“Mr. Love and Justice”, Billy Bragg

Billy Bragg nasceu na época errada. Só pode ser. Com cinqüenta anos completados em dezembro último, o roqueiro britânico que ousa misturar Clash com Bob Dylan chega ao seu décimo segundo disco falando de coisas que estão fora de moda na nova ordem mundial. Em uma época em que o pop celebra muito mais os barracos de seus principais artistas (Britney e Amy na dianteira) do que a música propriamente dita, qual espaço para um cara que fala de amor, política e justiça?
“Mr. Love and Justice” sucede o brilhante “English, Half, English” (2002), e vem sendo saudado com tiros de canhão pela imprensa inglesa. “Antes do Arctic Monkeys escrever dolorosas canções de amor; antes de Mike Skinner destilar noites bêbadas em dramas de três minutos; antes do Radiohead descobrir a política; Billy Bragg já tinha feito tudo isso”, cravou a NME. “O Bob Dylan de Essex”, comparou a Q. “Uma das vozes de protesto mais importantes do pop britânico”, bradou a Uncut. “A British icon”, resumiu a Mojo.
Em um mundo cada vez mais dominado por grandes conglomerados, afundado em religiões fakes que prometem a vida eterna em troca de dinheiro, atolado de livros de auto-ajuda que prometem desvendar o grande segredo, e repleto de amizades virtuais (igual a solidão real), Billy Bragg aparece carregando sua guitarra, seu texto afiado e interrogando o Sr. Amor e Justiça. Em “Some Days I See The Point”, do álbum anterior, ele dizia que queria fazer do mundo um lugar melhor, mas que não conseguia fazer isso sozinho. Nem parece que se passaram só quatro anos. Quantas pessoas estão dispostas a fazer do mundo um lugar melhor? É possível contar nos dedos de uma das mãos.
No entanto, apesar do cenário catastrófico em que vive a sociedade atual, Billy Bragg abre “Mr. Love and Justice” bradando, no refrão: “Eu mantenho a fé em você”. Soa até inocente, eu sei, mas quem está cantando isso já passou dos 50 anos, é um ativista político que luta pelos direitos da classe trabalhadora inglesa e que defende a multiculturalidade britânica. E que, sobretudo, ainda acredita no amor e na justiça. “I Keep Faith” é singela, conta com a participação de Robert Wyatt e é uma daquelas canções que podem ser ouvidas por dias e dias a fio.
Com clima flamenco, “I Almost Killed You” surge movida por gaita e violões. “Você vê um arco-íris / Eu vejo uma nuvem escura / Você vê novos amigos / Eu vejo uma multidão má / Eu quase lhe matei com meu amor”, diz a letra. Na tocante “M For Me” ele propõe: “Seus problemas agora são nossos”. No rockão “The Beach is Free” ele explica: “Os campos pertencem aos fazendeiros / As florestas pertencem ao rei / Hoje em dia nossos prazeres estão cercados / Temos que pagar por tudo / Mas a praia está livre”. Na suave “You Make Me Brave” ele se recusa a se esconder no passado. Em “Something Happened” ele compara amor e luxuria.
Na faixa título, Billy Bragg interroga o senhor amor e justiça; em “If You Ever Leave”, fala de solidão e abandono; “O’Freedom” versa sobre democracia e liberdade, temas caros; em “The Johnny Carcinogenic Show”, praticamente adapta para o formato canção pop a temática do filme “Obrigado Por Fumar”: “Vi um garoto na televisão ontem / Ele estava vendendo uma tonelada de veneno / Uma mulher perguntou: Como você pode fazer isso? / Ele respondeu: o segredo é agarrar os jovens / Eu não posso ser responsabilizado pelo que as crianças aprendem / Sou responsável apenas em dar algum retorno aos meus investidores”. Lá pelo meio, ainda crava: “A pobreza é tóxica, todos sabem”.
Entre rocks, folks e ballads, “Mr. Love and Justice” soa muito mais um álbum de amor do que política. Seu clima (entre anos 40 e 50), no entanto, não alcança a sobriedade de “English, Half, English” nem a grandiosidade de álbuns clássicos do cantor, como “Talking With The Taxman About Poetry” (lançado em vinil no Brasil nos anos 80) ou os dois discos em parceria com o Wilco tendo por base canções inacabadas de Woody Guthrie. Mesmo assim, ele chega a tocar a alma em alguns momentos. É um disco que não tem relação nenhuma com a melancolia pueril dos emo punks, com a rebeldia sem causa do novo rock, com a diversão sem limites do electro. Talvez, por isso, soe fora do tempo. Billy Bragg nasceu na época errada. Ainda bem.
“Mr. Love and Justice”, Billy Bragg (Cooking Vinil)
Preço em média: R$ 50 (Importado)
Nota: 7,5
Veja também:
- “Must I Paint You A Picture?”, de Billy Bragg, por Marcelo Costa
- Assista a clipes de todas as canções de “Mr. Love and Justice” aqui
Ps. O álbum também foi lançado em uma edição dupla luxuosa, que traz no CD bônus as doze canções originais em versões caseiras, a maioria voz e guitarra.
Março 9, 2008 1 Comment
Fernanda Takai ao vivo em São Paulo

Estou sentado na primeira fila do charmoso teatro do Sesc Pinheiros. Ao meu lado, uma senhora que aparenta ter mais de 60 anos. Já passou da metade do show, e ela não abriu a boca para cantar nenhuma das canções, muitas delas hits do cancioneiro nacional. Ao final de “Insensatez”, porém, ela se vira para mim e lança a pergunta: “Todas essas músicas estão no CD?”. Respondo que sim, explicando que apenas as versões em inglês não entraram. “São muito boas”, diz ela encerrando o papo e voltando-se para o palco.
No palco, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu (que fez questão de frisar que a banda é sua prioridade, é onde ela quer estar), apresenta as canções de seu excelente primeiro disco solo, “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, que reúne um repertório de canções interpretadas por Nara Leão. É a noite de estréia, e Fernanda está radiante e falante, saltitando entre o nervosismo do debute de uma turnê e a felicidade da recepção do público, que esgotou os ingressos para as duas apresentações. “A gente nunca sabe como será a noite de estréia, mas eu fiquei muito feliz quando soube que os ingressos estavam sendo bem vendidos… e bem esgotados”, comentou em certo momento.
A banda que a acompanha traz os Pato Fus Lulu Camargo (teclados) e John Ulhoa (”violão, guitarra, marido, bom pai”), mais Thiago Braga (baixista do LAB) e Mariá Portugal (bateria e zabumba, integrante das bandas Trash Pour 4 e Dona Zica). Mariá, por sinal, é um dos grandes destaques da formação. Baterista de “mão pesada”, a garota ataca seu kit mostrando versatilidade, indo dos extremos da delicadeza até as marcações mais pesadas (e são essas últimas que dão o tom de grande parte da apresentação).
O repertório apresenta as treze canções do álbum, mais algumas surpresas, “já que o disco é curtinho, tem pouco mais de 30 minutos”, explica a cantora. A produção é magnífica. A iluminação é extremamente delicada e as luzes flutuam dando charme ao espetáculo. Projeções estampam fotos de Fernanda na decoração do fundo de palco. E se levarmos em conta que o projeto tomou fôlego após Fernanda interpretar Nara em um desfile da grife de Ronaldo Fraga no SPFW, natural que ela esteja deslumbrante na noite de estréia (de preto, vestido, meias e sapatilhas).
Todo esse cuidado com a produção aconchega o repertório, que funciona a perfeição no palco. O show começa com de “Ta-Hi”, samba de Joubert de Carvalho (1930) gravado primeiramente por Carmen Miranda. Seguem-se “Luz Negra”, “Lindonéia” e “Diz Que Fui Por Aí” (uma das melhores do álbum e do show). A primeira canção “extra” foi “There Must Be an Angel (Playing with My Heart)”, do Eurythmics, totalmente no clima da noite. Após “Estrada do Sol”, Fernanda arremata: “Como apresentamos uma música do Tom Jobim com a Dolores Duran, agora a gente vai tocar uma música do Duran Duran”. Segue-se “Ordinary World” em versão fofa, fofa.
No show, Fernanda Takai amplia os acertos do álbum. O repertório junta muitas canções quase que de “domínio público”, cujas versões mais famosas já fizeram casa no imaginário popular. Porém, os ótimos arranjos de John e Lulu, somados a interpretação delicada e particular de Fernanda (e, no show, acrescidos da pontuação marcante da bateria de Mariá e do baixo estiloso de Thiago) conseguem transcender o passado, que ao invés de se transformar em obstáculo, acaba por servir como trampolim para o presente, explorando a musicalidade do quinteto.
“Com Açúcar, Com Afeto”, “Trevo de Quatro Folhas”, “Seja o Meu Céu” e “Odeon” rendem belos momentos na noite, que ainda traz versões para “Ben”, de Michael Jackson, “Esconda o Pranto Num Sorriso”, de Evaldo Braga, “O Divã”, de Roberto Carlos (excelente) e a contagiante “A Dança do Carimbó”, de Eliana Pittman. Ao final desta última, empolgada, a senhora que assiste ao show ao meu lado intima: “Ninguém levanta? Levanta e aplaude!”. Seguem-se mais de dois minutos de aplausos incessantes com todos de pé no teatro do Sesc Pinheiros coroando a estréia. Com grande parte do público dançando na frente do palco, “Kobune”, versão em japonês estilo Pizzicato Five de “O Barquinho”, fecha a noite em clima descontraído, e deixa a certeza que Fernanda Takai tem uma bela carreira solo pela frente.
Veja também:
- “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, de Fernanda Takai, por Marcelo Costa
- Mais fotos do show no flickr de Liliane Callegari
- “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, blog de Fernanda Takai

Março 9, 2008 10 Comments














