Cenas da vida em SP - Bonnie ‘Prince’ Billy
Foto: Marcelo Costa / Scream & Yell
O show está no meio, mas o rapaz quer evitar as filas e se encaminha para o caixa para pagar a conta. Uma garota, meio bêbada, balança para lá e para cá perto do local. Ela olha esperando cumplicidade, e o rapaz se coloca atrás dela como se estivesse entrando numa fila. O segurança orienta a posição correta, e isso basta para ela puxar papo:
- Como se fosse fazer diferença, né.
- É…
Ela olha e ele tenta decifrar o que está passando pela cabeça dela até que um amigo chega e lhe passa um celular. Ela olha quem está ligando, leva o aparelho ao ouvido, e começa o diálogo:
- Oi. Onde você está? (parece perguntar a pessoa do outro lado)
- Estou num funeral – responde a menina, irritada, emendando ainda – Não posso falar muito alto, pois é capaz do cara que está encostado no bar bater em mim (diz ela olhando em direção ao homem).
A ligação continua, mas já não é possível entender o diálogo. Alguns “shhhhhhh” dominam o ambiente. Ela desliga o celular e volta para a fila. Olha o rapaz e pergunta:
- Você sabe quem é esse cara que está tocando?
- Bonnie “Prince” Billy.
- Ahhhh, ele é estrangeiro?
- Americano.
- E o que é esse som?
- Folk.
- Punk?!?!
- Foooolk!
- Ahhhhh. Parece música de velório – diz ela, virando-se para um amigo e ordenando – Vamos embora daqui antes que alguém bata em mim. E lá se foi ela para alguma balada eletrônica… ou algum forró.
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Essa cena é bastante comum em São Paulo. Na primeira vez que vi o Echo and The Bunnymen, no Via Funchal, 1999, eu havia saído de Taubaté para vir ver o show na capital. Exatamente na minha frente, ali quase no gargarejo, um rapaz vira para o lado e pergunta a outro:
- Que música toca essa banda ae?
- …
- Eles não tem nenhum sucesso, alguma música famosa?
- Olha, tem vários…
- Acho que nunca ouvi nada deles, mas eu gosto de vir a shows aqui. Semana passada eu vi o Alphaville. Foi bem legal…
O diálogo parou por ai, mas fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen ou, atualizando, no da menina que acha que Bonnie “Prince” Billy é um cantor de velórios. Em Taubaté, nos anos 80 e 90, qualquer show era um grande evento. Em São Paulo parece um mero passatempo. E passatempo é o que menos o show de Bonnie “Prince” Billy foi, apesar do Studio SP não inspirar intimismo e o som estar assustadoramente baixo.
Durante duas horas e meia (!), Bonnie “Prince” Billy mostrou ao público que realmente enxerga a escuridão. Acompanhado por mais um violão, o músico jogou tristeza no colo do público, e durante a primeira meia hora assisti ao show colado ao palco, fotografando e admirando a melodia das palavras e acordes. Porém, ao tentar curar minha gripe com cerveja, desloquei-me para o bar e deixei-me levar pelo cenário esquizofrênico de uma noite típica de São Paulo, em que algumas tribos diferentes se esbarram e se relacionam.
Fãs do cantor grudavam no palco e pediam canções, que eram atendidas de imediato. Esse fanatismo musical seguia-se até a quarta ou quinta fileiras que rodeavam a frente do palco. Dali para trás já havia um grupo – de fãs e não fãs – que separava o “gargarejo” das rodas de bate papo. E o “shhhhhhh” foi a coisa mais ouvida em toda a noite. Fiquei perto do bar conversando com um amigo, bebendo cerveja e ouvindo um fio de voz ao longe gritar “I See a Darkness”. Bonnie “Prince” Billy merecia maior atenção, mas a noite foi bastante interessante.
Quem sabe, numa próxima vez, ele não toque em um teatro em que a música seja a principal estrela e não precise ficar brigando com a busca pela cerveja, vodka ou afins; com amigos discutindo o real valor de “Chinese Democracy”, se Paul McCartney vem ou não vem e qual noite do R.E.M. em São Paulo foi a melhor; com meninas paquerando enquanto gingam o corpo dançando um som que não tem ginga. É bem provável que a noite tenha sido ruim apenas para a turma que ficou na linha que separava os dois públicos. De ambos os lados do muro a noite parece ter sido divertida. Apesar de toda a tristeza…
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Mais fotos do show de Bonnie ‘Prince’ Billy em São Paulo (aqui)
















9 comentários
belo texto, me identifiquei.
e eu queria estar no lugar da garota que foi embora.
realmente, mac, tem tanto show aqui em são paulo que as apresentações deixaram de ser um ‘evento’ para ser meramente ’som ao vivo’. o lado bom é que são paulo tá tendo shows como nunca antes. entretanto, sei que sou meio (muito) chato, pois o blablabla às vezes chega a ser tão alto que não dá pra curtir o show. digo isso depois de ir ao show do Del Rey essa semana tbm no StudioSP. Sei lá, tem shows que precisam de uma atmosfera pra ‘acontecerem’, e os produtores é que devem estar atentos e ter feeling pra isso. p. ex.: sigur rós abrindo pro radiohead num estádio, será que rola??? sei não… Pra encerrar, mais uma vez, parabéns pelo texto!
Então, Rodrigo, quanto ao Sigur Rós, pode ficar sossegado. Vi eles na Escócia e na Espanha ao ar livre e foi muuuuito foda.
Adorei o show, fiquei lá colado no palco, mas parecia que tinha mais gente interessada em discutir a vinda do Radiohead do que curtir o show do barba ruiva.
Horses foi de arrepiar….
Marcelo,
adoro música (folk há tempos) mas não conhecia o som do Bonnie “Prince” Billy. Ao contrário de muitas pessoas não me envergonho de não conhecer todos os sons do mundo e me surpreender sempre. Em poucas palavras, um belo show com belas canções. Em relação ao “hypismo”, nem me preocupo mais.
Infelizmente não pude ir a esse show. Moro no Rio, e pobreza + trabalho = não folga dia de semana. Não temos aqui uma cena underground igual a de SP, mas em determinados shows (como o Faraquet e Joe Lally), o show é tão intimista que parece particular.Acho isso bom, provavelmente o artista também.
Excelente texto, parabéns.
caramba hein……..
uma pena não poder ver o bonnie….
pelo menos tenho aqui para escutar os dois belos álbuns lançados por ele neste ano (wilding in the west e lie down in the light)
“fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen”
Eu moro em Rio Grande, RS e o maior sonho da minha vida é ver um show dos Bunnymen. Esse ano teve em POA mas eu tinha que trabalhar no dia (era uma quinta-feira, mas hoje acho que largaria o emprego pelo show).
Tem gente que tem tudo de mão beijada mesmo.
Estou impressionada com o texto. Durante o show aqui em Salvador foram vários os momentos que me perguntava: “O que esse pessoal todo esta fazendo aqui? Pq ao menos não ficam calados?”. O show, numa casa bem pequena, lutou contra o ruído o tempo todo. Bonnie ‘Prince’ Billy em alguns momentos ria, imaginei que ele não estava entendendo. A situação aqui ainda foi pior. Tinha gente conversando na segunda fila. Engraçado que ficava pensando “em São Paulo isso provavelmente não aconteceria”. Pelo jeito isso é coisa de brasileiro mesmo.
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