Blog do Editor do Scream & Yell
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“Ensaio Sobre a Cegueira”

 “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles - Cotação 3/5

Antes de qualquer coisa acho importante dizer: eu não li o livro (ainda). Amigos e muitos críticos reforçam a fidelidade do roteiro ao livro, mas quando digo que não li estou me despindo de uma pretensa comparação entre literatura e cinema, e também de uma expectativa formada no âmago (muitas vezes inconscientemente) que procure respostas emocionais que transformem a ansiedade em algo tocável e reconhecível. 

O desconhecimento da história torna o espectador refém do roteiro, inevitavelmente, afinal ele não sabe o que vem pela frente e por experiência, destreza ou chute forma pequenos núcleos opinativos em sua mente que caminham para lá e para cá conforme a fita vai desenrolando na tela. É um jogo interessante entre diretor e espectador que, quando bem executado, gera filmes inesquecíveis.

“Ensaio sobre a Cegueira” nasce valorizado como história. Baseado na obra homônima do escritor português José Saramago, agraciado com o Nobel de Literatura em 1998, a história é devastadora. Aborda uma epidemia de cegueira em uma cidade qualquer que começa infectando um homem e, depois, toma toda a população e a joga em uma espiral de desencontros cujos valores são esquecidos.

O tema é caro a vários escritores – “A Peste”, de Albert Camus (cujo inimigo também é uma epidemia), “O Macaco e a Essência”, de Aldous Huxley (a fumaça negra causada pela bomba nuclear em uma terceira guerra mundial devasta a civilização) e mesmo “Blecaute”, de Marcelo Rubens Paiva (com três amigos em uma São Paulo devastada) – cujo pessimismo em relação à humanidade fica evidente.

Para esta adaptação, Fernando Meirelles cercou-se de alguns dos seus colaboradores (César Charlone na fotografia, Daniel Rezende na edição) e de um time estrelado de atores do qual fazem parte Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Don McKellar, Danny Glover e Gael Garcia Bernal. O filme foi rodado em Toronto, no Canadá, em São Paulo e Osasco no Brasil e Montevidéu no Uruguai, e apesar de todo o esforço o resultado soa… incompleto, distante.

Se o roteiro de “Ensaio sobre a Cegueira” é fiel ao livro, e o livro é um clássico da literatura moderna, qual o motivo do filme não funcionar? Talvez seja a opção da direção em torná-lo distante de seu público. A estilização fotográfica é belíssima, mas inibe o espectador que acaba por fim não se envolvendo com a história, por mais que a história seja envolvente.

Colocado na posição de observador, o espectador enfrenta um segundo problema, talvez o maior do filme: a sujeira visual exibida nos corredores, nos destroços de ruas famosas de São Paulo é muito maior do que a sujeira moral proposta pelo roteiro. Fernando Meirelles parece ter amaciado o formato visual do discurso para não chocar o público, e a sujeira moral é um dos grandes atrativos de “Ensaio sobre a Cegueira”.

Meirelles já havia feito o mesmo em “Cidade de Deus” alcançando um resultado excepcional ao contar a história da favela carioca com um certo tom de humor, câmera e edição frenéticas e muita ação, opções que amaciavam a realidade dura de um território dominado pelo tráfico de drogas, vivendo chacinas recorrentes e com “governantes” locais que desafiavam o Estado.

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, porém, a opção parece não funcionar. As cenas estão ali, mas não causam impacto. A derrocada da sociedade na visão de José Saramago é completamente pessimista, e não dá para o público ficar alheio a esta visão. Porém, tudo se apóia na belíssima metáfora da cena final, lírica, dos cegos que vêem, pois o espectador deixa a sala achando que a humanidade tem solução, mesmo com toda barbárie exibida minutos antes.

Entre a sutileza do discurso cinematográfico e a metáfora deslumbrante de seu final arrebatador (e talvez rápido demais – o que pode escapar ao público), “Ensaio sobre a Cegueira” está longe de ser um filme ruim assim como também não exibe os dotes tão caros a um filme clássico. Fica no meio do caminho e até pode abrir os olhos de algumas pessoas, mas o mérito será muito mais do paciente do que do médico. Não será sempre assim?

16 comentários

1 rodrigo perez { 09.26.08 at 1:48 pm }

Caro Mac, não estou “vendo” nada…

2 Jairo { 09.26.08 at 6:14 pm }

Uma imagem vale mais que mil palavras, é isso??? rsrs

3 Jonas { 09.26.08 at 6:52 pm }

É sério que ninguém captou a metáfora da cegueira no post?

4 Jones { 09.27.08 at 1:16 pm }

Muito bom o post, adorei, cara…
Gostei do filme, embora tenha achado o início muito arrastado. Eu concordo plenamente com vc quando diz que a fotografia afasta o espectador, bem como a total indefinição geográfica e dos personagens que criam um completo vazio que não traz empatia. Mas por outro lado, talvez tenha sido exatamente isso tudo que tenha feito eu gostar do dele, já que cria um contraste forte com o que não estamos “vendo”: a sujeira moral. E é aí que discordo dessa sua visão…rs. A sujeira moral é tão forte que nem a sujeira das ruas competem com ela, é como se filme quisesse mostrar algo que não era possível ser visto, não adiantaria ser mostrado nas telas tudo aquilo que está dentro de cada um. Lamentei ter ido assistir o filme sozinho, é um ótimo filme para ser discutido. No final das contas cheguei a conclusão que o filme exibe apenas o essencial (na fotografia, nos personagens, no roteiro, nos diálogos) para permanecer além da cena final. Quando vc diz que ele mostrou pouco a sujeira moral, não teria VISTO mais do que o exibido? se sim, meu caro, então vc não está cego….
Ah, só para constar mais uma vez: adorei a idéia do post….[8)]

5 Jonas { 09.27.08 at 1:37 pm }

Só lembrando que o Saramago ganhou o Nobel em 98, e pelo conjunto da obra, não exclusivamente pelo “Cegueira”.

6 Suzana { 09.27.08 at 6:01 pm }

Não entendi…

7 tiago { 09.28.08 at 3:17 pm }

CLAP, CLAP, CLAP!!! genial a idéia. :)

8 Douglas { 09.29.08 at 10:52 am }

hahha.. demais! Ótima idéia para a forma de publicar o review!
Vou deixar pra ler só depois que assistir.
[]s

9 Anônimo { 09.29.08 at 4:43 pm }

O review antes de ser sublinhado estava bem melhor.

10 André { 09.29.08 at 6:59 pm }

Achei a adaptação perfeita - e possível - do livro. O livro é frio, denso e tenso. A frieza do espectador com os personagens foi necessária também no livro (os personagens não tem nome, lembram?). É nesse afastamento que, paradoxalmente, acabamos nos aproximando. Claro que sempre fui fã do livro e me emocionei vendo aquelas imagens que traduzem de forma tão perfeita as emoções do livro. O problema do filme, se é q existe um (como levantei no meu texto sobre o filme), é q todo mundo sabia demais sobre ele antes da estréia. Ficou fácil ficar apontando problemas de edição, de cenas cortadas, de narração desnecessária, de choques “amaciados”.

E como qualquer adaptação visa a transmutação de linguagens (da literária para a cinematográfica) - coisa sempre dificílima de se alcançar, Ensaio sobre a Cegueira é o filme que o livro merece. E ponto.

11 Mac { 09.29.08 at 8:09 pm }

Jones, uma história para estender meu pensamento (hehe): na sexta passada eu fui até a padaria comprar pão. Aqui na Bela Cintra, ao lado da padaria, tem um açougue. Era mais ou menos 20h (um pouco mais talvez), e quando sai da padaria havia uma senhora sentada no chão em frente ao açougue, com um saco de lixo (que parecia ser do açougue) todo aberto e recolhendo o que ela achava que poderia ser comestível (acho que era isso). A cena bateu forte no estômago. Olhei para o lado enquanto caminhava e vi que o rapaz do estacionamento (que fica ao lado do açougue) estava com a mão cobrindo a boca, o que deu à cena um ar ainda mais trágico. Eu e provavelmente aquele rapaz não estamos cegos, mas dezenas (talvez centenas) de pessoas passaram por aquela mulher enquanto ela recolhia cuidadosamente comida do lixo, e não a observaram (por desejo, medo ou cegueira). É para essas pessoas que o filme deveria ter sido feito. Pois caras como nós já enxergamos isso. Fica parecendo que estão querendo educar que já está educado, o que é um grande desperdicio. Obrigado pelo comentário, por permitir que eu me estendesse mais um pouco sobre o tema.

Jonas, valeu pelas correções.

Douglas, estamos ae! hehe

Anônimo, você me fez observar que, assim como Meirelles no filme, eu estava amaciando no formato da resenha. Valeu.

André, bacana sua opinião com base na comparação entre livro e filme. Como escrevi, ainda não li o livro e não tinha a mínima idéia do desfecho da hist[oria (embora já tivesse paralelos nos escritores citados no texto), mas fiquei imensamente com vontade de ler, já que considero a história a melhor coisa do filme. E só vou poder concordar plenamente com a sua afirmação de que o a adaptação “é o filme que o livre merece” quando ler e poder comparar. Neste momento, então, na minha ignorância, aceito. Mas algo me diz que o filme poderia ser muuuuuuito melhor. Abraço e obrigado pelo comentário!

12 Izabele Queiroz { 09.29.08 at 10:20 pm }

Realmente, até que enfim alguém que não achou Blindness a melhor coisa do mundo, como eu. Já estava começando a me achar chata demais!
Pelos seus comentários sobre o filme, acho que você iria se frustrar - se é que eu posso chamar assim - com as suas expecativas de outrora, se tivesse lido o livro. Eu o li uma semana antes de ver o filme e, posso dizer com certeza, é um dos melhores livros que eu já li. Mas o filme, definitivamente não.

Não sei se confere à todos os espectadores, mas o que Saramago me passou, Meirelles não conseguiu filmar num simples estúdio. Provavelmente por ter feito um filme com a Sua visão da cegueira, do mundo, das pessoas, enfim, do livro. A Minha visão de tudo isso, só eu fiz.
O livro, pra mim, teve uma magia que nenhum filme pode repôr. Por mais fiel que seja - como de fato, foi - não vai me roubar algo mais profundo, emocionante, torrencial como as sensações mais complexas do folhear às páginas e lê-las, com surpresa. Foi assim com Lolita também me fez achar o filme uma coisa pálida, que sempre vai faltar alguma coisa.

Abraços,
Iza

13 fao { 10.02.08 at 12:42 pm }

bacana….é só selecionar o texto que aparece, náo estou cego…..

14 João { 10.18.08 at 5:45 pm }

Mac,

Permita-me dizer que nem o rapaz que colocou a mão na boca e nem você que se comoveu são mais ou menos cegos do que aqueles que passaram e não olharam a mulher recolhendo restos.
A cegueira da qual fala Saramago, e talvez Meirelles (porque eu ainda não vi o filme), é infinitamente mais complexa. É uma cegueira branca porque nunca antes souberamos de tantas coisas… as cartas na mesa e nós atônitos, envolvidos numa letargia olhando, olhando e não vendo nada.

15 chenepan { 10.23.08 at 2:05 pm }

o livro é bom. e o filme é uma bosta.
mas o que me impressiounou devereas, a cena comovente, o que vê a mendiga catando lixo e na mesma cena o cara com a mão na boca… “uau! como o mundo é cego!!!!! como ninguém, esses insensíveis não vêem isso!!!!! coitado dos pobres!!!!” ainda mais os que comem nossos restos, caríssimos restos do Jardins, coitada daquela mendiga, e ninguém vê isso, por que? Oras, acho que todo mundo vê isso, mas espera pra falar quando encontrar alguém da mesma estirpe para se mostrar decente, caridoso à causa humana, “posso ver”… ai, ai

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