“2 Dias em Paris”

“2 Dias em Paris”, de Julie Delpy - Cotação: 2,5/5
O Brasil leva a fama pelo resto do mundo de ser o país do samba, mesmo que o ritmo esteja longe de ser característico e representativo de capitais dispares como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Brasília e Rio Branco. A França – no geral, e Paris em particular – carrega a fama de ser a terra dos amantes. Em uma das cenas de “Bonecas Russas” (seqüência de “Albergue Espanhol”), um dos estudantes ingleses, assim que pisa em Paris, pára uma garota na rua e pergunta: “Você quer dormir comigo”. A garota o deixa falando sozinho enquanto ele comenta com o amigo que sempre sonhou fazer isso, afinal, a fama das francesas ultrapassa fronteiras.
Em seu segundo filme como diretora, a atriz (roteirista e produtora) Julie Delpy amplifica essa fama apoiando em duas vertentes do cinema cômico: a comédia romântica tradicional (e tagarela, cujo grande influência de Delpy é “Annie Hall”, de Woody Allen) e a comédia de costumes, mostrando que Paris tem muito a ensinar a Jack (Adam Goldberg), um decorador de interiores que namora uma fotógrafa francesa, mas não sabe falar quase nada de francês. Delpy usa até a cena clássica do estrangeiro que vai pedir um lanche em uma rede de fast foods (tipo McDonalds) para ilustrar a disparidade das línguas e culturas.
Julie Delpy interpreta Marion, francesinha que vive em Nova York e namora o americano Jack. O casal completou dois anos de relacionamento, e decidiu reascender “a chama do amor” fazendo uma viagem a Europa. A primeira parada foi Veneza, mas tudo deu errado. Jack, que é hipocondríaco, teve uma gastrite e o casal passou mais tempo brigando do que namorando. Na seqüência eles decidem passar dois dias em Paris, cidade natal de Marion, e a comédia de erros aumenta progressivamente conforme os minutos passam na cidade francesa. Os pais de Marion são um artista plástico cujas obras têm forte apelo sexual (ou só apelo sexual) e uma ex-hippie que traz no currículo um breve affair com Jim Morrison (os dois, pai e mãe de Delpy na vida real).
Algumas características da personalidade francesa são jogadas no colo do espectador com uma sinceridade e comicidade que encantam. A própria atriz parece rir verdadeiramente em várias passagens de seu filme, como nas brigas homéricas no meio da rua que parecem que vão terminar em assassinato, mas acabam em abraços e risos; a valorização da língua pátria, que causa desconforto em Jack, além de render dezenas de cenas hilárias; as greves e a política além da tal fama de cidade romântica, cuja piada no cartaz do filme já desvenda uma das tramas paralelas da história: “Ele sabia que Paris era a cidade dos amantes, mas não sabia que eram todos dela”.
Como produtora, diretora e roteirista, Julie demonstra que aprendeu muito com a dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Por-do-Sol” (neste último, inclusive, ela assina o roteiro com o também ator Ethan Hawke e o diretor Richard Linklater), e é impossível não relacionar “2 Dias em Paris” com a segunda película, já que boa parte de ambos os filmes tratam de relações/discussões amorosas por ruas parisienses. Porém, por mais que o romance seja o ponto de início e fim de “2 Dias em Paris”, grande parte de sua graça se deve ao choque de culturas, fato valorizado devido a atriz transitar com desenvoltura entre as duas línguas, o que lhe permite “brincar” com Bush tanto quanto tirar sarro da fixação sexual dos franceses.
Quando a comédia de costumes dá o tom do filme, “2 Dias em Paris” diverte e entretém. Porém, quando procura discutir o amor, o filme se perde de tal forma que Delpy precisa costurar tudo no final com uma longa narrativa em off, deixando a impressão de que ela tentou fazer em um filme tudo aquilo que Richard Linklater fez em dois. Falta foco para a cineasta, que tenta desenvolver várias subtramas sem se ater diretamente a uma (o choque de línguas, a dificuldade dos relacionamentos, a liberdade sexual, as questões políticas), mas não consegue uni-las a contento no final. Esse deslize na edição e no fechamento, no entanto, não desmerece “2 Dias em Paris”, que abre a possibilidade de uma boa carreira atrás das câmeras para Julie Delpy, e pode ser tão cômico quanto educativo. Para rir e aprender.
Leia também:
- A França, por Flávia Ballvé
- “Antes do Por-do-Sol”, por Marcelo Costa

Março 31st, 2008 at 5:13 pm
Ainda não assisti, vou esperar sair em DVD. Eu achei o trailer um porre dos grandes e não me apeteceu pra assistir. Você mudou isso.
Março 31st, 2008 at 5:56 pm
Poolts cara, tenho tanto filme na frente pra assistir que até desanima. mas vou anotar. Dá uma passada no meu blog… ficaria lisongeado com uma critica sua.
Abril 1st, 2008 at 4:24 am
Eu assisti o filme semana passada, e é bem o que o Marcelo comentou.
Tem algumas cenas realmente muito boas e engracadas.
Julie Delpy merece credito e mais chances atráz das cameras.
Abril 1st, 2008 at 9:18 am
Oi, Marcelo… Falando em filme… não tem nada a ver com esse, mas vou aproveitar o espaço para comentar. Vi que você está assistindo “A Dupla Vida de Véronique” do Kieslowski… você viu que a Platina Filmes lançou “Não matarás” e “Não amarás”? Tá vendendo na 2001, como é de se esperar, hehe, mas no Armarinhos Fernando lá de Mooca City tá mais barato, R$21. Fica a dica, caso lhe interesse! Beijo.
Abril 1st, 2008 at 11:21 pm
Mans, vale assistir despretensiosamente.
Eder, querer passar eu quero, mas preciso estar com a cabeça limpa, e nestes dias tá dificil (eu já devia estar no ponto de ônibus, mas cá estou respondendo comments). Olhei por cima e tive vontade de voltar pra ler. Prum cara que lô poucos blogs já é um elogio. risos
Carlos, tô contigo.
Julie, brigado pelo toque. Não sabia que tinha saído separado! Estou aguardando o box com os dez filmes sobre o Decálogo. O Não Amarás eu tenho em VHS, perdido no quarto. :*
Abril 2nd, 2008 at 9:13 am
De nada
O Decálogo vai sair pela Versátil.
Maio 16th, 2008 at 9:32 pm
“Você mudou isso.”
Ele sempre faz isso
Vou ver esse, valeu marcelo!