Bob Dylan ao vivo em São Paulo

Última música. George Receli, o baterista, dá duas marteladas no bumbo e a banda entra jogando no colo da audiência “Like a Rolling Stone”, a canção que tirou Bob Dylan de vez da ala folk e o transformou em ícone pop em 1965. O homem não está olhando a platéia. O teclado (em que Bob passa 80% do show) fica posicionado na lateral do palco, para que ele comande com olhares as baquetadas de Receli e coordene – junto ao baixista Tony Garnier – os improvisos da banda. No lado direito da platéia, uma garota de estatura mediana consegue – numa falha da segurança – escalar o palco e parte correndo em direção ao homem.

Bob Dylan está imerso na canção, buscando na memória a letra que vai saindo pelos lábios em fiapos desgastados de voz. A menina corre, pára em frente a ele e abre os braços. Assim que vê a garota, Dylan toma um susto e faz um gesto automático de “pare” com a mão esquerda estirada e o braço retraído, enquanto a mão direita continua intercalando teclas pretas e brancas. A menina fica petrificada até ser agarrada por um segurança brutamontes que, ao invés de portar uma cara de poucos amigos, ri de toda a cena enquanto a retira do palco. O público vai ao delírio e deixa as cadeiras – de R$ 250 até R$ 900 – para ficar em pé.

Um princípio de desordem se instala no recinto com berros, gritos e urros saldando a invasora, o homem e aquela canção. Bob Dylan se perde na melodia, olha para Receli que faz um improviso, e retorna ao andamento do refrão. O público vai junto e canta “How does it feel / How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone?” a plenos pulmões sem o acompanhamento de Bob, que volta a cantar o refrão na seqüência e encaminha a música – e o show – para o final com um olhar em direção a Receli e Garnier. A música acaba. Ele se curva em direção a platéia, vira de costas e caminha para o backstage. Parece pensar, atônito, num lapso de deja vu: “Isso foi tão anos 60″.

Até este momento o show alternava clássicos interpretados de forma incompreensível (”Masters Of War”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “It Ain’t Me, Babe”) com versões bem distinguíveis de “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Highway 61 Revisited” (metalizada, um dos grandes números da noite), sem contar canções mais recentes (o repertório trouxe nove músicas pós anos 2000 e oito dos anos 60), como a versão poderosa de “High Water (For Charlie Patton)” (com o grisalho Denny Freeman atacando com fúria sua Fender Stratocaster) e as bem recebidas (seis) canções do álbum “Modern Times” (com destaque para “Spirit On The Water”, com Dylan introduzindo a canção com uma gaita; e “Thunder On The Mountain”). Decepção mesmo só “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, um mero rascunho da original.

A Turnê Que Nunca Termina chegou a São Paulo precedida de muita expectativa. O alto preço dos ingressos, a fama de difícil do compositor e sua (falta de) voz castigada por anos e anos de excessos dividiam o público. Na hora do show, no entanto, 90% da casa estava tomada. Bob não falou uma palavra sequer com a platéia (a não ser quando apresentou incompreensivelmente sua banda - um quinteto - ao final do show), mas está muito longe de ser a pessoa difícil que tantos pintam.

De calça preta com uma listra branca, terno prateado (que parece ser duas vezes maior do que ele) e chapéu de cowboy com uma pena colorida, no Via Funchal, em São Paulo, Bob Dylan, 67 anos, fez com que duas garotas invadissem o palco (a primeira tentou subir pelo lado esquerdo da platéia, no início da apresentação), e com que o ícone teen do momento, Mallu Magalhães, 15 anos, fosse conversar com os seguranças antes do show pedindo-lhes permissão para entregar ao músico algo que ela carregava em uma caixa. Isso diz muito sobre a música deste homem, sua influência e seu carisma.

Fãs de primeira e última hora (que só conhecem “Blowin’ in The Wind” e não ouviram os recentes “Love and Theft” e “Modern Times”) e artistas globais (como Bruna Lombardi, que perguntada sobre qual música de Dylan ela mais gostava, respondeu: “Aquela que o Caetano canta”) se assustaram com a voz deteriorada do compositor. Nos anos 60, quando começou sua carreira, Dylan já não tinha a melhor voz da música pop. Esse nunca foi o seu cartão de visitas. Natural que em 2008, sabem-se lá quantas vidas depois, sua voz esteja esganiçada, pequena e ardida. Pela idade e pelo descuido. Dylan envelheceu, e sua voz também.

O show é um retrato borrado da era de ouro do rock and roll, algo fora de moda, distante dos tempos modernos. Porém, ao contrário de muitos outros mártires daquele verão do amor, Dylan foi ao inferno, sobreviveu a si mesmo, e voltou para contar/cantar. Sua voz enrugada é perfeitamente aceitável. O show é um passeio sombrio entre passado, presente e futuro. Por mais que aquele momento da garota petrificada frente ao ídolo tenha sido muito anos 60, não há nada mais 2008 que recusar o amargo, o ardido, o esganiçado, aquilo que não soa limpo (até o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia).

Quase cinqüenta anos se passaram, e Dylan continua na contramão da música pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solitária. Na platéia, menos afortunados tentam capturar um fragmento de um tempo que se foi, sem perceber que Dylan está muito mais preocupado com o que virá. Neste desencontro entre platéia e artista encontra-se o crème de la crème da arte moderna. Poucos shows no mundo podem simbolizar tanto sem serem explicitamente históricos. E foi isso que aconteceu. Dylan fez uma apresentação histórica em São Paulo, mas pouca gente percebeu.

31 Responses to “Bob Dylan ao vivo em São Paulo”

  1. Fábio Says:

    E quem é que costuma perceber isso, meu caro? Só realmente quem tem o coração tranquilo e sabe o que foi ver.
    O que será que a Mallu Magalhães queria entregar pro Dylan?
    E lamentável o comentário da Bruna Lombardi, ainda mais quando se trata de alguém que já entrevistou os Stones, né? Você lembra daquele programa dela, o Gente de Expressão?

  2. jw Says:

    Fábio, é fácil: a Mallu deve ter mandado entregar ao Dylan um desenho dele feito por ela em uma folha de caderno, com casinha e solzinho no fundo.
    algo do tipo “esse aqui é você e essa do seu lado sou eu. =D”

  3. Jean Says:

    MAC,
    Lendo hoje nos jornais algumas opiniões de pessoas que saíram frustradas do show, fiquei perplexo. A imprensão que tenho é que grande parte do público dos shows em São Paulo estiveram também no Festival de Newport, em 1965. Por que a discussão é a mesma!
    Dylan nunca fez concessões, é um artista no sentido mais puro da palavra. Continua provocativo e instigante até hoje.
    Ps. Já escutou o novo do MARAH? =-)
    abr

  4. Dary Jr. Says:

    Quem é Mallu Magalhães?

  5. Mac Says:

    Fábio, lembro mas não lembro do Gente de Expressão. Acho que vi ela entrevistando o Senna… não sei…

    JW, será que foi isso:
    http://smokecombloquinho.wordpress.com/2008/03/07/furo-descobrimos-o-que-mallu-magalhaes-levava-na-caixa/

    Jean, excelente sacada, excelente. E ouvi o Marah uma vez, mas não tenho uma opinião fechada.

    Dary, quem é Marcelo Costa?

  6. jw Says:

    hehehe
    bem aquilo mesmo! fizemos essa investigação por msn… rs

  7. gim Says:

    pensei agora na mallu escrevendo no diario dela.

    “tadinho do tiu dylan, desde que comprou uma guitarra, nunca mais o deixaram rosnar em paz”

  8. Dary Jr. Says:

    O Brasil sabe quem é Marcelo Costa. E Mallu Magalhães, quem é?

  9. Otaner Says:

    Fala Marcelo. Bem legal o texto, mas só tô comentando pra agradecer pelo link ali do lado do anthology of amercian folk music. Só ouvi o primeiro disco ainda, mas pqp, maravilhoso! Valeu.

  10. Mac Says:

    JW, eu percebi que tinha dedo seu ali. :)

    Gim, um dia ela vai encontrar uma guitarra e talvez a ficha caia.

    Dary, o Brasil não sabe nem quem é Guimarães Rosa. Mas votlando ao hype, Mallu Magalhães é uma menina legal. Tomara que a minha filha esteja compondo e cantando algo que não seja axé, pagode ou funk quando ela tiver 15 anos.

    Otaner, a idéia foi essa mesmo, e legal que tu pegou. Estes discos são sensacionais e a caixa é uma beleza. Além destes seis saiu no começo dos anos 2000 mais dois CDs (ou seja, são oito no total). É uma relíquia!

  11. Ivan Says:

    essa antologia não foi aquela que o Dylan roubou e quase apanhou por causa disso? ahaha

  12. João Paulo Says:

    E quando será que Paul McCartney fará seu último show por aqui? Ou o da década passada foi o derradeiro? Previsões?

  13. Mac Says:

    Ivan, não sei ao certo, mas acho que não é essa realmente. Só sei que várias das coisas que ele roubou (pq ele é um “expedicionário da música” - risos - como ele conta no documentário do Scorsese) eram artistas que estavam nessa caixa. Aqueles discos de covers do começo dos anos 90 são de canções dessa antologia. :)

  14. André Says:

    puta texto Marcelo. Foi nos dois dias? Me arrependi de nao ter ido no segundo, o set foi melhor (só por rainy day women e love sick)

  15. Mac Says:

    João Paulo, espero que logo!!!!

    André, fui num só, e também achei o set do segundo melhor. Vc chegou a baixar o show de Dallas que linkei no blog uns dias atrás? Ele começa com Rainy Day Women numa versão fodaça. Queria ter visto ela ao vivo no segundo dia, mas estou feliz pacas de ter visto o primeiro.

  16. Nora Says:

    Alguém poderia me informar por favor se o dylan proibiu as tvs de gravarem os shows? porque até agora não vi ninguém falar dos shows em sp. para as tvs parece que dylan nem está entre nós. impressionante como desde terça feira nem uma mera notinha foi dada nos telejornais. nem o metropolis se mobilizou. estaria a mídia boicotando o velho robert?

    p.s: a cobertura nos jornais impressos também foi super fraca, hein!?

  17. Mac Says:

    Nora, até onde sei, nem fotógrafos foram credenciados para o evento. As fotos oficiais foram liberadas pelo Mondo Entretenimento. A Lili, que fez as fotos para o Scream & Yell, conseguiu um milagre de tirar uma boa foto do local em que estava, distante do palco. Em São Paulo, inclusive, nem o telão foi ligado (será medo de alguém copiar a transmissão e vender?). Agora, nada disso explica a falta de cobertura. Globo, SBT e Record tinham que ter coberto. Acho que a Globo deve se movimentar no RJ e fazer um especial para o Fantástico, mas mesmo assim a cobertura está fraca.

  18. gian Says:

    ” E Mallu Magalhães, quem é?”

    alguem mais famosa que voce.

  19. Dary Jr. Says:

    Marcelo, dúvidas me assaltam.

    1) Ex-fã é pior do que ex-mulher?

    2) Um “loser poseur” é pior do que um “loser” qualquer?

    3) A inveja é mesmo uma merda?

  20. Mac Says:

    Marcelo, o guru, responde, citando Salman Rushdie:

    “A música nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se fôssemos dignos do mundo”.

    Eu escrevo um puta texto falando do show do Bob Dylan e vocês ficam preocupados com a Mallu Magalhães, com que é mais famoso e o escambau a quatro. Ou seja, ex-fã, ex-mulher, loser e roqueiros, quem quer que seja, todos são a mesma coisa, estão no mesmo balaio: são indignos do mundo.

  21. olavo Says:

    não fui ao $how, não sei se gostaria tanto assim (talvez esteja habituado demais às versões dos discos). mas o texto é realmente um puta texto.

  22. gian Says:

    dary jr nem deve dormir pensando nisso.

  23. Lucil Junior Says:

    Bob Dylan = Deus.
    Cara, só de ver o homem já foi bom demais. E quanto à voz. Ele nunca cantou nada, então nem faz diferença se sua voz está cansada, velha demais.
    Porra, é o Bob Dylan!!!!!!!!!!!
    Eu fiquei embasbacado durante todo o show. Agora pra eu poder morrer feliz , só se ver o Neil por essas bandas…

  24. Manoel Vicente Says:

    vc mac é ex-fã, ex-mulher, loser e roqueiro que gostam de vanguart!!!
    eu estava no show vc queria o que que ele cantasse hurricane como na decada de 70!!
    que é isso pelamordedeus!!!
    vai escutar vanguart e cansei de ser sexy que é a tua praia de bob tu não entende nada!
    se manca!!

  25. Mac Says:

    Olavo, valeu!

    Gian, quando você tiver algo para falar sobre música, volte aqui. Caso contrário, vá fazer alguma coisa útil.

    Lucil, na torcida pela vinda de Neil Young.

    Manoel, quando você aprender a organizar uma frase, quem sabe eu entenda do você está dizendo.

  26. manoel vicente Says:

    bem mac, organizar uma frase eu sei ¨tu é um babaca¨ você mesmo disse que escreveu um puta texto, mas fala de artistas globais que não tem nada a ver pow!!
    aê você me cansa cara e é vc mesmo que cita a tal malu magalhães que eu nunca vi e nem quero ver!
    reveja seu texto cara!vc é quem dá motivo para criticar esse texto mal escrito eu faria melhor,não tenho nada contra você, ver s4e escreve focado no assunto eo assunto era bob!!!
    tem uma vaguinha ai!!
    hehehheheheheh

  27. Mac Says:

    Meu caro, “tu” não sabe não. Se soubesse, teria percebido que depois das aspas do “tu é um babaca” (que, em si, já é uma frase errada), teria ponto final e então você começaria com maíusculas na seqüência. Ou seja, vaga para gente que escreve bem sempre existe (a capa do site tem vários exemplos disso), mas esse não é o seu caso. E vai demorar um tempo para que você tenha capacidade de entender a relação dos artistas globais com a temática proposta pelo texto. Eu sei, é difícil, mas eu tenho fé: um dia você entende. :)

    Abraço

  28. Manoel vicente Says:

    caro mac, devido a descontração da internet, não preciso ser formal meu caro.
    agora daqui a uns tempos vc irá fazer uma resenha sobre mim!

  29. Mac Says:

    Farei o possível para fazer um texto que relacione você a artistas globais, podexa!

    Abraço

  30. Bruno Stein Says:

    Caro Marcelo

    escrevo para parabeniza-lo pelo seu texto (de fato um puta texto) apesar de suas conclusões sobre um suposto pós-vanguardismo de dylan serem ao meu ver absurdas, paranóicas e delirantes, vc as defende tão bem que me convencem parcialmente. Alias, voce sabe que convenceria até indies bolcheviques da condição de obra-prima de um mediano yankee foxtrot hotel, e nao só esses…

    Mas me ponho em seu lugar: assistir a um show do bob dylan com uma maioria de pessoas que tinham dinheiro e não necessariamente os fãs, em um evento patrocinado pela revista caras, deve mesmo ter sido uma experiencia pra lá de esquizofrenica.
    Por isso mesmo não desmereço seu texto. E ainda por isso mesmo não posso fazer um texto sobre o show, o que afinal seria mais digno do que fazer picuinhas aqui nos replies. Mas não.
    Como unica observação que tenho cá é alertar para a (remota) possibilidade do fato de vc, ao contrario do que acredita, ser um dos poucos naquela sala a nao entender o que estava acontecendo. talvez vc tenha tido um “passeio sombrio” por suas expectativas e desilusões, por tudo que é mais intimo e seu, tendo que ver um heroi pessoal claudicante em um verdadeiro circo dos horrores.
    como admirador, seu e do dylan, obviamente mais do dylan, aceite um conselho deste seu humilde leitor: lembra quando vc escrevia coisas coisas simples e com coraçao? lembra quando o dylan fazia isso tambem? entao, vc entendeu o conselho.
    abraço!

  31. Calmantes com Champagne 2.0 » Blog Archive » Top Ten Shows 2008 Says:

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