Blog do Editor do Scream & Yell
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PJ Harvey não é fast-pop-food

A grande maioria das pessoas odeia mudanças em seu dia-a-dia. Estão de certa forma atoladas na rotina diária que se alguém tirar o cinzeiro do lugar de costume e colocar no lugar um copo de gasolina, é capaz que a pessoa jogue as cinzas de cigarro no mesmo lugar sem notar nenhuma mudança. E depois beba o líquido – se ele já não tiver jogado tudo pelos ares – sem saber o que aquele copo estava fazendo ali. Na música pop, a palavra mudar é quase uma ofensa. Por mais contraditório que pareça ser, fãs não pagam para que o artista seja criativo, mas sim para que ele não ouse sair um milímetro que seja daquilo que eles aprenderam a admirar. O culto ao mais do mesmo.

Em seu oitavo disco numa carreira marcada pela atemporalidade, Polly Jean Harvey coloca o rock e os sons de guitarra distorcida - tão característicos de sua persona pop - em uma redoma de vidro para voltar no tempo, mais precisamente para 1861, ano em que o pintor James Abbott McNeill Whistler desenhou o quadro “The White Girl”, inspiração da capa deste “White Chalk”. Com esse retorno, PJ deixou no futuro os sons de guitarra, baixo e bateria trocando os por harpa, banjo e gaita, mas quem comanda a usina de melodias do álbum é o piano (aliás, tema de outro quadro de Whistler, “At The Piano”, em que uma mulher de roupas negras toca uma canção para uma garotinha toda de branco).

A busca de PJ Harvey pelo isolamento no passado é explicitada em diversas letras de “White Chalk” que valorizam a solidão e o silêncio (ao contrário de “Uh Uhu Her”, em que ela dava sinais de esperar o verão). Em “Dear Darkness” (com backings de John Parish, parceiro e um dos produtores do álbum ao lado de Flood e PJ) ela faz uma declaração de amor para a escuridão: “Cara escuridão, você não vai me cobrir novamente? Fui sua amiga durante anos, você não vai fazer isso para mim, caríssima escuridão, proteger-me do sol?”. Em “Before Departure” ela escreve uma carta de despedida: “Adeus meus caros amigos, perdoem a minha franqueza e lembrem-se de mim na primavera”.

Nesta volta ao passado PJ reencontra sua mãe, e pede em “Grow Grow Grow”: “Mãe, me ensine a crescer”; em “To Talk To You” ela tenta falar com o avô; em “Silence”, por sua vez, ela se liberta da família, do trabalho e de si mesma; em “The Piano” diz que ninguém a escuta enquanto repete que se perdeu de Deus; em “Devil” avisa que o Diabo está divagando em sua alma; “When Under Eter”, primeiro single do disco, é sobre uma pessoa em coma: “a mente está viva, mas sem consciência de nada, ela quer sobreviver”; em “Mountain” ela já não está sentindo nada em sua alma, e faz uma pequena profecia: “A primeira árvore não irá dar flores / A segunda não irá crescer / A terceira quase cairá / Uma vez que você me traiu… assim”.

A atmosfera do disco é densa, sombria, renascentista. Polly Jean Harvey canta muito, mas rasga a voz em poucas passagens. A bateria também é rara em um álbum que não deve e nem pode ser consumido como se fosse um produto fast-pop-food (como acontece com grande parte do Novo Rock, que satisfaz o desejo por alguns milésimos de segundo até serem descartados e trocados por algo mais novo… e praticamente igual), mas requer atenção e calma. “Broken Harp” soa como um resumo da obra com PJ cantando a capella nos primeiros segundos: “Por favor, não me censure / Minha vida tornou-se vazia / Eu não sei realmente o que aconteceu / Prestei atenção a sua decepção / E estou sendo mal interpretada / Mas vos perdôo”. As almas pequenas – que passam a vida remoendo pequenas certezas – podem dormir em paz. A deusa Polly Jean Harvey os perdoa. Amém.

“White Chalk”, de PJ Harvey (Universal)
Lançamento nacional: R$ 25 (em media)

11 comentários

1 André Kleinert { 11.19.07 at 3:28 pm }

Tudo bem, sei que artistas não devem fazer só o que o seu público espera, mas devo confessar que na minha opinião esse disco novo da P.J. Harvey, que é até bem interessante, não chega aos pés da obra-prima “Ride Of Me”, um disco que te conquistava logo na primeira audição e que tinha alguns dos melhores riffs de todos os tempos e também um dos mais fantásticos timbres de guitarra já extraídos por uma produção musical (cortesia do gênio máximo Steve Albini).

2 Diego { 11.19.07 at 5:17 pm }

Disco excelente da PJ, talvez não seja considerado um grande clássico, mas perfeito para quem está passando as noites à base de leonard cohen, spirtualized, cigarros e alcool .

grande review mac.

3 carol { 11.19.07 at 7:39 pm }

a pj harvey não erra (não é fanatismo, é só estatística mesmo). gostei muito mesmo do disco, um dos melhores lançamentos do ano.

4 Louis Alien { 11.20.07 at 8:45 am }

PJ sabe o que faz, e quem sabe, faz.
Diego, concordo com você em gnero e número.

5 de mattos { 11.21.07 at 10:50 am }

é que hoje em dia a gente não tem mais paciência prá escutar alguém que tenha algo a dizer…………………………………..grow, grow, grow…………….

6 Hak { 11.22.07 at 1:42 pm }

Algo me diz que nao é esse cd que vai me fazer gostar da PJ (E Olha que nao foi por falta de tentar. A unica coisa dela que eu curto é a participação no Murder Ballads do Nick Cave)

7 JW { 11.23.07 at 9:52 am }

bem bonito mesmo, e triiiste que só!
sem comparação com esse, é claro, mas outro álbum bacana é o The Story, da Brandi Carlile.
chegou a ouvir, Mac?
abs

8 Elas « “A Canção Pobre” { 11.23.07 at 10:13 am }

[…] O Mac escreveu lá no blog dele um dia desses sobre White Chalk, álbum mais recente da PJ Harvey, definido por ele como […]

9 Walbher { 11.24.07 at 8:35 pm }

Realmente, ótimo disco da Tori Amos, ops, P.J. harvey.

Brincadeiras a parte, lindo.

10 Henrique { 11.29.07 at 8:14 am }

Ah, PJ! Volta pra guitarra, vai!

11 Carlos { 12.02.07 at 1:59 am }

Gostei muito do teu texto,acho que concordo com tudo. Este novo disco da P.J. está diferente e muito bom,escuto quase todos os dias e sinto que é dificil não se deixar levar pelo piano, pelas belas melodias e letras da cantora.

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