Blog do Editor do Scream & Yell
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Posts from — Março 2008

“2 Dias em Paris”

“2 Dias em Paris”, de Julie Delpy - Cotação: 2,5/5

O Brasil leva a fama pelo resto do mundo de ser o país do samba, mesmo que o ritmo esteja longe de ser característico e representativo de capitais dispares como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Brasília e Rio Branco. A França – no geral, e Paris em particular – carrega a fama de ser a terra dos amantes. Em uma das cenas de “Bonecas Russas” (seqüência de “Albergue Espanhol”), um dos estudantes ingleses, assim que pisa em Paris, pára uma garota na rua e pergunta: “Você quer dormir comigo”. A garota o deixa falando sozinho enquanto ele comenta com o amigo que sempre sonhou fazer isso, afinal, a fama das francesas ultrapassa fronteiras.

Em seu segundo filme como diretora, a atriz (roteirista e produtora) Julie Delpy amplifica essa fama apoiando em duas vertentes do cinema cômico: a comédia romântica tradicional (e tagarela, cujo grande influência de Delpy é “Annie Hall”, de Woody Allen) e a comédia de costumes, mostrando que Paris tem muito a ensinar a Jack (Adam Goldberg), um decorador de interiores que namora uma fotógrafa francesa, mas não sabe falar quase nada de francês. Delpy usa até a cena clássica do estrangeiro que vai pedir um lanche em uma rede de fast foods (tipo McDonalds) para ilustrar a disparidade das línguas e culturas.

Julie Delpy interpreta Marion, francesinha que vive em Nova York e namora o americano Jack. O casal completou dois anos de relacionamento, e decidiu reascender “a chama do amor” fazendo uma viagem a Europa. A primeira parada foi Veneza, mas tudo deu errado. Jack, que é hipocondríaco, teve uma gastrite e o casal passou mais tempo brigando do que namorando. Na seqüência eles decidem passar dois dias em Paris, cidade natal de Marion, e a comédia de erros aumenta progressivamente conforme os minutos passam na cidade francesa. Os pais de Marion são um artista plástico cujas obras têm forte apelo sexual (ou só apelo sexual) e uma ex-hippie que traz no currículo um breve affair com Jim Morrison (os dois, pai e mãe de Delpy na vida real).

Algumas características da personalidade francesa são jogadas no colo do espectador com uma sinceridade e comicidade que encantam. A própria atriz parece rir verdadeiramente em várias passagens de seu filme, como nas brigas homéricas no meio da rua que parecem que vão terminar em assassinato, mas acabam em abraços e risos; a valorização da língua pátria, que causa desconforto em Jack, além de render dezenas de cenas hilárias; as greves e a política além da tal fama de cidade romântica, cuja piada no cartaz do filme já desvenda uma das tramas paralelas da história: “Ele sabia que Paris era a cidade dos amantes, mas não sabia que eram todos dela”.

Como produtora, diretora e roteirista, Julie demonstra que aprendeu muito com a dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Por-do-Sol” (neste último, inclusive, ela assina o roteiro com o também ator Ethan Hawke e o diretor Richard Linklater), e é impossível não relacionar “2 Dias em Paris” com a segunda película, já que boa parte de ambos os filmes tratam de relações/discussões amorosas por ruas parisienses. Porém, por mais que o romance seja o ponto de início e fim de “2 Dias em Paris”, grande parte de sua graça se deve ao choque de culturas, fato valorizado devido a atriz transitar com desenvoltura entre as duas línguas, o que lhe permite “brincar” com Bush tanto quanto tirar sarro da fixação sexual dos franceses.

Quando a comédia de costumes dá o tom do filme, “2 Dias em Paris” diverte e entretém. Porém, quando procura discutir o amor, o filme se perde de tal forma que Delpy precisa costurar tudo no final com uma longa narrativa em off, deixando a impressão de que ela tentou fazer em um filme tudo aquilo que Richard Linklater fez em dois. Falta foco para a cineasta, que tenta desenvolver várias subtramas sem se ater diretamente a uma (o choque de línguas, a dificuldade dos relacionamentos, a liberdade sexual, as questões políticas), mas não consegue uni-las a contento no final. Esse deslize na edição e no fechamento, no entanto, não desmerece “2 Dias em Paris”, que abre a possibilidade de uma boa carreira atrás das câmeras para Julie Delpy, e pode ser tão cômico quanto educativo. Para rir e aprender.

Leia também:
- A França, por Flávia Ballvé
- “Antes do Por-do-Sol”, por Marcelo Costa

Março 31, 2008   8 Comments

O segundo álbum do Raconteurs

Ok, você tem um encontro com Angelina Jolie (ou George Clooney, conforme a preferência do leitor ou leitora). Você se prepara. Pensa e repensa tudo o que vai falar, se arruma, e chega ao local do crime transpirando excitação e desejo. Só que quando você chega ao lugar, descobre que Angelina não pôde ir, e quem está lhe esperando é Scarlett Johansson (ou… Colin Farrell, se você havia optado pelo Clooney). Por mais que Scarlett Johansson seja uma musa e tal, você estava preparado para encontrar Angelina. Se as coisas não forem bem no encontro, a culpa será de quem: da Angelina, da Scarlett ou de você mesmo?

A coisa funciona mais ou menos assim: quando o Raconteurs surgiu – na base de brincadeira de amigos – trouxe consigo a idéia de que Jack White e Brendan Benson iriam unir suas principais paixões (por Led e Beatles, respectivamente) e parir grandes canções a partir dessas influências, meio a meio. “Consolers of The Lonely”, segundo álbum do quarteto (que ainda conta com a “cozinha” do Greenhornes, Jack Lawrence no baixo e Patrick Keeler na bateria) joga meia pá de cal sobre essa idéia com Jack White colocando-se a frente do grupo e posando de guitar hero com solos altos e rápidos em boa parte da duração do álbum.

Não que não haja baladas, punk songs e experimentações em “Consolers of The Lonely”. Elas estão lá, e por sinal rendem alguns dos melhores momentos do álbum, mas na maior parte do disco o que se ouve é rock barulhento com influências de Led Zeppelin, The Who e Jimi Hendrix chegando até a emular os solos que fizeram a fama do New Wave of British Heavy Metal (saca aqueles duelos com duas guitarras solando, com uma delas “uma oitava” a cima da outra? Isso). “Consolers of The Lonely”, mais ainda do que a estréia (”Broken Boy Soldiers”) é um disco de – muitas – guitarras. Ponto.

Com base nas guitarras temos a faixa título (que abre o álbum com riffs fortes – no esquema bate/assopra – que acompanham a melodia vocal no refrão e ainda solam “a capela”, como em “Heartbreaker”, do Led), o primeiro single “Salute Your Solution” (acelerado, com baixo atolado no fuzz, e Jack e Brendan dividindo os tempos vocais), “Five On The Five” (com solo de guitarras Iron Maiden), “Holp Up”, “Attention” (com teclados fazendo gracinhas na saída direita das caixas de som), “Old Enough” (que começa folk, e vira um ótimo country rock à la Crosby, Stills, Nash and Young), “Top Yourself” e “Rich Kid Blues”.

É Jack White quem canta a primeira balada do álbum, “You Dont Understand Me”, com Brendan Benson engrossando o coro no refrão. Benson se dá melhor na empolgante “Pull This Blanket Off”, baladinha de menos de dois minutos que tem jeito de jam session e merecia durar bem mais. “The Switch And The Spur” surge para tomar para si o posto de grande canção, e impressionaria mais se o White Stripes não tivesse “descoberto” os metais em “Conquest”. Mesmo assim a canção merece o posto. “Many Shades Of Black”, outra que também conta com metais, é uma baladaça anos cincoenta que vai fazer você assoviar a melodia do refrão (ou dançar de olhos fechados bêbado numa pista vazia). E quando falarem em Dylan ao se referirem a (ótima) “Carolina Drama”, esqueça a comparação e vá direto à fonte.

Mais do que exibir sua qualidade através das guitarradas e dos solos estridentes, “Consolers of The Lonely” (e o próprio Raconteurs) precisa sobreviver a expectativa daqueles que esperavam um disco menos porrada (menos Jack White) e mais melódico (mais Brendan Benson). Entre a força melódica de um e a opção pelo barulho do outro, “Consolers of The Lonely” pende mais para o segundo, e não deixa de ser um bom álbum de rock – excessivamente setentista – por isso, mas permite possíveis críticas quanto à falta de originalidade do som do grupo (quanto tempo Jack White vai demorar para parar de emular seus ídolos e ser Jack White?) e seu apreço em soar retro.

Voltando ao problema exposto no primeiro parágrafo, quem se preparou e esperava encontrar Angelina Jolie, terá que se contentar com Scarlett Johansson (e há ainda o fato de que muitos vão preferir a segunda à mulher de Brad Pitt), ou então voltar para casa e dormir sozinho. Se “Consolers of The Lonely” ainda não é o disco que muitos esperavam do Raconteurs, tem o mérito de ser um bom álbum de rock and roll. Para alguns pode ser pouco. Então, Scarlett, sorry, mas fica para a próxima.

“Consolers of The Lonely”, Raconteurs (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 7

Leia também:
- “Broken Boy Soldiers”, do Raconteurs por Marcelo Costa (aqui)
- “Conquest”, The White Stripes, por Marcelo Costa (aqui)
- “Live At Maida Vale”, The White Stripes, por Marcelo Costa (aqui)
- Jack White 1 x 0 Marcelo Costa, por Marcelo Costa (aqui)

Março 31, 2008   6 Comments

Alguns amigos…

tem demonstrado preocupação com este pobre mortal, e só apareco aqui bêbado para dizer um oi e avisar que está tudo bem. Se revoltar contra o mundo é saudável. Não se contentar com a ordem real das coisas é obrigatório. É ótimo estar vivo, mas vamos combinar, o mundo é uma merda. Estou afim de largar tudo, mas antes preciso viajar para a Europa, em julho…

Já estou pensando em uma casinha na beira da praia na volta…

Ps. Não está na hora de escrever um livro?

Março 28, 2008   7 Comments

“A Era da Inocência”

 “A Era da Inocência”, de Denys Arcand – Cotação 3,5/5

Primeiro, do começo: esqueça a tradução idiota da distribuidora nacional: “L’Âge des Ténèbres”, na verdade, é “A Idade das Trevas”, período histórico que se seguiu às invasões bárbaras que puseram fim ao decadente Império Romano. Ou seja, com “A Idade das Trevas”, o cineasta canadense Denys Arcand fecha uma trilogia informal – sobre a crise da civilização moderna – iniciada em 1986, com “O Declínio do Império Americano”, e que teve continuação em 2003, com “As Invasões Bárbaras”, que levou o Oscar de Filme Estrangeiro.

Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche), personagem central do terceiro capítulo desta epopéia dos tempos modernos, é um ouvidor municipal infeliz com a profissão, casado com uma workaholic que não larga o celular um segundo sequer (e com quem ele não transa faz mais de dois anos), com duas filhas que desconhecem sua existência de tão afundadas que estão em games e iPods, vivendo em uma sociedade cujo caos tornou-se a regra através de congestionamentos, abandono político e médico, cerceamento social e epidemias, entre outras pequenas tragédias.

Com exceção de dois amigos do trabalho (ele, negro; ela, lésbica), LeBlanc não pode contar com mais ninguém, por isso se entrega aos sonhos em que encarna um escritor cujo primeiro livro foi premiado, um político, um rei, um carrasco e até um samurai. Nos sonhos, que surgem em qualquer momento (no banheiro, no trabalho, no trânsito), LeBlanc está sempre acompanhado por belas mulheres, seja a repórter voluptuosa que após a entrevista quer sexo “aqui e agora”, seja uma famosa modelo que o visita regularmente, seja a amiga lésbica do trabalho ou mesmo sua chefe, que surge ali para ser punida.

São dois cenários grotescos e deliciosamente interessantes que se intercalam na tela: o primeiro, real e crudelíssimo, exibe um homem que se perdeu completamente da civilização, que por fim perdeu-se de si mesma estampando em manchetes de jornais pessoas que ateiam fogo no próprio corpo enquanto outras falam ao celular sem nem prestarem atenção ao que acontece ao lado. O segundo, irreal e cômico, tenta saciar anseios sexuais, afetivos e de justiça enquanto critica o politicamente correto, a overdose de tecnologia, o “trabalho escravo” voluntário e a busca do verdadeiro eu em fantasias surreais (esta última numa paródia hilária de “O Senhor dos Anéis”). Enquanto a vida real é tratada com tintas de desespero e melancolia, a vida irreal é puro sarcasmo e prazer.

Denys Arcand usa a ironia como se ela fosse um pesado taco de beisebol, e manuseia o objeto com extrema destreza, desferindo fortes pancadas no baixo ventre, na cabeça e, por fim, no coração de seu público. Trafegando entre dois mundos, seu personagem Jean-Marc LeBlanc é um retrato perfeito das contradições da sociedade moderna. O ceticismo de Arcand para com a modernidade – o qual “As Invasões Bárbaras” amplifica de forma sublime apoiado pela desilusão política – encontra momentos de genialidade cinematográfica em “A Era da Inocência”.

O cineasta canadense provoca seu público de forma brilhante tentando arrancar dele algum senso de humanidade enquanto sabota as instituições sociais (família, casamento, trabalho, mídia) e só tropeça no trecho final do filme, quando sugere que a saída da idade das trevas é o recolhimento, um retiro espiritual, a negação da modernidade. E mesmo nesse tropeço (ou principalmente por ele), Arcand consegue dar ao seu público um momento interessante de questionamento: a culpa do caos é pessoal ou social? Há como separar um de outro? Se o social está falhando, o pessoal deve agir pensando em si mesmo? Se sim, qual seria a solução: voltarmos ao passado ou nos prepararmos para o futuro?

Para o canadense e seu personagem sonhador vitimizado, o recolhimento parece ser a solução. Seria uma premissa válida se LeBlanc não fosse tão conformado. Ao perder-se no tempo, no casamento, em sua própria história (optando por sonhos ao mundo real), LeBlanc representa um ser pré-histórico que lê Fernando Pessoa (”Livro do Desassossego”), foi vice-presidente do grêmio no colégio, participou de passeatas, greves, e tentou, mas não conseguiu mudar o mundo. Por fim, calou-se e desistiu até escolher o retiro ao caos, o pessoal ao social, opção umbiguista que revela – por trás de um verniz culto – muito mais medo do futuro do que apreço pelo passado e propõe uma questão crucial : o problema é o mundo ou a pessoa? Por que? Pense bem: a resposta pode traduzir o seu futuro, caro leitor.

Ps. A foto acima é de uma das melhores cenas cômicas de “A Era da Inocência”, compatível a cinco filmes inteiros do Adam Sandler…

Março 26, 2008   9 Comments

“Live at The BBC”, Lloyd Cole

Responsável por ao menos uma obra prima dos anos 80, o álbum “Rattlesnakes” (1984), o músico inglês Llyod Cole tem sua história revista com o lançamento de suas BBC Sessions (tanto solo quanto ao lado dos Commotions, banda com quem dividiu os holofotes entre 1982 e 1989). São três CDs (dois duplos) que registram apresentações entre maio de 1984 e março de 1995 nos programas de Richard Skynner, Janice Long e Nicky Campbell além de apresentações nos míticos Hammersmith Palais (1984/1995) e festival de Glastonbury (1986).

Cole só foi encontrar os parceiros ideais para uma banda quando se mudou para Glasgow, onde foi estudar filosofia. Junto aos Commotions, Lloyd lançou três álbuns –”Rattlesnakes”, “Easy Pieces” (1986) e Mainstream (1988) – cuja característica principal era a união de um texto repleto de citações pop (Norman Mailer, Jules at Jim, Grace Kelly, Truman Capote, entre outros) com uma musicalidade que unia o folk pop com pitadas de rock psicodélico (passado pelo filtro do pós-punk). Sobre a massa sonora, a voz charmosa do compositor. 

“Vol. 1″ abre com uma pungente versão de “Gloria”, do segundo álbum do Television, no programa Saturday Live (1984). Transbordando lirismo, seguem-se versões inspiradas – e completamente fiéis as originais – de “Perfect Skin”, “Rattlesnakes” e “Forest Fire” (três singles do álbum de estréia). O calor do público no Hammersmith Palais faz com que as versões dali se sobressaiam às captadas nos estúdios da BBC. O quindim de “Vol. 2″ é o show em Glastonbury que destaca os hits de sempre (”Perfect Skin” em versão fodaça) mais “Mystery Train”, de Elvis Presley, que fecha a apresentação, no bis.

O terceiro volume é quase que totalmente dedicado a um show completo de 1995, mais quatro registros de 1990 (ambos sem os Commotions). Versões de hits pedem passagem (com arranjos diferentes, pero no mucho: nos três CDs são seis versões de “Rattlesnakes” e cinco de “Perfect Skin”), mas o que chama a atenção são as covers de Lou Reed: “Rock and Roll”, “New Age” e “A Gift”. Importante resgate histórico, estes lançamentos valorizam a obra de Lloyd Cole, um excelente compositor que hoje caminha a margem da música pop. Vale, ainda, ir atrás da edição especial (dupla) de “Rattlesnakes” (relançado em 2004) e “Anti Depressant” (2006), último álbum solo de Cole, pequenos achados de um compositor que precisa ser redescoberto.

Lloyd Cole & The Commotions - Live At The BBC Vol.1 (Universal)
Preço em média: R$ 60 (importado)
Nota: 9,5

Lloyd Cole & The Commotions - Live At The BBC Vol.2 (Universal)
Preço em média: R$ 80 (importado)
Nota: 9

Lloyd Cole - Live At The BBC (Universal)
Preço em média:
Preço em média: R$ 75 (importado)
Nota: 9

Março 26, 2008   3 Comments

“Accelerate”, R.E.M.

“Penso que, talvez, Mike e Michael ficaram um pouco atordoados em como o último disco foi mal recebido. Eu não fiquei. Eu já sabia que o disco não era tão bom antes mesmo de terminá-lo”, diz Peter Buck em entrevista para Craig McLean, do Telegraph. O tal “último disco” a que o guitarrista do R.E.M. se refere é “Around The Sun” (2004), um álbum que ousou macular uma carreira até então brilhante (mesmo com o fato de seus predecessores, “Up” e “Reveal”, serem apenas bons em uma carreira repleta de álbuns sensacionais). Peter Buck assume o erro, e isso é um fato que não se vê todos os dias no mainstream. Porém, estamos diante do R.E.M., uma banda rara no mundo pop.

Tudo que você precisava saber previamente sobre “Accelerate”, décimo-quarto álbum do R.E.M., já está pipocando de blog em blog faz alguns dias: que este é o melhor álbum do R.E.M. na década 00; que é o álbum mais barulhento do trio desde “Monster” (1994); que suas onze músicas juntas não ultrapassam os 35 minutos de duração (quase metade do tempo dos álbuns anteriores); que “Accelerate” (”Acelerar”) é um nome apropriado para um disco rápido e urgente; que Jacknife Lee, o produtor, tinha trabalhado com Bloc Party e Green Day, e foi recomendado ao R.E.M. por The Edge (U2); e outros blá blá blás. É bem provável que qualquer texto que você leia sobre “Accelerate” lhe dará a impressão de estar diante de um grande álbum, e mais: de que – parafraseando a manchete da reportagem do Telegraph – o R.E.M. renasceu. Tudo verdade.

“Living Well Is The Best Revenge”, a porrada que abre “Accelerate”, é um bom resumo de tudo que virá pela frente. O baixo de Mike Mills (a grande estrela do disco) pula a frente da bateria agitada de Bill Rieflin e das guitarras punks de Peter Buck e Scott McCaughey. “Man-Sized Wreath”, a segunda faixa, desacelera em relação à abertura, mas mantém o álbum em alta velocidade. A temática permanece a mesma, mantendo a mídia como alvo. Além de uma pulsante linha de baixo, Mike Mills se destaca na harmonia vocal. O ritmo desacelara mais um tiquinho em “Supernatural Superserious”, contagiante primeiro single do álbum que fala sobre adolescência e humilhação, mais uma canção para entrar no rol das grandes músicas do R.E.M., que Michael Stipe apelidou carinhosamente de “hino geek”.

A introdução da sensacional “Hollow Man” é piano e voz. Quando você acredita estar diante de uma baladaça daquelas “estilo R.E.M.”, o grupo acelera em direção ao refrão com Michael Stipe gritando assustado com medo de ser um homem oco. Violão e órgão compõem o clima denso de “Houston”, com Michael Stipe postando-se entre os terríveis furacão Katrina e o presidente Bush: “Se a tempestade não me matar, o governo irá”. A faixa título volta a trazer urgência ao álbum com Stipe cravando frases como: “A incerteza é sufocante. Nossa esperança nunca foi tão grande”. Para o vocalista e letrista, não é hora de perder tempo: “Não tenho tempo para questionar as escolhas que eu faço / Eu tenho que seguir outro caminho: acelerar”.

O folk irlandês “Until The Day Is Done” fala sobre um país em ruínas, sobre guerras perdidas. Sob uma base de guitarra encharcada de eco e colocada no fundo da melodia na mixagem, “Mr. Richards” permite um paralelo com “Mr. Jones”, personagem da letra de “Ballad of a Thin Man”, clássico de Bob Dylan, com Michael Stipe aqui questionando um político que ignora o povo. A climática e arrastada “Sing For The Submarine” cita “Electron Blue” e “It’s A End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)” enquanto “Horse To Water” surge como um dos momentos mais rápidos do disco, uma punk song brilhante.

Para fechar, cinismo, caos e muito barulho: “I’m Gonna DJ” surge mais pesada do que a versão do álbum “Live” e termina o disco da mesma forma que começou: com rapidez e sujeira. Novamente na linha de frente do rock mundial, o R.E.M. “vende” ao público certo tipo de transcendência, algo que faz deles exemplos de honestidade, atitude e opinião. Pois o R.E.M. faz parte de um tempo (perdido) em que amar uma banda ia além de comprar discos e decorar as músicas. Implícito, entre os devaneios, está a necessidade de acreditar que é possível mudar o mundo com uma canção.

“Accelerate” é um álbum que une as duas principais facetas musicais do R.E.M.: o lado rock, amargurado e barulhento, e o lado acústico, denso e provocativo. No entanto, por mais que os violões dominem um terço das canções, este é o primeiro álbum inspiradamente punk do trio (”Monster” era muito mais glam). É o primeiro álbum, também, que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michael Stipe. É um disco excelente, que se não alcança o status de clássicos como “Document”, “Out of Time” e “Automatic For The People”, serve para recolocar a banda novamente no rumo após o fiasco de “Around The Sun”. É um álbum que se não vai mudar o mundo, serve para ser deixado no repeat enquanto se questiona a descrença na mídia, nos políticos e em si mesmo. A resposta a ser encontrada provavelmente será a mesma proposta por Michael Stipe: acelere, não há tempo a perder. Não há mesmo.

“Accelerate”, R.E.M. (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 9
Lançamento Oficial: 01 de Abril

Além da versão normal, “Accelerate” conta com uma versão de luxo com CD e DVD (e um encarte de 64 páginas), que inclui um filme de 48 minutos sobre as gravações e ainda traz dois b-sides, “Red Head Walking” e “Airliner”. Essa versão, importada, deve sair por R$ 60.

Leia também:
- R.E.M. ao vivo no Rock in Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
- Discografia comentada do R.E.M., por Marcelo Costa (aqui)
- R.E.M. reborn, por Craig McLean, do Telegraph (aqui)

Março 23, 2008   15 Comments

“Para fazer sucesso…

…eu faço uma greve de fome”

 Romulo Fróes irá lançar dois álbuns em 2008. Fique atento!

Março 22, 2008   No Comments

“Third”, Portishead

 Um dos concorrentes a disco do ano… por Eduardo Palandi. Leia aqui.

Março 20, 2008   4 Comments

Cenas da vida em São Paulo, Parte 7

Lotação, oito e pouco da manhã do meio de uma semana qualquer. Três senhoras conversam animadamente no último banco do ônibus. Uma delas, mais morena, abre o coração para as amigas:

“Minha sobrinha ia toda semana à minha casa. Era sempre a mesma coisa:
- Tia, não consigo arranjar emprego. Quando falo que tenho dois filhos, já era…

E ela é uma morena bunita!!!

Até que certo dia ela parou de ir em casa. Passado uns quatro meses, ela apareceu:

- Tia, arranjei um trabalho. Eu tô dançando na Augusta…
- Só dançando????
- Só dançando, tia.
- Com esse bundão??? (enfática)
- Só dançando, tia!

Tudo bem, né (continuou a senhora para as amigas no lotação, que ouviam atentas), ela tinha que sustentar os meninos. Um tempo depois, ela apareceu em casa novamente:

- Tia, eu não tô mais só dançando…
- Você tá dando, minha filha?????
- Não, tia, não é isso! É que eu arrumei um namorado lá na boate. Ele é mais velho, é carinhoso e está cuidando de mim.

E não é que tempos depois, o homem comprou uma casa no Jaçanã, e eles foram morar juntos, ela e os pirralhos!!!! Faz uns meses que ele morreu e deixou tudo pra ela…

- Que beleza!, comentou uma das amigas, na lata, para diversão das outras.”

 O mundo, às vezes, é uma grande comédia…

Março 20, 2008   2 Comments

Enquanto isso, no trabalho…

Já vazou para alguns lugares, e pra mim já nem é nova de tanto que a olhei nas últimas semanas, mas dá uma espiadinha na nova capa do iG antes da estréia oficial: http://www.ig.com.br/tour/

Março 20, 2008   No Comments

Jane Birkin, Mimi Maura e Columbia

Como ando em fase de estagnação criativa, nada melhor que valorizar os amigos que sempre tem um texto pronto para o Scream & Yell. Publiquei, ontem, três novidades na capa do site:

- André Fiori conta como foi o lindo show de Jane Birkin em São Paulo (leia)

- Leo Vinhas falando sobre o curioso disco de Mima Maura (leia)

- Jorge Wagner dissecando o álbum de estréia do Columbia (leia)

:)

Março 19, 2008   No Comments

Kooks, Grenade e R.E.M.

Me desculpe: não estou com a mínima vontade de escrever. Nada. Passei horas ouvindo o disco do Nick Cave ontem para tentar traçar umas linhas de pensamento para o disco da semana da Revoluttion, mas a melancolia e o desanimo foram mais fortes. Coisas de que nem o disco novo do R.E.M. conseguiu me salvar. Logo eu saio dessa, garanto.

Mesmo assim, decidi passar por aqui para dividir uns bons links com vocês. O Rodrigo Miranda foi quem me indicou o Kokoro Data MP3, um dos blogs mais bacanas que eu visitei no momento. Peguei lá o “Acellerate”, novo do R.E.M., e também o single de “Supernatural Superserious”, que vem com a inédita “Airliner”. No blog ainda surgiram os novos de Van Morrison e Apples is Stereo. Como o blog foi retirado do ar. pega o novo do R.E.M. aqui.

O novo do Kooks, “Konk”, apareceu no Jornal Berbequim. Gostei do primeiro deles, e estou esperançoso sobre esse segundo (aqui). O blog Wilco, Etc… colocou para download o “Trinity Revisited”, homenagem dos Cowboys Junkies ao seu disco mais famoso (e que nesta gravação ao vivo conta com Ryan Adams, Vic Chesnutt e Natalie Merchant) (aqui). Pra fechar, o Grenade está disponibilizando para download seu novo álbum, “Life As A Sinner” aqui. Divirta-se! ;)

Março 18, 2008   7 Comments

A marca do Zorro

Nada como um fim de semana para colocar as coisas em seu devido lugar. Teve orkontro da comunidade da Bizz e festa de aniversário da Capitu e da Carla no Copan. Assumi as pick-ups nesta última e como a festa  foi à fantasia, tirei a capa preta do armário e me vesti de Zorro. Lili foi de espanhola (na verdade, ela parecia a menina do azeite, mas estava linda demais). Não sei dizer quem estava mais estiloso na festa. As aniversariantes, uma de Cleópata e outra de Joaninha, estavam ótimas. Teve Emília, diabinhas, garis, tiozão do rock, Branca de Neve, várias mortes, Jason, serial killers, Nietzsche, Harry Potter, árabes, sambistas, romanos e até um Marcelo Costa…

O set list, essencialmente de samba, foi esse:

Mamãe Natureza, Caetano Veloso
Samba a Dois, Los Hermanos
Que Pena, Gal Costa
Mas Que Nada, Jorge Ben
Diz Que Fui Por Ai, Nara Leão
Eu Canto Samba, Paulinho da Viola
Vou Deitar e Rolar, Elis Regina
Samba do Grande Amor, Paulinho da Viola
Tiro ao Alvaro, Elis e Adoniran
Kid Cavaquinho, Maria Alcina
Orora Analfabeta, Jards Macalé
Pecado Capital, Paulinho da Viola
Não Vou Ficar, Roberto Carlos
Minha Menina, Os Mutantes
Chocolate, Tim Maia
16 Toneladas, Funk Como Le Gusta
Ereção, Orquestra Imperial
Quero Te Encontrar, Claudinho e Buchecha
O Que Que Nego Quer, De Leve
Dark and Lovely, Beck
Crazy, Gnars Barkley
Down By The Water, PJ Harvey
John, I’m Only Dancing, David Bowie
Rocks (Remix), Primal Scream

Março 16, 2008   1 Comment

Mais uma paixão…

Sou apaixonado desde sempre por Ingrid Bergman (já comentei que vejo “Casablanca” ao menos uma vez por ano desde os meus 15 anos?). Audrey Hepburn é algo mais recente, de uns dez anos pra cá, depois que assisti “Quando Paris Alucina”. A loirinha Jean Seberg, que invadiu meu coração na semana passada, é totalmente novata em meus romances cinéfilos. Essa garota da foto, no entanto, caminha sobre a minha alma já faz uns quinze anos. Fui matar saudade hoje. Ahhhh, as francesas…

Março 13, 2008   6 Comments

Se o mundo soubesse…

“Nunca me ensinaram a arte da solidão, tive de aprendê-la sozinho. Ela se tornou tão necessária para mim quanto Beatles, tanto quanto beijos na nuca e carinho”.

Intimidade, de Hanif Kureishi

Acho foda demais essa frase, essa comparação (o livro também é sensacional). A solidão é algo que me atrai em fases da minha vida, e principalmente nestes dias em que estou, como dizia uma amiga, “conchinha”. É dolorido ter que falar quando não se quer falar. Não é maldade. É, simplesmente, vontade de ficar… quieto.

Quanto mais tempo passamos nesta bolotinha azul, mais percebemos os movimentos ciclicos do mundo (e das pessoas que vivem nele). Muitas vezes, afundado num poço sem fim de melancolia, rio de mim mesmo por ainda não estar vacinado em relação as agruras do mundo moderno. Como diria Raul, “pena eu não ser burro, não sofreria tanto”. Vivendo e não aprendendo…

Por fim, acho tão estranho que a imagem principal que o mundo tem de mim seja a de um cara falante, expansivo, extremamente sociável. Se o mundo soubesse o quanto sou tímido…

Março 13, 2008   6 Comments

“Tem dias…

…que a vida parece coca-cola sem gás”

 Hoje foi (e está sendo) um dia assim.

Uma vontade danada de sumir…

Março 12, 2008   7 Comments

Leonard Cohen ou Lou Reed?

Novas datas da turnê européia de Leonard Cohen ousam bagunçar meu itinerário de viagem. Como você já leu por aqui, Radiohead em Berlim já era, mas Lou Reed em Madrid ainda está em aberto, já que os ingressos só começam a serem vendidos em abril.

No entanto, dia 16 de julho, três dias após o T In The Park, na Escócia (que embora eu tenha comprado os ingressos, eu vá tentar vender), tem Leonard Cohen fazendo show no Castelo de Edimburgo. Dá uma clicada na foto e imagina o que seria ver Cohen num lugar desses!!!!!

Na pré-agenda eu havia planejado ver Bruce Springsteen em San Sebastian no dia 15 (embora também não tenha comprado o ingresso ainda, e esse está á venda), mas juro que fiquei balançado. O que acalma é que Cohen faz show em Benicàssim, na Espanha, no dia 20. E esse festival está nos planos.

Agora, imagina como está a cabeça dos portugueses: Lou Reed e Leonard Cohen tocam em Lisboa no mesmo dia, 19 de julho. Em qual dos dois shows você iria?

Março 11, 2008   12 Comments

“Mr. Love and Justice”, Billy Bragg

Billy Bragg nasceu na época errada. Só pode ser. Com cinqüenta anos completados em dezembro último, o roqueiro britânico que ousa misturar Clash com Bob Dylan chega ao seu décimo segundo disco falando de coisas que estão fora de moda na nova ordem mundial. Em uma época em que o pop celebra muito mais os barracos de seus principais artistas (Britney e Amy na dianteira) do que a música propriamente dita, qual espaço para um cara que fala de amor, política e justiça?

“Mr. Love and Justice” sucede o brilhante “English, Half, English” (2002), e vem sendo saudado com tiros de canhão pela imprensa inglesa. “Antes do Arctic Monkeys escrever dolorosas canções de amor; antes de Mike Skinner destilar noites bêbadas em dramas de três minutos; antes do Radiohead descobrir a política; Billy Bragg já tinha feito tudo isso”, cravou a NME. “O Bob Dylan de Essex”, comparou a Q. “Uma das vozes de protesto mais importantes do pop britânico”, bradou a Uncut. “A British icon”, resumiu a Mojo.

Em um mundo cada vez mais dominado por grandes conglomerados, afundado em religiões fakes que prometem a vida eterna em troca de dinheiro, atolado de livros de auto-ajuda que prometem desvendar o grande segredo, e repleto de amizades virtuais (igual a solidão real), Billy Bragg aparece carregando sua guitarra, seu texto afiado e interrogando o Sr. Amor e Justiça. Em “Some Days I See The Point”, do álbum anterior, ele dizia que queria fazer do mundo um lugar melhor, mas que não conseguia fazer isso sozinho. Nem parece que se passaram só quatro anos. Quantas pessoas estão dispostas a fazer do mundo um lugar melhor? É possível contar nos dedos de uma das mãos.

No entanto, apesar do cenário catastrófico em que vive a sociedade atual, Billy Bragg abre “Mr. Love and Justice” bradando, no refrão: “Eu mantenho a fé em você”. Soa até inocente, eu sei, mas quem está cantando isso já passou dos 50 anos, é um ativista político que luta pelos direitos da classe trabalhadora inglesa e que defende a multiculturalidade britânica. E que, sobretudo, ainda acredita no amor e na justiça. “I Keep Faith” é singela, conta com a participação de Robert Wyatt e é uma daquelas canções que podem ser ouvidas por dias e dias a fio.

Com clima flamenco, “I Almost Killed You” surge movida por gaita e violões. “Você vê um arco-íris / Eu vejo uma nuvem escura / Você vê novos amigos / Eu vejo uma multidão má / Eu quase lhe matei com meu amor”, diz a letra. Na tocante “M For Me” ele propõe: “Seus problemas agora são nossos”. No rockão “The Beach is Free” ele explica: “Os campos pertencem aos fazendeiros / As florestas pertencem ao rei / Hoje em dia nossos prazeres estão cercados / Temos que pagar por tudo / Mas a praia está livre”. Na suave “You Make Me Brave” ele se recusa a se esconder no passado. Em “Something Happened” ele compara amor e luxuria.

Na faixa título, Billy Bragg interroga o senhor amor e justiça; em “If You Ever Leave”, fala de solidão e abandono; “O’Freedom” versa sobre democracia e liberdade, temas caros; em “The Johnny Carcinogenic Show”, praticamente adapta para o formato canção pop a temática do filme “Obrigado Por Fumar”: “Vi um garoto na televisão ontem / Ele estava vendendo uma tonelada de veneno / Uma mulher perguntou: Como você pode fazer isso? / Ele respondeu: o segredo é agarrar os jovens / Eu não posso ser responsabilizado pelo que as crianças aprendem / Sou responsável apenas em dar algum retorno aos meus investidores”. Lá pelo meio, ainda crava: “A pobreza é tóxica, todos sabem”.

Entre rocks, folks e ballads, “Mr. Love and Justice” soa muito mais um álbum de amor do que política. Seu clima (entre anos 40 e 50), no entanto, não alcança a sobriedade de “English, Half, English” nem a grandiosidade de álbuns clássicos do cantor, como “Talking With The Taxman About Poetry” (lançado em vinil no Brasil nos anos 80) ou os dois discos em parceria com o Wilco tendo por base canções inacabadas de Woody Guthrie. Mesmo assim, ele chega a tocar a alma em alguns momentos. É um disco que não tem relação nenhuma com a melancolia pueril dos emo punks, com a rebeldia sem causa do novo rock, com a diversão sem limites do electro. Talvez, por isso, soe fora do tempo. Billy Bragg nasceu na época errada. Ainda bem.

“Mr. Love and Justice”, Billy Bragg (Cooking Vinil)
Preço em média: R$ 50 (Importado)
Nota: 7,5

Veja também:
- “Must I Paint You A Picture?”, de Billy Bragg, por Marcelo Costa
- Assista a clipes de todas as canções de “Mr. Love and Justice” aqui

Ps. O álbum também foi lançado em uma edição dupla luxuosa, que traz no CD bônus as doze canções originais em versões caseiras, a maioria voz e guitarra.

Março 9, 2008   1 Comment

Fernanda Takai ao vivo em São Paulo

Estou sentado na primeira fila do charmoso teatro do Sesc Pinheiros. Ao meu lado, uma senhora que aparenta ter mais de 60 anos. Já passou da metade do show, e ela não abriu a boca para cantar nenhuma das canções, muitas delas hits do cancioneiro nacional. Ao final de “Insensatez”, porém, ela se vira para mim e lança a pergunta: “Todas essas músicas estão no CD?”. Respondo que sim, explicando que apenas as versões em inglês não entraram. “São muito boas”, diz ela encerrando o papo e voltando-se para o palco.

No palco, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu (que fez questão de frisar que a banda é sua prioridade, é onde ela quer estar), apresenta as canções de seu excelente primeiro disco solo, “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, que reúne um repertório de canções interpretadas por Nara Leão. É a noite de estréia, e Fernanda está radiante e falante, saltitando entre o nervosismo do debute de uma turnê e a felicidade da recepção do público, que esgotou os ingressos para as duas apresentações. “A gente nunca sabe como será a noite de estréia, mas eu fiquei muito feliz quando soube que os ingressos estavam sendo bem vendidos… e bem esgotados”, comentou em certo momento.

A banda que a acompanha traz os Pato Fus Lulu Camargo (teclados) e John Ulhoa (”violão, guitarra, marido, bom pai”), mais Thiago Braga (baixista do LAB) e Mariá Portugal (bateria e zabumba, integrante das bandas Trash Pour 4 e Dona Zica). Mariá, por sinal, é um dos grandes destaques da formação. Baterista de “mão pesada”, a garota ataca seu kit mostrando versatilidade, indo dos extremos da delicadeza até as marcações mais pesadas (e são essas últimas que dão o tom de grande parte da apresentação).

O repertório apresenta as treze canções do álbum, mais algumas surpresas, “já que o disco é curtinho, tem pouco mais de 30 minutos”, explica a cantora. A produção é magnífica. A iluminação é extremamente delicada e as luzes flutuam dando charme ao espetáculo. Projeções estampam fotos de Fernanda na decoração do fundo de palco. E se levarmos em conta que o projeto tomou fôlego após Fernanda interpretar Nara em um desfile da grife de Ronaldo Fraga no SPFW, natural que ela esteja deslumbrante na noite de estréia (de preto, vestido, meias e sapatilhas).

Todo esse cuidado com a produção aconchega o repertório, que funciona a perfeição no palco. O show começa com de “Ta-Hi”, samba de Joubert de Carvalho (1930) gravado primeiramente por Carmen Miranda. Seguem-se “Luz Negra”, “Lindonéia” e “Diz Que Fui Por Aí” (uma das melhores do álbum e do show). A primeira canção “extra” foi “There Must Be an Angel (Playing with My Heart)”, do Eurythmics, totalmente no clima da noite. Após “Estrada do Sol”, Fernanda arremata: “Como apresentamos uma música do Tom Jobim com a Dolores Duran, agora a gente vai tocar uma música do Duran Duran”. Segue-se “Ordinary World” em versão fofa, fofa.

No show, Fernanda Takai amplia os acertos do álbum. O repertório junta muitas canções quase que de “domínio público”, cujas versões mais famosas já fizeram casa no imaginário popular. Porém, os ótimos arranjos de John e Lulu, somados a interpretação delicada e particular de Fernanda (e, no show, acrescidos da pontuação marcante da bateria de Mariá e do baixo estiloso de Thiago) conseguem transcender o passado, que ao invés de se transformar em obstáculo, acaba por servir como trampolim para o presente, explorando a musicalidade do quinteto.

“Com Açúcar, Com Afeto”, “Trevo de Quatro Folhas”, “Seja o Meu Céu” e “Odeon” rendem belos momentos na noite, que ainda traz versões para “Ben”, de Michael Jackson, “Esconda o Pranto Num Sorriso”, de Evaldo Braga, “O Divã”, de Roberto Carlos (excelente) e a contagiante “A Dança do Carimbó”, de Eliana Pittman. Ao final desta última, empolgada, a senhora que assiste ao show ao meu lado intima: “Ninguém levanta? Levanta e aplaude!”. Seguem-se mais de dois minutos de aplausos incessantes com todos de pé no teatro do Sesc Pinheiros coroando a estréia. Com grande parte do público dançando na frente do palco, “Kobune”, versão em japonês estilo Pizzicato Five de “O Barquinho”, fecha a noite em clima descontraído, e deixa a certeza que Fernanda Takai tem uma bela carreira solo pela frente.

Veja também:
- “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, de Fernanda Takai, por Marcelo Costa
- Mais fotos do show no flickr de Liliane Callegari
- “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, blog de Fernanda Takai

Março 9, 2008   11 Comments

“Third”, do Portishead, na rede

“Third”, terceiro disco do Portishead, acaba de cair na web (aqui); um dos discos mais bacanas do ano é o novo do American Music Club, “Golden Age” (aqui); o segundo álbum do Tapes ‘n Tapes, “Walk it Off”, não me convenceu, mas preciso ouvir melhor (aqui). Estes três discos você encontra no excelente Jornal Berbequim. Já o segundo do Long Blondes (pra mim, outra decepção), está no Una Piel de Astràcan (aqui). Fora isso, tem um show da Cat Power, no excelente programa francês Black Sessions, rolando por ai. Vá atrás.

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Novidades da viagem: segundo a tickets.de, já era o Radiohead em Berlim. Convites sold out. Mesmo assim, estou pensando em dar as caras na cidade, andar ali “perto do muro” e tal. Mas o show mesmo, já estou passando. Vou me contentar com o do Rock Werchter. Lou Reed em Madri, nenhuma novidade. Estou ansioso. Fora isso, chegou a minha carteirinha de alberguista e na segunda-feira, se tudo der certo, passagens em mãos. Dedos cruzados.

Março 8, 2008   5 Comments