Blog do Editor do Scream & Yell
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FIB 2008, Domingo

Eu juro que nao estava preparado emocionalmente para o que iria acontecer no último dia do Festival Internacional de Benicàssim, edicao 2008. Juro. Se eu conseguisse ter imaginado que tudo que aconteceu fosse realmente acontecer, talvez até tivesse medo de ter um infarto fulminante em meio ao público, sacumé, tem coisas que o coracao pode nao aguentar mais. O coracao, neste momento, ainda bate. O corpo está um caco e nao sei se me recuperei emocionalmente ainda. Vamos ver…

Acordei às 13h para postar o texto do sábado e ir tentar almocar com o pessoal do Alto Falante. Cheguei no hotel e ainda deu tempo de ver o Nelsinho Piquet subir no podium com o Felipe Massa (vou te falar que o Galvao Bueno espanhol fala muuuito mais do que o nosso), se preparar para o almoco (hamburguer, fritas, salada e cerveza) e rir das histórias dos mineiros (”Esse pueblo de Lula es muy confuso”). Os próximos programas prometem, especialmente o gravado em Abbey Road.

Uns quinze minutos de caminhada e um sprint de 200 metros pra nao perder o comeco do show e lá estou eu novamente frente ao The National, que numa tenda sob um sol de sabe se lá quantos graus (muitos) apresentou suas pérolas românticas doloridas movidas a guitarradas, teclados atmosféricos e violino. O show foi um repeteco da brilhante apresentacao no Werchter, semanas atrás, com “Baby, We’ll Be Fine”, “Fake Empire”, “Mistaken For Strangers” e uma estracalhante versao de “Mr. November” fechando a noite de sol. A “noite” só estava comecando.

Pontualmente às 20h, Leonard Cohen adentrou ao palco do festival com os dez personagens que transformam em música suas letras/poesias. Olha, é difícil demais falar sobre esse show. Uma senhora emprestou um lenco para a Juliana enxugar as lágrimas no show de Edinburgh, na quarta anterior. Alguns dias antes, o Carlos falou sobre a apresentacao que ele viu em Amsterda: “O Carlos que vc conheceu no Rock Werchter nao existe mais, agora existe o Carlos pos show do Cohen”. Esses sentimentos sao muito mais do que música, transcendem algo que nao sei dizer ao certo o que é.

Pra você ter uma idéia, 20 minutos após o show terminado eu ainda estava chorando. A Carol falava: “Calma, respira fundo”. E as lágrimas vinham. Fora os flashbacks horas depois quando eu lembrava do show: “Vou ligar pra Lili pra contar” (e da-lhe lágrimas). “Como vou explicar o que foi “Hallelujah” ao vivo?” (mais lágrimas). Sinceramente: eu nunca tinha sentido o que senti ontem na frente de Leonard Cohen, e depois que ele saiu saltitando do palco após apenas uma hora de clássicos.

Comecou com “Dance Me To The End Of Love”, e algumas senhoras presentes murmuravam: “Essa é a música do meu primeiro amor”. Depois veio “The Future”, valsa do disco homonimo apropriada para apresentar o poeta aos incautos com versos como “I’ve seen the future, brother: it is murder”. E o que falar de coisas como “Bird on a Wire”, “Everybody Knows”, “Who by Fire”, “Suzanne” (com Cohen ao violao), “I’m Your Man” e “First We Take Manhattan”? Nao se fala. Se ouve. Chora. E eu chorei.

O dia já estava ganho, o ano já estava ganho, mas o FIB 2008 ainda reservava surpresas guardando como “brinde” shows de Richard Hawley e Morrissey (que festival é esse em que um show de Morrissey vem como brinde?????). O guitarrista britânico Richard Hawley, que já tocou com o Pulp de Jarvis Cocker no álbum “We Love Life”, levou para a tenda Vodafone todo charme e bom gosto dos fifties, com baladas encantadoras e rockabillys contagiantes. O visual nao deixava dúvidas numa mistura de Roy Orbison e Elvis Presley, e o show foi ovacionado pelo público que lotou a tenda.

Já Morrissey, você sabe. Ninguém vai num show dele esperando ouvir essa ou aquela música. As pessoas até gostariam de ouvir os hits, mas elas vao mesmo a um show de Morrissey para ver Morrissey. Simples assim. O que ele tocar, está valendo. Entao, comparar o repertório do show no FIB com aquele que vi em Buenos Aires quatro anos atrás é uma tremenda bobagem. Morrissey é o show.

Quer ver: ele entra no palco (com os cinco integrantes de sua banda sem camisa e com jeans preto colado no corpo) e sacaneia: “Spanish eyes, olhem para mim. Vocês querem que eu fale espanhol? Eu vou falar argentino (sic), português, francês, mas nao vou falar espanhol”. Ele abre com “Last Of The Famous International Playboys”, e finada a cancao, tenta convencer o público: “Benicàssim, eu estou aqui”. A música, na seqüência, faz todo mundo duvidar: “Ask”, dos Smiths, aquele riff mastigado, aquela bateria galopante. Será mesmo?

Seguem-se “First Of The Gang To Die”, “That’s How People Grow Up” (”a” música de 2008) e “Irish Blood, English Heart”. Ele volta ao microfone: “Eu sei que as bandas pop espanholas sao um lixo, mas tudo bem, as bandas pop inglesas também sao, e isso nao importa pois.. “The World Is Full Of Crashing Bores”". Ataca o consumo de “animais mortos” no festival, e filosofa: “Garoto namorando garota, garota namorando garoto, garota namorando garota, garoto namorando garoto: tudo é possível”.

Dos Smiths ainda marcaram presenca “Vicar In A Tutu”, “What She Said”, “Stretch Out And Wait”, uma versao fodaca de “Death of a Disco Dancer” e “How Soon Is Now?”, fechando a noite após um cover de Buzzcooks (”You Say You Don’t Love Me”) e “Life Is A Pigsty”, um dos melhores números do álbum “Ringleader Of The Tormentors”. Faltou um mundo de músicas, mas ele próprio, mais do que ninguém, sabe que suas duas camisas arremessadas ao público vao se transformar em centenas de pedacinhos que vao ser guardados como um prêmio por cada uma daquelas pessoas. Ele é Morrissey, e pode tudo.

Eram duas da madrugada e ainda tinha Siouxsie e Viva La Fete no palco principal, mas eu nao tinha as mínimas condicoes físicas e emocionais para seguir em frente. The National, Leonard Cohen, Richard Hawley e Morrissey, numa mesma noite, e em seqüência, arrebenta com o coracao de qualquer um. Até ouvi, de longe, “Hong Kong Garden”, mas o festival já tinha acabado - ao menos para mim. Lágrimas ainda escorriam vez em quando pelo rosto. A lembranca do dia perfeito já comecava a se cristalizar na memória. Nunca fui tao feliz após um show. Agora é dancar até o fim do amor, pois é assim que as pessoas crescem.

Fotos da viagem e dos shows:

http://www.flickr.com/photos/maccosta

Julho 21, 2008   14 Comments