“Juno”

“Juno”, de Jason Reitman – cotação 3,8/5
Juno MacGuff tem 16 anos. Não se engane pelo nome: Juno é uma menina (na mitologia romana, Juno era a mulher de Zeus). Uma menina estranha para os padrões “normais” (reforçando: entre aspas) da sociedade: ela gosta de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople (artistas que surgiram em média 16 anos antes dela ter nascido) enquanto as paradas de sucesso apontam Britney Spears, Spice Girls e Garth Brooks; já teve uma banda com alguns amigos da escola; usa camisetas largadas enquanto sua melhor amiga brinca de cheerleader; e está grávida.
Ok, gravidez adolescente não é algo tão estranho assim; se fosse, a discussão em torno do aborto não seria tão grande quanto é. Discussões a parte, a gravidez adolescente já rendeu comédias fofas como “Mais ou Menos Grávida”, em que a ruivinha Molly Ringwald engravida do namorado e a visita da cegonha bagunça os planos do jovem casal, mas tudo acaba bem. O tema também rende filmes densos e pesados como o recente “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”, em que a opção pelo aborto e todo desenrolar da história ficará marcado eternamente na memória de uma adolescente grávida e de sua melhor amiga.
Porém, embora suscitem verossimilhança, tanto a ruivinha que fica grávida, casa com o namorado, sofre, mas se dá bem (com o filho e o marido) no final quanto a romena que faz o traumático aborto auxiliada pela amiga parecem menores diante do tratamento ao tema realizado por “Juno”. Os méritos são vários. O roteiro da ex-strip-teaser Brooke Busey (que assina como Diablo Cody) é esperto o bastante para não cair em clichês; a direção correta de Jason Reitman (que parece ter gosto por temas tabus; Reitman estreou com o genial “Obrigado por Fumar”) desenha personagens comuns vivendo situações comuns, e isso aproxima a trama do espectador; a trilha assinada Kimya Dawson (Moldy Peaches) dá aquele sotaque indie adolescente ao filme; e, por fim, Ellen Page encanta e conquista com sua atuação consagradora.
O roteiro foge do óbvio partindo de uma nova premissa: Juno sabe que não tem estrutura nenhuma para criar um filho, porém não tem nenhuma coragem de encarar um aborto (a cena no hospital, em que a atendente a oferece camisinhas com gosto de amora, é impagável). A saída: encontrar um casal que tope adotar o bebê. Com essa idéia em mente, Junto e sua melhor amiga saem à procura do casal perfeito. A direção de Reitman insere cores à trama (perceba a profusão de cores no cartaz; o filme é exatamente assim). Em sua busca pelas situações comuns, Jason Reitman quase não erra em “Juno”. Uma cena capital mostra bem isso: na hora que Juno vai contar ao pai sobre a gravidez, a forma com que ele e a madrasta reagem é totalmente provável. Lembre-se: ele deu o nome de Juno á filha. O diálogo depois que a filha deixa a sala é impagável.
- Você achava que era isso? – pergunta o pai para a madrasta;
- Eu achei que ela estivesse viciada em drogas… – diz a madrasta.
A trilha de Kimya Dawson (de enorme sucesso nos EUA) une Cat Power, Belle and Sebastian e Moldy Peaches com Velvet Underground, Buddy Holly e Sonic Youth (representado por “Superstar”, versão para o original dos Carpenters). O filme respira música, e há até um certo excesso de canções na trama, embora um dos grandes momentos da história resida em uma tirada sensacional – raivosa e certeira – de Juno com relação ao Sonic Youth. Por fim, a estrela Ellen Page. Ela tem apenas 20 anos, atua desde os 10, e conseguiu com Juno criar um personagem tão cativante que é quase impossível não se apaixonar por ele. Ellen Page brilha e faz todos os demais atores circularem ao seu redor. Mais: é extremamente convincente nas cenas em que carrega uma barriga falsa de oito meses (note em seu caminhar), o que torna realmente merecida sua indicação ao Oscar.
Roteiro esperto, direção correta, trilha sonora certeira e uma atriz encantadora: com esses quatro ingredientes, “Juno” vem arrebatando corações, vendendo centenas de milhares de CDs e conquistando nas bilheterias mais de 15 vezes aquilo que custou (US$ 7,5 milhões de custo, US$ 113 milhões nas bilheterias até a semana passada), e por mais que a histeria, as cifras milionárias e suas quatro indicações ao Oscar possam transformar a película em um hype nos cinemas abarrotados de bobagens sem conteúdo, Juno (precocemente madura e exageradamente espirituosa – tal qual os personagens da série Dawsons Creek, lembra?) é a personagem carismática do grande filme indie da temporada: fofo, estranho e charmoso. Quer saber: Juno está certa. Sonic Youth é barulho. Mesmo.
Fevereiro 10th, 2008 at 1:13 pm
ah, qualé. eu adorei o filme, mas com certeza ela comprou o disco errado do sonic youth. deve ter comprado o experimental jet set, que, tirando umas 3 músicas, é só zoada mesmo. já se tivesse comprado o Evol, teria ouvido a banda mais genial de rock que já existiu. Mas talvez não, né. Ela curtia Stooges. Quem diabos aguenta Stooges? Abraço!
Fevereiro 11th, 2008 at 9:07 am
Bom, sem querer polemizar nada, eu aguento stooges. aliás, todo mundo que gosta do que veio a ser o punk. ah, até o pessoal do sonic youth adora stooges. e lá no fundo, eu particularmente sempre achei que houve um incensamento exagerado ao sonic youth e aos pixies. são bandas que dariam uma boa coletânea dupla cada uma. banda mais genial de rock que já existiu? menos, bem menos…
Fevereiro 11th, 2008 at 9:35 am
Escrevi no meu blog sobre esse filme nesse fim de semana. Realmente é muito cativante o segundo longa do Reitman. A cena do Sonic Youth é muito boa (apesar de ser uma heresia….ehehehe), muito bem sacada. Dificil depois é tirar “Anyone Else But You” da cabeça depois…
Abs.
Fevereiro 11th, 2008 at 11:40 am
Gostei muito do filme, no entanto, percebe-se claramente a diferença cultural, aqui no Brasil provavelmente o pai estaria revoltado, Juno venderia a criança e gostaria de NX Zero. O que faz esse filme ser especial é essa doçura, sutileza num assunto tão polêmico. Sei lá, me conquistou!
Fevereiro 11th, 2008 at 1:05 pm
Putz, todo mundo que se atente para falar sobre o filme esbarra na citação do Sonic Youth, que acho válida, mas não merecedora de tanto destaque…
complentando os coments acima…
suportar stooges? idolatrar stooges…
Experimental jet set é foda também…
Fevereiro 12th, 2008 at 3:59 pm
Vi o filme, achei bom, muito bom… mas não achei original e diferente o enredo. Pra mim tá sendo superestimado.
Fevereiro 12th, 2008 at 6:59 pm
vi o filme, me acabei chorando (por outros motivos, mas o filme contribuiu) e anyone else but you não sai da cabeça. ô musiquinha chiclete
Fevereiro 12th, 2008 at 10:23 pm
oi, ismael. sério, sonic youth só daria uma coletânea dupla cada? vc já ouviu o evol? ou o sister? e olha que nem sou um sonic youth maníaco (alguém aí em cima acha o experimental jet set foda, eu já acho uma zoada enjoada)…E nem ouvi todos os discos (nunca ouvi o goo, por exemplo, que dizem ser muito bom). Mas a banda que compôs “expressway to your skull” está entre os gigantes. Stooges pode até ser bom e “importante”, uma ótima banda pra citar numa resenha sobre bandinhas novas de garagem, mas, cara, “expressway to your skull” expande suas compreensão, lhe leva pra um mundo sonoro totalmente novo, até hoje. Tipo, eu sou radiohead maníaco, mas tive que dar o braço a torcer quando ouvi o Evol, principalmente essa música, porque ninguém nunca tinha feito aquilo, e era brilhante, emocionante e sincero. enfim, escuta esse disco qualquer dia aí na sua casa, de preferência à noite, com fones de ouvido. se vc ainda achar que “nhé, só dá uma coletânea sonic youth” é pq somos pessoas completamente diferentes e não tem nem sentido discutir (embora, claro, tenha todo sentido nos respeitarmos). abraço!
Fevereiro 13th, 2008 at 10:10 am
dodo, como eu disse antes, não tenho a intenção de polemizar não. talvez eu seja mais velho que vc, tenho 41 anos. ouvi esses discos citados no finalzinho dos 80 e início dos 90. lembro do que foi a chegada dos pixies e do sonic youth no cenário. cara, acho muito bom sim, mas ao mesmo tempo, acho que há sempre um excesso de incenso sobre eles, principalmente em relação aos pixies. sabe aquela coisa dos mutantes? conheço um monte de gente que diz adorar mutantes, mas que na prática não consegue ouvir os discos na íntegra por achar confuso demais, informação demais, entende? Qual a canção mais conhecida dos pixies? where is my mind? que é simplesmente pop. e genial. teenage…é a canção mais conhecida do sonic, pelo mesmo motivo…quanto aos stooges, eles me causaram o mesmo sentimento que vc descreve quando os ouvi pela primeira vez, quando tinha 16 anos. estava sozinho no quarto e a sensação foi semelhante quando ouvi nirvana a primeira vez: foi intenso paca. mas o que importa é que tanto stooges quanto sonic youth são pedras angulares do rock dito “alternativo’ (ô palavrinha maldita essa!). um abraço.
Fevereiro 13th, 2008 at 12:11 pm
Ainda não vi o filme, infelizmente, mas deve ser bonzão.
Quanto ao Sonic Youth, Pixies e Stooges, as 3 são ótimas e acima de qualquer suspeita.
Fevereiro 17th, 2008 at 11:15 am
Esse filme é genial! Quando a cena do Sonic Youth, quando ela soltou aquela frase (it sucks, it’s just noise) eu pensei, isso vai dar discussão. Enfim, achei o filme bem indie, diferente da maioria e com certeza já é sucesso.
Fevereiro 28th, 2008 at 1:40 pm
Olá, gostei muito da crítica, já estava com vontade de ver o filme e agora estou com mais vontade ainda. Mas gostaria de citar apenas uma pequena correção, Juno é a deusa Romana equivalente a Hera na mitoligia Grega. São muito parecidas, mas mitologia errada. Desculpe ser chata.
Fevereiro 28th, 2008 at 2:14 pm
Rosana, obrigado pela correção, viu!