Blog do Editor do Scream & Yell
Random header image... Refresh for more!

Posts from — Novembro 2008

Preguiça

Muita.

Novembro 29, 2008   3 Comments

Cenas da vida em SP - Bonnie ‘Prince’ Billy

Foto: Marcelo Costa / Scream & Yell

O show está no meio, mas o rapaz quer evitar as filas e se encaminha para o caixa para pagar a conta. Uma garota, meio bêbada, balança para lá e para cá perto do local. Ela olha esperando cumplicidade, e o rapaz se coloca atrás dela como se estivesse entrando numa fila. O segurança orienta a posição correta, e isso basta para ela puxar papo:

- Como se fosse fazer diferença, né.
- É…

Ela olha e ele tenta decifrar o que está passando pela cabeça dela até que um amigo chega e lhe passa um celular. Ela olha quem está ligando, leva o aparelho ao ouvido, e começa o diálogo:

- Oi. Onde você está? (parece perguntar a pessoa do outro lado)
- Estou num funeral – responde a menina, irritada, emendando ainda – Não posso falar muito alto, pois é capaz do cara que está encostado no bar bater em mim (diz ela olhando em direção ao homem).

A ligação continua, mas já não é possível entender o diálogo. Alguns “shhhhhhh” dominam o ambiente. Ela desliga o celular e volta para a fila. Olha o rapaz e pergunta:

- Você sabe quem é esse cara que está tocando?
- Bonnie “Prince” Billy.
- Ahhhh, ele é estrangeiro?
- Americano.
- E o que é esse som?
- Folk.
- Punk?!?!
- Foooolk!
- Ahhhhh. Parece música de velório – diz ela, virando-se para um amigo e ordenando – Vamos embora daqui antes que alguém bata em mim. E lá se foi ela para alguma balada eletrônica… ou algum forró.

******************************************

Essa cena é bastante comum em São Paulo. Na primeira vez que vi o Echo and The Bunnymen, no Via Funchal, 1999, eu havia saído de Taubaté para vir ver o show na capital. Exatamente na minha frente, ali quase no gargarejo, um rapaz vira para o lado e pergunta a outro:

- Que música toca essa banda ae?
- …
- Eles não tem nenhum sucesso, alguma música famosa?
- Olha, tem vários…
- Acho que nunca ouvi nada deles, mas eu gosto de vir a shows aqui. Semana passada eu vi o Alphaville. Foi bem legal…

O diálogo parou por ai, mas fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen ou, atualizando, no da menina que acha que Bonnie “Prince” Billy é um cantor de velórios. Em Taubaté, nos anos 80 e 90, qualquer show era um grande evento. Em São Paulo parece um mero passatempo. E passatempo é o que menos o show de Bonnie “Prince” Billy foi, apesar do Studio SP não inspirar intimismo e o som estar assustadoramente baixo.

Durante duas horas e meia (!), Bonnie “Prince” Billy mostrou ao público que realmente enxerga a escuridão. Acompanhado por mais um violão, o músico jogou tristeza no colo do público, e durante a primeira meia hora assisti ao show colado ao palco, fotografando e admirando a melodia das palavras e acordes. Porém, ao tentar curar minha gripe com cerveja, desloquei-me para o bar e deixei-me levar pelo cenário esquizofrênico de uma noite típica de São Paulo, em que algumas tribos diferentes se esbarram e se relacionam.

Fãs do cantor grudavam no palco e pediam canções, que eram atendidas de imediato. Esse fanatismo musical seguia-se até a quarta ou quinta fileiras que rodeavam a frente do palco. Dali para trás já havia um grupo – de fãs e não fãs – que separava o “gargarejo” das rodas de bate papo. E o “shhhhhhh” foi a coisa mais ouvida em toda a noite. Fiquei perto do bar conversando com um amigo, bebendo cerveja e ouvindo um fio de voz ao longe gritar “I See a Darkness”. Bonnie “Prince” Billy merecia maior atenção, mas a noite foi bastante interessante.

Quem sabe, numa próxima vez, ele não toque em um teatro em que a música seja a principal estrela e não precise ficar brigando com a busca pela cerveja, vodka ou afins; com amigos discutindo o real valor de “Chinese Democracy”, se Paul McCartney vem ou não vem e qual noite do R.E.M. em São Paulo foi a melhor; com meninas paquerando enquanto gingam o corpo dançando um som que não tem ginga. É bem provável que a noite tenha sido ruim apenas para a turma que ficou na linha que separava os dois públicos. De ambos os lados do muro a noite parece ter sido divertida. Apesar de toda a tristeza…

******************************************

Mais fotos do show de Bonnie ‘Prince’ Billy em São Paulo (aqui)

Novembro 28, 2008   10 Comments

Gripe, Radiohead no Brasil e o beijo…

No fim das contas não tomei sopa e nem chá. Fiz um baldão de pipoca e me joguei no colchão, na sala, para ver o documentário “Fabricando Tom Zé” (muuuuito bom) e, também, “A Mundana”, de Billy Wilder, com Marlene Dietrich. Parei no meio deste segundo, mas como os diálogos são fodas…

*************

Radiohead no Brasil

Agora é oficial, com direito a release da Plan Music e tudo mais. Thom Yorke e compania baixam no Brasil para dois shows em março de 2009. As apresentações farão parte do festival Just A Fest, que acontece no Rio de Janeiro no dia 20 de março, na Praça da Apoteose, e em São Paulo, na Chácara do Jóquei, em 22 de março. O festival contará ainda com a participação de outros grupos, que serão anunciados em breve.

Entre os grupos que devem ser anunciados em breve para o tal Just A Fest estão alguns nomes nacionais e bem provável que Sigur Rós e/ou Portishead entrem na jogada (lembre-se: Spiritualized já adiantou que estava fechando shows para o Brasil em março de 2009). Juro que não é pra sacanear, mas Sigur Rós, Portishead e Spiritualized (qualquer um, ou os três juntos) têm tudo para roubar a noite do Radiohead.

Na Bélgica, em julho (leia aqui), fiquei o mais perto que consegui da grade para ver a banda pela primeira vez. Antes, porém, tive que “aguentar” o Sigur Rós, que fez um show maravilhoso e acabou se transformando em melhor show da noite, já que o Radiohead entrou com um repertório de b-sides e lados b e a coisa toda só foi pegar fogo ali pela oitava, nona música.

Em Berlim, só o Radiohead no palco (leia aqui), foi outra coisa, show inesquecível com todo mundo se abraçando em “No Surprises”, mas aí eu já sabia que a coisa toda engrenava uns vinte minutos depois do show ter começado, e já tinha ingerido uma dose cavalar de cervejas quentes. Curti mais, muito mais, e até a garoazinha que caiu sobre o Parque Wuhlheide pareceu maravilhosa. Engraçado é que o show do Sigur Rós, duas semanas depois, na primeira noite do Fib, na Espanha, foi ainda melhor que aquele do Werchter, com o Radiohead…

Sobre a venda dos ingressos:

Os ingressos para os shows começam a ser vendidos pelo site www.ingresso.com a partir das 00h do dia 05/12. Em São Paulo, também será possível comprar ingressos, a partir das 9h do dia 05/12, nas bilheterias do Estádio do Pacaembu, Rua Prof. Passalaqua, s/n - ao lado do portão 24. No Rio de Janeiro os ingressos estarão também disponíveis, a partir das 9:00h do dia 5 de dezembro, na bilheteria 1 do Maracanãzinho – Prof. Eurico Rabelo – próximo a estátua do Bellini. Serão disponibilizados 35 mil ingressos para  Rio de Janeiro e 30 mil ingressos para São Paulo.

Pagamento nos pontos de venda apenas em dinheiro, limite de venda de quatro ingressos por pessoa. Preços (tanto SP quanto RJ): R$ 200 (R$ 100 a meia)

*************

Gente, a Mônica vai beijar o Cebolinha??? Aliás, ela tá uma graça, hein.

Novembro 27, 2008   6 Comments

Bill Graham e Jim Morrison

Estou fudidamente gripado. Não sei se foi a cerveja do fim de semana (e nem foram tantas), o futebol de salão de segunda à noite (marquei quatro gols, pisei na bola em certo momento, cai e ralei o joelho além de ter sido “calçado” pela linha lateral) ou uma virose que já pegou alguns amigos. Fato é que eu deveria escrever as 500 Toques desta semana, olhar alguns blogs de amigos e leitores e responder e-mails de gente que quer escrever para o Scream & Yell (além de ouvir alguns My Space), mas isso tudo vai ficar para depois, me desculpe.

Vou assistir “I’m Not There”, que já saiu em DVD em versão dupla (aliás, viu a promoção do site da 2001 com várias coisas bacanas por R$ 14,90?) com vários extras, tomar chá e sopa e torcer para melhorar para ver, amanhã, Bonnie ‘Prince’ Billy. Enquanto isso deixo mais um pequeno trecho de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock and Roll”, lançamento imperdível da Editora Barrucada. Depois daquele trecho com o Otis Redding (aqui) já me diverti com passagens fodas de Chuck Berry, Janis Joplin, Cream, The Who e outros. Estou no capítulo “Verão do Amor”, e os Doors vão tocar no Fillmore…

“O Doors tinha três shows para fazer no primeiro Fillmore. Na noite anterior eles tocaram em Sacramento. Na época, estavam começando a fazer sucesso, e os ingressos esgotaram. Todo mundo da banda apareceu na hora certa, mas nada do Jim Morrison. Ele não apareceu e ninguém sabia onde ele estava. Tivemos que pedir a todo mundo para ficar com os ingressos. Reembolsamos alguns e pedimos às outras pessoas que ficassem com o ingresso para a próxima noite.

Na tarde do dia seguinte, Jim entrou no meu escritório no Fillmore pedindo desculpas. Ele me disse que quando saiu de Sacramento para ir até São Francisco, de carro, passou por um cinema. E ‘Casablanca’ estava em cartaz. E ele não podia perder. Então foi ver ‘Casablanca’ ao invés de ir para o show. E eu dizia:

- Eu sou um grande fã de Humphrey Bogart. Conheço bem ‘Casablanca’. Mas ‘Casablanca’ em Sacramento não era bem o que eu tinha em mente ontem à noite. Você devia ter ligado.

E ele:

- É, eu podia ter ligado.

E completou:

- Eu vi o filme três vezes.

Isso mostra o quanto ele gostou do filme.”

Novembro 26, 2008   3 Comments

Always The Bridesmaid, The Decemberists

Colin Meloy está prestes a transformar sua banda, os sensacionais Decemberists, em sensação pop. Como se fosse um R.E.M. do novo milênio, o grupo estuda o próximo passo com cautela enquanto diverte-se em projetos paralelos. Após grandes elogios a “The Crane Wife” (2006), último álbum do grupo, Colin Meloy e banda sumiram e reapareceram apenas agora para apoiar a candidatura de Obama, anunciar um novo disco para 2009 e entregar três compactos duplos 12’ em vinil 180 gramas com material inédito.

“Always The Bridesmaid: A Singles Series” é composto por seis músicas, e faz um tempo que o mercado não recebe um grupo de canções tão arrebatador. “Valerie Plame”, a faixa que abre o primeiro single, é uma das mais belas canções pop feitas nessa década. São cinco minutos delirantes em que viola, acordeom, órgão, baixo, bateria e vocais levam o ouvinte aos céus. A letra conta a história da ex-espiã da CIA – que dá nome à música – cuja identidade secreta foi vazada à imprensa depois que seu marido, um ex-embaixador crítico ao governo Bush, escreveu um artigo no New York Times questionando as razões do presidente para invadir o Iraque.

No lado b, “O New England”, uma falsa balada emocional de batida limpa de violão que conta uma triste história de amor. Ele tenta conseguir um sorriso dela, e a leva para onde o amor dos dois começou, mas “esta aqui é a fábula de uma tentativa fracassada”. Para o segundo single foi escolhida “Days Of Elaine”. De batida acelerada e refrão forte que lembram Wilco, Belle and Sebastian e Smiths, “Days Of Elaine” é mais uma das histórias fantasiosas de Colin Meloy, e narra uma mãe (a tal Elaine) contando coisas para o filho. No lado B uma cover fidelíssima de “I’m Sticking With You”, do Velvet Underground, com Jenny Conlee bancando Maureen Tucker e Meloy, Lou Reed.

O volume 3 de “Always The Bridesmaid: A Singles Series” chama-se “Record Year”, que abre de forma dilacerante com violão, viola e violino: “Eu li no jornal de hoje: Tem sido um ano recorde de chuva / E você estava encostada contra a parede do banheiro / Em seu vestido solitário / Foi só o seu vestido”. A canção segue épica entre dias cinzentos. “Raincoat Song” surge no lado b, quase country, e conta a história de Caroline, uma garota de 28 anos que está com raiva porque está dormindo sozinha e tem medo de ficar solteirona. Diz o refrão: “Você usava capa de chuva quando choveu hoje, e acho que isso só fez chover mais”.

Logo após o lançamento de “The Crane Wife”, Colin Meloy, que já havia gravado EPs com canções de Morrissey e da cantora folk irlandesa Shirley Collins (”Colin Meloy Sings Morrissey”, de 2005, e “Colin Meloy Sings Shirley Collins”, de 2006), voltou com uma homenagem a Sam Cooke e também um álbum ao vivo (”Colin Meloy Sings Live CD”) que traz canções da primeira banda do compositor, Tarkio, duas faixas inéditas e citações de Smiths, Pink Floyd, e Fleetwood Mac. O baixista Chris Funk montou o projeto Flash Hawk Parlor Ensemble e o baterista John largou as baquetas e foi tocar guitarras no Perhapst. Agora todos voltam ao Decemberists.

O volume 1, “Valerie Plame / O New England”, foi lançado em 14 de outubro; O volume 2, “Days of Elaine / Sticking With You”, em 04 de novembro; e o volume 3, “Record Year / Raincoat Song”, começa a ser vendido no dia 02 de dezembro. Cada um dos três volumes está sendo lançado em edições limitadas de vinil (500 cópias) e podem ser comprados no site oficial da banda. São seis canções brilhantes, pequenas epopéias de um compositor que continua escrevendo músicas como se estivesse esculpindo diamantes. Fique atento(a): o Decemberists tem tudo para ser a maior banda do mundo nos próximos dois anos. Senão for não tem problema. Será uma de suas bandas mais queridas. Acredite.

“Always The Bridesmaid: A Singles Series”, The Decemberists (Capitol)
Preço em media: R$ 30 por single (importado)
Nota: 10
Site: http://www.decemberistsshop.com/zencart/

Leia também:
- “The Crane Wife”, The Decemberistis, por Marcelo Costa (aqui)
- Decemberists ao vivo em Columbus, Ohio, por Marcelo Costa (aqui)

Foto: Divulgação

Novembro 25, 2008   4 Comments

Festival El Mapa de Todos e Bonnie ‘Prince’ Billy

A partir desta quinta-feira acontece em Brasília a primeira edição do festival El Mapa de Todos reunindo artistas do Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Espanha, Portugal e Brasil em três noites de festa em Brasília. Tirando o show do Camelo, que é aquela chatice que a gente já viu no Tim Festival, eu queria muito ver os outros, principalmente Beto Só, Babasonicos, Javiera Mena e Mundo Livre S/A. Festival de luxo.

Quinta - 27/11
Beto Só (Brasil)
Azevedo Silva (Portugal)
Danteinferno (Uruguai)
Marcelo Camelo & Hurtmold (Brasil)

Sexta - 28/11
Facas Voadoras (Brasil)
Macaco Bong (Brasil)
Turbopotamos (Peru)
Babasónicos (Argentina)

Sábado - 29/11
Instiga (Brasil)
La Quimera del Tango (Argentina)
Javiera Mena (Chile)
Sr. Chinarro (Espanha)
Mundo Livre S/A (Brasil)

O El Mapa de Todos acontecerá no Espaço Brasil Telecom:

http://www.espacobrasiltelecom.com.br/

Enquanto isso, em São Paulo…

Novembro 25, 2008   1 Comment

SP Noise: “Parece Glasgow nos anos 90″

Texto: Marcelo Costa / Fotos: Lili Callegari

Mais do que trazer uma escalação com nomes badalados no circuito independente, a primeira edição do SP Noise prometia uma mistureba de estilos que poderia soar, no mínimo, inusitada. A variedade abrangia o rock matemático de Helmet (confirmado na última hora) e dos belgas do Motek passando pelos inenarráveis Ambervisions, de Santa Catarina, pela surf-music dos argentinos do The Tormentos, pelo rock de clima punk flower power do Black Lips até o som climático e viajandão do Black Mountain, mas era impossível não olhar para as roupas.

Do visual adolescente e fanfarrão do Black Lips passando pelo modelo hippie adotado pelo Black Mountain, o de garçons de transatlântico exibido pelos argentinos do Tormentos, a falta de uniformidade do Vaselines (Stevie Jackson de bancário, Bobby Kilddea de camiseta de pijama gola v, Frances de qualquer coisa e Eugene de mestre de cerimônias de festa country) até chegar ao “grande momento” do fim de semana: o colete de couro com franjas e calça de oncinha de Eduardo Martinez, vocalista argentino do combo finlandês Flaming Sideburns, o SP Noise foi muito mais visual que musical.

 

O primeiro dia foi aberto pelos goianos do Black Drawing Chalks que fizeram um barulho de muita responsa. Os argentinos do Tormentos repetiram o show mediano que vi deles em Buenos Aires, quatro anos atrás. Provável que daqui a cinqüenta anos estejam fazendo um show igual. Os Ambervisions fizeram o público rir com seu vocalista, Zimmer, de cabeça enfaixada, óculos e maracas, mas o show não honrou a barulheira de seus dois álbuns. O Motek me cansou na terceira vez que multipliquei 4 x 4 alcançando um resultado de 16, mas os CDs da banda foram bem vendidos na barraquinha.

No quesito show, o festival começou mesmo quando os finlandeses do Flaming Sideburns pisaram no palco 2 jogando seu glam rock com pitadas hard no colo do público. A banda usa uniforme (que podem ser o da turnê anterior do Hives) e soa extremamente afiada. O vocalista argentino Eduardo Martinez é uma peça. Baixinho, meio fora de forma, mas de colete e sem camisa, e ostentando uma legitima calça de oncinha, Martinez é daqueles que amam os clichês do estilo. Dançou de rostinho colado com uma menina na pista, se jogou no colo de um cara que ficou alisando seu cabelo (curto) enquanto ele cantava e até plantou bananeira no palco. Fora de forma quem?

 

Fechando a primeira noite, os canadenses do Black Mountain só faltaram acender incensos no palco 1 para deixar o clima flower power contaminar o pequeno público. Enquanto rapazes suspiravam pela vocalista Amber Webber (que mais tocava maracas, pandeiro e posava do que cantava), o grupo mandava ver na sonoridade setentista com bastante propriedade num misto de psicodelia com folk e momentos de hard rock. Tudo ia bem até o show ser interrompido bruscamente pelo pessoal da casa, que devido ao avançado do horário (22h e pouco) precisava esvaziar o local para começar uma outra balada noturna. Um pecado que vitimou uma boa apresentação.

 

O segundo dia começou com um público muito maior e os paulistas do Homepie abrindo os trabalhos no palco 2 mostrando influências de Belle and Sebastian e um longo trajeto a percorrer para chegar a algum lugar. Os norte-americanos do Calumet-Hecla fizeram um barulho dos diabos no palco 1 com a ruiva Anne fazendo caras e bocas, mas não chamaram muito a atenção do público, que preferiu ficar no bar, jogando Nintendo Wii ou aproveitando os últimos resquícios de sol, antes da chuva. O Do Amor (”Cheiro do Amor?”, perguntou um amigo)  apresentou sua mistura de (indie) rock, carimbó e axé-music, mas dispersou o público, que também deixou passar os chilenos do The Ganjas.

Os moleques desajustados do Black Lips lotaram o palco 2, e o show foi melhorando progressivamente até honrar a fama conseguida com boas resenhas em grandes veículos da imprensa internacional. A rigor, o show foi menos caótico do que a apresentação no Fib, na Espanha, em julho. Mas lá eles estavam no enorme palco principal (que naqueles dias recebeu Leonard Cohen, Morrissey, Raconteurs e My Bloody Valentine) enquanto aqui sofriam com problemas no som, chegando ao ponto do vocalista e guitarrista Cole Alexander colocar uma meia no microfone para evitar choques. Outro bom show interrompido pela casa cujo melhor momento foi o arremesso de cuspe do vocalista para o alto, e que lhe beijou a testa.

O Helmet – responsável pelo aumento de vendas de ingressos para o festival assim que confirmou, na quinta passada, sua presença em São Paulo – honrou sua história. O líder e único remanescente da formação original da banda, Page Hamilton, mostrou logo de cara que não estava para brincadeiras. Assim que alguém pediu uma música, ele mandou: “Foda-se! A gente só vai tocar o que a gente quiser”. E assim foi o massacre. Teoricamente é um som que não deveria agradar a quem tem mais de 18 anos, mas é lindo ver uma roda de pogo quebrando tudo e até o segurança batendo cabeça de costas para o palco. Disparado o melhor show do festival.

Fechando o fim de semana noise, os escoceses do Vaselines subiram ao palco com muitos problemas no som e a fama de banda preferida de Kurt Cobain, que gravou três covers do grupo no Nirvana. O show abriu, inclusive, com uma delas, “Son of a Gun”, e a desordem no palco honrava a tradição tosca do grupo. O baixista Bobby Kilddea não conseguia ouvir nada no retornos, o guitarrista Stevie Jackson se enrolava com a guitarra e o microfone de backing e o baterista Michael (o Michael da música do Franz Ferdinand, que não tem nada, mas nada mesmo de sexy) descia a mão no kit básico sem nenhuma variação. Era 1, 2, 3 e vamos pular.

 

No centro do palco, Eugene Kelly e Frances McKee tentavam entreter o público em meio a tosqueira. Eugene chegou a levar um choque quando tentava testar o microfone, largou a guitarra e saiu emburrado. Voltou depois, com o microfone trocado, e apresentou “Molly’s Lips” (outra gravada por aquele grupo de Seattle), cuja temática é o sexo oral, como uma canção sobre “beijar bucetas”. Francês emendou totalmente desavergonhada: “Como se você soubesse o que é isso”. A vocalista fez várias referências a sexo durante a apresentação. O som melhorava em faixas mais roqueiras como “Dying For It”, mas capengava em números mais lentos – como “Jesus Wants Me for a Sunbeam”, o que não chegava a incomodar o público.

“You Think You’re a Man” veio no bis, tornando-se um grandes momentos da noite. “Dum-Dum” fechou o show – com os responsáveis pela casa irados e pedindo para que o show acabasse o mais rapidamente possível. Um pouco antes, em meio aos inúmeros problemas de som no palco, e a chuva lá fora, Frances brincou e praticamente resumiu o fim de semana: “Isso tudo está parecendo Glasgow nos anos 90″.

O São Paulo Noise, nos anos 00, tropeçou no apertado dos horários (não se começa um festival na cidade numa sexta-feira às 18h nem no meio de um quase feriado, pois ninguém consegue chegar) e no line-up sufocado em um horário de matinê sem chance de erros e improvisos. É ótimo sair de casa para ver um show e chegar antes da meia-noite, mas para não prejudicar as atrações principais é melhor escalar menos bandas. O saldo final é positivo, pois os tropeços desta primeira edição podem ser consertados nas próximas. E quem sabe no ano que vem São Paulo pareça um lugar melhor.

Ps. Frances, Glasgow é uma das cidades mais chatas do mundo!

Ps2. Mais fotos do SP Noise, por Lili Callegari (aqui)

Novembro 23, 2008   10 Comments

Titãs e Sonic Youth nas telonas

 

“A Vida Até Parece Uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves
Cotação: 1/5

Uma das principais formações de rock do país, o Titãs chega às telonas (via Mostra RJ e SP – estréia oficial apenas em janeiro) com um documentário caseiro que procura contar a trajetoria da banda através de imagens de programas de TV e registros que Branco Mello começou a fazer quando comprou sua primeira câmera VHS em 1986. Dividido a quatro mãos entre o titã e o diretor Oscar Rodrigues Alves, “A Vida Até Parece Uma Festa” tropeça enquanto cinema, mas fãs vão adorar.

Os melhores momentos do filme são quase que exclusivamente retirados de programas de televisão em imagens de (90%) péssima qualidade. Mesmo assim é hilário ver o grupo pulando do Barros de Alencar para o Qual é a Música de Silvio Santos, gastando adrenalina no Cassino do Chacrinha, divertindo-se no Programa do Bolinha e Perdidos na Noite, programa do Faustão na Band. E o raro flagra do Trio Mamão (Bellotto, Mello e Fromer) e as Mamonetes em um programa da TV Tupi é histórico.

Porém, se forem retiradas as imagens de TV, pouca coisa relevante sobra em “A Vida Até Parece Uma Festa”. A edição caótica também não ajuda. Não há um fio condutor que dirija a história, e sim idas e vindas que só não vão confundir quem realmente é fã da banda. As cenas extensas são outro ponto negativo. Exemplo: a cena seguinte após o caso da prisão de Arnaldo e Belloto com drogas é ilustrada com uma colagem da música “Polícia” em diversos lugares que poderia ser muuuuuito mais curta. Outra, com a banda enlameada na Chapada das Guimarães, também poderia ser cortada pela metade.

Para fazer a ligação entre alguns trechos carentes de imagens de arquivo, Alves filma o que restou da banda no ônibus de turnê a caminho de algum show, o que poderia ter sido um ótimo vértice para a história, mas é usado raramente e poderia valorizar passagens interessantes como uma em que a banda vota para escolher quais canções vão entrar num álbum (com Nando Reis frustrado diante da câmera), outra em que Charles Gavin leva um esporro do produtor Liminha ou, ainda, uma terceira, mais recente, com Arnaldo quase caindo da cadeira ao passar uma canção em casa com outros titãs.

Os pontos primordiais da história da banda ganham espaço na tela – a saída de Arnaldo Antunes e Nando Reis; a morte de Marcelo Frommer; o começo, meio e momento atual da banda; a vida na estrada – mas poderiam ser melhor explorados. No fim fica a impressão que “A Vida Até Parece Uma Festa” foi feito exclusivamente para fãs com mais foco na história musical do que no cinema. Até por isso destaca o roteiro capenga. Há bons momentos no documentário, mas uma banda do porte e trajetória do Titãs merecia muito mais. A gente não quer só comida.

******************

“Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, de Projeto Moonshine
Cotação: 3/5

Imagine a cena: sete estudantes do segundo grau têm uma “tarefa” para o fim de semana: registrar a passagem da turnê “Rither Ripped”, do Sonic Youth, por sua cidade, a pequena Reno, no estado de Nevada, Estados Unidos. O trabalho faz parte do Projeto Moonshine (http://www.projectmoonshine.org), uma organização sem fins lucrativos que visa ensinar cinema a adolescentes para que eles possam documentar importantes eventos em suas comunidades. “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake” foi o primeiro longa do grupo, e o Projeto se saiu muito bem.

Não há nada de revolucionário no método de filmagem e roteiro de “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, pressuposto correto para um grupo iniciante na arte de cinematografia. O grupo parte do básico nos registros e captações de imagens: acompanha a banda de sua chegada em Reno até a partida com reveladoras entrevistas com membros da equipe técnica e com os próprios músicos até imagens dos shows (com a integra de canções como: “Tom Violence”, “Shaking Hell”, “Mote”, “Incinerate” e “Kool Thing”).

A edição é primorosa e valoriza imensamente o resultado final. Com sete câmeras nas mãos de estudantes, o Projeto mixa várias imagens (todas em PB) estilosas que muitas vezes começam e/ou terminam desfocadas, opção que casa à perfeição com a pouca experiência do grupo de estudo e também com a sonoridade do Sonic Youth. Outro ponto alto é a relação dos integrantes – principalmente Thurston Moore – com a filmagem, agindo numa naturalidade raras vezes vista em um documentário.

“Já faz 17 anos desde a última vez que tocamos aqui, não lembro o nome do lugar”, diz Thurston em certo momento do show. Um fã, no meio da platéia, grita o nome do local, e Thurston emenda: “Esse ai. Obrigado por terem nos trazido de volta”. E começa o massacre com “Kool Thing”. O Projeto entrevista uma garota cujo pai tem o nome do grupo tatuado na perna. Minutos depois o encontra para que ele mostre a tatuagem para ás câmeras. O descompromisso toma conta e contagia.

Kim Gordon fala sobre a dificuldade de cantar, a vida na estrada e filhos, um deles trabalhando na turnê, na banca de camisetas da banda. Lee Ranaldo tenta explicar como a banda dura tanto e o ex-baixista do Pavement, Mark Ibold, fala sobre a adaptação ao grupo. Mas os melhores momentos são de Thurston, que parece não levar à sério o documentário. “Vocês são estudantes da high school? Legal. Querem Hersheys?”, pergunta no camarim. “Só tem dois. Vocês vão ter que dividir”, diz o guitarrista já de mochila nas costas enquanto Kim comenta: “Vou levar um pouco de comida para o ônibus”.

Um dos momentos reveladores do longa, porém, parte de um dos membros da equipe técnica. O entrevistador pergunta: “Como você sabe que eles estão felizes no palco, que a noite está sendo boa?”. O rapaz hesita, mas responde: “Eu sei quando eles não estão felizes. Por exemplo: na turnê do álbum ‘Sonic Nurse’, ainda com o Jim O’Rourke na banda, o clima não estava bom… então eles tocavam versões de 20 minutos de uma música, só microfonia, nenhum movimento. Eles estavam jogando sobre o público todas as suas frustrações”, diz, explicando por tabela a frustrante apresentação no Claro Que é Rock, em 2005, após a primeira passagem antológica, no Free Jazz, em 2000.

O intimismo e a espontaneidade valorizam “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, um documentário jovem que flagra uma das bandas mais importantes do cenário independente mundial. Apesar de ter por base a execução ao vivo das canções do grupo – as entrevistas surgem entre uma música e outra, o documentário soa interessante também para aquele público que não conhece e/ou nem é fã do Sonic Youth, mas tenha curiosidade pelos bastidores de uma banda de rock em turnê, num registro que merece ser visto.

Leia também:
- “Sonic Nurse” exibe as cicatrizes do Sonic Youth, por Marcelo Costa (aqui)
- “Murray Street”, do Sonic Youth, faixa a faixa, por Marcelo Costa (aqui)
- Claro Que é Rock em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)

Novembro 21, 2008   5 Comments

Bill Graham e Otis Redding

Trecho sensacional do livro “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, lançado no Brasil pela Editora Barracuda (aqui):

“Havia um grande músico que todo mundo queria ver. Todo mundo dizia: ‘Este é o cara’. Otis. Otis Redding. Ele era o cara. Para todo mundo que falava comigo. Para fazer Otis vir tocar no Fillmore, eu fui de avião até Atlanta para depois ir até Macon, que ficava no meio do nada. Acho que acabei impressionando o cara por ter ido tão longe. Mas eu pensava: ‘Como é possível explicar para alguém que eu realmente quero que ele vá tocar para mim?’. Eu poderia ter oferecido dez mil dólares, o que significaria a minha morte. Meu negócio quebraria. Na época, eu não podia pagar tanto dinheiro. Ou então eu poderia dizer que quando eu falava com artistas que respeitava, Paul Butterfield, Michael Bloomfield, Jerry Garcia, e perguntava quem era o cara, quem era o número de suas listas, eles sempre diziam que era você.

Tentei ser humilde com ele. Nada de ‘você tem que vir tocar no maravilhoso Fillmore’. Foi o contrário. ‘Todo mundo me diz que eu preciso convencer você a tocar. Eu sou fã de música latina e não conheço a sua música. Sou fã de Carmen MacRae’. O pessoal dele me perguntou sobre os jovens que iam ao Fillmore e as drogas que tomavam. Só faltava acharem que havia rituais de vodu no lugar. Aquelas tintas, as luzes, as roupas malucas. Era uma coisa estranha para eles. E esse foi outro motivo por que ir até Macon ajudou. Porque eu era um cara supercertinho que não se vestia de um jeito maluco. Finalmente, ele concordou em vir com sua banda, chamada Robert Hathaway Band. Ele tocou em dezembro de 1966. Otis Redding foi o talento mais extraordinário que eu já vi na vida. Disparado. Não havia comparação. Nem naquela época, nem agora.

Todo artista na cidade pediu para abrir o show do Otis. Na primeira noite foi o Grateful Dead. Janis Joplin chegou às três da tarde no dia do primeiro show para ter certeza de que conseguiria um lugar na frente. Até hoje, acho que nenhum músico conseguiu fazer com que todo mundo viesse para um show como ele fez. Todos os músicos apareceram. Ele era o cara. O VERDADEIRO cara. Gostasse de rhythm n’blues, rock de brancos, rock de negros ou jazz, a pessoa sempre ia ver Otis.

Ele tinha uma banda enorme. Dezoito músicos. Na primeira noite usou um terno verde, uma camisa preta e uma gravata amarela, com uma corrente de chaveiro pendurada no cinto. Tinha um metro e noventa. Era um Adônis negro. Ele se movia feito uma serpente. Uma pantera à espreita da presa. Ciente de que era o dono do universo. Belo, brilhante, negro, suado, sensual, apaixonado. Era o predecessor daquele que finalmente conseguiu tocar diante de uma platéia de fãs de rock and roll negros e brancos. Foi só quando Jimi Hendrix apareceu que me dei conta de que Otis esteve lá antes. Jimi foi o primeiro a ter mulheres brancas o desejando abertamente sem nem se dar conta disso. Mas Otis foi seu predecessor.

No palco o homem não parava de se mexer. Ele tocava uma música e, no fim, andava pelo palco. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah! Vamos lá! Oh! Yeah! Uff! Um, dois…’. e ai entrava na música seguinte. Três, quatro músicas depois do set da primeira noite, eu já estava em pé ao lado do palco. Eu não conseguia acreditar no quanto ele era bom. Ele começou a andar para cima e para baixo. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah!’. Enquanto fazia isso, uma mulher estava debruçada na frente do palco. Uma jovem negra belíssima num vestido decotado. Ela começou a suspirar como se não pudesse se conter. ‘Otis! Ah! Oh!’. Ele viu. Ele andava para cima e para baixo e dizia: “Yeah”. Estava com o microfone na mão. Ele a viu e ela disse: ‘Uhhh’. Ele atravessou o palco, se debruçou, pegou o microfone e fez uma coisa que nunca ninguém fez igual. Ele olhou para ela, e era um cara grandão e bonito, e ela estava toda animada. E ele disse olhando bem dentro dos olhos dela. ‘Essa vai com tudo para você, querida. Um, dois…’ e todo mundo fez ‘Hah!’ juntos.

Eu esperava algo especial, mas não aquilo. Aquela coisa animal. Ele fez algo naquela noite que ninguém conseguia fazer. Todo mundo batia palma enquanto ela falava ‘fa fa fa fa’ andando pelo palco. Quando terminou as pessoas estavam loucas, gritavam, ‘Yeah! Yeah!’, aplaudindo loucamente, e pouco antes do aplauso morrer tocou ‘I Been Lovin Too Long’. Ele sempre recomeçava logo antes do ânimo morrer. Logo antes de a platéia se acalmar. Vocês estão nas alturas? Vão cair? Eu ainda estou aqui. Não fui embora ainda. Ninguém nunca conseguiu isso. Até hoje eu nunca vi ninguém fazer isso. Quando Richard Pryor estava no ápice não dava para parar de rir. A gente ria, ria, ria de novo, e doía. No caso de Otis, nunca doía. O negócio é que ele era calmo. Era um cara relaxado. Mas se mexia também. Era o verdadeiro Tom Jones. A pessoa que Tom Jones sempre quis ser.

Foi uma maravilha. Otis terminou o show. Ele estava lá em cima, no camarote. Eu estava do lado de fora e ele me chamou: ‘Bill! Bill’. Eu entrei e ele disse: ‘Eu amo essas pessoas!’. Estava sem fôlego e suava loucamente porque tinha acabado de pôr o lugar abaixo. Estava lá sentado com um monte de toalhas, e eu disse: ‘Otis, nem sei o que dizer, meu deus’. E ai eu desatei a falar. A primeira coisa que ele me disse foi: ‘Muita mulher bonita aqui. Mulheres muito bonitas’.

- ‘Meu Deus’, eu disse a Otis. “Mais duas noites. Existe algo que eu possa fazer por você?’.
- ‘Não, não’, disse ele.

Quando eu estava saindo, ele disse. ‘Espere, Bill. A gente acabou de chegar da Inglaterra, e quando você faz shows lá nunca tem gelo. Será que você pode me arranjar um negócio grande com gelo e 7-Up’.
 
- ‘Sem problema’, eu disse.

Desci correndo as escadas até Denise, que trabalhava atrás do balcão. E falei:
- ‘Denise, preciso de contêineres grandes com gelo e 7-Up’.
- ‘A máquina quebrou’, ela me disse.
- ‘Como assim, quebrou?’
- ‘Bom, a gente continua servindo as bebidas, mas não tem gelo’.

Então sai de lá. Sai correndo de lá, possuído. Desci a Geary e fui até um mercado que ficava a um quarteirão de distância. Comprei um saco de gelo. Subi correndo a Geary de volta e entrei no Fillmore. Quebrei o gelo no balcão. Quando entrei estava resfolegando. Aí coloquei o gelo nos copos e coloquei o 7-Up. Quando cheguei lá em cima, comecei a pensar: ‘Como posso fazer o Otis saber que fiz isso por ele?’. De propósito, comecei a resfolegar de novo. Comecei a respirar como se tivesse corrido. ‘Aqui está o 7-Up’, eu disse. ‘Está bom de gelo?’.

- ‘O que houve?’, perguntou Otis.
- ‘Bom’, eu disse, ainda tentando respirar calmamente. ‘Não é nada demais… eu…. a gente… hm… a máquina de gelo quebrou. Eu tive que descer a rua para pegar gelo para você. Mas não foi nada’.
E ai Otis fez algo grande. Ele agarrou a minha camisa e disse: ‘Você fez o que? Você desceu a rua para pegar gelo para mim?’.
- ‘É. E o que que tem?’
Ele me deu um grande abraço. Depois se afastou e disse: ‘Deixa eu falar uma coisa, cara. Quando eu tocar aqui, a partir de agora, vou tocar para você’.

Se alguém quisesse saber como era o mundo dos negócios na música, eu sempre achei que aquela noite respondia. Como eu podia deixar claro que eu queria que ele voltasse a tocar para mim? Com 7-Up com gelo.” 

Novembro 19, 2008   7 Comments

Candyland Comics

De: Olavo Rocha
Enviada: terça-feira, 18 de novembro de 2008
Para:  Marcelo Costa

Oi Mac, tudo em riba?
Olha só, tô dando uma divulgada no meu projeto de quadrinhos com o Guilherme Caldas:
www.candyland.com.br.
A história de “estréia” subiu pro site ontem, a idéia é publicar uma página por semana. Na real já tinha duas histórias postadas, meio como teste, que dão uma idéia da pegada do projeto. Clica lá quando tiver um tempinho.

Abração, man!
Olavo

Ps. Além deste projeto em quadrinhos, o Olavo faz parte das bandas Gianoukas Papoulas e Lestics, esta última com seus dois excelentes discos liberados para download no site www.lestics.com.br. Eu até enrolo bem para falar sobre discos e filmes, mas não tenho a mínima mão nem olhar para quadrinhos. Mesmo assim, fica a dica de um espaço novo e bacana. Vai lá!

Novembro 19, 2008   No Comments

500 Toques: Frejat, Jota Quest e Skank

“Intimidade Para Estranhos”, Frejat (Warner)
Em seu terceiro álbum solo, o eterno Barão Vermelho decepciona. “Eu Não Quero Brigar” (do terrível verso “eu quero uma mulher normal do povo / não quero uma mulher global de novo / quero uma mulher que me ame no natal e no ano novo”), “Controle Remoto” (que abre falando em filosofia, cinema e poesia para cravar: “fazer um photoshop na realidade”) e as pueris “Eu Só Queria Entender” e “Dois Lados” soam constrangedoras. Em um disco desastroso se salva, com boa vontade, a faixa título. E olhe lá.
Nota: 1
Preço em média: R$ 32,90

“La Plata”, Jota Quest (Sony&BMG)
“Intelectuais do mundo pop” adorariam um tropeço, mas o sexto disco do Jota Quest mantém a vibe em alta. A ótima produção de Liminha valoriza a cozinha (baixo/bateria), ambienta o vocal de Flausino e deixa a guitarra de Marco Túlio com os detalhes. Porém, diferente dos discos anteriores, nenhuma canção gruda de cara, mas a mela-cueca (como diria o saudoso Tim) “Vem Andar Comigo”, o rap-samba-rock “Hot To Go”, “Ladeira”, boa parceria com Nelson Motta, e a faixa título devem tocar até cansar. Prepare-se.
Nota: 5
Preço em média: R$ 19,90

“Estandarte”, Skank (Sony&BMG)
Em seu oitavo álbum de inéditas, o Skank reata com o produtor Dudu Marote (que assinou os milionários “Calango” e “Samba Poconé”) e aposta em batidas e suingue, e menos guitarras. Ou seja: continua quase a mesma coisa. O primeiro single, “Ainda Gosto Dela”, (com backing de Negra Li e batida forte), faz bonito, assim como a calminha “Sutilmente” e as dançantes “Escravo” e “Pára-Raio”, mas “Estandarte” carece de unidade e soa um álbum menor na discografia dos mineiros. Produção ok, repertório fraco.
Nota: 5,5
Preço em média: R$ 21,90

Novembro 18, 2008   8 Comments

SP Noise Festival

São Paulo recebe no meio do feriadão (paulistano) a primeira edição do badalado Noise Festival, cuja matriz Goiânia até já virou livro. Dos gringos só vi o Black Lips em Benicassim: “grupo norte-americano que mistura o clima flower power com a crueza do punk e empolga ao vivo - principalmente nos rockabillys”, mas estou bastante curioso pela formação do Vaselines que aporta no Brasil, com os mentores Eugene Kelly e Francês Mckee ao lado de Stevie Jackson e Bobby Kildea, do Belle & Sebastian, e Michael McGarin do 1990’s/Yummy Fur.

SEXTA 21/11
Black Mountain (Canadá) (Palco 1)
Flaming Sideburns (Finlândia) Palco 2)
Motek (Belgica) (Palco 1)
Os Ambervisions (SC) (Palco 2)
The Tormentos (Argentina) (Palco 1)
Black Drawing Chalks (GO) (Palco 2)
 
SÁBADO 22/11
Vaselines (Escócia) (Palco 1)
Black Lips (USA) (Palco 2)
The Ganjas (Chile) (Palco 1)
Do Amor (RJ) (Palco 2)
Calumet-Hecla (USA) (Palco 1)
Homiepie (SP) (Palco 2)
 
SERVIÇO:
SP Noise Festival
21 e 22 de novembro
Eazy - Av. Marquês de São Vicente, 1767, Barra Funda - São Paulo - SP.
Tel: (11) 3611-3121.

Ingressos:
21/11 (sexta-feira): R$55,00 (antecipado) e R$65,00 (no dia)
22/11 (sábado): R$65,00 (antecipado) e R$80,00 (no dia)
Ingressos on-line - Dissenso <http://www.dissenso.com.br/loja/>
Ingressos antecipados à venda na Sensorial Discos - Rua 24 de Maio 116 (Rua Alta) - Centro. Tel: (11) 3333 1914
Banca de Camisetas - nos shoppings Pátio Higienópolis, Villa Lobos, Morumbi e na Alameda Franca e Rua Harmonia

Novembro 17, 2008   2 Comments

Domingo de fotos

Fim de tarde de domingo. Eu já tinha escrito o texto que eu pretendia escrever e Lili já tinha trabalhado bastante no projeto da casa que está desenhando para um cliente, então decidimos sair para almoçar - às cinco da tarde - e fotografar a região. Não lembrava o quanto é gostoso fotografar. 

Ok que a região que moro não é das mais seguras da cidade (como se houvesse algum lugar seguro na cidade de São Paulo). Essa foto de cima é da Lili, na Bela Cintra, rua em que moramos. A debaixo é na Augusta, rua vizinha, quase em frente ao Ibotirama. Assim que tirei ela, um homem passou e me alertou:

- Cuidado, os caras passam de bicicleta aqui é roubam as máquinas.

Ou seja: sou um turista em meu próprio bairro (risos), mas é sempre bom não bobear, e avisos como esse sempre são benvindos. As fotos que a Lili fez estão no álbum Cotidiano no Flickr. As minhas estão no álbum São Paulo. Coisas simples - como o medalhão de filé com pimenta do reino que almoçamos - mas que me fazem feliz. Olha lá.

Novembro 17, 2008   1 Comment

A Nova Idade Média

“Você gasta um tempão e uma baita grana fazendo um disco e as pessoas pegam aquilo de graça.”
Jim Reid, Jesus and Mary Chain, na Revista Bravo (Novembro/2008) (aqui)

“Baixar a música pela internet é danosa, mas ajuda a divulgação. Música é fonte de renda para muita gente. Tem muitos profissionais por trás. O cara baixa e não vai comprar seu CD. Por outro lado, ajuda com a divulgação. Fazendo um balanço, ajuda mais do que atrapalha.
Zezé di Camargo na Folha de São Paulo (Novembro 2008) (aqui)

“No momento em que se vende menos música na história, escuta-se mais música do que nunca”.
Jesus Miguel Marcos, do Jornal Publico, de Barcelona (Julho 2008) (aqui)

A Nova Idade Média, por Marcelo Costa

A Indústria da Música está em coma, respira por aparelhos, mas continua vivendo em uma bela mansão repleta do bom e do melhor. Ela ainda sobrevive – e fatura milhões – em um mercado cujos dias estão contados, mas lamenta os dias de bonança que viveu décadas atrás, antes da Internet democratizar a distribuição da música e o MP3 derrubar o comércio de discos.

É interessante perceber que a discussão sobre a ética que envolve a distribuição de música pela Internet junta pessoas tão dispares quanto o frontman de uma das bandas britânicas mais barulhentas dos anos 80 com um dos baluartes da música brega sertaneja que dominou o mercado brasileiro no final da mesma década. Jim Reid e Zezé di Camargo simbolizam o homem desacostumado com os novos tempos, aquele que não percebe que o mundo mudou e que o passado é uma roupa que não nos serve mais.

O disco de vinil surgiu em 1948, substituindo os obsoletos discos de goma-laca de 78 rotações, que até então eram utilizados para vender música em série. A década de 50 marca o início da popularização da música de massa, mas foi nos anos 60 que o cenário tomou proporções estratosféricas. O disco mais vendido dos anos 50, “Elvis’ Christmas Album”, totalizou 7 milhões de cópias. Na década seguinte, o Álbum Branco, dos Beatles, somava quase três vezes aquele número: 19 milhões de cópias vendidas.

O que está acontecendo neste momento da história é que vivemos uma revolução sem precedentes, e muitas pessoas – principalmente as que vivem com os lucros da Indústria – ainda querem utilizar um método antigo e arcaico de comercializar e negociar música sem perceber que o mundo mudou, as ferramentas mudaram, e é preciso adaptar-se aos novos tempos. A Internet e as novas tecnologias facilitaram o ato de fazer música e distribuí-la. A cada dia que passa, a Indústria perde poder.

Mais do que qualquer coisa, é interessante observar que vinil, CD e fita K7 são suportes ultrapassados que só interessam a quem viveu os anos dourados da Indústria da Música. Adolescentes que desconhecem estes suportes e acostumaram-se a baixar músicas pela web nunca vão comprar um disco, pois aprenderam a ter isso de graça. Mais do que um problema ético, estamos diante de um símbolo de liberdade. Agora, cada pessoa ouve a música que quiser. Um disco a um clique do mouse.

“Como ganhar dinheiro com a minha arte?”, perguntam os músicos. Fazendo shows, caros amigos, fazendo shows. Estamos voltando à Idade Média. Estamos diante de um novo Renascimento. Naquela época, os artistas não tinham suportes que os permitiam vender sua música em série, e mostravam sua arte apresentando-se de cidade em cidade. Clichês repetidos a exaustão entram na pauta do dia: “O artista vai onde o povo está” ou “Quem sabe faz ao vivo”.

É por tudo isso que Matt Berninger, do grupo novaiorquino The National, agradeceu à Internet no show que fez em São Paulo, no Tim Festival. Foi ela quem possibilitou que as pessoas conhecessem sua música, e produtores os trouxessem ao Brasil, mesmo sem o grupo não ter tido nenhum de seus quatro discos lançados no país. O mesmo aconteceu com o grupo Spoon, show elogiado do Festival Planeta Terra, com nenhum disco lançado no Brasil, mas o público cantando em coro várias canções. Novos tempos.

Vivemos um momento extraordinário da história, um momento em que as novidades surgem todos os dias e qualquer coisa pode acontecer. É perfeitamente entendível que algumas pessoas queiram continuar vivendo como viviam há dez, vinte, trinta anos atrás, mas é preciso perceber que o mundo está mudando, e que certos dogmas precisam ser adaptados ao novo momento que está surgindo. E pensar que se a Indústria está morrendo, a Música está cada vez mais viva. O Rei está morto. Viva o Novo Rei.

Novembro 16, 2008   18 Comments

“Dirt Don’t Hurt”, Holly Golightly and The Brokeoffs

Quando alguém define a sonoridade de uma banda ou álbum como de garagem, uma névoa de pavor paira sobre muitos ouvintes. Holly Golightly, a dama britânica do folk que emprestou o nome da personagem principal do filme “Bonequinha de Luxo”, já avisa no título de seu novo álbum: “Sujeira não machuca”. “Dirt Don’t Hurt” é o segundo trabalho ao lado do músico Lawyer Dave (ele, sozinho, responde pela alcunha de The Brokeoffs), cuja estréia da parceria se deu em 2007 com o álbum de título genial “You Can’t Buy a Gun When You’re Crying”.

“Dirt Don’t Hurt” foi gravado na estrada, em um intervalo da turnê. O duo encontrou um estúdio na Espanha equipado com uma bela seleção de microfones vintage e de tesouros antigos para brincar, afastou os fantasmas do lugar e em cinco dias (um a mais do que no primeiro álbum) registrou as 14 canções de “Dirt Don’t Hurt”. Holly conta: “Nós estávamos um pouco cansados e sujos. Se você prestar atenção, ouvirá a lama em nossos sapatos em algumas faixas”.

Além da lama também fica audível/perceptível uma certa camada de poeira na sonoridade do duo. Os vocais são divididos enquanto Holly assume o violão e o banjo e Dave fica com a guitarra, a percussão e as demais coisas com cordas. Logo na primeira faixa, a ótima “Bottow Below”, percebe-se uma vasta semelhança do vocal de Dave com o de Mark Lanegan, o que aconchega ainda mais o ouvinte. “Up On The Floor”, o número seguinte, é uma deliciosa balada rancheira, daquelas para se ouvir por tardes a fio.

“Burn Your Fun”, com seu refrão empolgante, e a suingada “Slow Road” fazem a cama para jogar o ouvinte sobre o primeiro single do álbum, o country acelerado “My 45″ que avisa no refrão empolgante: “Querida, quando eu chamar seu nome, é melhor você correr, é melhor você esconder minha 45″. Há espaço ainda para um blues climático (”Indeed You Do”), countrys aceleradissimos (”Getting High For Jesus”) e músicas tradicionais rearranjadas no porão duo (”Cuck Old Hen”, “Boats Up The River”).

Entre os grandes momentos do álbum estão “Bottow Below” e “My 45″, o countryzinho sem-vergonha movido por banjo “Accuse Me”, a boa versão para “Hug You, Kiss You, Squeeze You” (que já havia sido gravada por Stevie Ray Vaughan) e a balada “For All This”, com Holly mastigando as silabas com seu fio de voz. Holly Golightly começou sua carreira no grupo Thee Headcoatees, mas ganhou fama quando estreou solo, em 1995, e principalmente quanto fez um ménage a trois musical com Meg e Jack White na canção  “It’s True That We Love One Another”, do álbum “Elephant”.

“Dirt Don’t Hurt” é daqueles discos bonitos em que um punhado de canções executadas com paixão se tornam-se atemporais em uma arte cada vez mais marcada pelo agora. As vozes de Holly e Dave combinam que é uma beleza, o que só amplifica a qualidade do material gravado pelos dois em cinco dias de folga de uma turnê de mais de 50 datas. Produzido pelo próprio duo, “Dirt Don’t Hurt” é daqueles álbuns que correm o sério risco de grudar no seu Windows Media Player, e ficar lá por um bom tempo. Eu, se fosse você, corria o risco. Vale a pena, afinal, a sujeira não machuca.

“Dirt Don’t Hurt”, Holly Golightly and The Brokeoffs (Damaged Goods)
Preço em media: R$ 55 (importado)
Nota: 8
My Space: http://www.myspace.com/hollygolightlyandthebrokeoffs

Novembro 16, 2008   5 Comments

Cenas da vida em São Paulo - Parte 8

Sexta-feira. Ônibus parcialmente lotado. No fundão, três amigos conversam. Um oriental está ao lado da janela do lado direito. Ao lado dele, um moreno. Na cadeira do meio, um branquelo, que o oriental insiste em chamar de mestre. Do outro lado, um homem pesca peixes sonhadores, dormindo com o sacolejar da lotação. O oriental o aponta para os dois, e ri. Os três aparentam ter mais de 35 anos.

É o oriental o responsável por manter o fluxo narrativo da conversa. Quando o silêncio se aproxima, ele logo emenda um novo assunto, como fugindo do gongo que anuncia o final da luta no boxe:

- Então, acho que o Radiohead vai tocar em março aqui…

Os outros dois amigos se olham com cara de sexta-feira à noite após uma semana de trabalhos forçados:

- Quem? É uma banda?
- É – responde o interlocutor
- Não conheço – responde um dos rapazes, pelos dois.

Alguns segundos de silêncio e o mesmo rapaz que respondeu diz, quase que de forma inaudível:

- Eu comprei um CD do Renato Borghetti.
- Renato o que? – pergunta o amigo da ponta.
- Borghetti. É um sanfoneiro.
- Tipo o Gonzaguinha? – pergunta outro
- Não, ele é gaúcho. Faz música regional.
-

O juiz sobre o ringue de boxe começa a contagem para encerrar a conversa. Quando chega no oito, desesperado, o oriental vai e pergunta qualquer coisa para um dos amigos:

- Você comprou algum livro do Dostoievski na feira da Geografia

- Quatro  - responde o outro.

O ouvinte, que flagra a conversa dos três amigos, começa a pensar que – em menos de cinco minutos – a conversa saiu de Thom Yorke, passou por Renato Borghetti, chegou em Gonzaguinha e terminou em Dostoievski. Poucos escritores no mundo conseguiriam tal façanha em um curto diálogo.

O ônibus está chegando ao final, e enquanto um dos amigos tenta adivinhar os Dostoievski que foram comprados por aquele que não conhece Radiohead, mas é fã do Borghettinho (“Crime e Castigo”, já tenho, “Os Irmãos Karamazov”, já tenho, “O Idiota”, já tenho, “Os Demônios”, já tenho, “Noites Brancas”, esse eu peguei agora), o outro retoma o ponto inicial da conversa:

- Qual banda que você falou que vai tocar mesmo nesse feriado?
- Radiohead, responde o outro, envolvido na descoberta dos outros três Dostoievski que foram comprados.

Se alguém disser a você que o Radiohead vai tocar em São Paulo no feriado, duvide.

*************

O ônibus chega ao ponto final, metrô Vila Mariana. Os três amigos descem e uma conversa entrecortada passa pelo ouvinte, que só consegue pegar uma frase. Uma amiga diz para a outra, enfaticamente:

- Eu quero essa cidade só para mim.

Nananinanão. Vai ter que dividir.

Novembro 15, 2008   7 Comments

“Vicky Cristina Barcelona”

“Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen – Cotação: 4,5/5

Se Nova York é jazz e Londres é ópera, Barcelona – para Woody Allen – é flamenco e chanson latina com sotaque jazz como a de Giulia y Los Tellarini, cuja música “Barcelona” (ouça no My Space aqui) abre com suavidade o mais novo grande filme do diretor, filmado na Catalunha e oportunamente chamado “Vicky Cristina Barcelona”, com a nova musa do cineasta, Scarlett Johansson, novamente no elenco e, ainda, Penélope Cruz e Javier Bardem. É o segundo filme com F maiúsculo do diretor nos últimos dez anos.

O título do filme joga as cartas na mesa: Vicky está noiva e vai para a Espanha para finalizar seu mestrado, que tem como tema a Catalunha. Cristina está perdida na vida, não sabe o que quer, ou melhor, sabe o que não quer. Já Barcelona é a cidade de Gaudi e Miro, e várias cenas trazem obras dos dois artistas ao fundo como a magnífica igreja Sagrada Família, o Parq Guell, a Casa La Pedrera, o Aeroporto e as famosas Ramblas (estas duas últimas com obras de Miro).

Mais do que qualquer coisa, porém, Barcelona está representada por Juan Antonio e Maria Elena, um casal de artistas que se consome pela arte que os consome. Juan Antonio (Javier Bardem) transpira sensualidade, e não a toa sua primeira frase no filme já soa um clássico dos cinemas 00. Ele chega até à mesa de duas americanas em um restaurante e, sem conhece-las, dispara um convite direto: “Vamos para Oviedo. Lá comeremos pratos deliciosos, beberemos vinho e faremos amor”. Uma das duas garotas pergunta: “Quem fará amor?”. E ele responde: “Se tudo sair bem, nós três”.

A outra metade de Barcelona é Maria Elena (Penélope Cruz), uma mulher à beira de um ataque de nervos. Maria Elena ensinou a Juan Antonio tudo que ele sabe sobre o amor e a arte, mas eles são daquele tipo de casal que se ama e não pode ficar junto (nas palavras do próprio). O último episódio da história dos dois acabou com uma facada, mas ninguém sabe ao certo quem esfaqueou quem. Cristina se sente atraída pelo homem. Vicky tem vontade de sair correndo ou, no mínimo, jogar a taça de bom vinho espanhol na cara do rapaz. Corte na cena e, quando vemos, lá estão as duas em direção a Oviedo.

Woody Allen brinca com a profundidade de seus personagens com toque de mestre, e por mais que jogue as situações do romance para lá e para cá, não perde o fio condutor da história nem deixa o espectador se perder nela. Mais: ele dança com o espectador como se estivesse balançando uma bandeira vermelha para um touro. E por mais óbvio que seja o destino do touro, sempre ficamos apreensivos pelo toureiro, o que já permite ao diretor manipular com destreza seu manual de desencontros românticos (que já rendeu um bom número de obras primas).

Por mais que as notícias sobre o filme se fechem no romance e nos beijos de Cristina (Scarlett) em Maria Elena (Penélope), a chave do filme é Vicky (Rebecca Hall), o que por si só já demonstra a genialidade do diretor. Enquanto todos os olhares são sugados pela enorme sensualidade de duas grandes musas do cinema mundial, a graça do roteiro está no confronto interno da terceira protagonista, que além de não ser uma artista de renome também não traz a sensualidade à flor da pele de Scarlett e Penélope. Rebecca é a típica garota que todo mundo conhece, e por quem todo mundo se apaixona. É seu personagem que vive o maior drama do filme.

O drama, porém, não se expõe logo de início. Woody Allen conta a história com calma e deixa o público se apaixonar pelos personagens e por Barcelona. Quando se percebe, lá está a vida parada diante de uma rua que bifurca: Qual caminho seguir?, é a grande questão. Como de costume, o diretor não faz dramas com o drama de seus personagens. A sutileza é um dom que o cineasta raras vezes usa, e o trecho final de “Vicky Cristina Barcelona” é perfeito para perceber isso, com as duas amigas em um café conversando sobre as férias de verão na Espanha, e tocando a vida em frente, como se pudessem voltar no tempo com a vidinha que tinham.

Assim como Newland, o personagem de Daniel Day-Lewis em “A Época da Inocência”, de Scorsese, ou a Francesca (Meryl Streep) de “As Pontes de Madison”, de Eastwood, o personagem de Woody Allen também está condenado a amar em silêncio enquanto vive uma vida de fachada para satisfazer os anseios da sociedade. A crueldade desta situação, porém, é jogada em forma de palavras no ar como se joga fumaça após tragar o cigarro. O que está visível não é realmente o que interessa ver. As palavras soltas caem na mesa, escorrem pela toalha de papel manchada de café, adentram a calçada e caem na sarjeta. É lá que os verdadeiros amores se encontram. É lá que o personagem de Lou Reed em “Baton Rouge” (do post anterior a esse) vai tentar esquecer a garota que nunca teve. E é lá que “Vicky Cristina Barcelona” vai parar, mas poucos vão perceber.

A vida, meus caros, imita a arte. E quer saber: somos todos artistas de quinta-categoria. Acostume-se.

Leia também:
- Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)
- “As Pontes de Madison”, de Clint Eastwood, por Marcelo Costa (aqui)
- Antoni Gaudi, Tom Waits e Barri Gotic, por Marcelo Costa (aqui)

Novembro 13, 2008   9 Comments

“And the girl I never had”

Baton Rouge, Lou Reed

When I think of you baton rouge
I think of a mariachi band
I think of sixteen and a crisp green football field
I think of a girl I never had

When I think of you baton rouge
I think of a back seat in a car
Windows are foggy and so are we
as the police asked for our I.D.

So helpless
so helpless

Ooohhh, so helpless
ooohhh, so helpless
Ooohhh, so helpless
so helpless

Well I once had a car lost it in a divorce
the judge was a woman of course
She said give her the car and the house and your taste
or else I set the trial date

So now when I think of you baton rouge
and the deep southern belles with their touch
I wonder where love ends and hate starts to blush
in the fields in the swamps in the rush

In the terra-cotta cobwebs of your mind
when did you start seeing me as a spider spinning web
Of malicious intent and you as poor, poor me
at the fire at the joint, this disinterred and broken mount
in the bedroom in the house where we were unmarried

So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless

When was I the villa in your heart
putting the brake on your start
you slapped my face and cried and screamed
that’s what marriage came to mean
The bitterest ending of a dream

You wanted children and I did not
was that what it was all about
You might get a laugh when you hear me shout
you might get a laugh when you hear me shout
I wish I had

So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless

Sometimes when I think of baton rouge
I see us with two and a half strapping sons
One and a half flushed daughters preparing to marry
and two fat grandsons I can barely carry

Daddy, uncle, family gathered there for grace
a dog in a barbecue pit goes up in space
The dream recedes in the morning with a bad aftertaste
and I’m back in the big city worn from the race of the chase
what a waste

So thanks for the card the announcement of child
and I must say you and Sam look great
Your daughter’s gleaming in that -
- white wedding dress with pride
sad to say I could never bring that to you that wide smile

So I try not to think of baton rouge
or of a, of a, of a mariachi band
Or of sixteen and a crisp green football field
and the girl, and the girl I never had

So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless

Baixar aqui (botão direito e salvar como)

Novembro 13, 2008   No Comments

Top Ten Shows 2008

01- Leonard Cohen (Benicàssim) - leia aqui
02- Lou Reed (Málaga) leia aqui
03- R.E.M. (São Paulo) leia aqui
04- Radiohead (Berlim) leia aqui
05- Morrissey (Benicàssim) leia aqui
06- Bob Dylan (São Paulo) leia aqui
07- Pogues (Escócia) leia aqui
08- Sigur Ros (Benicàssim) leia aqui
09- Neil Young (Werchter) leia aqui
10- The National (São Paulo) (aqui) / Spiritualized (Benicàssim) (aqui) / Gogol Bordello (São Paulo) (aqui)

Novembro 13, 2008   2 Comments

Sobre sono, sonhos e R.E.M.

Foto: Divulgação/Inpress

Quem se aventura a escrever sobre música pop (em blog, site, jornal, revista, guardanapo ou papel higiênico) acaba, por fim, ficando chato. Ok, não posso falar por todos, só por mim, mas tudo que aconteceu nas últimas semanas apenas reforça essa questão. Tipo: alguns amigos não entendem o motivo de eu não ter me empolgado com o KaiserChiefs enquanto eles adoraram e reportagens de grandes jornais definiam o show como “catártico”.  Aquilo? Catártico? Piada. E das ruins.

E não é que o show deles seja ruim. Eles aprenderam os clichês, usam bem, mas precisam de muito Toddynho até, um dia, conseguirem fazer uma apresentação digna do adjetivo catártico. Um fã tem todo o direito de amar e dizer que a sua banda é a coisa-mais-linda-do-mundo-que-eu-amo-e-não-me-interessa-o-resto, mas alguém que escreve sobre música precisa deixar o fanatismo de lado, respirar fundo e tentar entender aquele momento encaixado em uma situação de tempo/espaço.

É uma equação bastante simples: eu, por, exemplo, escrevo sobre música (shows, discos, bobagens) de duas a quatro vezes por semana. Vamos pegar a média, três, e multiplicar por 52 semanas e teremos mais de 150 textos de música publicados em um ano (às vezes mais, às vezes menos). Esse número pressupõe que seu cérebro, acostumado a tudo que você ouviu e escreveu durante certo período, consiga mensurar qualidade - com base na comparação - às coisas que sugerem análise.

Curto e grosso ao ponto: uma pessoa que diz maravilhas do show do KaiserChiefs é:

1) Fã
2) Não tem base de comparação
3) Gostaria de qualquer show, pois gostar faz parte.
4) Não tem opinião
5) Todas as alternativas.

Não há nenhum problema em se encaixar em alguma dessas alternativas, desde que você saiba disso (ok, há um problema na 4, pois pessoas sem opinião podem ser manipuladas, e o mundo precisa dessa opinião, certa ou errada, para gerar conflitos e acordos). O que mais incomoda, no entanto, é a deterioração do valor dos adjetivos. Até parece que tudo é maxi, mega, super sensacional e catártico, porém, se o show do KaiserChiefs é catártico, o que dizer do show do R.E.M.?

Isso realmente me incomoda. Em duas noites, em São Paulo, o R.E.M. colocou no bolso o line-up completo do Planeta Terra e sacudiu (vamos deixar a Mallu Magalhães de fora, pois ela é café-com-leite). Por uma razão que ouso desconhecer, muitas pessoas ignoram níveis de comparação, e colocam tudo no mesmo saco, misturando farinha com Bourbon francês numa paixão tão duradoura quanto a lembrança do almoço que você comeu no dia 12 do mês passado.

Então vamos colocar as coisas no seu devido lugar: enquanto o KaiserChiefs fez um show ok, arroz com feijão sem fritas nem bife, mas que alimenta, o R.E.M. serviu um delicioso banquete com pratos assinados por alguns dos maiores chefes do mundo. Sei que alguém deve estar lendo e pensado que “esse cara é maluco: não tem como comparar R.E.M.”, mas então eu respondo: ambos fazem música, tocam para um público, e causas reações com isso. Como não dá para comparar? E como descrever uma apresentação do R.E.M. a contento se estão usando desleixadamente os dicionários de adjetivos?

Este “como” do parágrafo anterior não diz respeito apenas a quem escreve, mas também a quem lê: “Como esse cara pode estar falando uma bobagem dessas?”, deveria ser a pergunta. Duvide. Sempre. Ou quase sempre. Não precisa duvidar, por exemplo, que o R.E.M. fez dois shows além das palavras em São Paulo, diferentes entre si, mas completamente iguais em qualidade: o primeiro mais melódico, excitante, atual. O segundo mais barulhento, cansado e antigo. Entre um e outro, 35 músicas diferentes.

Quantidade não garante qualidade, diria o esperto. O problema é que estamos diante de uma das três melhores bandas de rock do mundo em atividade nos últimos 20 anos (escolha as outras duas), e uma das poucas que além de não virar cópia de si mesma, ainda consegue criar material instigante após tanto tempo de janela. Vindo deles, quantidade e qualidade andam de mãos dadas movidas a acordes ensandecidos da Rickenbaker de Peter Buck, do baixo e vocal marcantes de Mike Mills, e da forte presença de palco de Michael Stipe.

Há, em ambas as noites, recados em prol da Anistia Internacional, homenagens ao novo presidente dos EUA, Barrack Obama (”Obamatic For The People” surge no telão), e ataques aos Bush pai e filho e a uma certa governadora do Alaska. Há, também, momentos de comoção coletiva em “Everbody Hurts” (um dos momentos mais brilhantes do show), “Losing My Religion” (que, na segunda noite, sacudiu até uma senhora de – provavelmente – 60 anos atenta ao telão na pista do Via Funchal lotada), “The One I Love”, “Man On The Moon” e “It’s the End of the World As We Know It (And I Feel Fine)”.

O tom da apresentação é dado pelas canções do álbum mais recente do trio, “Accelerate”, rápido, alto e urgente. O volume das guitarras é altíssimo. A bateria massacra em várias partes. Michael corre de um lado para outro, dança e comanda o público com maestria exibindo uma força vocal e gestual que impressiona. Mike Mills, principal estrela de “Accelerate”, além de segurar tudo no baixo ainda faz backings precisos e, na primeira noite, comanda a banda no antigo country “Don’t Go Back To (Rockville)”.

Como espetáculo, a apresentação do R.E.M. é irretocável, deslumbrante, catártica. Fãs choram pelos cantos da casa abarrotada de gente (em momentos diversos como por exemplo “Fall on Me” e “Electrolite”, presentes na primeira noite, e “I’ve Been High” e “Nightswimming” na seguinte). Há uma ligação tão forte entre público e banda que não consegue passar despercebida, mesmo quando Michael pede para o público levantar as mãos e aplaudir o show chato de Wilson Sideral, na abertura da noite.

Em retrospecto, apesar da excelência, os dois shows de São Paulo não conseguiram bater em emoção a apresentação inesquecível do Rock in Rio 3, mas soaram melhores (como um todo) que os shows do Rock Werchter, na Bélgica (”Electrolite”, lá, valeu uma vida), e do T In The Park, na Escócia. O som estava mais furioso (o local fechado, ao contrário do imenso palco dos dois festivais, colaborou), quase uma dezena de amigos tomava uma das fileiras da esquerda da platéia do Via Funchal, e essa coisa clichê do “obrigado” – em português mesmo – acaba realmente aproximando: ver show em casa é outra coisa.

Ao vivo, o R.E.M. causa um tipo de comoção que não se sente todos os dias. O tipo de sensação que faz você se sentir bem (apesar de “Chinese Democracy”, da crise econômica mundial e do fim do mundo – que todo mundo sabe). Por mais que jornais (sites, blogs e aviões na orla do litoral norte paulista) necessitem de manchetes sensacionais para vender mais, também é preciso clareza, conhecimento e um pouco de chatice (e/ou ser honesto e impiedoso) ao lidar com qualquer coisa cuja base seja sua opinião.  É por isso tudo que o show do KaiserChiefs foi ok (com alguns momentos de sono) e o R.E.M. foi antológico (com breves momentos de sonho). Você pode até discordar, mas estará errado. :)~

R.E.M. em São Paulo, primeira noite
Novembro 10th, 2008
01) “Living Well Is The Best Revenge”
02) “I Took Your Name”
03) “What’s The Frequency, Kenneth?”
04) “Fall On Me”
05) “Drive”
06) “Man-Sized Wreath”
07) “Ignoreland”
08) “Hollow Man”
09) “Imitation of Life”
10) “Electrolite”
11) ”Great Beyond”
12) “Everbody Hurts”
13) “She Just Wants To Be”
14) “The One I Love”
15) “Sweetness Follows“
16) “Let Me In”
17) “Bad Day“
18) “Horse To Water“
19) “Orange Crush“
20) “It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”

Bis
21) “Supernatural Superserious”
22) “Losing My Religion”
23) “Animal”
24) “(Don’t Go Back To) Rockville”
25) “Man On The Moon”

R.E.M. em São Paulo, segunda noite
Novembro 11th, 2008
1. Living Well Is the Best Revenge
2. These Days *
3. What’s the Frequency, Kenneth?
4. Driver 8 *
5. Drive
6. Man-Sized Wreath
7. Ignoreland
8. Exhuming McCarthy *
9. Imitation of Life
10. Pretty Persuasion *
11. Great Beyond
12. Everbody Hurts
13. Seven Chinese Brothers *
14. One I Love
15. I’ve Been High *
16. Nightswimming *
17. Bad Day
18. I’m Gonna DJ *
19. Orange Crush
20. It’s the End of the World As We Know It (And I Feel Fine)

Bis
21. Supernatural Superserious
22. Losing My Religion
23. Maps & Legends *
24. Begin the Begin *
25. Man On The Moon

* não foram tocadas na primeira noite

Leia, veja e ouça também:
- “Accelerate”, do R.E.M: Cinismo e barulho, por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. apresenta as novas canções ao vivo no Blogotheque (aqui)
- Cinco shows – que eu vi – para baixar e ouvir: R.E.M. na Bélgica (aqui)
- R.E.M ao vivo no Rock In Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. – Discografia comentada, por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. no Rock Werchter, na Bélgica, por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. no T I The Park, na Escócia, por Marcelo Costa (aqui)

Novembro 12, 2008   27 Comments