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Posts from — janeiro 2008

Grito Rock 2008 amplia território

Enquanto Ivete Sangalo, Ana Carolina, Kid Abelha e Jota Quest lideram as paradas de sucesso em todo o país, uma geração de novos artistas batalha fora da grande mídia apostando em trabalhos autorais. A grande diferença de outros tempos é que, agora, não há uma região especifica fomentando esse cenário, mas sim todo o Brasil, do Acre até Porto Alegre, passando por Goiânia, Cuiabá, Porto Velho e dezenas de outras cidades que, juntas, vão integrar o segundo Grito Rock Nacional. Ou melhor: o primeiro Grito Rock América do Sul, já que Argentina, Uruguai e Bolívia integram a versão 2008 do projeto.

Exatamente no meio de carnaval, um exército de bandas estará empunhando instrumentos em 44 cidades brasileiras e três estrangeiras (Montevidéu, Buenos Aires e Santa Cruz de La Sierra) exibindo uma organização que impressiona e, sobretudo, abre novas possibilidades para a música brasileira. Foi se o tempo em que as bandas surgiam imaginando vender milhões de discos, sonhavam em aparecer no Faustão e pensavam em tocar nas rádios AM e FM. O cenário mudou radicalmente, e as perspectivas precisaram ser revistas.

“Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo”, diz Pablo Capilé, responsável pela área de planejamento do Espaço Cubo, produtora que organiza o Festival Calango, em Cuiabá, e que apostou na articulação nacional dos festivais independentes. “Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira”, explica em conversa por MSN. Para Capilé, um novo cenário está se formando fortalecido por festivais, associações, casas de shows e, claro, boas bandas.

De certa forma, essa visão é avalizada pela votação de Melhores do Ano do site independente Scream and Yell, que reuniu 91 pessoas que lidam com cultura (prioritariamente música) no país e apontou nomes como Vanguart (Cuiabá), Terminal Guadalupe (Curitiba), Hurtmold (São Paulo), Violins (Goiânia) e Superguidis (Porto Alegre) entre os nomes de maior destaque em 2007. O fato – interessante – é que nenhum destes cinco nomes frequenta o Top 100 das paradas de sucesso que abre esse texto.

Isso poderia ser um problema alguns anos atrás, quando o cenário independente não se sustentava, quando as bandas não conseguiam espaço para tocar, quando alguns festivais lutavam bravamente (e isoladamente) em lugares longínquos como Goiânia e Recife. Agora a história é outra e o Grito Rock 2008 tem um papel fundamental nessa movimentação. No meio do carnaval, 44 cidades brasileiras vão abrigar festivais independentes de música. A lista completa pode ser conferida no site oficial do evento. Abaixo, Pablo Capilé conta mais novidades sobre o projeto, fala da movimentação no circuito independente e afirma: “A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais”.

Grito Rock 2008. Esse já é o segundo ou o terceiro? Ou perdi os outros?

Na verdade este é o sexto em Cuiabá, e o segundo realizado em parceria com o Circuito Fora do Eixo, cuja ação inclui dezenas de cidades.

Como se deu esse contato e formou-se essa rede que engloba praticamente o país inteiro?

Na verdade, começamos o Grito aqui em Cuiabá em 2003, e nos anos seguintes demos continuidade a ação sempre a ampliando. Em 2003 foi um dia somente; 2004 dois dias; 2005 três dias; 2006 quatro dias, e 2007 e 2008 cinco dias. Em 2005 começou a surgir uma movimentação bem bacana na cena independente nacional, pautada principalmente no associativismo, e como conseqüência disso nasceram o Circuito Fora do Eixo e a Abrafin, Associação Brasileira dos Festivais Independentes. O Circuito Fora do Eixo consistia em integrar cidades distantes do eixo tradicional de produção fonográfica, potencializando assim a circulação de bandas e produtores, a distribuição de produtos e a produção de conteúdo. Com isso, em 2006 fizemos a primeira reunião do Circuito Fora do Eixo, justamente no Grito Rock Cuiabá, e nesta reunião foi elaborado o planejamento estratégico do circuito e definidas as primeiras ações. Para começar trabalhamos para que as bandas e os produtores circulassem mais, fazendo com que bandas do Acre tocassem em outros estados, bandas cuiabanas, rondonienses, belenenses, goianas, uberlandenses e etc… E durante o ano fizemos várias delas circularem, dai surgem bandas como o Vanguart, o Los Porongas, o Madame Saatan, o Macaco Bong, o Porcas Borboletas, bandas que começaram a despontar após o surgimento do Circuito e da premissa de circulação.

E isso resultou em um Grito Rock nacional no ano passado. Quais foram os números de 2007 e como está indo a coisa toda pra esse ano?

A união de tudo isso resultou no Grito do ano passado, onde 20 cidades que já participavam do circuito organizaram em conjunto o Grito Rock Brasil 2007. Em 2007, 20 cidades realizaram a ação, 300 bandas se apresentaram, 150 mil panfletos foram distribuídos, 20 equipes de sonorização contratadas, 500 seguranças, 130 vídeos produzidos, turnês realizadas, e mais de 50 mil pessoas acompanharam o evento. Além disso, o evento gerou quase R$ 2 milhões de mídia espontânea, já que além das mídias independentes, as mídias tradicionais também publicaram bastante, revistas de grande circulação. Todas as cidades conseguiram grandes matérias em jornais locais. Tudo isso chancelou o evento a tal ponto que conseguimos dobrar o numero de cidades para 2008, e incluir também outros países da América do Sul.

Quantas cidades já confirmaram para este ano?

47. 44 brasileiras e 3 gringas, sendo que no sul, norte, sudeste e centro oeste todos os estados estarão participando. No nordeste saímos de um estado em 2007 para 4 em 2008. O nordeste, devido a distância, está sendo o mais difícil de se consolidar a integração.

Três gringas? Estamos ultrapassando fronteiras?

Sim, estamos. Grito Rock Montevidéu, Grito Rock Buenos Aires e Grito Rock Santa Cruz de la Sierra. Seguindo também uma das premissas do Circuito e da Abrafin de articulação com os paises sul-americanos.

O legal é que isso abre portas para as bandas brasileiras nestes países…

Sem dúvida, e duas delas estarão se apresentando, Autoramas em Montevidéu e Macaco Bong em Buenos Aires.

Como alguém faz para colocar a sua cidade no Grito Rock? Quais os passos?

O Grito Rock funciona como um software livre: temos um código fonte em Cuiabá e esse código é readaptado por outras cidades conforme as realidades locais. O primeiro passo é a participação no Circuito Fora do Eixo, e depois disso cada cidade apresenta uma proposta de organização do evento que passa pelo conselho gestor do circuito e em dois dias a resposta é dada.

De um cara que tem experiência no negócio, como é montar um festival?

Festivais são o topo da cadeia produtiva das cenas locais, então precisamos nos ater sempre a diversos fatores, a começar por um bom planejamento, baseado em uma planilha de custos muito bem amarrada e interligada ao conceito do evento, sem falar na inter-relação com a iniciativa privada e com o poder publico, sempre na busca de alcançar a excelência de produção. Além das questões estruturais é sempre muito prazeroso trabalhar e montar a grade de programações e acompanhar a interface com o publico, que é a grande força motriz dessa história toda. E hoje, com a Abrafin, os festivais ganham ainda mais força, ampliando seu leque de atuação, e se estabelecendo definitivamente como a nova cara da música brasileira.

Como você analisa essa movimentação toda no cenário independente?

Estamos vivendo um momento muitíssimo promissor no cenário independente nacional, com festivais se consolidando, casas de shows surgindo, mídias independentes cada vez mais acessadas, bandas rodando o país e consolidando uma carreira, lançando CDs, recebendo cachês honestos, etc… Visualizando assim a efetivação de um mercado médio, onde o sucesso é pagar as contas e o artista é igual pedreiro, auto-produtor, gerente da sua carreira. A iniciativa privada tem investido cada vez mais, o poder público idem, e os produtores tem trocado tecnologia e se qualificado cada vez mais nesse mercado.

O fortalecimento dessa cena (e o Grito Rock é vital nisso) abre novas possibilidades para a música independente nacional. Olhamos a parada de sucessos e não vemos nada interessante. Você não acha que está na hora de esquecermos a ilusão das grandes gravadoras, de aparecer no Domingão no Faustão, de vender milhões de discos, e nos voltarmos para a nossa realidade, trabalharmos na construção de um circuito?

Cara, mas esse é o x da questão. Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo. Ninguém mais tem como meta vender esses milhões e estourar nas paradas de sucesso das rádios jabás. Esse é o grande diferencial. Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira. Lançando CDs todos os anos, tocando em festivais, e depois voltando para tocar nas casas de shows e em eventos menores. Tocando em web-radios, se divulgando nas mídias independentes. Tudo isso já é um mercado em franca ascensão e não dá mais pra não ser notado. Alguns festivais já tem orçamentos de mais de um milhão de reais. Só na Abrafin somos 30 festivais que fazem girar alguns milhões de reais por ano, sem falar nos outros elos desse mercado. Esta sendo lançada agora também uma associação brasileira de casas de shows, que já conta inicialmente com 10 casas, e que pretende incluir mais uma dezena de casas ate o fim do ano.

Muito boa essa notícia das casas de shows!

Temos também uma série de sites e blogs muito acessados, o Scream & Yell é um bom exemplo, o Senhor F, o Futuro da Música, e mais um montão que acessamos diariamente e que tem formado opinião de produtores, bandas e também do público. Além disso temos uma série de bandas despontando: Vanguart, Macaco Bong, Los Porongas, Superguidis, Trilobit, Madame Saatan, Porcas Borboletas, entre outras. Elas surgem dessa nova lógica e ocupam cada vez mais espaços no cenário. Não está vendendo milhões porque a lógica da grande indústria já esta falida, e os caras estão perdidinhos, sem saber como reverter esse quadro. Então veja bem: Associação brasileira de festivais, associação brasileira de casas de shows, mídias independentes, selos independentes, isso tudo vai formando a coluna dorsal desse circuito, e isso é um fato.

Exatamente!

Não tem ninguém aqui com discurso pseudo-socialista nem nada. Estamos apenas trabalhando por um mercado que é mais compatível com a nova realidade da música no país, e que se baseie em suportes construídos localmente, que quando integrados nacionalmente se transformam em uma cadeia produtiva muito promissora. Que se baseia na economia solidária, nas trocas solidárias, na democratização do acesso, na relação com o poder público e com a iniciativa privada, com a desmistificação do mito do artista em prol da autogestão de uma carreira, algo que já acontece em outros países e que cada vez mais toma forma no Brasil. Há algum tempo atrás a cena de Cuiabá não existia no mapa. Hoje tem produzido algumas das boas idéias e de boas bandas do país, o Acre a mesma coisa, Belém a mesma coisa, Goiânia nem se fala, Londrina, Uberlândia, estados do nordeste, e tudo isso proporcionado pelo estimulo que a organização de um mercado médio traz para todos os envolvidos. Para você ter uma idéia, todas as capitais do país hoje em dia possuem coletivos altamente produtivos que organizam dezenas de eventos anuais além dos grandes festivais, e que também tem seus selos, suas casas de shows, seus blogs e sites, se relacionam com o poder público, organizam turnês e etc…

Então é possível vislumbrar que uma banda consiga sobreviver de música sem estar na grande mídia. Caminhamos pra isso, não?

Sem sombra de dúvida: é possível. Algumas já conseguem sobreviver nessa lógica, e o Autoramas é um belo exemplo, o Vanguart outro, o Los Porongas outro. Já tem uma galera sobrevivendo única e exclusivamente da música, e a tendência é que isso cresça cada vez mais. Das centenas de bandas que estão no circuito poucas já sobrevivem só da música, mas isso é normal, o crescimento tem sido gradativo. E esse número vai aumentar cada vez mais. Tomemos os festivais como exemplo: alguns deles já são organizados faz mais de 10 anos, e com a criação da Abrafin, todos tem conseguido parcerias que auxiliam na estruturação destes eventos, tem cervejarias bancando todo o calendário, e a Petrobras acaba de lançar um edital para apoio aos festivais. Isso faz com que novos festivais comecem a surgir também estimulados pelo case de sucesso dos anteriores. E com as bandas não está sendo diferente. Muitas delas tem se dedicado cada vez mais a carreira e isso é o passo fundamental para sobreviver da música, entender a nova realidade e saber investir estrategicamente em todos os elos da cadeia produtiva. A mesma coisa com as casas de shows, o sucesso de uma estimula o surgimento de outra e só esse ano várias cidades já estão planejando o lançamento de suas casas. A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais.

janeiro 30, 2008   No Comments

Cinema: “Conduta de Risco”

“Conduta de Risco”, de Tony Gilroy – Cotação 2/5

Michael Clayton já foi promotor de justiça, vem de uma família de policiais, mas neste momento trabalha para uma grande empresa de advocacia. Sua função: faxineiro. Bem, mais ou menos isso. Michael, na verdade, ganha uma fortuna para limpar a sujeira dos clientes da firma Kenner, Bach & Ledeen, desde um caso em que o homem atropelou alguém e fugiu da cena do crime até grandes empresas atoladas em processos milionários.

Nosso amigo poderia estar bem de grana se seu bar não tivesse falido, se ele não fosse viciado em carteado e se não devesse um belo montante para um agiota. Como se os problemas financeiros não bastassem, Michael fica encarregado de limpar a sujeira de um outro “faxineiro”, Arthur Edens, um dos seus melhores amigos na corporação. Arthur surtou em um julgamento, tirou toda a roupa em frente ao júri e está prestes a sabotar uma mega corporação em um processo de bilhões de dólares.

Após uma boa carreira como roteirista – tendo escrito a trilogia “Bourne” e o ótimo “O Advogado do Diabo” –, Tony Gilroy estréia na direção (sem largar o roteiro) e constrói um excelente thriller político – ancorado em um grande time de atores (George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton e Sydney Pollac) – que arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo os badalados Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Clooney), Melhor Ator Coadjuvante (Wilkinson), Melhor Atriz Coadjuvante (Swinton) e Melhor Roteiro Original. Para um filme de estréia, vamos combinar, não é nada mal.

Porém, mesmo com a mão certeira na direção e roteiro, e com a equipe recheada de atores acima da média, “Conduta de Risco” soa deja vu em grande parte de seus 119 minutos. A escolha de George Clooney para o papel principal soa equivocada, não que ele não seja capaz de arrancar do personagem uma grande atuação, mas porque ele ganhou um Oscar dois anos atrás com um papel praticamente igual a este. Em “Syriana”, Clooney era um agente veterano da CIA trabalhando no Oriente Médio. Em “Conduta de Risco” ele é um advogado veterano trabalhando em Nova York. Acredite: praticamente inexistem diferenças entre os dois personagens.

“Syriana”, que discutia a indústria do petróleo, já vinha embalado por uma onda de filmes que escancaravam os meandros políticos das grandes corporações cuja lista inclui “O Informante” (1999), sobre a indústria do tabaco; “Erin Brockovich” (2000), indústria química; “O Júri” (2003), indústria de armas; e “O Jardineiro Fiel” (2005), indústria farmacêutica. Há praticamente um pouco de cada um destes filmes em “Conduta de Risco”, principalmente “Erin Brockovich”e ”Syriana” (devido à presença marcante de George Clooney), que apesar da mão certeira, não supera em qualidade nenhum dos citados.

O submundo das grandes corporações é um prato cheio para bons filmes e discussões. Se levarmos em conta o best-seller “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein, filmes ágeis como este “Conduta de Risco” mostram perfeitamente como as decisões mais importantes do mundo estão sendo discutidas, definidas e aprovadas em uma pequena sala com poucas pessoas, longe da grande sociedade. Enquanto escrevo (e você lê), pessoas que não conhecemos decidem o nosso futuro. É bastante assustador, e apenas por trazer o assunto à tona, “Conduta de Risco” já merece crédito, mesmo soando repetitivo e sem personalidade.

Desta forma, na teoria, politicamente falando, “Conduta de Risco” é um filme interessante e necessário em uma sociedade cada vez mais apática e dominada por um grupo minoritário de pessoas. Porém, na prática, cinematograficamente ele é um placebo, um filme fórmula perfeito na execução, mas igual – e até inferior – a vários outros do mesmo gênero. Não se impressione pelas sete indicações ao Oscar. Tony Gilroy vai sair da premiação como entrou: com as mãos vazias…

janeiro 30, 2008   No Comments

Lojinha Scream & Yell

Tshirts Scream & Yell – Cultura Pop

Preço: R$ 20 (frete incluso)

Tamanhos
Masculino: M e G
Feminino: P e M

Enviamos para todo o Brasil; Pagamento via depósito bancário

Pedidos e informações: maccosta@hotmail.com

janeiro 29, 2008   No Comments

Jonas Sá e a nova música pop brasileira

Arnaldo Antunes e Jorge Mautner escreveram textos elogiosos a seu respeito. Toda a jovem galera que anda batalhando para transformar a nova MPB em algo maior está envolvida neste projeto, gente da Orquestra Imperial (inclua-se os ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante e Bubu), do trio +2 (Domenico e Moreno), do novíssimo e já badalado DoAmor (formado por dois terços da banda que acompanhou Caetano Veloso no elogiado “Cê”), e nomes respeitados como Lucas Santtana, Rubinho Jacobina e Thalma de Freitas. Como diria um amigo, Jonas Sá não é bolinho não.

“Anormal”, seu álbum de estréia, chega cercado de expectativas, seja pela longa lista de amigos que participa do álbum, pelos elogios de famosos ou por estar sendo bancado por um novo projeto de uma gravadora com portas abertas na TV Globo. Tudo isso poderia não servir para nada se Jonas Sá não tivesse jeito pra coisa toda, mas “Anormal”, um álbum feito ao longo de seis anos, necessita apenas de uma audição para exibir seu frescor pop que pode contaminar milhares de pessoas ao redor desse imenso Brasil.

No entanto, vários parênteses precisam ser abertos para explicar algumas coisas que ficaram semi-explicitas nos dois parágrafos anteriores, e que podem levar a conclusões apressadas e confusas. O primeiro ponto é que esta nova MPB chega cheia de novas idéias que ousam ultrapassar fronteiras. Desta forma, “Anormal” é tão Jorge Ben quanto é Beck; é tão Cassiano quanto Talking Heads; é tão Lulu Santos quanto Of Montreal. É Brasil, mas é internacional. E ao juntar MPB com rock e outros suingues e barulhos, “Anormal” soa pop da melhor qualidade, um disco para agradar ao Zé da esquina e ao DJ antenado da balada mais bacana.

O apuro técnico da produção e da mixagem impressionam. Todos os sons do disco transbordam pelas caixas de som com uma clareza raramente vista do lado debaixo do Equador, o que torna imprescindível sua audição via fones de ouvido. Teclados, metais, cordas, vozes, bateria, percussões, baixo, guitarras, muitas guitarras (acústica, slide, noise, aquática, fuzz, pica pau, etc…), banjo, barulhinhos: todos os sons – embaralhados de forma coesa nos bons arranjos – são jogados no colo do ouvinte, para seu deleite. Em poucos discos no Brasil o som soa tão cristalino – e tão bem gravado/mixado – quanto em “Anormal”.

A faixa título, que abre o CD, é um bom exemplo. A linha de baixo disputa a atenção do ouvinte com a voz. O violão preenche o ambiente enquanto mais de seis guitarras diferentes pontuam o arranjo durante os três minutos e meio da canção. Isso sem falar no banjo, na viola, nos violinos, nos violoncellos, nos teclados Rhodes e no moog. Essa proliferação de instrumentos e sons pode parecer grandiloqüente, mas, acredite, resulta numa mistura perfeita que gruda na cabeça, impressiona e serve como excelente entrada para o mundo de Jonas Sá. Ele canta: “Todo mundo pensa que ele é anormal / Com as suas plumas e seu chapéu fenomenal”. Para o final da canção, uma tempestade de barulho que pode derrubar paredes.

Há em Jonas Sá uma paixão pela esquisitice. Apesar de soar pop, suas canções não trazem versos fáceis como, por exemplo, os de Lulu Santos. A parte final de “Tenha Um Bom Dia” é puro chiclete, mas antes Jonas dispara: “Vá viver sua vida, vá à merda”. A próxima, “Sayonara” é sensacional, muito por mérito do diálogo perfeito das guitarras com o baixo e de seu refrão totalmente excêntrico: “Então… você não vai tentar fazer essa ginástica diária de loucura, não”. A baladinha com sotaque soul “Real Love, Real Player”, apesar do título em inglês, é toda cantada em português. Mas duas canções do álbum são apresentadas na língua de Stevie Wonder: “Looking For Joy” (com a voz à frente e batidinha de samba) e “Behind My Mind”. A estranheza de “Melhor Assim” é uma vozinha distorcida ali pelo meio. “Vs (Versus)” ultrapassa os cinco minutos. “Comunicação” lembra Blur. “Mega” e “Entre Nós 2″ tem trechos que navegam nas águas de Tim Maia. E todas elas poderiam tocar na novela das oito, no Domingão do Faustão e serem sucessos em rádio.

É aqui que entra o Som Livre Apresenta, projeto criado pelo atual presidente da Som Livre, Leo Ganem, que pretende apostar em artistas novos com trabalhos autorais, aproximando-os da caixinha que diverte enquanto emburrece. A notícia é boa. Como o mercado nacional está completamente falido, como as paradas de sucesso não abrem espaço para o novo e o diferente, como as rádios estão viciadas em uma programação repetitiva e desinspiradora/desesperadora (se você ligar o rádio agora irá ouvir em alguma estação “Sweet Child O´Mine”), um espaço como o Som Livre Apresenta é bem-vindo e pode significar uma guinada na história da música popular brasileira.

Porém, você sabe, de boas idéias o inferno está cheio. A vitalidade da cena abarcada no primeiro parágrafo deste texto (e também do novo rock nacional encabeçado por Superguidis, Violins, Vanguart e Terminal Guadalupe, entre outros) não deve ficar refém da tentativa de alcançar as paradas de sucesso. A alternativa, talvez, seja optar pelo contrário: mostrar o quão irrelevante é o Top Ten brasileiro. Sinais disso já podem ser percebidos aqui e ali. Seja nos festivais independentes que reúnem centenas de bandas por todo o país. Seja a Orquestra Imperial lotando shows sem um décimo da exposição na mídia que ganha uma Ivete Sangalo. Seja o Vanguart tendo seu hit independente, “Semáforo”, sendo reconhecido em uma casa lotada nos primeiros segundos da bateria.

Jonas Sá chega para reforçar o time (como um centroavante com sede de bola) de jovens talentos fora da grande mídia. “Anormal” é um golaço que pode significar o começo de uma grande virada na música popular brasileira. Agora, a bola está com você, caro leitor. Divirta-se e chute com força. Ok, ok, sem futebolismos: ouça no volume máximo. E danem-se as paradas de sucesso.

janeiro 28, 2008   No Comments

Um rastro de sambas antigos

“Na flauta, Maionese”, aplausos ecoam no teatro. “Maionese, me empresta aquela flauta, a menor. Então, quando eu era menino, eu subia na laje e tocava uma flauta do tamanho dessa”. O público gargalha com a metáfora ilícita. “É sério. Eu ficava lá horas tocando flauta e tal, não tinha tantas teclas como essa, mas era uma flautona. A mãe gritava, ‘Luiz, desce da laje’. Eu descia e já escrevia umas quatro músicas. Hoje em dia eu não faço mais isso. No máximo, uma cervejinha. E olhe lá”.

Nada mais perfeito para começar a verbalizar o show “Estação Melodia” do que a história contada pelo próprio músico durante o show que encerrou sua temporada no Sesc Pompéia. “Estação Melodia”, o disco, quebra um hiato de dez anos de Luiz Melodia em estúdio. Seu álbum anterior, “14 Quilates”, data de 1997. De lá pra cá, apenas um disco acústico (1999) e um ao vivo com convidados (2003).

Para esta volta ao estúdio, Luiz Melodia (sem tocar flauta) deixou seu dom de bom compositor de lado e investiu em um repertório de sambas antigos (coisas dos anos 30, 40 e 50). “Estação Melodia”, o show, como não poderia deixar de ser, é uma verdadeira roda de samba: cercado por oito músicos, Melodia interpreta canções de Noel Rosa, Jamelão, Geraldo Pereira e Cartola, entre outros. E amplia o leque enxertando Chico Buarque, Vinicius, Zé Kéti e, claro, Luiz Melodia.

Assim, sambas empolgantes como “Eu Agora Sou Feliz”, de Jamelão e Mestre Gato, e “O Neguinho e a Senhorita”, de Noel Rosa e Abelardo da Silva, caem como uma luva na voz encharcada de malandragem de Melodia. Na segunda, inclusive, ele faz questão de abrir os botões da camisa e acariciar a pele enquanto canta: “A Madame tem preconceito de cor / Mas não pôde evitar esse amor / Senhorita foi morar lá na Colina / Com o Neguinho que é compósito”.

“Gente Humilde”, com o octeto reduzido a um trio com violão, viola e cavaquinho, soa ainda mais arrepiante do que já é. “Diz Que Fui Por Ai” (que ficou de fora de “Estação Melodia” assim como a parceria de Vinicius, Chico e Garoto) e “Tive Sim” (de Cartola) reluziam a ouro em versões impecáveis, e só ficaram atrás da dobradinha “Estácio, Holly Estácio” e “Estácio, Eu e Você”, que surgiram simplesmente acachapantes. O solo de cavaquinho na última teve o dom de marejar os olhos.

Para o final, Luiz Melodia reservou um samba de seu pai, Oswaldo Melodia. “Linda Tereza” transforma o show em um grande baile de samba. O trio de metais abandona os instrumentos e assume repique, reco e reco e pandeiro. Aos poucos, os violões são abandonados e tudo vira uma grande batucada com Luiz Melodia comandando a farra. Ele chama pessoas para o palco, que lota, e só para de cantar quando já está dentro do camarim, deixando para trás um rastro de sambas antigos e a felicidade estampada na face do público.

janeiro 28, 2008   No Comments

Cinema: “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu – Cotação 3/5

Romênia, 1987. O regime comunista de Nicolae Ceauşescu completa 32 anos e o país está em frangalhos. Exemplo máximo do caos: não havia mármore para ser usado em túmulos, pois todo ele seria usado para a construção de um enorme palácio planejado pelo ditador. Produtos estrangeiros eram proibidos no país. Porém, de cigarros a anticoncepcionais, tudo podia ser encontrado no mercado negro que funcionava sob as ruínas de um regime opressor. É neste cenário pouco estimulante que vivem as estudantes Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu).

Otilia e Gabita dividem um quarto num dormitório estudantil. Elas são colegas de classe na universidade de uma pequena cidade romena, e se a opressão governamental já não bastasse para tornar os dias longos e difíceis demais, um fato inesperado irá complicar ainda mais a vida das duas meninas: Gabita está grávida, quer fazer um aborto (ilegal no país), e Otilia será sua companheira nessa viagem traumática ao âmago da sordidez humana. Sem palavras de carinho, o diretor Cristian Mungiu (que também assina o roteiro) desfere um pontapé no estômago do espectador.

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não é, como poderia se esperar, um filme que discute o aborto. O roteiro não explora o tema tabu, e este é um de seus grandes méritos. Mungiu foca sua câmera no desenrolar dos fatos após a grande descoberta, e o que vê em suas lentes não julga o individuo em particular, mas a sociedade como um todo. Não há bandeiras – nem pró, nem contra – em “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. Há apenas o gosto amargo das relações humanas em uma sociedade corrompida. Não à toa, o filme começa focando um pequeno aquário, com dois peixes e pouca água.

Gabita quer fazer um aborto, mas não age para tal. Suga a amiga Otília, que resolve praticamente tudo sozinha e ainda “participa” da negociação imposta pelo homem encarregado dos procedimentos médicos. É Otília quem procura o médico, quem reserva o hotel, quem leva o dinheiro, quem assume a frente da negociação e, por fim, quem dá cabo ao feto de quatro meses, três semanas e dois dias. Gabita se recolhe deixando a amiga encarregada de tudo, e Otília não a desaponta, mas será que tudo teria acontecido da mesma forma se fosse o contrário? Se Otília estivesse grávida?

Cristian Mungiu conseguiu que “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não soasse panfletário, muito embora deixe escorregar um tiquinho de moralismo ao culpar suas garotas, mas seus recursos de dramatização chegam a incomodar em algumas passagens capitais da película. Como quando Otília e Gabita tentam negociar com o fazedor de anjos. O diretor estende a cena até o limite do óbvio repetindo frases (apesar do interlocutor dizer: “Não vou repetir tudo o que disse”) injetando uma carga de tensão desnecessária frente ao impressionante desenrolar do quadro. O mesmo acontece em uma cena de jantar e em outra que flagra uma discussão com o namorado, que poderiam ser mais enxutas.

Essa impressão de excesso contamina o olhar, e por mais que se entre em uma sala de cinema predisposto ao “mal-estar cinematográfico” (afinal, estamos falando de um filme cujo tema principal é – ou deveria ser – o aborto: não dá para esperar leveza), a impressão final é de que a necessidade de obstáculos no roteiro desvaloriza (mas não apaga) o olhar severo, crítico e nada romantizado sobre a sociedade em geral, e Gabita e o “médico” Sr. Bebe (Vlad Ivanov) em particular.

Entrincheirada entre estes dois (humanos, demasiado humanos), Otília é o último cigarro da carteira em uma noite em que se está desesperadamente precisando fumar. Porém, cada vez mais, menos pessoas fumam.  E menos Otílias surgem. Estamos vivendo o ápice da sociedade mediana. A grande maioria aceita qualquer coisa. A grande maioria foge, se esconde. E a vida segue neste grande aquário. Melhor não falarmos mais falar nisso. Corte.

janeiro 26, 2008   No Comments

Acmed, The Dead Terrorist

janeiro 24, 2008   No Comments

Come, let me sing into your ear

“Those Dancing Days Are Gone”, de Carla Bruni
Poem: William Butler Yeats – Music: Carla Bruni

Featuring Lou Reed version

Come, let me sing into your ear;
Those dancing days are gone,
All that silk and satin gear;
Crouch upon a stone,
Wrapping that foul body up
In as foul a rag:
I carry the sun in a golden cup.
The moon in a silver bag.

Curse as you may I sing it through;
What matter if the knave
That the most could pleasure you,
The children that he gave,
Are somewhere sleeping like a top
Under a marble flag?
I carry the sun in a golden cup.
The moon in a silver bag.

I thought it out this very day.
Noon upon the clock,
A man may put pretence away
Who leans upon a stick,
May sing, and sing until he drop,
Whether to maid or hag:
I carry the sun in a golden cup,
The moon in a silver bag.

janeiro 24, 2008   No Comments

Oscar 2008: Torcendo pelos Coen, mas…

É foda demais falar qualquer coisa sobre o Oscar deste ano sem ter visto “Sangue Negro”, dirigido por um dos caras que mais admiro no cinema atual, Paul Thomas Anderson, mas as oito indicações para o sensacional “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen, já fez valer um sorriso nessa manhã chuvosa de São Paulo. Tô na torcida por Javier Bardem desde… novembro do ano passado. E Cate Blanchett, com duas indicações (uma delas por “I’m Not There”), também balança meu coração. E não deu para o Brasil…

Filme
“Desejo e Reparação”
“Juno”
“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Diretor
Julian Schnabel, “O Escafandro e a Borboleta”
Jason Reitman, “Juno”
Tony Gilroy, “Conduta de Risco”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”,
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”

Ator
George Clooney, “Conduta de Risco”
Daniel Day Lewis, “Sangue Negro”
Johnny Depp, “Sweeney Todd”
Tommy Lee Jones, “No Vale das Sombras”
Viggo Mortensen, “Senhores do Crime”

Atriz
Cate Blanchett, “Elizabeth: A Era de Ouro”
Julie Christie, “Longe Dela”
Marion Cotillard, “Piaf – Um Hino ao Amor”
Laura Linney, “The Savages”
Ellen Page, “Juno”

Ator coadjuvante
Casey Affleck, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
Javier Bardem, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Phillip Seymour Hoffman, “Jogos do Poder”
Hal Halbrook, “Na Natureza Selvagem”
Tom Wilkinson, “Conduta de Risco”

Atriz coadjuvante
Cate Blanchett, “I’m Not Theere”
Ruby Dee, “O Gângster”
Saoirse Ronan, “Desejo e Reparação”
Amy Ryan, “Gone Baby Gone”
Tilda Swinton, “Conduta de Risco”

Filme estrangeiro
“Beaufort” (Israel)
“The Counterfeiters” (Áustria)
“Katyn” (Polônia)
“Mongol” (Cazaquistão)
“12″ (Rússia)

Filme de animação
“Persépolis”
“Ratatouille”
“Surf’s up”

Roteiro original
Diablo Cody, “Juno”
Nancy Oliver, “Lars and the Real Girl”
Tony Gilroy, “Mudança de Risco”
Brad Bird, “Ratatouille”
Tamara Jenkins, “The Savages”

Roteiro adaptado
Christopher Hampton, “Desejo e Reparação”
Sarah Polley, “Longe Dela”
Ronald Harwood, “O Escafandro e a Borboleta”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”

janeiro 22, 2008   No Comments

A melhor “scottish band” do momento

O ano de 2008 começa a toda e a melhor notícia pop vem da Escócia (e não é a volta aos estúdios do Jesus and Mary Chain). “This Gift”, segundo álbum dos Sons and Daughters, consegue o que parecia ser impossível: soar melhor que a brilhante estréia com “The Repulsion Box”, lançado em 2005 (que ganhou edição nacional pela Trama). O nível alcançado pelo quarteto (comandado pela voz forte e cativante de Adele Bethel) surge da exploração de extremos. “This Gift” é mais visceral e, ao mesmo tempo, mais pop que “The Repulsion Box”. Da contradição surge um álbum poderoso.

A primeira grande mudança entre o primeiro e o segundo álbum surge no modus operandi do quarteto. No verão de 2006, Adele Bethel (vocais, guitarra e piano), David Gow (bateria e percussão), Ailidh Lennon (baixo e piano) e Scott Paterson (vocais e guitarra) se mudaram para a vila de Adfern, na costa oeste da Escócia, e se desligaram de tudo. Sem televisão, sem telefones, mas com filmes antigos e discos idem, o quarteto começou a trabalhar nas canções que iriam compor “This Gift”. Após inúmeras audições de Smiths, a banda decidiu tomar um rumo diferente da estréia a partir do produtor: sai Victor Van Vugt (que havia produzido o álbum de estréia e trabalhado com PJ Harvey e Nick Cave) e entra Bernard Butler, ex-guitarrista do Suede.

A troca de produtor foi fundamental na formação do som que o quarteto buscava, mas isso não quer dizer que “This Gift” rompe com “The Repulsion Box”. Há, ainda, melancolia, drama, uma nuvem negra que parece pairar sobre o horizonte de cada canção. Esse pseudo darkismo natural caminha de mãos dadas com a paixão do grupo pelas girl groups dos anos sessenta, e o resultado é um som mais forte, focado e condensado que, por exemplo, o do Raveonettes, que parte da mesma premissa, mas se vê encurralado em uma reverência assustadora (ao Jesus and Mary Chain e a Phil Spector).

Se “The Repulsion Box” e, principalmente, o EP “Love The Cup” (2004) soavam como folk-punk-blues, “This Gift” é folk-punk-pop para as massas. “Gilt Complex”, primeiro single, traz uma guitarra empolgante na abertura, um riff de baixo acachapante e Adele cantando uma letra inspirada em “A Bela Adormecida” e na obsessão pela vida das celebridades. É uma daquelas porradas que salvam a pista em uma noite em que tudo está dando errado. “Split Lips” traz um violão Gibson de 12 cordas na abertura, e não precisa de mais de 30 segundos para conquistar o seu coração. Na letra, um cara perde sua garota, e tenta encontra-la.

“The Nest” serve-se de uma batida de bateria lenta, cheia e sincopada para imaginar o que poderia ter acontecido com o personagem principal do curta-metragem “Cathy Come Home” (1966), de Ken Loach. “Rebel With The Ghost” é uma das grandes surpresas do álbum e lembra… Cardigans. É pop para dançar com os braços levantados. “Chains” segue na linha da faixa anterior, praticamente mantendo a melodia do refrão, mas com um intervalo cantado por Scott Paterson que lembra algo que pode ser Smiths, Blur ou Soup Dragons. “This Gift”, a música, retorna ao território demente de “The Repulsion Box” inspirada em Sylvia Plath e Ted Hughes.

O segundo single de “This Gift” é “Darling”, uma faixa que traz Adele testando novas modulações vocais sobre uma batida empolgante cuja letra procura fazer uma conexão entre a personagem de Julie Christie no filme homônimo e as esposas de jogadores de futebol de hoje em dia que querem a fama a qualquer preço. “Flags” é punk e direta com o baixo tomando o espaço da guitarra. “Iodine” é dolorida, fala sobre alguém que quer morrer, e seu título é inspirado no iodo, remédio usado para limpar feridas de auto-mutilação. “The Bell” joga o ouvinte dentro de um relacionamento sufocante enquanto a poderosa “House In My Head” surge inspirada em um poema de Emily Dickinson e “Goodbye Service”, faixa derradeira, reflete o filme “O Mundo Fabuloso de Billy Liar” (1963), de John Schlesinger (que também dirigiu “Darling”) e tudo que fica após a morte de um relacionamento.

Enquanto os integrantes do Franz Ferdinand compõe calmamente o terceiro álbum e o Jesus and Mary Chain se prepara para uma turnê de reunião que deve render um álbum de inéditas, as duas garotas e os dois garotos do Sons and Daughters pedem a sua atenção e podem ser encarados como os escoceses mais badalados do momento. Apesar de ganhar às lojas oficialmente apenas no dia 28 de janeiro, “This Gift” já caiu na Internet e tem como termômetro a boa recepção de seus dois singles: “Gilt Complex” bateu na terceira posição e “Darling” estreou nesta semana na quarta posição do chart indie da parada britânica. Pelo que mostram neste álbum, o Sons and Daughters merece estar entre as grandes bandas escocesas. Se alguma delas bobear (tipo o Franz Ferdinand, já que da cartola do Belle and Sebastian não devem sair mais coelhos), Adele e seus comparsas podem ser alçados a bola da vez e tomados como a principal scottish band da atualidade. “This Gift” pode conseguer isso. Fácil.

janeiro 21, 2008   No Comments