novos textos no site

Eu até já tinha desistido de comentar sobre isso, pois peguei a Revista Imprensa de dezembro quando estava saindo de viagem, e quando voltei uma nova já estava nas bancas, mas então chega o clipping do iG e está lá o meu pequeno perfil que saiu na revista. Então, está ai:

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Como estou concentrado no fechamento dos números dos Melhores do Ano do S&Y, textos novos só na semana que vem. Aproveitei para abrir espaço e destacar um material bacana que baixou aqui. O Leonardo Vinhas, com seu famoso senso corrossivo de escrever, explica aqui por que você deve ouvir o novo do La Carne, “Granada”, e esquecer o CSS (e quetais). O estreante Nuno Manna debuta no site com um belíssimo texto (aqui) sobre “A Noite”, de Antonioni, um filme que você precisa ver. E o amigo Jorge Wagner conta em seu texto (aqui) que se impressionou bastante com o novo trabalho do Ramirez, liberado na integra para download. Leia, baixe e comente.

Janeiro 15, 2009   No Comments