“Accelerate”, R.E.M.

“Penso que, talvez, Mike e Michael ficaram um pouco atordoados em como o último disco foi mal recebido. Eu não fiquei. Eu já sabia que o disco não era tão bom antes mesmo de terminá-lo”, diz Peter Buck em entrevista para Craig McLean, do Telegraph. O tal “último disco” a que o guitarrista do R.E.M. se refere é “Around The Sun” (2004), um álbum que ousou macular uma carreira até então brilhante (mesmo com o fato de seus predecessores, “Up” e “Reveal”, serem apenas bons em uma carreira repleta de álbuns sensacionais). Peter Buck assume o erro, e isso é um fato que não se vê todos os dias no mainstream. Porém, estamos diante do R.E.M., uma banda rara no mundo pop.

Tudo que você precisava saber previamente sobre “Accelerate”, décimo-quarto álbum do R.E.M., já está pipocando de blog em blog faz alguns dias: que este é o melhor álbum do R.E.M. na década 00; que é o álbum mais barulhento do trio desde “Monster” (1994); que suas onze músicas juntas não ultrapassam os 35 minutos de duração (quase metade do tempo dos álbuns anteriores); que “Accelerate” (”Acelerar”) é um nome apropriado para um disco rápido e urgente; que Jacknife Lee, o produtor, tinha trabalhado com Bloc Party e Green Day, e foi recomendado ao R.E.M. por The Edge (U2); e outros blá blá blás. É bem provável que qualquer texto que você leia sobre “Accelerate” lhe dará a impressão de estar diante de um grande álbum, e mais: de que – parafraseando a manchete da reportagem do Telegraph – o R.E.M. renasceu. Tudo verdade.

“Living Well Is The Best Revenge”, a porrada que abre “Accelerate”, é um bom resumo de tudo que virá pela frente. O baixo de Mike Mills (a grande estrela do disco) pula a frente da bateria agitada de Bill Rieflin e das guitarras punks de Peter Buck e Scott McCaughey. “Man-Sized Wreath”, a segunda faixa, desacelera em relação à abertura, mas mantém o álbum em alta velocidade. A temática permanece a mesma, mantendo a mídia como alvo. Além de uma pulsante linha de baixo, Mike Mills se destaca na harmonia vocal. O ritmo desacelara mais um tiquinho em “Supernatural Superserious”, contagiante primeiro single do álbum que fala sobre adolescência e humilhação, mais uma canção para entrar no rol das grandes músicas do R.E.M., que Michael Stipe apelidou carinhosamente de “hino geek”.

A introdução da sensacional “Hollow Man” é piano e voz. Quando você acredita estar diante de uma baladaça daquelas “estilo R.E.M.”, o grupo acelera em direção ao refrão com Michael Stipe gritando assustado com medo de ser um homem oco. Violão e órgão compõem o clima denso de “Houston”, com Michael Stipe postando-se entre os terríveis furacão Katrina e o presidente Bush: “Se a tempestade não me matar, o governo irá”. A faixa título volta a trazer urgência ao álbum com Stipe cravando frases como: “A incerteza é sufocante. Nossa esperança nunca foi tão grande”. Para o vocalista e letrista, não é hora de perder tempo: “Não tenho tempo para questionar as escolhas que eu faço / Eu tenho que seguir outro caminho: acelerar”.

O folk irlandês “Until The Day Is Done” fala sobre um país em ruínas, sobre guerras perdidas. Sob uma base de guitarra encharcada de eco e colocada no fundo da melodia na mixagem, “Mr. Richards” permite um paralelo com “Mr. Jones”, personagem da letra de “Ballad of a Thin Man”, clássico de Bob Dylan, com Michael Stipe aqui questionando um político que ignora o povo. A climática e arrastada “Sing For The Submarine” cita “Electron Blue” e “It’s A End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)” enquanto “Horse To Water” surge como um dos momentos mais rápidos do disco, uma punk song brilhante.

Para fechar, cinismo, caos e muito barulho: “I’m Gonna DJ” surge mais pesada do que a versão do álbum “Live” e termina o disco da mesma forma que começou: com rapidez e sujeira. Novamente na linha de frente do rock mundial, o R.E.M. “vende” ao público certo tipo de transcendência, algo que faz deles exemplos de honestidade, atitude e opinião. Pois o R.E.M. faz parte de um tempo (perdido) em que amar uma banda ia além de comprar discos e decorar as músicas. Implícito, entre os devaneios, está a necessidade de acreditar que é possível mudar o mundo com uma canção.

“Accelerate” é um álbum que une as duas principais facetas musicais do R.E.M.: o lado rock, amargurado e barulhento, e o lado acústico, denso e provocativo. No entanto, por mais que os violões dominem um terço das canções, este é o primeiro álbum inspiradamente punk do trio (”Monster” era muito mais glam). É o primeiro álbum, também, que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michal Stipe. É um disco excelente, que se não alcança o status de clássicos como “Document”, “Out of Time” e “Automatic For The People”, serve para recolocar a banda novamente no rumo após o fiasco de “Around The Sun”. É um álbum que se não vai mudar o mundo, serve para ser deixado no repeat enquanto se questiona a descrença na mídia, nos políticos e em si mesmo. A resposta a ser encontrada provavelmente será a mesma proposta por Michael Stipe: acelere, não há tempo a perder. Não há mesmo.

“Accelerate”, R.E.M. (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 9
Lançamento Oficial: 01 de Abril

Além da versão normal, “Accelerate” conta com uma versão de luxo com CD e DVD (e um encarte de 64 páginas), que inclui um filme de 48 minutos sobre as gravações e ainda traz dois b-sides, “Red Head Walking” e “Airliner”. Essa versão, importada, deve sair por R$ 60.

Leia também:
- R.E.M. ao vivo no Rock in Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
- Discografia comentada do R.E.M., por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. reborn, por Craig McLean, do Telegraph (aqui)

12 Responses to ““Accelerate”, R.E.M.”

  1. Rodrigo Miranda Says:

    Olá, cá estou eu perdido numa noite sem sono. Por isso aviso que já há nos blogs o cd do Raconteurs. Não irei emitir opinião pois ainda está baixando. Caso queira baixá-lo tem no site http://1251piloto.blogspot.com/ e depois falo se gostei ou não dele.

    abraço

  2. arlen Says:

    Marcelo, não entendi o que quis dizer com “que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michal Stipe” se tiver paciência me explica.

  3. Mac Says:

    Arlen, o Peter Buck é o “chefão” da banda. A cara musical do R.E.M. foi ele quem construiu. Já o Michael é a alma, as letras, a voz. O Mike sempre ficou em segundo plano, fora uma ou outra canção que ele canta, pois o som R.E.M. sempre foi moldado muito mais pelo som da rickenbaker do Peter do que pelo baixo do Mike. No entanto, neste novo disco, pela primeira vez na discografia da banda, o baixo ganha mais destaque do que as guitarras. Elas estão velozes, rápidas, sem polimento enquanto o baixo está saltando a frente de forma surpreendente. Sem contar os backings.

    Abs

  4. Walbher Says:

    Mas você diz “Conceitualmente” e “De um modo geral”, certo? Pois em Out of Time, por exemplo, o baixo de Mike Mills está na nossa cara, com ótimas linhas. Sem contar as faixas em que a voz dele está até a frente da de Michael Stipe. Está certo que nesse disco ele está detonando, mas ele já teve grande destaque antes.

  5. jw Says:

    Mac, sobre o novo do Raconteurs, que comentaram aí em cima, pode anotar: Old Enough é fácil uma das grandes músicas do ano.
    parceria perfeita entre o cara que queria ser o Macca com o cara que queria ser Page & Plant numa pessoa só.

  6. Mac Says:

    Walbher, então, no “Out of Time” há uma revezamento de músicos nos instrumentos. O Mike toca baixo em pouco mais de metade do disco: “Near Wild Heaven” (que a melodia Beach Boys e o vocal chamam muito mais a atenção), “Endgame” (as cordas dão o tom), “Shiny Happy People” e “Me in Honey” (impossível não pensar na Kate nessas duas músicas), “Country Feedback”, “Texarkana” (que é dele) e “Belong” (a que o baixo mais comanda) além de “Losing My Religion”, que o bandolim foi a grande sacada. Esse disco é foda.

    Jw, o Raconteurs ainda não desceu por aqui…

  7. Adriano Mello Says:

    Primeiro, “Accelerate” é um discaço. Segundo, não achei o “Around The Sun” ruim, um pouco denso e dificil, mas ruim não. Terceiro, realmente o Buck e o Stipe sempre estiveram a frente do “Nerd Genial”, chamado Mike Mills, no entanto nos ultimos trabalhos como “Reveal” e “Up”, o Mills, apareceu muito mais, pois tem mais liberdade pra trabalhar em baladas e musicas mais lentas. E os backing do Mills, desde o primeiro disco da banda, sempre sao muito, mas muito bons (da pra listar dezenas de cancoes assim). Quarto, “Supernatural Supperseriuos”, vai entrar no rol das grandes cançoes da banda sim. Quinto, é bom ver o REM de guitarras novamente. E pra terminar, “Accelerate” é um discaço.
    Abs, :)

  8. Walbher Says:

    Accelerate é um discaço. Disse bem.

    E Texarkana é fantástica, Mac. O que é aquilo! Quando comprei o disco e a ouvi pela primeira vez fiquei de queixo caído. o Disco é foda, mesmo.

    E esqueci de dizer, até que enfim uma resenha decente desse álbum. Elogiar todo mundo elogia, mas fazer uma boa resenha…
    Abraços!

  9. jw Says:

    mais uma vez sobre Raconteurs, eu não curti aqueles metais, mas as 4 primeiras, Top Yourself e Attention grudaram.

  10. Tomaz de Alvarenga Says:

    Grande Mac!
    Tudo o que queria dizer sobre ‘Accelerate’, você disse…
    Vou esperar uns 3 meses pra esquecer suas palavras e fazer minha resenha, hahaha…

    Concordo que a ascensão do Mills é notória, mas acho que ela veio do “Up” pra cá.. Aliás, o “Up” é o “New Adventures in Hi-Fi” da década ‘00, em termos de subestimação. Pra mim, são dois clássicos, acima de outras ‘unanimidades’ do REM e do rock em geral. O “Around the Sun” é bem fraco, isso nem colabora pra aumentar os elogios do “Accelerate” (como um alívio), pois ele tem suas próprias virtudes, bem descritas por você. E o “Reveal” é meia-boca, tem uma metade podre, é o Ronaldo Fenômeno dos últimos anos heheheh.

    No mais, teu texto está brilhante, até procurei defeitos, mas não obtive êxito…

    grande abraço!

  11. arlen Says:

    Marcelo, acho q tu tens razão na verdade eu sempre admirei muito o Mike e para mim e, para muitos outros é o melhor instrumentista da banda em todos os sentidos. Na verdade sou fã deles desde os primeiros discos portanto qualquer coisa vinda da minha pessoa vai ser carregada de nostalgia e, de tudo que a banda já fez por mim musicalmente.

    E quanto ao filme, na capa do blogue “O homem que não estava lá” é um dos melhores filmes dos Cohen. Eu diria perfeito.

    abraço

  12. Diogo Says:

    Marcelo, to muito afim de comprar o Accelerate, ainda não comprei, mas vou comprar!!! Sensacional o seu texto!!! Mas não acho o Around the Sun todo esse fiasco q falam. Tem horas q até acho ele melhor q o Reveal (q é um disco muito bom), é q o nível do R.E.M é muito alto, e os discos dos anos 2000 não aguentam o combate com os da década de 80 “Document e Green”…. sem falar nos clássicos dos anos 90. O problema do Reveal é q ele é muito desparelho… tem umas 5 ou 6 q poderiamos colocar como as melhores da banda (She just wants to be é genial), mas tem outras q não são tão boas. Nosso colega Tomaz de Alvarenga se enganou falando q o Up é o “New Adventures in Hi-Fi” da década ‘00… porq??? Up é de 98.
    Abraço a todos

Leave a Reply