Nuvem Nove e Pasolini
A Nuvem Nove, uma das lojas de CDs mais bacanas de São Paulo, fechará às portas no dia 26 de abril. A primeira vez que fui à loja foi em 2000. Recém mudado para São Paulo, e trabalhando no iG (na primeira das minhas três passagens pelo portal), fui convidado a conhecer o local por dois Fábios, Sooner e Bianchini, com mais alguns outros amigos. Tratava-se da Confraria da Sacola Azul, uma turma de jornalistas que baixava na loja todo dia 15 e 30 (vale e pagamento) para se abastecer dos bons itens que a loja oferecia. A Confraria não durou muito tempo, mas a loja permaneceu firme até o mês passado, quando o Zé, dono da loja, anunciou o fechamento.
Passei por lá hoje, e as prateleiras já estão bem vazias, mas há ainda como encontrar boas coisas por bons preços. Dentre os achados de hoje estão o “Peace and Noise” da Patti Smith, o “1999″ do Prince, “Lê Danger” da Françoise Hardy, o volume 2 do songbook do Ary Barroso, e o grande achado dos últimos meses: o box “A Trilogia da Vida”, de Píer Paolo Pasolini, com “Decameron” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1973) e “As Mil e Uma Noites” (1974). Dos três, assisti apenas ao último em uma sessão no CCBB, anos atrás.
Fiquei tão apaixonado pelo cinema do cineasta italiano que comentei com um amigo, Márcio, cinéfilo de longa data, que relembrou como tinha sido assistir ao polêmico “Saló” em uma das primeiras edições da Mostra Internacional de São Paulo, em 1979. “Estava uma bagunça na sala, falação e piadinhas, coisa de quem não estava acostumado com um evento como a Mostra. Parecia uma sala de aula, e ficou assim até uns dez minutos de filme, quando começaram a sair pessoas da sala assustadas com Pasolini”. Sensacional.
Este reencontro com Pasolini e as lembranças de vários amigos nesse post servem para mostrar o quanto uma loja interessante quanto a Nuvem Nove pode fazer parte da vida afetiva de qualquer pessoa. Boas lojas de CDs, sebos, livrarias, cinemas e shows são lugares ótimos para se encontrar pessoas legais. Na Nuvem Nove (assim como na Sensorial e na Velvet CDs, estas duas na Galeria Presidente, no centro de São Paulo), porém, o interessante não era só comprar música, mas conversar sobre ela. Não à toa, vários encontros de participantes da comunidade da revista Bizz no Orkut foram marcados ali.
Com o fechamento das portas da Nuvem Nove, São Paulo não perde apenas mais uma loja de CDs, mas perde sim um ponto de encontro de pessoas apaixonadas por boa música, algo que pode soar tolamente romântico, mas é a mais pura verdade. Uma grande perda, sem dúvida.
Abril 16th, 2008 at 12:34 am
Poxa, fiquei triste com a notícia. Quando trabalhei na Campos Bicudo, durante um ano e meio, ali do lado da Amauri, sempre que voltava do fórum e tinha uma folguinha no horário passava na loja pra encontrar algum cd, principalmente nas prateleiras de cima, e agora não terei mais como ir! Realmente triste.
Abril 16th, 2008 at 7:28 pm
muita tristeza o fim da nuvem nove. quero ver se passo la esse sabado pra ver se consigo aproveitar algo ainda
Abril 17th, 2008 at 4:11 pm
É, trata-se de uma reação em cadeia, as lojas de cd’s estão desaparecendo de forma vertiginosa. Aqui em Brasília várias já fecharam as portas. A última foi a Discoteca 2001, uma rede de cerca de 10 lojas, que recentemente fechou nove delas, permanecendo apenas a matriz aberta. Foi nessas lojas que comprei cerca de 30% de meus dois mil e poucos discos. Apesar de ser uma rede grande, era aquele tipo de lugar onde se achava do mais popular ao mais indie ou excêntrico, pouca coisa ficava fora das prateleiras deles. Não podia passar perto que eu entrava e saía de lá com pelo menos dois disquinhos envoltos no plástico, afoito pra chegar logo ao carro para ouvir um deles. Foi numa delas que comprei em 97 o 2º Portishead, por exemplo, sem nunca ter ouvido falar da banda. O iminente fim do disco (LP, CD ou o que for) é mais que o fim de uma era, para mim é quase uma tragédia pessoal. É por essa e por outras que o IPod ainda não entrou na minha casa. Já baixei a guarda e aderi aos downloads na rede, mas ainda os gravo individualmente, me recusando a tratá-los como meros “arquivos”, mas como o que são: DISCOS, uma obra, como um livro, por exemplo.
Abração!!!
PS: seja bem-vindo à Brasília!!! Precisando de help…
Abril 18th, 2008 at 1:19 am
Quando soube da notícia fiquei realmente chateado. Moro em BH e já fui a São Paulo várias vezes por conta desta loja. Baixo tudo que quero pela internet, mas gostava de ir lá comprar cd´s. Não havia lá o lado mercantilista que tanto me incomoda. vcs conhecem além da galeria do rock algum lugar em SP tão bom quanro N9?