Posts from — Janeiro 2008
“Mutum”

“Mutum”, de Sandra Kogut” – Cotação 5/5
A adaptação de livros para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas e cineastas, e com raríssimas e honrosas exceções estes profissionais conseguem transformar as palavras no papel em imagens inesquecíveis tão belas quanto aquelas perdidas em páginas e páginas amareladas pelo tempo e pela história. Condensar uma narrativa de centenas de páginas em duas horas de exibição é uma tarefa inglória que já derrubou muitos (e continuará derrubando).
Agora, se adaptar um livro já é um grande desafio, o que dizer de uma adaptação de uma obra de Guimarães Rosa, escritor mineiro que ia além do simples escrever: ele criava vocábulos a partir de arcaísmos, palavras populares e de seu imenso conhecimento de línguas (falava mais de sete e, “com o dicionário agarrado”, lia mais umas cinco) colocando suas “novas palavras” em uma prosa tão poética que, recomenda-se, deve ser lida sempre em voz alta. Trabalho quase impossível, com certeza.
A cineasta Sandra Kogut “inventou” de enfrentar o desafio e “Mutum”, longa baseado na novela “Campo Geral”, do livro “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, é uma surpresa que emociona e encanta. A rigor, Sandra deixou de lado a narrativa pessoal de Guimarães Rosa (vamos combinar, iria soar forçado), e concentrou-se na descoberta de jovens atores que pudessem dar aos personagens Miguilim e Dito uma verossimilhança acima de qualquer suspeita. Os garotos Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso cumprem essa função de forma arrebatadora.
Com os personagens principais em sintonia, faltava Sandra buscar a melhor forma de traduzir as emoções, os neologismos, a poesia da prosa de Guimarães Rosa para as telas. Como transformar em imagem a seguinte frase: “Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava.” Não basta focar os olhos do garoto e filmar o ato. É possível que espectadores achassem nojento e perdessem a poesia do texto. A tarefa não era fácil.
Porém, o roteiro inteligente focou-se na poesia da narração e procurou, ao máximo, transforma-la em imagens. Dessa forma, o sertão mineiro é explorado em seus detalhes e, maior mérito, apresenta ao público um Brasil que o Brasil parece desconhecer e querer deixar no passado enquanto caminha a passos largos para o futuro. O Brasil dos nossos pais e avós. Um Brasil de pratos de plástico, roupas remendadas e palavras inventadas. Um Brasil que, embora muitos nem saibam, ainda corre nas veias de seu povo. “Mutum” é a outra metade de “Saneamento Básico”, grande cinema de Jorge Furtado. Os dois filmes se completam ao falar de um Brasil que muita gente realmente não conhece.
Em “Mutum”, Thiago vive o personagem Miguilim, mas no filme ele é Thiago mesmo. Felipe passa pelo Dito, mas também manteve seu nome de batismo no longa. Estes dois garotos vivem a história de uma família que vive no Mutum, um lugar “longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto (…). No meio dos campos gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra.” Thiago tem oito anos, acabou de ser batizado, muito embora esse rito de passagem não vá proteger sua família das “tragédias” vindouras.
Primeiro, a briga dos irmãos pela mesma mulher. No sertão não há diálogo: é tudo no facão. Se não tem como conversar, melhor partir, e o ente mais querido de Thiago Miguilim deixa a casa num dia de chuva e trovoadas. Os meninos, embaixo de uma mesa – à luz de velas – comentam: “Deus tá castigando a gente”. O drama segue, mas tanto a narrativa de Rosa quanto as imagens de Kogut transpiram poesia, mesmo na morte. Tanto as imagens quanto o texto mais enlevam que anuviam. E essa métrica será seguida até o final de “Mutum”, e ganha ares de clássico na cena derradeira, a cena mais tocante do cinema recente feita em terras brasileiras, quando o garoto lança o último olhar sobre o Mutum pretendendo guardar cada grão de areia no fundinho de sua alma de menino.
Sandra Kogut transforma a rica prosa poética de Guimarães Rosa em poesia visual. O resultado é um dos filmes mais líricos da retomada. E um dos melhores. “Mutum” é sublime e sobrevive ao livro sem diminui-lo ou desmerecê-lo. Além, filme e livro se entrelaçam, se envolvem, e criam uma nova perspectiva na mente do leitor espectador: cada um deles sobrevive sem o outro, mas nenhum deles substitui o outro. Se você leu o conto, o filme o levará galopando pelo mesmo sertão, com o olhar em primeiro plano, não o ouvido. Se você só viu o filme, você precisa urgentemente ler o conto. :*) Ou seja, o melhor que você tem a fazer, caro leitor, é adentrar os mundos particulares de Guimarães Rosa e de Sandra Kogut e descobrir, como disse um homem para Miguilim, que o “Mutum era lugar bonito”.
Links
- Site Oficial: http://www.mutumofilme.com.br/
- Saneamento Básico, por Marco Antônio Bart
Janeiro 9, 2008 No Comments
Canções que fazem sonhar

Discos tributo, quando bem produzidos, têm um valor inestimável para o público jovem, principalmente quando o homenageado não é conhecido pelas novas gerações. O raciocínio simplista funciona mais ou menos assim: o que um cara como John Fahey fez para que gente tão bacana quanto Sufjan Stevens, Lee Ranaldo (Sonic Youth), Devendra Banhart, Calexico, Jason Lytle (Grandaddy) e M. Ward (entre outros) deitassem sobre seu repertório e acordassem com treze versões arrebatadoras?
O motivo, caro leitor, está lá no fundo do baú da história. John Fahey é um dos pioneiros na arte da guitarra acústica, e “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey”, revisita com emoção seu fabuloso repertório. John Fahey (falecido em 2001) lançou seu primeiro álbum em 1959 e, a partir de então, exercitou uma musicalidade que procurava desbravar a América negra, o folk, o blues e o country em pequenas sinfonias acústicas de rara beleza. Não à toa, quando a Rolling Stone se reuniu, em 2003, para apontar os 100 guitarristas mais influentes de todos os tempos, Fahey apareceu em uma honrosa 35ª posição.
Para adentrar ao mundo deste “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey” você precisa, primeiramente, esquecer das paradas de sucesso, das listas dos mais vendidos, da música pop feita para ser consumida vorazmente em alguns segundos e esquecida para todo sempre. A música de John Fahey (encaixotada no preguiçoso gênero acid folk) exige atenção, e depois que você a concede esse benefício, o retorno é quase impossível: ela agarra sua alma num abraço delicado e silencioso que não lhe dá alternativa além de sonhar e sonhar e sonhar.
O maior mérito de “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey” é introduzir o ouvinte no universo do homenageado. É certo que após ser embalado por Sufjan Stevens na emocionante “Variation On ‘Commemorative Transfiguration & Communion At Magruder Park’”, Devendra Banhart em “Sligo River Blues”, Calexico em “Dance Of Death”, Cul de Sac na piscodélica “Portland Cement Factory at Monolith”, e/ou Peter Case na saudosa “When The Catfish Is In Bloom” (com seus mais de sétimo minutos de delírios), você vá querer ir atrás dos originais. E, então, irá descobrir que essas mesmas canções (e muitas outras) podem soar ainda melhores do que elas soam neste tributo. Boa descoberta.
“I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey”, vários (Vanguard)
Preço em média: R$ 48 (Importado)
Janeiro 8, 2008 9 Comments
Coletâneas para dowload

O ano nem bem começou e já estou numa correria danada. A correria é tanta que deixei de comentar duas compilações natalinas pra lá de bacanas que andaram pintando por aqui. A primeira é a “Papai Noel Chegou Vol. 2″, compilação organizada pela turma do ótimo site Urbanaque, que traz Superguidis, Jumbo Elektro, Macaco Bong, Trilobit e Gorpiava tocando canções de temática natalina. O download pode ser feito no link abaixo:
http://www.urbanaque.com.br/conteudo_natal2007.asp
O segundo presentinho de natal (atrasado) vem do pessoal do site da MTV, que preparou um compilação jóia com 14 faixas que dão uma pincelada no que de melhor rolou no rock nacional safra 2007. Veja o set list abaixo e baixe a coletânea:
01: Autoramas – A 300 Km/h
02: Banzé – Boca do Lixo
03: Cascadura – Se Alguém o Ver Parado
04: Forfun – Sigo o Som
05: Glória – Minha Paz
06: Granada – A Tempestade
07: Lipstick – Temporal
08: Ludov – Urbana
09: Nação Zumbi – Bossa Nostra
10: Pública – Long Plays
11: Rock Rocket – Cerveja Barata
12: Terminal Guadalupe – De Turim a Acapulco
13: Vanguart – Para Abrir os Olhos
14: Zefirina Bomba – O Que Eu Não Fiz
Janeiro 7, 2008 3 Comments
Roteiro: Argentina e Chile – Parte 1: Comida

Antes que as lembranças se percam na minha memória desgastada pelo tempo e pelo uso, já está mais do que na hora de relembrar o passeio pela América do Sul que eu e Lili fizemos em julho do ano passado. Foram 21 dias passando por Buenos Aires, Santiago, Valparaiso, Vinã Del Mar e São Pedro de Atacama. Tínhamos outras cidades no roteiro, como Mendoza (na Argentina), mas tivemos que mudar o itinerário devido a neve que caia sobre o Aconcagua no dia do nosso embarque.
O que você irá ler abaixo é um pequeno relato de coisas interessantes que passamos nestes dias de frio abaixo de zero (-16 graus numa madrugada), paisagens inesquecíveis e passeios idem. Para não obrigar ninguém a ler um livro, vou dividir os posts em temas, ok. Este primeiro irá versar sobre comida. Comer numa viagem é algo bastante interessante e não dá para ficar dependendo dos McDonalds da vida: você precisa ao menos experimentar um pouco da comida de cada região pois viajar não é só olhar, é comer também.
Minha meta pessoal era descobrir qual a melhor carne das Américas. Bobagem grandiloquente, claro, já que eu iria passar apenas por dois países, mas vamos deixar assim que é bem legal. Já a tarefa da Lili não era menos importante ou honrosa: descobrir o melhor Alfajor. Com estas metas em mente, aportamos na capital portenha no final de junho para um passeio por gostos, cheiros e sabores. O melhor alfajor que Lili provou ela não conseguiu encontrar novamente e nem lembra o nome. E olha que nós procuramos! Tentamos até voltar ao local do crime (uma rua paralela a Calle Florida, no centro de Bue), mas não deu certo.
Já os pratos foram uma grande experiência. Minha melhor refeição da viagem aconteceu no último dia em São Pedro de Atacama. A da Lili foi no primeiro dia em Valparaiso. Porém, antes de ambas as refeições fizemos alguns experimentos bem importantes: o primeiro – que valeu apenas para olhar o prato, beliscar e mandar voltar – foi a famosa parrilada, que junta tudo aquilo que você não gosta do boi em um mesmo prato. Para quem tem estômago forte e muita coragem. Preferi o refrigerante de Pomelo, Paso de Los Toros.

Tirando a parrilada, as refeições em Buenos Aires foram, quase sempre, bife de chouriço, que num corte diferente junta alcatra e picanha em (geralmente) 500 gramas suculentas (prestou atenção na primeira foto?). Acompanha, quase sempre, purê de batata (os portenhos não são tão fãs de arroz) e tem a vantagem de ser tão bom em alguns restaurantes badalados da Recoleta tanto quanto em algumas padarias do centro da cidade. As duas únicas vezes que variamos nos cinco ou seis dias que ficamos em Bue foram em dois restaurantes bem aconchegantes e charmosos:
- Cumaná: a amiga jornalista Sylvie Piccoloto havia me levado lá na minha primeira vez em Buenos Aires, então – na hora de variar o prato – melhor ir ao garantido. O ambiente do lugar é aconchegante, o atendimento é excelente e os preços são convidativos. Bebemos vinho argentino, eu fui de pastel de papa com carne (pasta de batata com pedaços de carne e molho bolonhesa) e Lili foi de risoto, ambos aprovados. O Cumaná fica na Rodríguez Pena, 1149, na Recoleta. Se você estiver no centro da cidade, pode ir de táxi que irá sair barato.
- Melee: dica da amiga Capitu. Fica em uma das travessas da Calle Florida e sua especialidade é cozinha francesa com um toque portenho, claro. Fui do básico beauf bourguignon con papas rissoles y repollo agridulce (bife com fritas e repolho) acompanhado de vinho argentino e Lili ficou tão encantada com o creme bruleé que nem lembra qual foi o prato principal. O Melee fica na rua Viamonte, 852, ao lado da Calle Florida.
Em ambos os restaurantes a conta de cada um não passou dos R$ 35.
Se comemos bem todos os dias em Buenos Aires, o mesmo não podemos dizer de Santiago. Até podemos dizer que bebemos vinhos melhores, mas no quesito comida não nos demos muito bem. Nosso primeiro passeio obrigatório foi ir ao Mercado Central comer frutos do mar (tem tudo que você possa imaginar lá). Escolhemos o restaurante Augusto, e fui de salmão ao molho de camarão e Lili arriscou no caranguejo desfiado ao alho. Quer saber: nenhum dos dois pratos nos impressionou, e o preço saiu mais salgado do que na Argentina (cerca de R$ 45 por pessoa)

Na visita ao Mercado Central, pessoalmente, gostei mais do Pisco Sauer, mistura parente da nossa caipirinha, mas mais leve. O Pisco é uma aguardente destilada de uvas moscatel com elevado teor de açúcar, cultivadas nos vales do norte do Chile e também no Peru. Trouxemos uma garrafa para uma amiga. Se a comida marinha não nos agradou tanto, o que dizer então do pastel de choclo, o prato mais terrível de toda nossa viagem?
Ainda não consigo dizer ao certo o que era aquilo, mas vinha numa cumbuca, tinha farinha de milho por cima, um enorme pedaço de frango no meio, umas azeitonas perdidas aqui e ali, um ovo cozido inteiro, molho de carne e mais algumas coisas que não ousamos descobrir.
Se em Santiago não nos demos bem no quesito comida, em Valparaiso a experiência foi gratificante. Valpo é uma cidade portuária tombada pelo Patrimônio Histórico devido aos seus ascensores com mais de 100 anos que ligam a parte baixa da cidade com a parte alta. Aliás, esqueça a parte baixa que exibe uma cidade portuária tradicional e se perca pelas ruas e becos da cidade alta que, entre algumas coisas, abriga a belíssima La Sebastiana, uma das três casas que o poeta Pablo Neruda mantinha no país. Três coisas que você precisar fazer em Valpo: andar de ascensor, ir a La Sebastiana e comer no Café Turri.
- Café Turri: o acesso é fácil, pois fica na saída do ascensor Concepcion. A vista é magnífica e, principalmente, se tiver em um dia de sol (como o que presenciamos), vale o almoço ao ar livre com o Oceano Pacifico bailando a sua frente. Fui de coca-cola e um maravilhoso filete de milanesa acompanhado de purê de batatas e três pimentas. O purê é algo, e as três pimentas chilenas dão um sabor especial ao prato. Lili, como quase sempre, decidiu arriscar e pediu brochetas de Mahi Mahi en salsa de coco. O site do Café apresenta assim: “Trozos de Mahi Mahi intercalados con piña, cocinados a la plancha, con toques de estragón en suave salsa de crema de coco y eneldo.” Dá água na boca só de ler. Resultado: a melhor comida de toda viagem para a Lili.

De Valpo passamos em Vinã Del Mar, voltamos para Santiago e voamos para o deserto da Atacama, mais precisamente São Pedro de Atacama, uma cidadezinha de pouco mais de 3 mil habitantes localizada no meio de um oásis. Ainda no aeroporto em Santiago compramos um “Guia de Destinos – San Pedro de Atacama e Alrededores”, e foi ele que nos apresentou os restaurantes badalados da cidade. Havíamos almoçado no Adobe (Rua Caracoles, 211), fisgados por um atendente que falava português perfeitamente, que nos explicou detalhadamente o menu e conhecia mais cidades no Brasil que eu e Lili juntos. Para o jantar, estávamos entre o sedutor Blanco (de decoração toda branca, cozinha de autor e pratos como veta de cordero con puré de polenta y verduras al oporto y sushi) ou o clássico La Estaka, mas acabamos optando (acertadamente) por um terceiro; La Cave.
O que nos levou ao La Cave foi o fato de seu menu, exposto na porta, apresentar Civet de Lhama, “carne típica de la zona”. Na volta de uma dos passeios que fizemos, nosso guia nos levou a uma vila indígena, e além de tomarmos chá de coca (que não deu barato algum) e provarmos deliciosas empanadas de queijo de cabra, comemos também espetinho de anticucho de lhama, uma carne macia e muito saborosa. Comi uns três espetinhos enquanto Lili devorou a mesma quantidade de empanadas. À noite, já na cidade, quando vimos o menu do La Cave apresentando o Civet de Lhama, não resistimos… e entramos. Porém, os restaurantes (e mesmo os açougues – como descobri depois) não vendem carne de lhama todos os dias, e acabamos tendo que pedir outro prato. Problema? Nenhum, afinal eu iria comer a melhor carne de toda a minha viagem.
Em primeiro lugar, o La Cave é comandado pelo simpático e corpulento chef francês Michel Coumes, que após termos feito nosso pedido, nos indicou o melhor vinho para acompanhar nossos pratos (não sem antes ser avisado de que o preço teria que estar dentro do nosso orçamento). Gentilmente ele nos apresentou um Palo Alto, cabernet sauvignon, de reserva, que foi aprovado imediatamente. Já os pratos… Lili foi de Cordero a Lá Provençale (cordeiro ao molho de vinho, conhaque, alho e toucinho acompanhado de batatas). Fiz uma escolha básica: Filete com Salsa Atacamenha (a base de ervas secas da região). Era só isso: bife e molho de ervas. E estava simplesmente sensacional ao ponto de me “obrigar” a fazer algo que até então eu nunca tinha feito na vida: ir a cozinha cumprimentar o chef. O preço do meu prato foi 7 mil pesos chilenos, cerca de R$ 25. O da Lili foi mais barato: 5.500 (cerca de R$ 19). Com o vinho (em torno de R$ 20), fechamos nossa viagem com um belíssimo jantar por pouco mais de R$ 30 por pessoa. Valeu o investimento.

Já que eu falei em vinho, vale contar a história dos dois passeios por vinícolas que fizemos em Santiago: na Concha Y Toro e na Cousiño Macul. Em ambos os passeios fizemos um tour para conhecer cada vinícola. O tour é guiado e além de trazer histórias interessantes e divertidas sobre cada vinícola (a do vinho Casillero del Diablo é ótima), lhe dá o direito de provar duas taças de vinho (e levar a taça embora, o que dá um trabalho em malas e mochilas, mas das nossas quatro, três sobreviveram. A que quebrou, quebrou aqui em São Paulo). Na Concha Y Toro provamos um Casilero Del Diablo, carmenere, safra 2005, e um inesquecível Don Merchor safra 1988. No dia seguinte, passeando pelo centro de Santiago, entramos em uma loja e nos deparamos com um Don Merchor safra 1989. Preço: R$ 300. Isso lá. Se você topar com uma garrafa dessas no Brasil, ela vai custar mais de R$ 500. E nos pagamos R$ 12 cada no tour. Coisas da vida.

Lendo tudo isso, até parece que fizemos almoços e jantares de R$ 50 durante toda a viagem, o que não reflete, de modo algum, o que foram estes 21 dias. A idéia era fazermos uma viagem no estilo mochilagem, dormindo em albergues, economizando na comida e curtindo os passeios, os lugares, as pessoas. E, de vez em quando, arriscar um prato em um restaurante decente. Na maioria das vezes, principalmente em Santiago, esperávamos (e nos deliciávamos) mais (com) a entrada do que com o próprio prato. A rigor, a entrada era quase sempre (de vez em quando na Argentina e sempre no Chile) composta de um pão caseiro fresquinho acompanhado de um molho apimentado que cairia bem ao lado de uma cerveja gelada. E importante: não é cobrada à parte. Um amigo chileno, quando veio ao Brasil, ficou transtornado ao saber que aqui se cobra o popular couvert. È bem provável que agora, no Chile, ele vá aproveitar ainda mais essa vantagem. Bom, acho que é isso. Nos próximos capítulos, albergues, pontos turísticos, câmbios e curiosidades de um passeio pela América do Sul.
Links Úteis:
- Café Turri – http://www.turri.cl/web2007/restaurant.asp
- Guia Óleo de Restaurantes Argentinos - http://www.guiaoleo.com.ar/
- La Sebastiana - http://www.lasebastiana-neruda.cl/
- San Pedro de Atacama - http://www.sanpedroatacama.com/
- Valparaiso - http://www.valparaisochile.cl/
- Vina Concha Y Toro - http://www.conchaytoro.com/

Leia também:
- Roteiro: Argentina e Chile - Parter 2: Dicas, por Marcelo Costa (aqui)
Janeiro 3, 2008 25 Comments
Música para indies dançarem no meio da pista

A reinvenção é uma arte. Na música pop, porém, é muito mais comum um artista se reinventar levado pela onda de modismos do que por méritos de sua inteligência artística. Exemplos do primeiro caso podem ser encontrados aos zilhões em qualquer parada de sucessos, mas o segundo caso é muito mais raro, mas nada que este belíssimo. “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, oitavo álbum do quinteto Of Montreal, não possa justificar.
Lançado em janeiro de 2007 na gringa, e completamente inédito no Brasil, “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?” traz Kevin Barnes, líder do Of Montreal, carregando a banda para um território dançante, esquizofrênico e melancólico que muita gente boa por ai andou definindo como “música para indies dançarem” (se é que indies dançam). Com os sintetizadores a frente, Barnes abre o coração e despeja frases de amores partidos: “Não sei se estamos vivendo um romance ou uma substituição”, canta em “Cato As a Pun”.
Em “She’s a Rejecter”, com poderosos riffs de guitarra, o personagem tenta se proteger da “garota que o deixou amargo”. Em “A Sentence of Sorts in Kongsvinger” o refrão é tão chiclete que é impossível não dar uma sacolejada assoviando a boa melodia: “Eu passei o inverno com o meu nariz enterrado em um livro / Tentando reestruturar o meu personagem porque ele se tinha tornado vil ao seu criador”, canta o rapaz antes de dizer que tudo isso aconteceu por culpa de um coração partido.
Em “We Were Born the Mutants Again with Leafling”, faixa que encerra “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, Kevin Barnes dá a deixa: “Nós amamos ver paixões infelizes”. Por mais que a frase soe sofredora (e soa), há uma beleza na calcificação de corações de pedra partidos por desamores que faz a melodia (e sua deliciosa letra surreal) soar redentora. Enquanto poetas cortam os pulsos em nome do amor, “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?” propõe uma nova brincadeira: se você está triste, vá dançar. Amores vem e vão. Músicas também. Ouça “Suffer for Fashion” e se prepare para sorrir.
Ps: a capa de “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, em forma de caleidoscópio, é seguramente uma das mais bonitas do ano.
“Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, Of Montreal (Polyvinil)
R$ 45,00 (Importado)
Janeiro 3, 2008 4 Comments

