Nokia Trends 1 x 2 Calor

 O Nokia Trends encerrou, na noite de sábado (ou, como alguns brincaram, na manhã de domingo) o calendário mais caótico de shows que este país já assistiu em um ano. O festival já saiu perdendo em termos de escalação em comparação com sua própria edição de 2006 (com Soulwax, Hot Hot Heat, We Are Scientists e Bravery), e se tivesse mantido a belíssima estrutura já seria um grande ponto a favor frente ao fiasco do Tim Festival SP deste ano.

Porém, a adaptação do palco no Memorial da América Latina apresentou alguns problemas, cujos principais foram os poucos banheiros disponíveis e, principalmente, o ar-condicionado insuficiente para a quantidade de gente que lotou o festival. A quantidade de caixas e bares foi satisfatória, com um único defeito a ser ressaltado: os caixas só vendiam cartelas de R$ 10 com cinco fichas de R$ 2. Ou seja, se você quisesse comprar um refrigerante, que estava custando R$ 4, teria que comprar a cartela de R$ 10 e “morrer” com os outros R$ 6 (eu voltei com R$ 2 pra casa).

E a música?, pergunta o leitor que entrou aqui para saber disso: Artificial, projeto do Kassin, é uma piada de mau gosto; para falar do Underground Resistence foi usar a frase de um amigo: “Só falta entrar a Gloria Estefan cantando“; não lembro do Van She, um pouco por causa da mistura de vodka e gin, e também porque eles são esquecíveis mesmo; o Phoenix foi bem bom. “Consolation Prizes“, a única música deles que permaneceu no meu computador, ficou muito boa ao vivo. Não que eles valham uma noite, mas são competentes e isso basta; e o She Wants Revenge foi… fraquinho.

Ok, estou sendo exigente demais. O She Wants Revenge é datadaço e não deveria estar tocando naquele local, uma tenda quente hiper-maxi-iluminada cheio de gente estilosa e/ou tentar mostrar algum estilo. O som do She Wants Revenge não casa com a proposta do lugar. Eles precisam de um ambiente menor, mais escuro, mais dark, mais gótico, mais tudo. Não dá para ouvir a voz a la Sisters of Mercy do vocalista do She Wants Revenge com o sol nascendo. Vampiros não podem com o sol. É tão primário.

Na verdade, a escalação de todos os grandes festivais pecou, e muito, em 2007. Tudo o que o marketing tentou vender neste ano foi por água a baixo pelo que se viu no palco. Killers não tem nada a ver com o Tim Festival. Kasabian não é uma banda de porte para fechar um festival tão bacana quanto o Planeta Terra. E She Wants Revenge não pode tocar com o dia clareando. Fica parecendo que, antigamente, os curadores destes festivais iam atrás daquilo que achavam melhor, mas agora pegam o que está dando sopa no mercado de shows. Algo tipo: “Temos essas 20 bandas querendo tocar na América do Sul, qual delas você quer?“.

Trocamos a curadoria pela facilidade (e economia) do que já está no circuito de shows. Para que um curador vai se preocupar em trazer algo novidadeiro se o Killers está dando sopa na América do Sul, não é mesmo? Acontece que a roda não deveria girar desse jeito. Para o Tim Festival, que vende o slogan “música sem fronteiras” e aposta em nomes pouco conhecidos do grande público, o Killers é mega e estaria perfeitamente encaixado como headliner do Terra (iria ser perfeito). E isso abriria para o Tim investir em nomes como Calexico (que estava rodando a América do Sul meses atrás), Beirut (top ten em dezenas de listas de melhores do ano) ou até apostar num Twilight Singers e Soulsavers, garantia de shows inesquecíveis e bom investimento pop.

Dos três grandes festivais deste ano (vamos combinar que o Motomix não existiu, ok), o Nokia Trends foi o que errou menos. O Planeta Terra foi perfeito na estrutura, mas faltou arriscar mais num grande nome que pudesse dar suporte ao evento. Quando se fala mais do quão a estrutura de uma festival foi legal estamos sinalizando que a música ficou em segundo plano. O Tim Festival SP teve alguns dos melhores shows do ano, mas foi terrivelmente frustrante no quesito produção. E o Nokia Trends desceu uns degraus no quesito produção e line-up, mas continuou na mesma vibe dos anos anteriores (nomes pequenos, produção cuidadosa, boa festa). Num mundo ideal, os erros cometidos neste ano deveriam servir de aprendizado para o ano que vem, mas não vou ficar surpreso se todo esse cenário se repetir. Mesmo.

Leia também:
- Planeta Terra: “Ninguém vai a um festival para comer algodão doce e tomar sorvetes Rochinha”
- Tim Festival: “Eu tenho uma vida fora daqui”.

4 Responses to “Nokia Trends 1 x 2 Calor”

  1. a. Says:

    marcelo, meu velho, pergunta idiota. talvez mereça resposta idiota. o que define quem vem ao brasil? melhor perguntando, QUEM define quais bandas vêm ao brasil-sil-sil?

    opinião minha, gosto meu, mas acho que bandas nem tão incensadas mas BOAS poderiam vir.

    eu particularmente gostaria de ver black rebel motorcycle club abrindo pro tal show mencionado do bob dylan. catarse total.

    das bandinhas menores, só tá faltando o the hives. isso se o interpol vier mesmo. já tou com meu ingresso comprado aqui para belorizonte, mas acho que vou ter reembolso.

    e tem o fratellis também, que ainda não veio.

    o que houve no brasil-sil-sil, agora cenário de bandas indie de primeiro/segundo/terceiro?

  2. Tiago Says:

    pra assistir o twilight singers eu pagava um belo punhado de dinheiros, hehehehehehe.

  3. Mac Says:

    Então, funciona (ou deveria funcionar) da seguinte maneira: cada festival tem uma curadoria. Essa curadoria - com base nos preceitos daquilo que o festival quer atingir em a) público b) marketing - vai atrás das bandas que eles acham que vão se encaixar no perfil do festival.

    Ou seja: temos uma posição simples de: contratante (festival) e contratado (banda), mas aqui também temos a figura dos atravessadores, que são as pessoas que agenciam alguns artistas e os oferecem para esses festivais. Acho que aqui está o problema mais sério, pois os curadores não estão indo atrás dos artistas, e sim dos atravessadores.

    Isso pode estar acontecendo por culpa da verba - hipoteticamente - estar menor. Pensamento rápido: há um artista na mão do atravessador, por um cachê menor do que ele vale, já que este atravessador está agenciando shows em outras praças também (o Killers não veio ao Brasil com o cache cheio, pois como tocaram na Argentina e no Chile, puderam dar um “desconto” no preço final, e as três praças quebraram o gasto relativo a hospedagens e, principalmente, viagens. Uma coisa é você trazer uma banda dos EUA pra cá, outra é trazer da Argentina, certo).

    Ou seja, nesse cenário acima, é mais fácil você pegar o que está na mão do que ir até os EUA e conversar você mesmo (no caso, o curador) com o manager de um Twilight Singers e trazer eles pra tocar bancando tudo sozinho. É um gasto maior que o curador pode tentar passar para outras praças, mas isso nunca é garantido. O Travis, por exemplo, que tocou no Chile e na Argentina, foi oferecido para um grande festival no Brasil, e foi recusado.

    Isso tudo ainda encontra um outro problema muito maior do que dinheiro: a agenda de cada banda. É preciso saber se o calendário da banda estará livre nos dias do festival que o curador está armando, e, principalmente, qual o gasto para trazer os caras de onde eles estão para o Brasil. Imagina que a banda x que você queira trazer está tocando na Islândia. Isso é um gasto. Se eles tiverem tocando na Austrália (como o Wilco em março), fica mais barato… :)

    Acho que dá para caraminholar algumas coisas com isso tudo, né.

    Abração
    Mac

  4. Calmantes com Champagne 2.0 » Blog Archive » Curadoria x facilidade Says:

    […] desse texto pois o chapa Lúcio Ribeiro adianta que o Beirut (grupo querídissimo deste espaço) está […]

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